domingo - 06/03/2022 - 05:30h

Um mamute contra um jabuti

Por Marcos Ferreira

Pensei em afagar o ditador Vladimir Putin (só pensei) com a denominação O Senhor da Guerra, título da obra do célebre escritor britânico Bernard Cornwell. Mas, reparando direitinho, vejo que ao russo em questão melhor se aplica esta variante: O Senhor da Barbárie. Pois é, eu também, a exemplo da maior parte do planeta, estou puto com Putin. Perdoem o trocadilho. O ex-Esquilo Secreto do KGB está há mais de vinte anos no comando da Rússia e não deve sair tão cedo.

Desde 24 de fevereiro, quando a Ucrânia foi invadida, a matança não para. Falou-se num único e duvidoso cessar-fogo, porém a guerra acumula estragos irreparáveis. Segundo algumas agências de notícias, cerca de dois mil civis ucranianos já morreram nestes onze dias de bombardeios. Por sua vez, Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, diz que nove mil soldados russos foram mortos.

Putin é o líder russo numa guerra que parece muito desigual (Foto: Reuters)

Putin é o líder russo numa guerra que parece muito desigual (Foto: Reuters)

Como se percebe, além das ofensivas militares, está em curso a guerra da propaganda, uma disputa midiática que busca intimidar contendores e sensibilizar o mundo tanto para um lado quanto para o outro. A Ucrânia, especialmente, maldiz a omissão da Otan. Entrementes, como se lutasse uma guerra justa, de igual para igual, a Rússia usa e abusa de sua realidade paralela dos fatos, tentando provar à humanidade que eles são os mocinhos e os ucranianos são homens maus.

Enquanto isso, traiçoeiro e frio como a própria Sibéria, Putin não esquenta a cabeça com pouca coisa. Até porque nem o Sol brilha tanto em Moscou quanto o mais novo melhor amigo do nosso Grande Percevejo, este que até pouco tempo vivia osculando os possuídos do ianque Donald Trump. Ou seja, largou o loiro oxigenado. Agora, portanto, o menino dos olhos do Pateta brasileiro é Putin.

O Grande Percevejo, sem querer ofender as mulheres de vida “fácil”, é um tipo de messalina de luxo que deseja cair nas graças de Putin. Tem um fraco irreprimível por homens poderosos. Seu (dele) deslumbramento perante o bufão Donaldo Trump era algo tão obsceno a ponto de a baba escorrer no canto daquela boca de caçapa. Contudo Trump se deu mal nas urnas e aí o Nosferatu da Casa de Vidro mais que depressa se bandeou para o lado do neoczar e filhote da Guerra Fria.

No Brasil, além do Grande Percevejo, temos uma ala da esquerda sofrendo com uma forte crise de consciência. Até aqui, pelo que eu sei, o presidenciável Lula (para citarmos o líder máximo do Partido dos Trabalhadores) não emitiu uma só nota, sequer uma vírgula, condenando, enfaticamente, a invasão à Ucrânia. Muito menos reprovou o camarada Vladimir. Não com todas as letras.

Não é novidade alguma que as superpotências bélicas e econômicas, sobretudo bélicas, gostam de treinar a pontaria contra nações menores ou militarmente insignificantes. A história do mundo, como aquele jogo de tabuleiro War, está cheia de casos emblemáticos, desde os vikings a George W. Bush. Os Estados Unidos da América, por exemplo, têm grande know-how nessa prática execrável. Que o digam, entre outros, Coreia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia e Somália.

Outra coisa que me revira o estômago é a hipocrisia em escala planetária. Pois os Estados Unidos, autoproclamados xerifes do globo terrestre, casam e batizam, pintam o sete e bordam o oito, fazem o mundo de gato e sapato e a suposta União das Nações Unidas (ONU) apenas faz vista grossa. A tal Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) é mais inútil ainda; não faz patavina.

Em 2003, quando os americanos explodiram Bagdá, capital do Iraque, matando sete mil civis apenas no primeiro dia de bombardeio, tais organizações inúteis não fizeram coisa alguma. Ao todo, ao longo daquela sangrenta operação intitulada “Choque e Pavor”, entre homens, mulheres e crianças, os soldadinhos carniceiros do Tio Sam assassinaram quase um milhão de civis. Abomino inteiramente a invasão russa à Ucrânia, no entanto não vi àquela época tanta comoção como agora.

Ao contrário da Rússia, se estou correto, os Estados Unidos nunca sofreram nenhum tipo de sanção por invadirem outras nações. Nunca foram acusados pela ONU por crimes de guerra. Muito menos, como ora se dá com a Rússia, foram banidos do sistema de transações financeiras. Americanos jamais foram expulsos de universidades, ou a Fifa os puniu, excluindo-os de uma Copa do Mundo.

Em 1994, enganada por um certo Memorando de Budapeste, a Ucrânia concordou em entregar à Rússia cerca de mil e seiscentas armas nucleares oriundas da extinta União Soviética. Isso em troca de um frágil tratado de paz e da promessa de que a Rússia jamais invadiria a Ucrânia. Ninguém, entretanto, exige, nem ao menos sugere, o desarmamento nuclear dos Estados Unidos e da Rússia. Juntos, só esses dois países possuem armamento nuclear para destruir o planeta dezesseis vezes.

— Saddam é mau! — gritava o Tio Sam.

Hoje, após a tragédia da Segunda Guerra, que deixou um rastro de setenta milhões de mortos, o mundo se converte outra vez num barril de pólvora. Isto é, num gigantesco paiol de armas nucleares sob o comando, repito, do mais novo melhor amigo do Pateta brasileiro. Noto que a invasão à Ucrânia, volto a dizer, quem sabe por ser o continente europeu, parece sensibilizar mais a humanidade.

Naquele 1º de setembro de 1939, quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia, a Segunda Guerra Mundial foi oficialmente declarada. Nesse momento, com as tentativas diplomáticas desprezadas por Hitler, os britânicos e os franceses decidiram tomar as dores da Polônia e se opuseram militarmente ao Führer. Assim, sob a liderança da Inglaterra e da França, formou-se o grupo conhecido por Aliados, que posteriormente contaria com o apoio dos Estados Unidos e da então URSS.

Os Aliados, como se sabe, fortaleceram-se com a adesão de vários outros países, entre os quais estava o Brasil. Portanto, entre 1939 e 1945, os Aliados combateram, além do poderoso exército alemão, os chamados países do Eixo, cujos integrantes de primeira hora foram Itália e Japão. Aquela, a meu ver, por causa da índole maléfica e genocida de Hitler, foi uma guerra inevitável e justificável.

Digo justificável devido ao fracasso da diplomacia. O Holocausto precisava ser interrompido com a máxima urgência. Hoje em dia, entretanto, em pleno Século XXI, é inadmissível, intolerável, que ainda aconteçam ataques covardes como esse implementado pela gigantesca Rússia contra a pequenina Ucrânia, um duelo em que o segundo tem mínimas condições de se defender e contra-atacar, enquanto o primeiro veste impenetrável armadura e se encontra armado até os dentes.

O povo ucraniano, embora o seu presidente também não seja flor que se cheire, não merece tamanha atrocidade. Penso no que diria e sentiria a nossa Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras, que na verdade era ucraniana, ao ver pela televisão toda a lástima que seus compatriotas têm enfrentado, o terror imposto por Vladimir Putin, o mais novo melhor amigo do Pateta brasileiro.

Creio que a esta hora, porventura estivessem vivos, entre outros importantes escritores daquele país, os mestres Dostoiévski e Tolstói também condenariam esse covarde massacre do mamute Rússia sobre o jabuti Ucrânia. Enquanto isso, na Sala de Injustiça, ONU e Otan assistem à barbárie de camarote.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 20/02/2022 - 03:52h

Número da sorte

Por Marcos Ferreira

Bom dia, senhoras e senhores. O sol ainda custará a nascer, considerando o momento em que escrevo estas linhas, porém lhes desejo bom dia assim mesmo. Porque é madrugada do sábado para o domingo e despertei com a ideia desta crônica na cabeça. Examino o relógio no canto inferior direito da tela do notebook e obtenho esta informação precisa: duas horas e treze minutos. Se não me faltar engenho, o que não é difícil, falarei certas coisas sobre o algarismo 13.

Nos acréscimos do segundo tempo, portanto, procuro escrever esta crônica retardatária e prolixa. Careço enviá-la o mais rápido possível para o guapo jornalista Carlos Santos, comandante em chefe do Canal BCS. Dessa forma, sustentando a peteca e a periodicidade, não sofrerei redução no pró-labore que meu editor me paga mensalmente. Soldo este que recebo há mais de um ano.número 13

A grana não é lá grande coisa, contudo o espaço é honroso. Não conheço na imprensa local um veículo que reúna (dominicalmente) tantos escrevinhadores. Segundo o cronista Inácio Augusto de Almeida, os também cronistas Odemirton Filho e François Silvestre, mais antigos na casa, ganham um pouco melhor que eu e Inácio e contam até com plano funerário. Trata-se de um adicional de periculosidade que, a depender dos assuntos abordados, considero necessário.

Brincadeiras à parte, em se tratando dos cronistas mencionados, penso que escrever (exceto no caso de autores sem opinião, neutros e que jamais discordam de nada nem de ninguém) é um ofício perigoso. Sim. Escrever é uma atividade de alto risco, um longo passeio na corda banda sem cabos de segurança ou rede de proteção; um trabalho cuja única certeza que temos é o tombo.

O Canal BCS, portanto, reúne aos domingos a nata (perante a qual me sinto uma espécie de coalho) da intelectualidade mossoroense, exibindo articulistas de outros locais do estado e alhures. Não bastasse, e é preciso que se diga, os leitores que seguem o Blog Carlos Santos são de ótimo nível, uma plateia fidedigna e interessada no Canal desde as primeiras horas do domingo, especialmente porque nosso editor costuma disponibilizar algumas colaborações já na madrugada.

A exemplo dos demais, então, eu me encontro motivado e honrado em fazer parte desse elenco de beletristas e preciosos leitores, muito embora a tarefa, a aventura e os perigos de escrever com periodicidade rígida — ainda que semanalmente — representem uma travessia nem sempre bem-sucedida. Isto porque existem as pedras, os empecilhos e outros desafios ao longo do caminho.

Hoje, todavia, não me proponho a discorrer acerca dos apuros, dores e delícias do exercício literário. Não. Creio que já carreguei demais nas tintas sobre tal assunto, e os leitores devem estar de saco cheio do meu cabotinismo, circunlóquio ou tapeação. Se houver tempo e o sono não me jogar na lona, seguirei queimando pestanas com o propósito de expor algumas peculiaridades relativas ao número 13, que pode ser apresentado aqui na forma cardinal ou por extenso.

Escolhi tal assunto porque minutos antes sonhei que ganhava um bom dinheirinho no jogo do bicho apostando vinte reais no galo, cujo número é o 13. Tal coisa aconteceu de verdade há muito tempo, quando eu tinha apenas treze anos. Joguei uns tostões no galo e ganhei. Foi a primeira e única vez. Daí surgiu a minha simpatia pelo 13, que está sempre presente nas minhas apostas lotéricas.

Quem sabe, por capricho ou tolo preciosismo deste escrevinhador, que tem o mórbido hábito de metrificar até parágrafos, eu lhes submeta alguns pormenores e curiosidades envolvendo o número 13. Antecipo, no entanto, que nada será particular ou exclusivo meu. De modo algum. Todas as informações que pretendo lhes submeter são facilmente encontráveis, por exemplo, no infindável almanaque do Google e na vastíssima enciclopédia audiovisual do YouTube.

Há muita superstição e até folclore em torno do 13, como a pecha atribuída às sextas-feiras que possuem esse número, associadas a desgraças e má sorte. Não bastasse o lastro histórico ou imaginoso, o cinema americano consagrou a sexta-feira 13 como tenebrosa com a personagem Jason Voorhees, assassino serial com fortes traços sobrenaturais que atacava nessa data específica.

Conta a lenda que a superstição à volta do 13 teve origem na mitologia nórdica. Odin, rei da Escandinávia, a fim de celebrar os rituais religiosos e predizer o futuro, convidou doze deuses para um banquete no Valhalla. Aí o invejoso Loki, deus do fogo, despeitado com a beleza de Balder, deus do Sol e filho de Odin, fez com que Hodur, o deus cego, assassinasse Balder. Isto gerou a crendice de que reunir treze pessoas num jantar é receita infalível para o infortúnio.

— Água de sal! — dirá Orlando Cocotinha.

História semelhante, segundo as Escrituras, está relacionada à ceia que Cristo realizou com os doze apóstolos, entre os quais estava o dedo-duro Judas Iscariotes, que, de acordo com os evangelhos canônicos, traiu o unigênito do Altíssimo por trinta moedas de prata. Após a crucificação do Nazareno, entretanto, não suportando o peso da sua consciência de chumbo, Judas se enforcou.

O 13, que uns repudiam e outros apreciam, é emblemático, repleto de conotações e significâncias. No Apocalipse, o 13 informa sobre o Anticristo e o número da Besta. Em nível planetário, os literatos são homenageados aos 13 de outubro, data reverenciada como o Dia Mundial do Escritor. Existe até uma palavra por demais escalafobética para denominar aqueles que têm medo do 13: triscaidecafóbicos. Para fugir do azar, alguns edifícios não possuem o 13º andar.

Há notícias desse tipo em obras como o Dicionário de Símbolos, de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant; Dicionário do Folclore Brasileiro, de Câmara Cascudo, e I Ching: O Livro das Mutações, de Richard Wilhelm. Nove anos atrás, videntes previam que o mundo acabaria em 2013. Não acabou. Aqui estamos vivinhos, apesar da pandemia e do Grande Percevejo da Casa de Vidro.

Digo que o numeral 13, com perdão do meu entusiasmo, é o pop star entre os algarismos. Mais célebre até mesmo que o 666, suposto número da Besta. O mito da sexta-feira 13 é pura história da carochinha, diálogo flácido para acalentar bovinos, ou seja, conversa mole para boi dormir. Mas ninguém pode mudar a cabeça de certas pessoas supersticiosas, muito menos no tocante às sextas-feiras 13, vistas pelo imaginário popular como símbolo de azar e mau auspício.

Outra vez eu consulto o relógio e deparo com esta coincidência: quatro horas e treze minutos. Momento de usar o ponto final e enviar estas páginas ao Carlos Santos. Seria bom que o “rapaz velho e encruado” programasse esta crônica, por exemplo, para o horário das cinco e treze. Quem sabe o 13 venha a ser o número da sorte deste país. Vejam também que escrevi 1113 palavras.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 13/02/2022 - 08:30h

Oficina

escrever, escrita, escritor, literatura, caneta,Por Marcos Ferreira

Palavra após palavra, siga em frente

Deixando que o seu texto lhe conduza

Sem pressa nem arroubos, calmamente,

Ao gosto e bel-prazer da sua musa.

 

Escreva com vagar, porém não tente

Subestimar a língua — esta Medusa

Que às vezes petrifica a nossa mente,

Paralisando a verve mais profusa.

 

Evite empregar termos rebuscados.

É bom sempre tomar esses cuidados,

De modo que seu texto seja limpo.

 

A escrita exige esforço, dá trabalho.

Das frases nós limpamos o cascalho

Assim como pepitas num garimpo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 06/02/2022 - 08:26h

Retrato de família

Por Marcos Ferreira

Unindo suas idades, naqueles fins dos anos sessenta, não somavam quarenta janeiros. Ele tinha dezenove. Ela, apenas dezoito. Alguns meses de namoro e já se casaram, juntaram os troços. Seguiram namorando pelo resto da vida. Um ano depois, sem que houvessem planejado, veio a primeira cria, um menino feio da cabeça graúda. Era o primogênito de uma prole de onze filhos que teriam que sustentar — um atrás do outro, ano pós ano, cresciam e se multiplicavam.Família, retratos, moldurasBem-apessoados, ele moreno com topete e costeletas à moda Elvis, ela branquinha, esbelta, habitaram por mais de uma década, através de aluguel, uma casa de pau a pique localizada na Avenida Alberto Maranhão, 3521, no bairro Bom Jardim. Aquela modesta residência pertencia a um abastado senhor proprietário de vários outros imóveis de melhor qualidade neste município.

Naqueles começos de vida conjugal, apesar da carestia feroz que assolava o País, a exemplo do que voltou a acontecer, os jovens cônjuges viviam com o mínimo de dignidade que os anos de chumbo lhes permitiam. Ele não descuidava do topete, cuja farta cabeleira vez por outra tornava reluzente com um gel ordinário, porém perfumoso. Andava limpinho, sempre barbeado e engomado. Os vestidos e o cabelo dela, também dentro de suas posses, eram dignos de elogio.

Sapateiro profissional em uma Mossoró onde, àquela época, o ramo de calçados manufaturados era pujante, ele não tardou a compreender que teria de envidar maiores esforços para abarcar as despesas com a casa e a sua família ainda pouco numerosa. Trabalhava há um tempo, com carteira assinada, numa pequena indústria de calçados no Doze Anos, à Rua Adauto Câmara, 154.

Ao final do expediente, que às vezes se estendia em serões até às dez e meia, não raro levava trabalho para realizar em casa com a ajuda da esposa. Pois, a depender da produção, o jovem sapateiro ganhava uma grana extra no fim da semana, que se estendia às treze horas do sábado. Dessa forma, à luz das lamparinas de querosene, sobre uma esteira de palha disposta no chão de barro, urdiam peças de couro, cortavam palmilhas, pregavam ilhoses, fivelas, rabichos.

Sem lastro escolar (ele só cursara o quinto ano primário; ela não sabia ler nem escrever), oriundos de uma família de analfabetos, pouco a pouco foram sendo atropelados pelo rolo compressor da desigualdade socioeconômica que acomete este “impávido colosso” há mais de quinhentos anos. Por exemplo, a instalação da luz elétrica e o encanamento de água sempre foram adiados.

Com o descontrole da natalidade, posto que o casal já contava com cerca de oito herdeiros, as finanças entraram em colapso. Ela não tinha renda fixa, era tão só uma lavadeira de roupa que não sabia assinar o próprio nome com uma penca de filhos para cuidar. Ele, embora bom profissional, oriundo de uma família de sapateiros, não ganhava o bastante na fábrica para segurar a barra. Então, além dos serões na sapataria, a fim de ganhar algo mais, cantava em bares.

Eram as serestas das sextas-feiras e sábados. Talentoso, carismático, possuía boa voz. Arrancava aplausos ao interpretar, entre outros, sucessos de grandes artistas como Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Agnaldo Timóteo, Sílvio Caldas, Ary Barroso, Lupicínio Rodrigues, Cauby Peixoto, Jerry Adriani e Roberto Carlos. Nessa época, sobretudo, arraigou-se o vício do álcool e do fumo.

Vieram mais filhos. Os primeiros dispunham de menos recursos e sobrava apetite à mesa. O pão minguava, multiplicavam-se dívidas e cobranças dos credores. O proprietário da casa de barro e madeira queria a todo custo receber o dinheiro do aluguel, atrasado em alguns meses. As cadernetas do fiado (bodega, farmácia, leiteiro e padaria) começavam a não funcionar. Faltava querosene para as lamparinas. O carroceiro que lhes vendia água vez por outra ameaçava:

— Vou suspender o fornecimento!

Como está visto, a situação daquele jovem casal se tornou insustentável. E tudo isso, como é fácil compreender, devido à grande quantidade de filhos para alimentar, vestir, calçar e educar. Mas aquele pai e aquela mãe lutaram bravamente para prover os seus. Fiavam, em última instância, que o Todo-Poderoso lhes apontaria uma saída, uma escapatória para os seus apuros financeiros.

Deus, entretanto, que tudo sabe, tudo vê e tudo pode, não se meteu nessa encrenca. A velha e revelha cantilena do livre-arbítrio. Isto é, cada um que responda por seus atos. Assim, sem a interferência do Altíssimo, a asfixia econômica daquela família se intensificou, chegou a níveis críticos. Não foram poucos os instantes em que o desespero e a fome arrancaram lágrimas daqueles rostos ainda apaixonados, porém sofridos e já meio que descrentes da piedade de Jeová.

Todavia, por instinto de sobrevivência, não se renderam. O sapateiro trabalhava tanto na fábrica quanto nas serestas. Fez um curso por correspondência no então Instituto Radiotécnico Monitor e passou a consertar aparelhos de rádio e televisão, além de objetos como liquidificador, fogão, ferros de engomar e máquinas de costura. Por sua vez, ela lavava e passava roupas para fora.

Os filhos mais velhos também ajudavam. Catavam metais e até ossos nos monturos, peças de cobre, tampas e panelas velhas de alumínio, compravam garrafas de tempero, refrigerante, cerveja, cachaça (tudo era de vidro), depois revendiam nos ferros-velhos e depósitos de bebidas. Com cerca de dez anos, o primogênito pastoreava bicicletas no Mercado Central, vendia cocadas, tapiocas e dindins, além de auxiliar crediaristas que comerciavam de porta em porta.

A educação formal da prole ficou em terceiro plano, contudo a fome começou a recuar. A essa altura, com pouco mais de trinta anos, o sapateiro e a lavadeira já haviam tido os onze rebentos. Continuavam na labuta para alimentar todas aquelas bocas, dar roupas e calçados na medida do possível. Pois, embora ele fosse daquele ramo, não lhe era nada simples calçar os próprios filhos.

Um dia, infelizmente, a família sofreu um duro golpe. A esquistossomose (infecção diarreica grave) levou duas crianças pequeninas do casal — Márcia e Hugo. “Deus quis assim”, afirmou um irmão do sapateiro com o propósito de consolá-lo. Não deu certo. O baque foi forte demais. O homem, já refém dos tentáculos do álcool e do fumo, mergulhou por completo no vício. Não mais cuidava do topete e costeletas à moda Elvis. Tornou-se sombrio, desleixado.

A mãe costumava contemplar, em lágrimas, o único retrato que possuíam com a família reunida, pendurado na parede da sala. O pai, dominado pela bebida, evitava tal exame. Ele morreu com cinquenta e quatro anos de idade, vítima de cirrose. Ela enfartou aos sessenta e dois. Agora o primogênito é quem observa o mesmo retrato, onde seus quatro entes queridos ainda vivem.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 30/01/2022 - 06:52h

Cemitério de livrarias

Por Marcos Ferreira

Desde quando ingressei nesse universo dos homens de letras, mais especificamente no âmbito de Mossoró, já me dei conta de que o ramo de livros era (e sempre será) bem menos um comércio do que uma ideologia. Sim. As pessoas que empreenderam, ou ainda empreendem, na seara da literatura não podem ser vistas tão só como empresários, mas, sobretudo, como idealistas. Quem semeia livros, como alertava o bardo condoreiro Castro Alves, é deveras bendito.fechado, portas cerradas, fim de negócio, quebrado, falência

Aqui tivemos, entre outros bibliófilos, um Raimundo Soares de Brito e um Vingt-un Rosado, dois titãs de nosso meio literário que dedicaram as suas vidas à fomentação e promoção dos livros nesta sociedade mais propensa e receptiva a uma cultura lampiônica (com muita chuva de bala e cheiro de pólvora) do que à valorização dos seus escritores e da sua produção livresca.

Sob o aspecto urbanístico e demográfico, Mossoró cresce de maneira notável. O censo de 2021 aponta que já ultrapassamos os trezentos mil habitantes. Todavia, enquanto avançamos do ponto de vista econômico, urbanístico e populacional, encolhemos no tocante ao interesse dos mossoroenses por livros. Basta, parodiando o também poeta Vinicius de Moraes, darmos uma olhada na explosão de bares pela cidade, todos cheios, salvo exceções, de pessoas vazias.

Tirando-se as exceções, como eu destaquei, trata-se de uma gente endinheirada, elite posuda e altiva que não frequenta uma livraria — que dirá um sebo! — nem pega num livro porque teme, ao que parece, que os dedos lhe caiam pelo tronco. Muitos aqui nasceram, cresceram e enricaram sem nunca terem lido um gibi ou revista Caras. Por incrível que pareça, isso não é impossível.

Ter bastante dinheiro, luxo, riqueza material e status, outra vez recordando que há honrosas exceções, são prioridades da manada inculta e bela, como diria o parnasiano Olavo Bilac. Livro por aqui, como em vários lugares, é uma excrescência, uma futilidade, perda de tempo. O mossoroense prafrentex, habitué de todas as baladas e inferninhos das sextas e sábados à noite, não troca uma dúzia de Heineken pelo solitário exercício de queimar pestanas com livros.

Hoje em dia, infelizmente, a exemplo do que ocorre com as árvores e com o nosso agonizante rio, Mossoró perdeu ainda mais a sua pouca tradição no estímulo às letras locais. Somos, entre outras coisas a serem lamentadas, um cemitério de livrarias. Todas as principais livrarias que abriram aqui tiveram curta existência. A melhor delas foi a Café & Cultura, da senhora Ticiana Rosado.

De portas abertas, podemos citar a Livraria Independência, no Centro, e a L Cultural, no Partage Shopping. Entretanto esses dois estabelecimentos, por razões opcionais ou físicas, não disponibilizam mesas, cadeiras nem café para sua clientela. Isto, na minha concepção romântica de casa de livros, representa um ponto negativo, pois dessa forma tais endereços perdem duas coisas que considero relevantes numa livraria: a interatividade e a ambiência entre o seu público.

Na Café & Cultura, a propósito, além do ótimo acervo literário, usufruíamos dessa interação e de bate-papos regados a cafezinhos de primeira qualidade. Ali eu despertei e retribuí amizades que conservo até hoje, como o advogado André Luís e o magistrado Jessé de Andrade Alexandria, este que assina o prefácio do meu primeiro livro de crônicas, a ser lançado até meados deste ano.

O livro é imprescindível para a formação de uma sociedade mais justa, igualitária e humanitária. E se não existem casas comerciais para a venda desses produtos, enfim, a naturalmente arisca população só tende a se distanciar do interesse pela leitura. Pois, como sabemos, quem ou aquilo que não é visto não é lembrado. Aposta-se uma dinheirama nesta cidade em toda sorte de negócios, contudo os investimentos no comércio de livros não podem ser vistos a olho nu.

Todo dia abre-se um novo bar em Mossoró, uma casa de pasto, um magazine no Centro quanto no Partage, despontam arranha-céus nas áreas nobres, pipocam farmácias, drogarias em toda parte, surge outro não sei o quê mall, uma igreja aqui, um bordel acolá, no entanto o pessoal cheio da grana não arrisca um centavo sequer na abertura de uma nova e autêntica livraria neste município.

Triste Mossoró que um dia se candidatou, para vexame daqueles com um mínimo de pudor, ao título de “Capital Brasileira da Cultura”. Tal arroto publicitário encontrou muitos entusiastas sem um pingo de semancol. A imprensa, instigada monetariamente pelo Palácio da Resistência, boatava isso num dia sim, no outro também. O último balde d’água fria nesse delírio coletivo, pelo que recordo, foi em 2007, quando escolheram a cidade mineira de São João del-Rei.

Nessa vasta e imprevisível lavoura da literatura, portanto, sou um mero campônio do verso e da prosa com a esperança de que nossa paróquia de Santa Luzia ainda cumpra o seu ideal. Para mim, por exemplo, é motivo de grande inspiração termos em Mossoró, contando atualmente com noventa e sete anos de idade, um escritor da importância e tenacidade de um Obery Rodrigues.

No dia 13 de janeiro de 2017, por uma dessas trapaças do meu antigo correio eletrônico, tive um e-mail de Obery Rodrigues extraviado. Somente esta semana, enfim, minha Natália conseguiu resgatá-lo.A hora azul do silêncio de Marcos Ferreira

Naquela oportunidade, para minha honra e alegria, o senhor Obery me cumprimentava pelo lançamento da segunda edição do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que lhe fora dado de presente por sua prima Conceição, viúva de Souzinha, do Parque Elétrico.

Julgo oportuno transcrever o e-mail:

“Sr. Marcos Ferreira,

Recebi de presente de minha prima conceição, viúva de Souzinha e, atualmente, uma das principais sócias do Parque Elétrico, o livro ‘A Hora Azul do Silêncio’, de sua autoria. Não o conheço pessoalmente, mas soube que é mossoroense, meu conterrâneo. Quero felicitá-lo pelo livro, o melhor que eu já li da poesia de Mossoró.

Seu livro está excelente, seus sonetos — gênero da minha preferência — são primorosos. Quando eu era adolescente tinha três desejos: ser poeta, aprender a dançar e a tocar violão. Nem sou poeta, nem sei dançar e nem toco violão. Mas consegui outras coisas e, embora já aposentado com 92 anos, me considero um homem realizado familiar e profissionalmente.

Parabéns pelo seu excelente livro — Obery Rodrigues”.

Enquanto houver pessoas como Obery Rodrigues, a esta hora em plena atividade literária, creio que nem tudo está perdido.

“O pulso ainda pulsa”, como na letra daquela famosa canção dos Titãs. E assim, quem sabe diante desta crônica esperançosa de hoje, na minha maneira romântica de enxergar a questão, algum indivíduo bom de bolso resolva abrir mais uma livraria neste município.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
terça-feira - 25/01/2022 - 17:08h
Literatura

Escritor Marcos Ferreira se destaca em concurso de contos

Converso via WhatsApp com o escritor e colaborador dominical dessa página, Marcos Ferreira, e recebo uma outra boa notícia sua. Outra vez a literatura faz-lhe muito bem. Mais um destaque no plano nacional.33º Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba - Marcos Ferreira com Menção honrosa - 2021 - resultado em janeiro de 2022

“Começo este ano de 2022 com um bom prelúdio na literatura. Meu conto ‘Garimpeiros da Fome’ ganhou menção honrosa no 33º Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba (SP), ficando entre os sete melhores do país”, informa.

Segundo Ferreira, foram 610 contistas oriundos de todos os estados brasileiros, além de outros 36 da região administrativa do município de Araçatuba. O Rio Grande do Norte, segundo a organização do prêmio, concorreu com sete autores.

A Secretaria de Cultura de Araçatuba (veja AQUI) informa os selecionados, em que aparece Marcos Ferreira como o único originário da Região Nordeste.

Que venham outros resultados, meu caro.

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Categoria(s): Cultura
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domingo - 23/01/2022 - 04:10h

Poeticidade

marcos-ferreira-jan22 - Papangu na rede - Ilustração para crônicaPor Marcos Ferreira

Busco nas cerdas invisíveis do vento uma suave escova que deslize sobre meus cabelos despenteados. Hoje estou carente desses afagos imateriais. Quero o beijo da aragem. Deixo-me estar à janela de minha alma, com vista para a rua de pedras e areia trazida pelas chuvas. Há estrelas cintilando no céu, grilos e sapos executam suas típicas sinfonias nos escaninhos da noite. Alguns audazes morcegos, como pequenos aviões de caça furtivos, cortam os ares arrojadamente.

O rock metálico do trânsito indica que as pessoas têm pressa de viver. Sim, a vida pulsa sobre o paralelepípedo e nos corações, apesar desse desgoverno nefasto que atua em desfavor dos pobres, da maldade de sua política contra a mesa e o prato dos brasileiros. Meu povo, neste Brasil e cidade, come lagartos, carcaças, cartilagens, e cerca caminhões de lixo à procura de comida.

Estou sempre sujeito (quem não está?) às influências do meio. Ou, para ser mais preciso, às influências do inteiro, do completo, do geral. Da vida, do mundo, enfim. Exatamente. Sou, como todos somos, influenciável. Embora algumas vezes eu também exerça alguma influência sobre terceiros. Basta uma lua obesa no céu, como aquela que ora contemplo, para a minha alma de poeta suburbano pensar num verso estratosférico, numa estrofe e rimas de brilho emprestado.

A vegetação nos campos, como em toda parte, após muito tempo trajando o grave cinza da estiagem, cobriu-se de verde. O útero do solo voltou a ser fecundado e a procriar com o milagre da água que o céu tem vertido sobre nós. Que importa que os enxames de muriçocas estejam de volta com redobrado apetite por sangue? Isso, diante do benefício do inverno, é café pequeno.

Entretanto, por característica desta região semiárida, o astro-rei continua dando as cartas. Predomina na maior parte do tempo. Em Mossoró ninguém morre de hipotermia. Não há qualquer dificuldade, por exemplo, para secagem de roupas expostas nos varais. Desde os tecidos mais leves aos mais pesados, tudo fica sequinho em minutos. Mofo?! Nada de mofo! A umidade relativa do ar está quase ao nível dos nossos pés. Aqui se frita, como se diz, ovo no asfalto.

A máquina fotográfica de um relâmpago iluminou momentaneamente o quintal. Esperei por um trovão, mas ele não veio. Talvez tenha preferido não interromper a cantoria dos sapos e grilos. Sem pudor, um gato e uma gata se amam em algum terreno ou telhado próximo. Discrição nunca foi o ponto forte desses adoráveis seres de patinhas acolchoadas. Circula um vento úmido.

Apesar das chuvas, ainda não há fartura. Nem sei se haverá. Não para as pessoas humildes. Muitas continuam nos semáforos exibindo cartazes pungentes, pedidos de socorro. São indivíduos que não têm o que comer. Outros não têm o que vestir nem onde morar. Fala-se muito na fartura dos grandes empresários agrícolas, porém essa riqueza toda é somente para eles próprios. Vai tudo para os bolsos deles, cuja maioria parece incapaz de oferecer um pão a um doido.

Bom, hoje não quero me alongar. Vim apenas dizer, entre outras coisas, que uma orquestra de sapos e grilos cantadores, além de uma constelação intermitente de vaga-lumes, trouxe um pouco mais de poesia para estas minhas horas de ócio criativo. Deixo à margem, em prol do lirismo, a horrenda metáfora da fome representada por tanta gente podre de rica, mas miserável de espírito.

Nós até resistimos, damos voltas no corpo, suportamos uma vida sem pão, sem teto e sem outras dignidades que nos negam e furtam, entretanto creio que a gota d’água de nossa existência será o dia em que nos faltar poesia. Porque poesia é a chama, é a força que nos faz resistir e lutar por dias melhores, é o nosso talento e pendor para a superação, mesmo perseguidos por inúmeras adversidades e privações. Poesia é a nossa coragem para sorrir na cara da tristeza.

Portanto, que nunca nos falte poesia. Coisa esta que não representa meramente uma composição em versos, mas a graça, o encantamento que estar vivo deve significar. Daí advém a poesia escrita, que é o retrato literal da humanidade e do mundo. Se esses sapos e grilos cantantes, além dos morcegos nos seus voos acrobáticos, se tudo isso não for poesia, então não sei o que é poesia.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 16/01/2022 - 07:42h

Cadê o castramóvel?!

Por Marcos Ferreira

Semana passada, ao ler minha crônica, ouvi de Natália, primeira leitora e mediadora dos meus escritos, que ultimamente tenho falado demais acerca de pássaros, sol, céu, chuvas, esta casa estiolada e quintal, além de certa mangueira frondosa cujo vento açoita na residência aos fundos desta. É verdade. Até porque sou um sujeito um bocado recluso, sem muitas vivências ou inspirações externas. Natália diz, portanto, que preciso enxergar outro mundo além do meu portão.

O problema é que possuo baixa quilometragem. Urbana quanto social. Raras vezes coloquei os meus pés além-fronteiras deste município. Não me agrada falar nem escrever sobre coisas, lugares e assuntos que desconheço. Então, com a indulgência dos leitores, ponho uma camisa hoje e dias depois, como variasse, requento o assunto. Isto é, visto a mesma camisa, agora pelo avesso.Dúvida, interrogação,

Sim. De fato venho me repetindo. Neste minuto, inclusive, eu me repito. Já tratei desse assunto. Mas me digam, acaso saibam, qual é o cronista que não se repete. Ao menos uma vez ou outra. Aposto que nenhum. Nem sempre é possível inovar, renovar. Isto puxando para mim, de maneira imodesta, o elástico título de cronista. Ou, visando apenas expandir o meu próprio ego, elevo tal patente a escritor e poeta. Que tal? Suponho que nesta esfera já está de bom tamanho.

Todavia, para não chover de novo no molhado, e muito menos cair na tentação de escrever sobre a falta do que escrever, recurso este que já salvou vários cronistas de alto coturno, olhemos além do meu quintal, como deseja minha Natália. Existem pautas e assuntos importantes a serem discutidos. Tipo a problemática, o estouro da população de animais de rua (cães e gatos) nesta cidade.

Ontem à noite, num muro perto da Faculdade de Enfermagem, uma pobre cadela vira-lata, grávida e doente, gania e esfregava a lateral do quadril contra a parede áspera. Eu me dirigia a uma lanchonete próxima dali e me detive para observar aquela cena de cortar coração. Sem coleira, visivelmente sofrida, a cachorra exibia uma espécie de tumor no alto da coxa traseira esquerda. O sangue da pústula manchava a parede. Entregue ao deus-dará, brevemente ela deve parir.

Olhou-me com um olhar tão súplice e penetrante, como se visse em mim alguém que a pudesse resgatar daquela situação miserável, que perdi a fome e desisti do meu “completo”. Fui à lanchonete, conversei com o dono, ele me deu umas pelancas de carne, comprei umas salsichas cruas, paguei um valor um pouco maior do que eu gastaria comigo, e ofereci aquela refeição à cachorra.

Em casa, dez reais mais pobre e com o coração menos triste, contentei-me com quatro ovos cozidos e umas pitadinhas de sal. Daí a pouco começou a garoar e fiquei pensando onde teria se abrigado aquela futura mãe com uma barriga enorme, sem amparo, desprotegida, enferma, suportando fome e sede pelas ruas de Mossoró. Quantos filhos, em situação igualmente adversa, ela já não colocou neste mundo cão? Algum dia terá tido um tutor? Não creio nessa hipótese.

A superpopulação de animais em situação de rua nesta cidade não é um fato meramente estatístico. Trata-se, também, de um caso de saúde pública. Isto pode ser resumido numa única palavra: zoonoses. O Executivo e o Legislativo municipais não podem continuar fazendo vista grossa e empurrando esse problema com a barriga. Agora, aliás, só falta o prefeito Alysson Bezerra se mexer.

Pelo que sei, corrijam-me se incorro em erro, já foi assegurado um total de R$ 645 mil para aquisição de um veículo denominado castramóvel e apoio às organizações que acolhem animais de rua. Os recursos foram garantidos pelo deputado federal Beto Rosado (PP/RN — quinhentos mil reais) e pela deputada Isolda Dantas (PT/RN – cento e quarenta e cinco mil reais). Esse dinheiro está na conta da prefeitura, à disposição do Menino Pobrezinho, só escutando a conversa, como se diz.

Mas, enquanto Alysson Bezerra não se mexe no sentido de aviar o emprego dos recursos que estão a seu dispor, os bichinhos sem tutores continuam procriando. É triste vermos nas ruas desta comuna tantos cães e gatos, sobretudo gatos, atropelados, mutilados ou passando fome. Se acaso tiver coragem e coração, senhor prefeito, e eu acredito que tenha, olhe bem nos olhos desses animais.

Eles não têm culpa por haverem nascido. São seres domésticos, ou seja, carecem da convivência com os humanos. Alguns de nós, é bom que se diga, nem merecem ser chamados assim: humanos. Existem indivíduos que aceleram seus carros quando avistam um animal desses na faixa de rolamento, pelo simples e repugnante prazer de fazer o mal. Há outros que se comprazem em oferecer comida envenenada aos animais, principalmente a gatos, tenham ou não tutores.

— Cadê o castramóvel, senhor prefeito?!

Todavia, por desimportância deste cronista ou deficiência auditiva do jovem alcaide, não obtenho resposta. Qualquer dia, porém, ele deve responder. Porque o Menino Pobrezinho é um político atuante e conhecedor dos problemas desta terra de Santa Luzia. Torço, contudo, que não demore muito a empregar os recursos oficializados.

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA) já tem menos alunos, docentes, técnicos e trabalhadores terceirizados do que gatos em sua gigantesca área territorial. O número de bichanos circulando diante do cemitério São Sebastião também é superior aos cidadãos que jazem naquele campo-santo. Qualquer dia os donos de lanchonetes locais deixarão de vender cachorro-quente para oferecer sushis caninos. Visto que o espetinho de gato circula clandestinamente.

— Cadê o castramóvel, senhor prefeito?!

Tenhamos um pouquinho mais de paciência, prezados conterrâneos. Acredito que o nosso prefeito Alysson Bezerra, antenado e midiático como ninguém, inteirar-se-á desta crônica amistosa quanto bem-intencionada. Quem sabe a esta hora da manhã, neste belo domingo, enquanto toma tranquilamente o desjejum, o Menino Pobrezinho já esteja com seu smartphone lendo estas linhas.

— Cadê o castramóvel, senhor prefeito?!

Deixe estar, minha gente. Deixe estar.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 09/01/2022 - 07:02h

Bons auspícios

Por Marcos Ferreira

Agora bate em meu peito um coração apaziguado. Porque não me encontro refém, não ao menos hoje, de ímpetos misantrópicos ou furores políticos. Careço me livrar dessas toxinas que envenenam meu coração e minha alma. Supondo-se, claro, que possuo tal coisa. Talvez possua, pois toda noite me vejo voando fora desta carcaça que, num futuro próximo, a bicharia há de roer. Pois é, ganho os ares feito um Clark Kent sem o seu traje impecável, sem capa vermelha.Boas notícias - redes sociais, emoji, sorrindo

Está visto que não sou o Homem de Aço. Sou, quando muito, um minúsculo homem de letras. Digo isto sem charminho nem falsa modéstia. Repito aqui, advogando em causa própria, aquele aforismo do modernista Mário de Andrade: “Devemos chamar ao tostão pelo seu modesto nome de tostão”. Sempre me esqueço de narrar esses voos oníricos ao meu psiquiatra, o Dr. Dirceu Lopes.

Acho que 2022 começou com bons auspícios para mim. Sobretudo pelas precipitações pluviométricas (gosto desta expressão dos meteorologistas) nos últimos dias. Amo este céu plúmbeo, nublado, com chuvas volumosas e duradouras, apesar da situação periclitante do meu telhado e desta Euclides Deocleciano, que depressa se transforma numa espécie de souvenir do rio Amazonas. Aprecio tudo isso. Que me perdoe o querido poeta Aluísio Barros, fã do astro-rei.

Examino este início de ano e pressinto que vêm coisas boas por aí. Estou mais propenso às amizades e à concórdia. Até o jornalista Carlos Santos, meu editor, aceitou um convite meu para um cafezinho numa tarde-noite de prosa muito instrutiva e descontraída. Faltou, entre outros, o cronista Odemirton Filho para dividirmos um pacote de bolachas sete-capas da panificadora Meçalba.

Atendendo a uma antiga sugestão do Dr. Dirceu Lopes, enfim me matriculei numa academia de ginástica. É a busca (ou retomada) pela minha outrora admirável performance de atleta amador de voleibol, quando eu saltava mais de oitenta centímetros e pesava sessenta e oito quilos, dez a menos do que hoje. No momento, portanto, estou bem. Os novos antipsicóticos, exceto por algumas reações adversas de natureza leve, parecem atuar melhor que os anteriores.

A saudade de Gudãozinho, minha mimosa gatinha envenenada recentemente por um elemento perverso, ainda é algo com que preciso lidar melhor. Ela continua presente por meio das fotos no telefone, dos vídeos, da caixa de areia, das vasilhas de água e ração, dos brinquedos e da caminha onde dormia. Fiquei arrasado. Porém há outros bichinhos de rua por aí precisando de amparo e amor.

Este ano, como diz a letra daquela música, “quero paz no meu coração” e também no meu espírito, coisas estas que desejo a todos os meus hipotéticos e estimados leitores. Aqui, enquanto escrevo estas páginas, o clima segue ameno, sem aquele costumeiro mormaço de Mossoró. Há pouco um pardal entrou pela porta da cozinha, voou até as rótulas da porta da frente e retornou por onde viera. Não sei o que ele queria, entretanto lamentei não ter ficado um pouco mais.

Há bastantes pássaros à volta desta casa. É um luxo, uma riqueza, contar com o canto deles a todo momento do dia. Alguns agora vêm à mesa do terraço, dominam o quintal, especialmente depois que Gudãozinho morreu. Como vivo aqui sozinho há uns quinze anos, penso que eles se habituaram a mim. Julgam-me, com razão, inofensivo. Do mesmo modo as lagartixas, pombos, iguanas.

Não as hostilizo, não as apedrejo, contudo devo confessar que as lagartixas me aborrecem quando, vez por outra, alguma invade a casa. Além disso, recordam-me certos indivíduos sem opinião própria, balançando a cabeça a tudo e a todos. Mas, ao contrário daquelas figuras, as lagartixas caçam os monstros que mais me causam medo, asco, repulsa, pavor — baratas. Embora aqui em casa quase inexista lixo orgânico, coisa que atrai esses monstros de asas envernizadas.

Outra coisa que muito me agrada aqui, além da variedade de pássaros canoros, é o barulho constante do vento arengando com os ramos da grande mangueira na residência aos fundos desta. Lembra-me o som da chuva, o quebrar das ondas em uma praia tranquila, bem longe, por exemplo, daquela fuzarca de Tibau. Agora lhes peço licença. Pois desejo ir para a academia. Não a de letras.

Que este seja um ótimo ano para todos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 26/12/2021 - 06:38h

Arengas no blog

Por Marcos Ferreira

Como em toda expressão de arte, o literato trabalha para alcançar um público que, na sua quase totalidade, ele desconhece. Isso, todavia, parece instigar ainda mais o homem de letras. Pois sua grande gloria é saber, ao menos desconfiar, que está sendo lido por alguém em qualquer parte do seu macro ou microcosmo. Nem sempre, contudo, esse vínculo remoto é só aplauso. Algo natural. É que no meio dos leitores comuns estão os críticos literários, alguns bem rançosos.

Outros não são propriamente críticos, mas gostam de dar um palpite na produção de terceiros. Nomes de baixo e alto relevos já se envolveram nesse exercício de análise ou achismo. Um dia o jovem Bruxo do Cosme Velho fez um juízo desabonador acerca duns versos do então poeta Sílvio Romero e isso nunca foi perdoado. Como crítico, Romero devotaria a Machado um ódio incurável.briga, luta, confronto, confusão, disputa física,

Quem convive com o micróbio da literatura está sujeito a experienciar algo assim. Há casos extremos em que autores e obras se tornam malditos. Lembram o sufoco de Gustave Flaubert? Ele findou no banco dos réus francês ao divulgar sua obra-prima, Madame Bovary (1857), visto como o “romance dos romances” e considerado o pioneiro dos romances realistas. Dostoiévski foi parar diante de um pelotão de fuzilamento, tendo sua pena comutada no último instante.

Existe uma porção de grandes autores, inclusive cronistas, que já tornaram conhecidos alguns textos (até livros) um tanto inferiores a outros que publicaram. Mestres como Graciliano Ramos e Machado de Assis, por exemplo, têm os seus pontos altos e baixos, muito embora os altos possuam predominância. Porque os escritores, assim como as ostras, não produzem somente pérolas.

Minha crônica de domingo passado (19/12/2021) desagradou bastante ao exigente leitor Carlos Magno, o que provocou um bate-boca deste com o cronista Inácio Augusto de Almeida, pessoa esta que, a exemplo de Magno, eu conheço apenas pela sadia convivência que mantemos no ilustrado blogue do jornalista Carlos Santos. Pois é. Não tive a intenção, no entanto a minha crônica gerou discórdia, uma rusga entre os senhores Carlos Magno e Inácio Augusto de Almeida.

“Esse texto não parece produção do maior escritor de Mossoró. Marcos, com todo respeito, esse texto está sofrível”, afirmou Magno sobre minha crônica. Isso bastou para que Inácio interferisse dando uma voadora em Magno: “Escreva um texto e depois critique o texto dos outros. Todo crítico carrega consigo a cruz da mediocridade. E estão condenados ao esquecimento”, rebateu Inácio.

Daí por diante, no curto período do domingo para a segunda, já haviam trocado diversas “amabilidades” no espaço reservado à opinião dos leitores. Em minha defesa, portanto, o senhor Inácio soltou os buldogues em cima do senhor Magno, que não reagiu com menos ferocidade. Lamento profundamente que os dois tenham se engalfinhado por minha causa. Estimo tanto um quanto o outro. E trato com respeito todos que acompanham os meus escritos dominicais.

Quero frisar que “o maior escritor de Mossoró” não é uma distinção que reivindico. Deixo na conta do senhor Carlos Magno, que já elogiou textos meus tanto na época em que eu os publicava no jornal O Mossoroense quanto na Revista Papangu. Aqueles, excluindo alguns excessos e inexperiências, foram tempos bons. Aprendi muita coisa. Porque ninguém nasce pronto e acabado.

Quando o editor deste Canal BCS (Blog Carlos Santos) me convidou a integrar o seu elenco de colaboradores, confesso que supus que minhas crônicas não fossem contar com muita audiência. É verdade que vez por outra, especialmente se toco no assunto da política, acabo abespinhando certos indivíduos. Estou no saldo. Não ambiciono unanimidade. Isso fica para quem não tem opinião própria e vive em cima do muro balançando a cabeça, feito lagartixa, para tudo e todos.

Claro que o senhor Magno tem todo o direito de não gostar do meu texto. Sobretudo daquele em que execrei o governo Bolsonaro e indaguei sobre os cento e trinta mil reais que os vereadores de Mossoró supostamente empregaram na compra de alho, coentro, cebola, tomate e pimentão. Por outro lado, convenhamos, o senhor Inácio também tem o direito de discordar do senhor Magno.

Divergir, ter opinião diferente, é salutar para o engrandecimento de um debate democrático, sem ataques nem ofensas. O último domingo, entretanto, foi de ânimos acirrados neste blogue. Até o escritor François Silvestre, sertanejo aguerrido, trocou uns bofetes verbais com alguns leitores. Fique tranquilo, homem. O Lula vem com todo o gás, e o meu voto é dele. Pois eu votaria até no falecido Enéas Carneiro se ele tivesse reais chances de expelir o Energúmeno do poder.

— Cadê o coentro?! — indaga Inácio.

Ninguém responde. Silêncio sepulcral na Câmara. Toda a vereança se mantém de bico fechado. O edil Lawrence Amorim, presidente da Casa, também faz ouvidos de mercador. Mas Inácio, incansável vigilante do erário mossoroense e das verbas dos contribuintes, quer saber onde foi parar tanta verdura. Ele também critica, com razão, o novo Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU).

Mudemos de assunto. Minha Natália puxa minhas orelhas sempre que toco em política. Quero pedir aos senhores Inácio e Magno que se deem um aperto de mão virtual para restabelecer a concórdia. Não vale a pena brigar. Ainda menos, como diria Carlos Santos (o ex-Homem dos Suspensórios), por um “escritor mundialmente desconhecido”. A vida é tão efêmera, tão curta para que a desperdicemos com nonadas, picuinhas. Quando achamos que estamos aqui, já partimos.

Aí tudo fica para trás: a família, os amigos, o gato, o cachorro, o emprego, a conta-corrente, o prestígio, o status, a vaidade. Não importa o quanto tenhamos. Ficamos sem coisa alguma. Exceto por um traje de madeira, algumas rosas e um pequeno pedaço de chão num condomínio sossegado onde vamos estudar a “frialdade inorgânica da terra”, como naquele soneto de Augusto dos Anjos.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 19/12/2021 - 04:20h

Últimas notícias

Por Marcos Ferreira

Estamos a uma semana do Natal e o espírito natalino parece não ter penetrado nos corações de muita gente. As notícias dos últimos dias são pouco animadoras. Algumas, aliás, são repugnantes, como esse projeto que a deputada bolsonarista Carla Zambelli colocou em pauta com o propósito de liberar a caça esportiva no Brasil. Essa parlamentar não é somente irresponsável, é, sobretudo, perversa. Pois deseja contribuir para dizimar a já tão perseguida fauna brasileira.

Imaginem. Permitir, através de uma lei sanguinária, a desenfreada matança de animais silvestres por mero divertimento. O pretexto é a superpopulação de javalis em algumas regiões do País. Mas isso não ocorre no Brasil todo, muito menos no Nordeste. Ademais, a caça de javalis está liberada pelo Ibama desde 2019, por medida do então ministro contra o meio ambiente Ricardo Salles.pessoas lendo jornal, jornais, leitura, jornal impresso

As más notícias e péssimos exemplos vêm de diversas partes. Há poucos dias, infelizmente, o bolsonarista André Mendonça tomou posse no Superior Tribunal Federal (STF). Agora fará uma dupla dinâmica com o ministro Kassio Nunes Marques, também apaniguado de Bolsonaro. Quinta-feira, na cúpula da Polícia Federal, durante cerimônia de formatura, o senhor Paulo Maiurino, diretor-geral da PF, sugeriu que os novos agentes retirassem as máscaras. E o pior: foi aplaudido.

Presente à solenidade de formatura dos novos agentes federais, o falso messias Jair Bolsonaro não conteve um sorriso vitorioso, ficou de peito e alma lavados com a proposta de Maiurino. Negacionista mórbido, inimigo da ciência e aliado do coronavírus, Bolsonaro afirmou na segunda-feira (13), por meio de suas redes sociais, que o uso de máscara estava proibido no Palácio do Planalto.

O chefão da PF também comentou sobre uma medida provisória assinada por Bolsonaro com o propósito de criar um plano de saúde dos servidores da Polícia Federal por meio do Funapol (Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da PF). O diretor-geral destacou ainda que a criação do referido plano era uma reivindicação de décadas, e foi mais uma vez aplaudido ao agradecer a Bolsonaro por este haver se empenhado na conquista daquele preito.

“É um anseio de décadas do nosso corpo funcional que beneficiará nossos servidores, policiais e administrativo, além de seus dependentes. Já tivemos aqui presidentes da República que prometeram e que nunca cumpriram”, salientou Paulo Maiurino. Estufando o peito de vaidade, mas com razão, Bolsonaro alfinetou: “Isso é normal”, enquanto grande parte dos novos agentes gritava “mito”.

Feito metástase, Bolsonaro apodreceu as principais instituições e autarquias do Brasil. Seu dedo podre (mãos, na verdade) está em tudo: na Câmara, no Senado, nas Forças Armadas, nas polícias civil, militar e federal, no charco das igrejas evangélicas e até em alguns setores da Católica, no judiciário, na Petrobras e em tantos outros segmentos sociais e coorporativos. Dessa forma, como se sabe, barrou investigações contra si próprio e sua família de ladrões e quadrilheiros.

Bolsonaro trocou mais de ministros do que escovou os dentes. Traiu e queimou até comparsas relevantes, como o ex-juiz Sérgio Moro, falso paladino da honra e da moral. Após tantas sandices, impondo às famílias mais carentes deste país desemprego e fome, fez com que o Partido dos Trabalhadores ressurgisse das cinzas tendo Luiz Inácio liderando todas as pesquisas com larga vantagem.

De olho na façanha de chegar à Presidência da República pela terceira vez, Lula agora está de conchavo com Geraldo Alckmin, velho rival cujas diferenças políticas não valem muita coisa quando o que está em jogo é atingir o pináculo do poder. Alckmin, assim como Lula, não é nenhum santo. Os dois, entretanto, estão bem longe de ser um espírito de porco como Bolsonaro. A aliança entre o ex-tucano e o petista é do agrado de partidos de esquerda quanto de centro-direita.

A chamada terceira via, com candidatos nanicos como Sérgio Moro, João Dória e Ciro Gomes, morrerá de inanição. E Bolsonaro, em queda vertiginosa nas intenções de voto e sem o apoio dos militares para um golpe de Estado, pagará um preço alto por ter brincado e judiado da população pobre deste país. Já a possibilidade do torneiro mecânico vencer no primeiro turno é cada vez maior.

Voltando os olhos para Mossoró, onde de tudo acontece um pouco, há certos fatos dignos de nota. Lamentavelmente, devo dizer, pelo lado negativo. Como o recente destempero do vereador Raério Araújo, firme aliado do prefeito Alysson Bezerra. Raério Araújo, que acredito ser um parlamentar comprometido com os seus eleitores e com a sociedade em geral, perdeu o rebolado durante uma sessão na Câmara e saiu-se com um linguajar de caráter misógino e homofóbico.

— Mulher ruim e baitola! — exclamou.

Tais palavras repercutiram mal durante toda a semana. A bancada de oposição não deixou barato. Cobrou ao presidente da Câmara a instalação de uma Comissão de Ética. Notas de repúdio pipocaram em blogues, sites e redes sociais. Sentindo-se ofendida, a comunidade LGBT também se manifestou contra o rompante do edil mossoroense. Não foi a primeira vez que Raério aloprou.

Alguns meses antes, novamente de cabeça quente, pavio curto, ele teve um lamentável atrito com a vereadora petista Marleide Cunha. Disse, entre outras coisas, que a colega parlamentar podia latir que ele não tinha medo. Claro que a senhora Marleide não latiu. Contudo, como era de se esperar, a repercussão foi péssima para o vereador enfezado. Curiosamente, Raério é presidente da Comissão de Redação, Constituição e Justiça da Câmara de Vereadores de Mossoró.

Pelo que percebo, o senhor Raério é um tipo atuante, está no segundo mandato, se não me engano, e é um bom marqueteiro de suas ações nas redes sociais. Deu uma bola fora, sim, quando tentou, junto com vereadores palacianos, cortar verba para a cultura. Tem apoio do Menino Pobrezinho (alcunha que a ex-prefeita Rosalba Ciarlini gravou na biografia do midiático Allyson Bezerra).

Talvez Raério Araújo não seja esse vilão todo, esse homem das cavernas que tem demonstrado ser. Quem sabe esteja apenas passando por uma fase difícil, de grande tensão, estresse. Pode estar sofrendo, por exemplo, devido às incessantes cobranças do cronista Inácio Augusto de Almeida, que exige explicação dos edis mossoroenses acerca de verba de cento e trinta mil reais que a Câmara supostamente empregou na compra de alho, coentro, cebola, tomate e pimentão.

O que os caros (caríssimos) vereadores pretendem fazer com toda essa verdura? Alguém, por gentileza, poderia me responder? Acaso eles estão planejando realizar um mega-sopão e distribuí-lo aos mendigos da terra de Santa Luzia? Tomara. Do contrário, senhoras e senhores, mesmo levando-se em conta o voraz apetite de alguns edis, o mais provável é que essas hortaliças se estraguem.

Bom, nem só de coisas desagradáveis foi esta semana. Há pouco caiu uma chuvinha e eu me já me senti com o espírito mais arejado. Outra coisa boa é que ontem, por intermédio do escritor Clauder Arcanjo, recebi um exemplar de Rasgos nas Lembranças, versos da poetisa cearense-potiguar Rizeuda da Silva, que hoje reside no município de Monte Negro, Rondônia. Vamos à leitura.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 12/12/2021 - 09:10h

De volta às sombras

Por Marcos Ferreira

Enfim, após outro dia causticante, está chegando o crepúsculo. O vento açoita a mangueira, invade a casa. A porta da frente e a de trás estão abertas. Nessas horas, quando a ventania bate com força, uma porção de ciscos costuma cair do teto, que não tem forro. Vez por outra, então, preciso limpar o teclado e a mesa do computador. Essa poeira fininha, em contato com meus dedos suados, me causa desconforto. Por conta disso lavo minhas mãos com certa frequência.

Em mais alguns minutos as sombras ocuparão este espaço. Hoje me sinto melhor na penumbra que sob a luz fluorescente. A rede continua armada aqui na sala. Pela manhã, embora acorde cedo, tenho extrema dificuldade de me levantar, de deixar a tipoia e tomar o primeiro banho. Alguns até podem dizer que isso é apenas preguiça. Já o meu psiquiatra acredita que se trata de outra coisa.olho, olhar, visão

De modo complementar, Dr. Dirceu Lopes me cobra a prática de exercícios físicos, caminhada, academia. Ainda receio o vírus. Além disso, tem a questão do tipo de músicas que predomina em tais lugares, onde se busca entrar em forma, beleza do corpo e um pouco de endorfina. Espaços cheios e ruidosos me deixam nervoso. O poeta Aluísio Barros, um dos finalistas do Prêmio Jabuti deste ano, me recomenda a absorção natural de vitamina D por meio da exposição ao sol.

Penso agora naquele jovem ator e bailarino mossoroense que tirou a própria vida há cerca de um mês. Ele foi vítima da falta de apoio aos que fazem arte nesta cidade, quer sejam atores, músicos, artistas plásticos ou literatos. Não bastasse o desestímulo a essas pessoas, semana passada os vereadores da base governista tentaram cortar alguns recursos, emendas orçamentárias para a cultura.

Exatamente. O golpe rasteiro que os vereadores aliados do senhor prefeito tentaram aplicar na classe artística é um desserviço, um ultraje, uma covardia e um acinte. Ouvi dizer que o bailarino enfrentava apuros financeiros. Sucumbiu ante a indiferença e mesquinhez com que o Executivo e o Legislativo municipais sempre trataram a cultura desta província.

O rapaz necessitava de ajuda médica, um psicólogo ou psiquiatra, além de medicamentos, indispensáveis nesses casos.

Eu não estaria aqui escrevendo estas linhas se não tivesse contado com esse tipo de assistência num momento grave, crucial. Ainda assim há dias sombrios. Como este em que o astro-rei me parece desnecessário. Eu o trocaria, ao menos hoje, por um dia inteiro de chuva, com nuvens negras em todo o céu, entremeado por raios e trovões. Seria ótimo, apesar das condições do meu telhado.

Tento crer que esta minha existência obscura vale a pena. Não tenho profissão nem diploma universitário. Passei a vida toda pulando de um subemprego para outro. Quando mais jovem, entre outras ocupações, carreguei sacos de sal na cabeça, recebi muita poeira de sal nos armazéns de refino, limpei o lixo e o mato de quintais, fui vigia noturno com um apito e um porrete, a pé, em ruas do Santa Delmira. Não me tornei padre, pastor nem jogador de futebol, sequer político.

Pois é. Meu estado de espírito oscila. Às vezes acordo otimista, radiante, de bem com todos, motivado. Noutras ocasiões, porém, amanheço assim, macambúzio, sorumbático. Gira na minha cabeça um filme triste, uma retrospectiva das coisas que eu poderia ter feito e não fiz, daquilo que eu poderia ter sido e não fui. O tempo, se isto justifica algo, me impôs muitas privações e obstáculos.

Mergulhei nos livros, na literatura. Daí provém o pouco conhecimento que tenho sobre meu próprio idioma. Isto me abriu uma grande oportunidade: as portas do jornal O Mossoroense.

Ali, apresentado pelo saudoso poeta Apolônio Cardoso e acolhido pelo também poeta Cid Augusto, comecei a publicar meus textos. Depois, indicado por Cid, fui contratado como revisor. Não demorou muito e passei a repórter e editor de cultura. Eis o ponto alto do meu currículo empregatício.

Nunca, entretanto, sonhei em ser jornalista, com todo o respeito que tenho pelos que exercem e honram essa profissão. Fui tomado pelo micróbio da literatura e botei na cabeça que meu destino era ser escritor. Tolice! Ninguém (ou quase ninguém) consegue sobreviver apenas da escrita literária. Muito menos em Mossoró, que num passado recente se arvorava de capital brasileira da cultura.

A luz vermelha da cafeteira parece mais viva agora que a casa vai escurecendo. Vou desligá-la e pego mais um trago da rubiácea. É a última dose do dia. Retorno ao computador com a caneca de ágata pela metade. Tenho a sensação de que o vento que circula traz um aroma de chuva. Fico na expectativa de que ela venha, ao menos o bastante para lavar os ciscos sobre as telhas e aquietar a poeira do calçamento. Mas, reparando melhor, acho que não vem. Talvez amanhã.

— Olha a tapioca! — grita um ambulante.

Daí a pouco um carro aparelhado com potentes alto-falantes passa anunciando propaganda enganosa de um supermercado. Os decibéis cortam meu raciocínio. Interrompo a digitação. Há ruído de outros automóveis e motocicletas. Um cão ladra aqui por perto. O bulício dos passarinhos explode entre os ramos da mangueira. Ouço também a voz indistinta de vizinhos e transeuntes.

O que estarão conversando? Não faço ideia. Quem sabe discutindo o preço dos combustíveis, sobretudo o da gasolina, do gás de cozinha, dos gêneros alimentícios. Em suma, a carestia galopante que assola inúmeras famílias humildes. Dezenove milhões de brasileiros passando fome; outros quinze milhões desempregados. Sei que estou me repetindo, mas é preciso denunciar tudo isso. “O que me assusta não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons”, palavras de Luther King.

A máquina de lavar roupas da casa ao lado começa a funcionar. Emite um som desagradável. A pessoa que opera a máquina, uma senhora de meia-idade, liga o som e se põe a arremedar as péssimas músicas que vão rolando. Neste momento, enquanto escrevo, eu preferiria ouvir tão somente o canto dos pássaros, o barulho do vento nas folhas da mangueira e até a arenga dos vira-latas.

Exceto por alguma ligação telefônica, passo o dia sem conversar com ninguém, sozinho com minhas cismas e neuras. Até o mês passado, quando minha gata Gudãozinho estava aqui, eu tinha com quem conversar. Ela era tão cheia de vida, carinhosa. Contudo, como narrei naquela ocasião, Gudãozinho foi envenenada, possivelmente por um elemento cruel, desumano. Estou assimilando essa perda, que me jogou na lona como se eu tivesse recebido um soco no queixo.

Escureceu por completo. Acendo a única luz da sala-cozinha. Estou fatigado, um colar de suor no pescoço. Paro diante do espelho e miro meu rosto um tanto entumescido por causa dos psicofármacos. Não faço a barba há meses. Meus lábios sumiram sob os pelos. Antes, ao me barbear, eu achava ruim quando, aqui e acolá, avistava um fio branco. Hoje, aqui e acolá encontro um fio preto.

Hora de tomar mais banho, fechar as portas, apagar a luz e deitar. Seria tão bom se amanhã tivéssemos um dia todo de chuva. Há muita sujeira nesta cidade que precisa ser lavada. Lavaríamos também as nossas almas.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 05/12/2021 - 06:42h

Deus está vendo

Por Marcos Ferreira

Talvez eu não passe do primeiro parágrafo, não estou em condições muito favoráveis, no entanto retorno a este computador para escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Foram vinte dias sem produzir uma linha e ainda me encontro sem bússola e sem ânimo. Nesse espaço de tempo, entre ajustes nos meus psicotrópicos e efeitos colaterais, senti que esta cidade está cada vez mais desumana, insensível. Reparem nesse monte de gente desvalida que hoje mendiga em toda parte.

Olho à minha volta e reflito sobre minha condição. Esta é uma casa velha, cheia de buracos e cupins, certamente a mais modesta e feia desta Euclides Deocleciano, entretanto aqui estou guardado, protegido, com alguns pequenos luxos como uma geladeira, um ventilador e uma cafeteira. Tenho sempre algo para comer e vou conseguindo pagar ao menos as minhas contas de água e luz.

Grande parte do meu auxílio-doença, mediante laudo do meu psiquiatra Dirceu Lopes, é empregada na aquisição de medicamentos. Porém, ao andar pelas ruas de Mossoró, eu me sinto um privilegiado, afortunado. Penso que poderia ser eu (sob este nosso sol implacável) a exibir cartazes nos semáforos, pedidos de socorro. Sim, as pessoas estão pedindo socorro. Suplicam por qualquer alimento ou moedinha. Vez por outra, medindo minhas possibilidades, tento ajudá-las.

Enquanto isso, dentro dos seus carrões refrigerados, a maioria dos motoristas não baixa o vidro, sequer olha de lado. Tal súplica se arrasta desde o começo do dia e segue noite adentro. Indivíduos de todas as idades, homens, mulheres e crianças tentam vender coisas ao público motorizado, especialmente garrafinhas de água mineral, dindins, picolés, bombons e até desinfetante caseiro.

Essas pessoas, nesta Mossoró desarborizada, ficam expostas a sol e chuva. Mas chuva é algo raro por aqui. Sobre seus produtos, quando conseguem vender, têm lucro de centavos. Como se consegue subsistir numa carestia como esta em que se acha este país ganhando centavos? Aos demais, os que não têm nada para tentar vender, só resta a mendicância. A esta hora, meio-dia e quinze, enquanto escrevo esta página, eles estão nos semáforos, sob o sol, ignorados e famintos.

Onde estão os vereadores, o ilustre senhor prefeito, a Igreja Católica, as igrejas evangélicas, os donos de redes de supermercados e vários outros empresários e poderosos que não se mobilizam em favor dos pobres? Ou só vão doar alguma comida quando chegar o Natal? Acham que os miseráveis não têm fome nos outros dias? Não vejo distribuição de cestas básicas em parte alguma.

Cadê os poetas de Mossoró, escritores, jornalistas, intelectuais? É preciso união da classe pensante, a fim de se pressionar o poder público e a sociedade como um todo. A prefeitura queima muita grana com fogos de artifício, enfeites natalinos e diversos adornos, enquanto os pedintes definham de estômagos vazios. Por sua vez, a Câmara Municipal aprova verba para todo tipo de coisa. Inclusive, fato notório, aumentaram os já polpudos salários dos próprios parlamentares.

O que os caros (e dispendiosos) vereadores pretendem fazer pelos desvalidos? Algum desses legisladores ou legisladoras, por gentileza, poderia me responder? Não foram todos eleitos, principalmente, com a promessa de assistir o povo carente da terra de Santa Luzia? Tomara. Estamos esperando. Ainda há tempo. Façam valer os votos que receberam. Mostrem serviço, caríssimos!fome_pobreza_ss_1

Os mandachuvas do Executivo e do Legislativo precisam deixar as suas confortáveis poltronas e os seus gabinetes geladinhos e olhar de perto, fora dos seus carros de luxo, a fome estampada nos rostos de quem esmola nos semáforos, praças e canteiros. Há mulheres com crianças pequeninas, sofridas, desnutridas, implorando a caridade dos que podem ajudar e não ajudam. Porque muitos dos potentados desta província, infelizmente, viram o rosto diante dos infelizes.

“Ah, senhor cronista, essa fome toda não é só neste município”, dirá alguém no espaço reservado à opinião do leitor. Eu sei disso. Todos nós sabemos, embora certas pessoas prefiram fingir que não estão vendo nada. O Brasil das camadas inferiores vem padecendo em demasia nestes últimos anos. São quase vinte milhões de brasileiros passando fome e quinze milhões de desempregados.

Mesmo nesta residência estragada do subúrbio, com todos os indícios de um morador sem recursos ou haveres, aqui e acolá um cristão aproxima a cara dos combogós do muro, bate palmas e grita: “Ô de casa!” Vou atender, sem abrir o portão, e deparo com alguém pedindo qualquer tipo de auxílio. Às vezes é uma idosa, um idoso, ou mãe com um ou mais filhos pequenos em sua companhia. Isso me dói no coração e na alma. Abro o armário, a geladeira, e lhes ofereço algo.

— Que Deus lhe abençoe — agradecem.

Aqui, portanto, entre estas paredes velhas, torno a refletir: sou um privilegiado, um homem de sorte, apesar de certas privações e da minha gangorra psicológica. Disponho de um velho computador, que vem caducando há vários anos, uma TV, telefone, internet, um fogão que quase não uso, uma motocicleta e os meus poucos e empoeirados livros numa estante. São o meu futuro espólio.

E aquelas pessoas desassistidas, possivelmente sem um teto, o dia todo à mercê da benevolência de terceiros, expostas a um sol forte, sem um banheiro que porventura precisem utilizar? Uma tarde, ao parar no semáforo defronte ao cemitério São Sebastião, eu vi quando um homem desses que exibem cartazes apanhou do chão o que me pareceu ser uma manga apodrecida, tirou a terra com as mãos e começou a comê-la. Outros mais reviram lixeiras de supermercados e restaurantes.

Não há boa vontade dos que efetivamente poderiam agir. A Petrobras, que tem um papel social no seu quadro de ações, não se mexe, não põe a cara fora. Temos duas grandes indústrias de cimento aqui bem próximo, além de ricos proprietários de postos de combustíveis, segmentos estes que faturam alto em nosso município, contudo se preocupam apenas em se tornarem ainda mais ricos.

Deus, aparentemente, também não tem feito nada em favor dos que estão aí pelas ruas em busca de uns centavos, sobretudo de alimento. Mas Deus não falha e está vendo, não se enganem, a sovinice, avareza e falta de compaixão dos ricaços, dos potentados, abastados e políticos desta cidade. Sei que no Brasil inteiro a situação não é diferente, repito, porém me atenho ao torrão onde nasci há meio século. É necessário, e com urgência, que outros escribas e vozes se levantem.

Como sermos felizes, estarmos com as nossas consciências leves, quando vemos tantas pessoas suplicando por uma refeição? Não podemos simplesmente dizer para nós mesmos que não temos nada a ver com isso, lavar as mãos, virar o rosto, ignorar. Então, senhoras e senhores, que o espírito natalino toque os nossos corações e nós possamos abrir a carteira e estender a mão aos necessitados.

Mas não só porque Deus está vendo tudo.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 28/11/2021 - 09:16h

O sonho do carro zero

Por Marcos Ferreira

Naquela manhã, ao deixar o marido e a esposa grávida à porta da maternidade, o senhor Domingos estacionou o velho Fiat Uno e atravessou a rua para servir-se de um café e fumar um cigarro no quiosque da praça.

Era por volta das sete e meia. Três sujeitos estavam por ali conferindo na tevê do quiosque a partida entre a seleção masculina de futebol do Brasil e o time do Egito, que disputavam uma vaga na semifinal nas Olimpíadas de Tóquio. Durante aqueles minutos, cigarro no bico, o senhor Domingos assistiu à partida. Reclamou da ausência de alguns jogadores e retorquiu a convocação de outros.marcos-ferreira-julho - Papangu na Rede - O sonho do carro zero

— Eles tinham que ter liberado o Pedro.

Um tipo baixote e vermelho alfinetou:

— O senhor só pode ser flamenguista.

— E daí?! — reagiu tragando o cigarro.

— Se pudessem, vocês empurravam o Flamengo inteiro com o uniforme da Seleção — disse outro vestindo camisa do Vasco.

— É muito melhor do que esse seu time de segunda divisão — devolveu o taxista de imediato, com um sorrisinho tripudiante.

Um rapaz cheio de tatuagens interveio:

— Hoje o Palmeiras é muito mais time.

O senhor Domingos ia se emaranhando naquela picuinha futebolística, quando súbito o telefone tocou no bolso da sua camisa. Consertou os óculos no alto do nariz e identificou a chamada. Um vizinho e cliente, com quem ele se acertara na noite passada, o aguardava para uma corrida até a rodoviária.

Sessenta anos de idade, há vinte e cinco na profissão de taxista, o senhor Domingos adquirira a confiança de muitos, notadamente pelo seu perfil simpático e educado, respeitoso, sobretudo, com suas passageiras.

A razoável clientela chegava para acudir o orçamento da casa, obrigações com esposa e filhos recém-chegados à maioridade, e conseguia reservar uma grana para cobrir a parcela do consórcio do sonhado carro zero.

— Quanto foi meu cafezinho? — perguntou.

— Um real — respondeu o dono do quiosque.

Com apenas duas portas, adquirido com alta quilometragem e sem alguns luxos como direção hidráulica, vidros elétricos nem ar-condicionado, o táxi do senhor Domingos, ano 1985, dava sinais de extenuação.

Não raro encostava numa oficina mecânica. Isto apesar de todo o zelo e carinho do proprietário, que cuidava tão bem da sua ferramenta de trabalho quanto da família. Algumas vezes, em tom espirituoso, a senhora Berenice, a esposa, dizia que o marido gostava mais do carro do que propriamente dela.

Quando alguém da família ou um amigo mais íntimo, também em tom espirituoso, fazia um comentário desabonador sobre as condições do padecido Fiat Uno, Domingos não se abalava e respondia bem-humorado:

— Ora essa! Meu carro não é velho, não. Trata-se de um automóvel ainda jovem, com apenas trinta e seis aninhos de idade.

Naquela manhã de julho, enquanto se encaminhava à residência do cliente que tencionava levar à rodoviária, o senhor Domingos topou com uma forte e repentina chuva, fato este que o obrigou a fechar as janelas.

Logo o vidro começou a embaçar e ele dirigia acenando uma flanela contra o vidro, posto que o limpador de para-brisa estava sem funcionar. Diante da pressa e da visão embaçada, ele calculou mal a proximidade de um caminhão ao cruzar a BR-304. A Moça da Foice pegara carona no velho Fiat.

Ao ser retirado das ferragens, o telefone voltou a tocar sobre o peito do senhor Domingos, agora mudo. Um policial do Corpo de Bombeiros ouviu a chamada e achou por bem atender. Podia ser alguém da família:

— Alô — disse o militar num tom grave.

Na outra ponta da linha uma voz feminina:

— Senhor Francisco Domingos, bom dia! Olha, estou ligando para lhe informar que o senhor foi sorteado em nosso consórcio. É isso mesmo. O senhor acaba de ganhar o seu tão esperado carro zero. Parabéns!

— O senhor Domingos não pode atender.

— Preciso dar essa notícia. Ele ficará feliz.

— Não… O senhor Domingos morreu.

Na tarde seguinte, cercado por muitos familiares e amigos, o senhor Domingos foi sepultado junto com o sonho do carro zero.

Marcos Ferreira é escritor

  • Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede.
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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 21/11/2021 - 10:48h

Garimpeiros da fome

Por Marcos Ferreira

São nove e quinze. Agorinha caiu uma garoa. O tempo segue nebuloso. Deve chover novamente. Estou aqui fora do supermercado, à espreita de um cliente que me queira dar umas moedas pela limpeza do para-brisa, pois me vejo sem emprego há quase dois anos. Daqui observo quatro seres desprotegidos.

Imagino que a esta hora da noite, se tivessem o que comer, estariam em casa, talvez assistindo a uma telenovela ou vendo a partida do Flamengo contra o Grêmio. Isso mesmo. Hoje tem jogo do Brasileirão, transmitido pela TV aberta. Falo dessa maneira, claro, supondo que aqueles indivíduos possuam um lar e até um modesto televisor.marcos-miseria2-758x498

Ciranda de mosquitos, ratos ocasionais, baratas em polvorosa com suas asas envernizadas. Detalhes! O homem ignora tudo, prende a respiração devido ao odor das embalagens de carne apodrecidas. Tem estômago forte e olhos aguçados de garimpeiro urbano, bateador de refugos. Sempre é possível encontrar algo aproveitável nessas lixeiras de supermercados. Quiçá um pacote de biscoitos avariado, uma fruta machucada, um saco de pães com um tiquinho apenas de mofo.

Estimo que seja uma família: ele, a esposa e duas crianças na faixa dos seis e oito anos, um menino e uma menina. Rostos com máscaras de pano, os quatro reviram as lixeiras desse supermercado onde ora me encontro também na expectativa de conseguir algum para os meus. Pois é, tenho um menino de dez anos e uma mocinha de treze. Desde que os jornais impressos faliram, aniquilados pelo advento da Internet, com seus blogues e portais eletrônicos, enfrento perrengues. Não mais consegui me manter como revisora de textos, eis a minha antiga ocupação.

Perdoem se acaso acham que falo demais de mim e não das pessoas que revolvem as lixeiras. É que me encontro num nível não muito acima deles. Logo, por tabela, sou partícipe desse flagelo social. Tenho intimidade com os percalços por que passam esses brasileiros repelidos e marginalizados pelo sistema econômico desta “pátria amada”. É o que estou dizendo. Enquanto mãe solteira, sou protagonista dessa intolerável e vergonhosa história de exclusão e desigualdade.

Sou autodidata. Um dia aprendi a ler e nunca mais parei. Não possuo curso algum de nível superior. O mais alto que cheguei foi na conclusão do ensino médio, via provões supletivos, quando eu estava prestes a completar quarenta anos de idade. Atualmente estou com quarenta e sete, embora pareça ter bem mais. Sou a primogênita de uma prole de onze filhos de pai e mãe analfabetos. No meu tempo, com tantas bocas para alimentar, meus pais viam nossa educação escolar como uma espécie de luxo, algo não essencial ou prioritário. Não àquela época.

Opa! O garotinho encontrou alguma coisa. Parece uma barra de chocolate estragada. Meu Deus! Ele começou a comer. Agora a irmãzinha se aproxima, e o menino divide o achado com ela. Não há como não me lembrar daquele poema do Manuel Bandeira. Atualíssimo, infelizmente. O pai e a mãe estão debruçados sobre outras lixeiras próximas, compenetrados, e nem se dão conta de que os pequenos comem essa droga de chocolate, que decerto lhes fará algum mal.

Família negra, subnutrida, possivelmente sem nível algum de escolaridade. Os quatro vestem andrajos e parecem sem banho não sei há quanto tempo. Agora creio que sejam sem-teto. Gente assim não tem lugar nem dia certo para tomar um banho. Quantas outras privações não têm passado? A essa hora revirando lixeiras. Que lástima, meu Deus!

Ah, Brasil injusto, desigual! São quinze milhões de desempregados e quase vinte milhões de brasileiros curtindo fome nos quatro cantos do País. Por que, Senhor, tão poucos com tanto e tantos com tão pouco?!

Essa pandemia medonha amplificou o drama da fome, não resta dúvida, gerou desemprego em toda parte, colocou a todos nós de joelhos, contudo é o descalabro desse governo que ora nos desgoverna que vem dando o golpe de misericórdia. Caminhamos a passos largos para ultrapassar a triste marca dos seiscentos mil mortos pela Covid-19, enquanto o Nosferatu da Casa de Vidro faz pouco-caso da crise sanitária e zomba das famílias enlutadas olímpica e impunemente.

Ignorar ou omitir a criminosa contribuição que esse governo oferece para agravar a fome no Brasil, em parceria com o vírus e o desemprego, seria uma postura não menos criminosa. Não posso fazer de conta que não estou compreendendo o que se passa nem usar de eufemismos como “insegurança alimentar” ou “famílias vulneráveis”. Não, senhoras e senhores, o que mais agride o povo carente deste país é, sem uso de metáforas, fome! Muita fome! Uma fome nua e crua como essa que hoje à noite revira lixeiras de supermercado à procura de comida.

Fome dói, senhoras e senhores. Não afirmo isso por osmose ou dedução, mas por conhecimento de causa. Sei bem o que é passar necessidades, amanhecer o dia sem ter o que comer. E, ao contrário da famosa Amélia, com todo o respeito aos mestres Mário Lago e Ataulfo Alves, eu não achava isso nem um pouco bonito, por mais poético que essa tragédia possa parecer na letra e melodia de uma bela canção. A fome é uma coisa triste e feia; arrasa as pessoas, sepulta sonhos.

A mulher também encontrou alguma coisa entre os mosquitos e as baratas vermelhas. Parece que se trata de uma bandeja de iogurte. Está pingando. Ela mostra a mercadoria ao marido com um sorriso vitorioso. A menina e o menino se aproximam da mãe, na expectativa de que a genitora lhes ofereça um pouco.

Quem sabe os produtos estejam em condições razoáveis, com o revestimento de um ou outro potinho furado. Às vezes alguns clientes mal-educados violam esses laticínios nas seções refrigeradas e aí o supermercado descarta o produto sumariamente.

Como era de se esperar, a mulher divide os potinhos com as crianças. Ela própria experimenta um. Que perigo, meu Deus: ambos usam o dedo indicador como colher. A jovem senhora oferece um potinho ao marido, porém este meneia a cabeça com uma negativa, e continua a garimpagem famélica. Ainda não encontrou nada, mas é provável que também ache alguma joia dessas, a exemplo da bandejinha de iogurte e da barra de chocolate descobertas por sua família.

Um funcionário do supermercado se aproxima com um carrinho cheio de coisas para jogar nas lixeiras. O garimpeiro sorri confiante.

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede (Setembro de 2021)

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Categoria(s): Crônica
domingo - 14/11/2021 - 07:34h

Triste fim de Gudãozinho

adesivo-de-parede-pata-de-cachorro-gato-com-coracao-2-carinhoPor Marcos Ferreira

Hoje escrevo sob forte emoção. Minhas mãos tremem mais do que costumam tremer. Meu coração está partido, lacerado. Impossível deter as lágrimas que minam dos meus olhos. Na manhã de ontem, após encontrá-la morta, enterrei Gudãozinho, minha gatinha querida e única companhia nesta casa agora ensombrecida.

Está sepultada no meu quintal. Neste momento, portanto, não tenho amenidades para contar. Estou de luto. A noite vai caindo angustiosa e tristonha.

Anteontem ela saiu para dar o seu habitual passeio noturno e não retornou. Já tarde, antes de ir dormir, chamei por ela várias vezes. Nada de ela aparecer. Costumava atender a esses meus chamamentos, pois sempre dormia dentro de casa. Não dormi direito. Na madrugada, nas vezes que levantei para ir ao banheiro, fui ao quintal e tornei a chamar por Gudãozinho. Inútil. Não apareceu.

Pela manhã, ao me ouvir chamando por Gudãozinho, a dona da casa aos fundos da minha me deu a triste notícia: Gudãozinho e mais dois gatos da rua de trás tinham amanhecido mortos por envenenamento nos quintais próximos. Fui à rua de trás pegar minha gata.

Uma mulher, tutora de um dos gatos mortos, veio falar comigo, os olhos inchados de tanto chorar. Disse-me que achava que o envenenamento foi proposital. De minha parte, ainda atônito, nem sei o que pensar.

O que sei é que minha Gudãozinho se foi com cerca de nove meses de idade. Tinha tanta vida pela frente! Recentemente fora submetida à cirurgia de castração e estava totalmente recuperada, esbanjava saúde e beleza. Quando não se entregava às suas sonecas do meio-dia, passava boa parte do tempo brincando, correndo aqui dentro e pelo quintal, puxando conversa comigo, ronronando.

Essa inesperada e saudável convivência durou seis meses. Resgatei-a da rua, como já falei noutro momento, faminta e com severa desnutrição, com idade aproximada entre dois e três meses. Após algumas idas ao veterinário, medicamentos, cuidados e carinhos, ela não demorou a se fortalecer. Agora tudo isso acabou. Restaram só as lembranças, as coisinhas dela dispostas em seus lugares, como as vasilhas com a água e a ração que ainda não tive coragem de recolher.

Todo dia pela manhã, bem cedinho, pulava para dentro da minha rede a fim de que eu lhe abrisse a porta da cozinha. No móvel empoeirado da televisão vejo que deixou gravadas as suas pegadas. As caixas com que ela gostava de brincar, a caminha e a caixa com areia continuam no primeiro quarto. Não toquei em nada. Parece-me (ao menos tenho a impressão) de que ela não morreu.

Tento, porém, encarar a realidade, o triste fim de Gudãozinho. Sua imagem está intacta na minha cabeça. Enxergo-a nitidamente: os olhinhos azuis e vívidos, a pelagem felpuda, toda branquinha como o algodão, exceto por alguns tons de cinza nas orelhas, nas extremidades das patas e da farta cauda.

Era muito comunicativa, chamava minha atenção o tempo todo com seu ronronar. Uma hora roçava nos meus tornozelos, daí a pouco disparava, punha-se a brincar, traquinas.

É isto. Não vou me estender. Não reúno condições para continuar escrevendo, embora o meu coração esteja cheio de sentimentos para desabafar. No mais, portanto, me faltam palavras para descrever o quanto estou triste pela morte de Gudãozinho. Que o prezado leitor e a gentil leitora, ao menos hoje, aceitem por crônica esta nota de falecimento. Agora preciso de alguns dias de luto.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 07/11/2021 - 04:30h

Pequeno luxo

Por Marcos Ferreira

Estou sozinho em casa e daqui não pretendo ir a lugar nenhum. Que importa que hoje ainda é quarta-feira e a vida lá fora urge, exige movimento, disponibilidade, trabalho e suor de todos. Não, não arredarei o pé. Muito menos em meio a este calor diabólico, infernal. Meu ventilador não aplaca o mormaço. O vento que ele produz é quente feito o de um secador de cabelo industrial. Supondo-se, claro, que existam secadores de cabelo industriais. Coisa bem pouco provável.

Ouço, como de costume, uma de minhas playlists com várias horas de blues. Acabei de fazer café e a cafeteira vai perfumando o ambiente com o aroma da rubiácea. Minha gata Gudãozinho, descansando sob a mesa da cozinha, vez por outra me encara com tédio e preguiça. Nesse horário, o que é absolutamente compreensível, nem ela está disposta a perseguir as lagartixas pelo quintal.casa, residência, moradia, construção civil

Os últimos dias, sob sol inclemente, em meio ao siroco, foram um exaustivo périplo por consultórios médicos e clínicas laboratoriais. Agora não quero contato com o astro-rei. Não ao menos lá fora, trafegando por estas ruas desarborizadas de Mossoró, sobre os paralelepípedos e o asfalto escaldantes. Ficarei aqui entre estas paredes velhas, sob este teto avariado pelos cupins, tomando um banho rápido de meia em meia hora, a porta da frente trancada; só a da cozinha aberta.

Cá estou com o Dom Quixote, óleo sobre tela, oriundo dos pincéis do Túlio Ratto. O cavaleiro da triste figura é testemunha deste calor insuportável neste princípio de tarde. Olho para a face do espanhol e tenho a ligeira impressão de que ele também transpira. Gudãozinho escancara a boca num bocejo extraordinário, abana levemente a cauda felpuda e apoia o queixo sobre a patinha.

Veículos (carros e motos) cruzam a Euclides Deocleciano de um lado para o outro. Levantam poeira. O ronco dos motores interfere no canto dos pássaros ao derredor de minha casa. Aonde vão essas pessoas em seus automóveis e motocicletas? Só podem ter compromissos inescapáveis, inadiáveis, para terem que sair a esta hora. Deveria ser proibido (quiçá uma lei municipal) o mossoroense circular por esta cidade debaixo de uma bola de fogo como esta que paira sobre nós.

Devo ficar em casa e não atenderei a ninguém que porventura bata palmas no portão, chamando ou não pelo meu nome. Não abrirei a porta. Darei o silêncio por resposta. O telefone está desligado. Nada de WhatsApp, Instagram ou Facebook. Muito menos informações sobre o esgoto político, a céu aberto, deste país. Pois eu preciso me desintoxicar. Ao menos durante o dia de hoje.

Um homem, qualquer pessoa, aliás, tem o direito de tirar um dia somente para si. Um dia assim para não se fazer coisa alguma. Exceto, no meu caso, escrever. Pois me convém escrever, embora suspendendo a redação de meia em meia hora para me demorar uns minutinhos sob o jato do chuveiro. Que calor dos seiscentos, prezado leitor e gentil leitora! Se escrevo, portanto, é por opção. Mas eu poderia estar largando dentro da rede, quem sabe assistindo a um filmezinho.

Todavia, como percebem, optei por escrever, ouvir blues e bebericar o meu café puro. Não tenho o hábito de dormir após o almoço, se acaso você me perguntar. Até porque meu almoço costuma ser o café da manhã. Não sinto fome logo que acordo. Também não tenho a menor intimidade com as atribuições alimentares de uma cozinha. Sobrevivo basicamente da geladeira e da cafeteira.

À noite, entretanto, vou à casa de Natália e lá sou brindado com uma refeição de verdade: arroz, feijão, cuscuz, carne, frango — a chamada comida de panela. Às vezes minha sogra faz sopa e eu tomo com muito gosto. Retorno por volta das vinte horas, engulo meus remédios e, enquanto Morfeu não se apodera de mim, vejo alguma coisa da Netflix, acesso este que me foi compartilhado pelo amigo Elias Epaminondas, ele que é o carioca mais mossoroense que conheço.

São treze horas e quarenta minutos. Eu até poderia jurar que Dom Quixote está mesmo transpirando. Deve ser, porém, o brilho da tinta ainda nova. Na representação de Túlio Ratto, que tem se revelado um bom pintor, o herói de Miguel de Cervantes parece um pobre-diabo sobre um cavalinho macérrimo. Estamos aqui, portanto, eu, Gudãozinho, Dom Quixote e seu cavalo desmilinguido.

Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Por exemplo, sequer me abalarei até a lotérica, no Centro, para fazer a minha aposta na Mega-Sena. Ouvi dizer que está acumulada em não sei quantos milhões. Dinheiro mais que o bastante para que eu abra mão desse meu auxílio-doença mixuruca e me torne um vagabundo profissional, como no dizer do poeta Manoel de Barros. Ficarei aqui no meu suadouro, sem ar-condicionado, contando apenas com este ventilador barulhento.

— São milhões — uma voz me sussurra.

Apesar do calor, o vento circula impetuosamente. Açoita a grande mangueira na residência aos fundos. Uma lufada quente e empoeirada adentra pela porta da cozinha. Cai uma porção de ciscos do teto, que não possui forro. Há poeira em toda parte, sobretudo nos meus poucos e desorganizados livros nas estantes de ferro. Sinto as micropartículas de areia entre meus dedos e o teclado.

Sem camisa, um colar de suor à volta do pescoço, sigo digitando. Penso se não é o momento de fazer outra pausa para mais um banho rápido. Sim, é o que farei. Depois, com a cuca e o corpo mais arejados, tomarei um novo trago de café e avançarei para outro parágrafo. Antes, todavia, decido concluir este raciocínio, ou parágrafo. Gudãozinho se estica toda e vai para o terraço. São precisamente catorze horas e cinco minutos. Careço quebrantar este suadouro. Até breve.

Bem, estou de volta, refrescado e com outra meia caneca de café. Usufruo, como venho narrando, do pequeno luxo de estar na privacidade do meu humilde lar. Hoje não trocarei esse recolhimento por nenhuma visita imprevista e inoportuna. Só botarei a cara fora bem mais tarde, lá por volta das dezoito horas, quando chegar o instante de ir à casa de Natália. Será este o ponto alto do meu dia.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 31/10/2021 - 07:46h

Começos arrebatadores

Por Marcos Ferreira

Como você decide qual a primeira palavra a ser escrita? Ouvi esta pergunta recentemente e não me lembro quem me fez tal indagação. Talvez eu a tenha lido em algum lugar. Ou foi por telefone, em conversa com algum amigo ou amiga cujo nome, infelizmente, não me recordo para lhe dar o merecido crédito. Minha memória, repito, é firme quanto um Sonrisal num copo d’água.

O fato é que a primeira palavra, às vezes uma simples letra, um artigo masculino ou feminino, é responsável por todo o texto que está por vir. Sem essa largada, continuamos no zero, a página inteira em branco. Portanto, trata-se do gatilho, da espoleta, da fagulha que vai libertar todo o pensamento represado. No mesmo grau de importância considero o primeiro parágrafo de um texto. Poucos são os leitores que seguem adiante após um início de história ruim ou medíocre.literatura, livro, livraria, poesia, conto, crônica, prosa, versoComo um anzol, digamos, você precisa fisgar o leitor já na largada, no comecinho da sua página. Esta que vemos em curso, por exemplo, também se submete aos ditames em questão: tem que atrair o interesse do leitor logo na saída. Dificilmente, numa livraria qualquer deste país e do planeta, o sujeito levará para casa uma obra que não conheça, a menos que se agrade do princípio.

Claro que isso de fisgar o leitor nas primeiras linhas é muito relativo. Em vários casos, ou na maioria deles, depende do gosto de cada pessoa por determinado estilo ou gênero literário. Mas vamos supor que você acabou de entrar numa livraria e, com grana para comprar apenas um livro, está a fim de adquirir algo novo, um autor e obra desconhecidos. É aí, pois, que o efeito azougue da escrita vai fazer a diferença, seja num romance, livro de contos, crônicas ou poemas.

Tem que ter aquela mensagem imantada, engenhosa, ou no estilo arrasa quarteirão. Seja por meio de uma frase poética, metafórica, ou através do velho recurso de tentar arrebatar o leitor à custa de um introito chocante, por vezes na forma de violência, como num disparo de arma de fogo, alguém que se lança do alto de um arranha-céu ou se enforca. Enfim, um cadáver já no abre-alas.

— Meu Deus! — podem se persignar.

A literatura nos oferece mil e uma possibilidades de narração de uma história utilizando o recurso de impactar o leitor. Sobretudo quando se trata de prosa fictícia, em particular nos romances e contos. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, que praticamente escrevem com sangue as suas narrativas carniceiras, como Rubem Fonseca e Stephen King, para citarmos apenas dois. Outros nos atordoam pela surpresa e conteúdo insólito, feito o escritor tcheco Franz Kafka.

Para mim, que tenho verdadeiro horror a baratas, essa largada de A Metamorfose é um dos começos de novelas mais assustadores e inescapáveis da literatura: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”. Embora sem especificar o tipo de inseto, a descrição da barata é imagética e repugnante.

Um dos começos de livros mais aplaudidos, e merecidamente, é o do clássico Cem Anos de Solidão, do Gabriel García Márquez. Diz ele: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. E quem pode resistir e não seguir em frente na leitura após se deparar com as primeiras linhas de romances como Insônia e São Bernardo, do mestre Graciliano Ramos?

Não terem dado um Nobel a Graciliano foi uma grande injustiça, posto que tantos autores discutíveis levaram tal prêmio da academia sueca. Temos aqui, em solo tupiniquim, inclusive entre meus contemporâneos, literatura de alto nível. Outro gênio da prosa de ficção, o nosso insuperável Machado de Assis, abre o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas com um parágrafo arrebatador:

“Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo”. Simplesmente genial!

Assim como o romancista, o contista e até o poeta, o cronista precisa fazer valer o seu reflexo de pescador. O peixe a ser fisgado, claro, é o leitor. A crônica deve ser atraente desde o título, que é o coadjuvante da isca, ou seja, as primeiras linhas. Ao contrário do que se dá com os livros nas livrarias, as crônicas expostas nos periódicos não contam com o chamariz de uma capa bonita.

— Mas ilustramos — dirá meu editor.

Sim. Porém o prezado leitor e a gentil leitora, que nem sempre concordam que uma imagem vale por mil palavras, esperam um texto que lhes salve o domingo (eis o nosso compromisso) da banalidade das páginas meramente jornalísticas, tão difundidas ao longo da semana. Deseja-se, então, que o cronista tenha algo de invulgar a oferecer, uma mensagem ou história (nem precisa ser real) que caia suave com os primeiros goles daquele café escoteiro tomado bem cedinho.

Daí a importância, num espaço tão eclético e ilustrado quanto o Canal BCS (Blog Carlos Santos) de nós cronistas botarmos a cara aqui todo domingo com uma narrativa capaz de atrair e manter o leitor interessado no que temos a contar. Tal conquista, volto a recordar, parte desde o título, mas, principalmente, ganha impulso a partir de um primeiro parágrafo de fato sedutor, cativante.

Isto significa que o final nem carece ser tão apoteótico ou estrondoso como um toque de gongo, contudo o leitor não costuma abrir mão de um começo arrebatador, envolvente. É aí, no mais das vezes, que está o sucesso ou fracasso do seu texto, seja ele um romance, um conto, uma crônica e até um poema mais longo. Você, por uma razão ou por outra, permaneceu comigo até este momento, e há de concordar com o meu raciocínio. Acredito, portanto, que iniciamos bem.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 24/10/2021 - 04:12h

Crítica negativa

Por Marcos Ferreira

Como todo operário da palavra, o cronista escreve pensando em determinado grupo de leitores. Em algumas ocasiões, feito agora, ele pensa num leitor específico. Na verdade, para ser sincero, hoje eu penso numa certa leitora que esses dias, por telefone, desferiu contra mim uma saraivada de reprovações às minhas crônicas. Leitora esta que, vez por outra, assina um texto desse gênero.

Trata-se de uma jornalista experiente, cobra criada, e que maneja medianamente bem o nosso idioma. Mas entende tanto de literatura quanto de engenharia atômica. A mulher, entre outros pontos que lhe desgosta, acha um grande saco (expressão dela) essa coisa de eu dialogar com meus hipotéticos leitores, referindo-me a estes por meio do vocativo “prezado leitor e gentil leitora”. Pois é, a tal jornalista acha essa sintonia um negócio meloso, cacoete terrível, algo piegas.crítica, raiva, ira, verborragia, desaforo, grito, berro, verbo, falar, fala, voz,

Não sei até que ponto ela está certa ou errada. De repente, convenhamos, outras pessoas podem pensar assim. Esse ofício de cronista, a exemplo do que ocorre em qualquer ramo de arte, tem seus dias de glória e de fracasso, feedbacks bons e alguns bastante ruins. E estes últimos, se a gente não tiver humildade e convicção do que é e faz, podem sepultar a carreira de um autor inseguro.

São estes, digamos, os ossos do ofício. Claro que a jornalista, das mais competentes que conheço nesse ramo, não tem má vontade em relação a mim, não lhe passa pela cabeça o propósito de me fazer parar de escrever. Apenas, num rompante de sinceridade, desabafou. Notei que aquilo estava reprimido há um bom tempo, entalado em sua garganta, sem que ela tivesse coragem de me jogar na cara suas impressões acerca do meu exercício literário enquanto cronista.

Não sei, por sinal, o que ela acha da minha produção em versos e da prosa de ficção. O que dirá dos meus sonetos? Será que conhece e tem algum juízo sobre meus contos? Quem sabe esteja represando outros pareceres negativos e qualquer dia resolva me fuzilar com novo desabafo. Careço dizer, entretanto, que a crítica foi construtiva, embora suave como papel de embrulhar pregos.

— Vá tomar naquele canto! — disparou.

Isso me foi dito não de maneira rude nem chula, mas brincalhona, como é próprio da sua personalidade forte e sem muito asseio verbal. De fato, além de outros pontos que não me animo a citar, a questão do vocativo, do meu diálogo com os leitores, foi o que mais a tirou do sério. Espero que esta réplica não soe como revanchismo da minha parte, entretanto estou certo de que essa leitora, que possui inteligência acima da média, é bem pouco versada em matéria de crônicas.

Não quero me comparar aos monstros adiante, todavia, em se tratando de diálogo com os leitores, imagino que a competente e vocacionada jornalista curitibana nunca leu, sobretudo, as crônicas de Machado de Assis, de Rubem Braga, de Antônio Maria, de Fernando Sabino ou de Otto Lara Resende. Nem de José Nicodemos nem Dorian Jorge Freire. Se leu, não assimilou muita coisa.

É possível, e isso é absolutamente compreensível, que ela simplesmente não goste das minhas crônicas, do meu estilo ou falta dele. Pronto! Acabou-se! O que se há de fazer? Nada. Seria tão só uma questão de gosto, o que nem sempre é discutível. Há autores, nacionais quanto estrangeiros, tidos como mestres da literatura, de que eu, por questões muito pessoais, não gosto. Até os respeito e reconheço como nomes de relevo, porém, ao fim e ao cabo, não me agradam.

Que dirá um Ferreira (ou ferreiro) das letras. Ainda assim, modéstia à parte, por intimidade e ambiência com o mundo literário, possuo certo tirocínio e discernimento. Por exemplo, sei quando um jornalista com aspirações a escritor (ou a escritora) tem e quando não tem talento para a literatura de verdade. Há jornalistas que são ótimos escritores e vice-versa, outros são uma só coisa.

Conheço indivíduos que têm o dom do jornalismo, como é o caso da mulher com quem conversei ao telefone, porém não passam disso. Tais pessoas são craques no texto puramente noticioso, informativo, sabem fazer uma matéria benfeitinha, etc., entretanto, quando se aventuram no campo da literatura, dão com os burros n’água. Não têm talento para a escrita verdadeiramente literária. Até escrevem uns artiguetes bonitinhos, contudo ficam nisso. Feito minha leitora curitibana.

Repito que a crítica que recebi foi construtiva. Tanto que agora está me rendendo, goste ou não a sinceríssima jornalista, uma nova crônica. Porque até as críticas negativas que a gente recebe podem servir de aprendizado ou aprimoramento. Precisamos apenas aguentar o tranco, assimilar o golpe e tocar o barco. Que a minha amiga não se aborreça ao ler estas páginas a ela dedicadas.

— Vá tomar naquele canto! — não fui.

Imagino que a jornalista há de se reconhecer diante deste texto como se estivesse em frente a um espelho. Mesmo eu tendo lhe preservado o nome e o veículo de comunicação para o qual trabalha na capital paranaense. Talvez ela diga de si para consigo que “quem fala o que quer ouve o que não quer”, como reza o ditado. Mas acredito que ela, bem-humorada que é, levará isso na esportiva e dará uma de suas gostosas gargalhadas ao deparar com esta crônica que me inspirou.

Acho justo lhe render tal homenagem, ainda que se tratando de crítica negativa, embora construtiva. Pois lembro que já escrevi textos referindo comentários elogiosos que recebi de leitores por ocasião de narrativas publicadas no Canal BCS (Blog Carlos Santos) e na Revista Papangu, do Túlio Ratto. Hoje, após a morte dos veículos impressos, a Papangu ressurge em suporte eletrônico.

Pois é, prezado leitor e gentil leitora, fui desancado sem piedade. Entretanto, embora depois eu receba mais uma ligação implacável da minha amiga jornalista, aqui vai outra vez o vocativo que a transtornou. Não interromperei, em virtude de uma só crítica negativa, o meu diálogo com os amigos leitores. Ache ruim quem quiser. Sugiro que minha amiga curitibana vá ler Machado de Assis, Rubem Braga, Antônio Maria e outros ases da crônica nacional. É o remédio.

— Vá tomar!!!… — talvez ela repita.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
domingo - 10/10/2021 - 06:38h

Meu amor de salvação

Por Marcos Ferreira

Após não sei quantas publicações, eis que agora me dou conta de que não escrevi sobre a mais importante personagem que, vez por outra, menciono neste meu exercício de cronista. Pois é, não escrevi. Embora a tenha inserido nalguns textos prolixos acerca de assuntos vários, não a expus, todavia, como protagonista, com uma página apenas dela: minha adorável noiva Natália Maia.

Então, prezado leitor e gentil leitora, peço licença para discorrer, neste domingo de pássaros cantantes e céu azul, sobre alguém que, ao longo dos últimos seis anos (nosso namoro teve início aos 7 de setembro de 2015), só me tem dado alegria e orgulho de tê-la em minha vida. Exatamente! Se em outros momentos a enalteci em merecidos versos, que tornei públicos sem qualquer receio, hoje repito a indiscrição em prosa, nesta crônica de natureza tão pessoal quanto amorável.

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Foto ilustrativa de Bruno Marques (Canção Nova)

Sei do risco que corro, em se tratando do interesse dos leitores, ao abordar um assunto tão íntimo. Tem nada, não. Creio que possuo algum saldo com vocês. Se não, botem aí na conta, que qualquer dia eu pago esse débito literário. Hoje não me furtarei em falar sobre Natália, ela que, antes do meu editor, é quem primeiro lê todas as produções que publico. Exceto esta. Porque é surpresa.

Imagino que agorinha ela acabou de acessar o Canal BCS (Blog Carlos Santos), já tomada banho e decerto bebericando a sua xícara de café matinal, para saber enfim o que danado escrevi para este domingo, posto que desta feita (estranhando desde ontem as minhas esquivas) ela não viu meu texto em primeira mão. Sim, inventei algumas desculpas, escondi-lhe a verdade com esse propósito bem-intencionado, e mantive estas páginas longe dos olhos de Natália até bem pouco.

— Cadê a crônica, hein? — ela perguntava.

Neste minuto, porém, não há mais segredo. O pano caiu; estou a descoberto perante ela. Muito em seu louvor eu gostaria de dizer, contudo sei que nada do que escreva será o bastante para dimensionar as qualidades de Natália Maia, uma pessoa cujo caráter e senso humanitário poucas vezes se encontram em meio ao rebanho da vida em sociedade, como diria o querido amigo Antônio Alvino.

O que mais posso referir sobre Natália? Há tanto o que ser dito de bom a respeito dela, eu que sou o seu maior admirador, mas agora reparo que as palavras começam a me faltar. Acontece. Entre outras coisas, às vezes ela tem o poder, a sutil capacidade de me deixar sem argumentos. Por outro lado, e com firmeza, é a grande incentivadora das minhas letras, da minha escrita. É quem me diz (na saúde e na doença, na tristeza e na alegria) que tenho futuro enquanto escritor.

Não sou um sujeito religioso, nunca fui, entretanto ouso dizer que Natália é um anjo bom que Deus colocou em meu caminho. Hei de ir embora primeiro, sinto que não vim a este mundo caótico para me demorar, mas desejo viver ao lado dela todo o tempo que ainda me resta. Portanto, agradeço ao Altíssimo por todos os dias, horas e minutos que tenho usufruído da companhia de Natália.

Foi ela, com o facho de luz do seu lindo coração, com a aura de um espírito superior, quem me resgatou das trevas em que estive durante tanto tempo, desacreditado de todos e até de mim próprio. Natália, prezado leitor e gentil leitora, devolveu-me a alegria de viver, convenceu-me de que a vida vale a pena, e me trouxe de volta o prazer da escrita, da leitura, meu gosto pela música e pelo cinema. Exatamente, senhoras e senhores, não foi apenas o arsenal de psicotrópicos.

Cheguei ao fundo do poço, a ponto de passar noites amarrado a uma cama de hospício desta cidade, dopado, o corpo cheio de dores, num deplorável estado de semiconsciência e torpor. E quando eu estava lá, caído nas sombras, na sarjeta mental, foi dela a mão que me resgatou. Cuidou dos meus ferimentos e todo dia me ensina a conviver com as cicatrizes que ficaram na minha alma.

É difícil falar sobre esta Natália sem exibir um pouco do meu histórico, por mais que o objetivo destas palavras seja prestar uma simples homenagem à musa do meu coração. Penso que outras mulheres (não culpo ninguém por isso) teriam me voltado as costas, desistido de mim nos primeiros sinais da minha doença. Ela, contudo, não o fez, não me largou naquele manicômio. Apostou no meu restabelecimento, não fraquejou, a todo instante apoiada na sua infinda, inabalável fé.

— Você vai ficar bom! — sempre afirmava.

Por que expor aqui coisas tão íntimas? Alguém deve questionar. Não me constranjo, não há problema algum em sermos justos e verdadeiros. Não perco mais tempo com certos pudores e hesitações. Hoje tenho mais passado que futuro e quero dizer às pessoas — inclusive a Natália — o que penso sobre elas, ainda que publicamente. Deixar isso para amanhã pode ser para nunca mais.

Os pássaros cantam, redemoinham na mangueira da residência aos fundos, numa incessante babel que me serve de trilha sonora para este depoimento em homenagem a Natália. O vento também produz barulho nos ramos e folhas da grande árvore, impulsionando o voejar do passaredo ao redor. Então eu gostaria que este relato fosse leve como o vento, agradável e alegre como o canto desses seres alados que orbitam a velha mangueira da senhora Francisca, minha vizinha.

Não só da mangueira advêm as aves que ouço nas imediações. Aqui próximo, por trás das casas do outro lado da rua, passa um córrego (talvez seco nesta época do ano) de onde vez por outra, além do estrídulo das nhambus, escuto o que me parece o pio de uma sericoia e também das rasga-mortalhas. Sobretudo durante as eventuais horas mortas em que me encontro nesta escrivaninha.

Antes, durante um longo período, eu não mais me dava conta de nada disso, da vida que pulsava no meu entorno, das coisas simples e belas da natureza. Tive que reaprender a enxergar e a ouvir muito do que havia esquecido. Natália, que posso chamar de meu amor de salvação, sem pieguice ou exagero, tal qual no romance do Camilo Castelo Branco, é responsável por tudo de bom que me tem acontecido ao longo destes seis anos que abarcam o nosso namoro e noivado.

É possível que o prezado leitor e a gentil leitora considerem esta declaração algo açucarado, quiçá démodé. Podem achar o que quiserem. Estão no seu direito. Acontece, porém, que de amargo hoje em dia eu só estou aceitando café. No mais, ao menos em literatura, um pouco de açúcar, só uma vez perdida, não faz mal a ninguém. Até porque o amor também é doce e nunca sairá de moda.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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segunda-feira - 27/09/2021 - 06:52h
Marcos Ferreira

Um novo livro quase no prelo

Marcos: crônicas vão marcar a publicação (Foto: arquivo)

Marcos: crônicas vão marcar a publicação (Foto: arquivo)

Escritor e poeta premiado, Marcos Ferreira prepara um novo livro.

Podemos dizer que está quase no prelo.

Dessa feita, ele vai nos premiar com uma publicação no gênero da crônica, uma seara que também domina bastante e passeia sem temor.

Nada mais posso adiantar, apesar da vontade.

Marcos Ferreira é um dos integrantes do nosso time de articulistas e colaboradores dominicais cá no Canal BCS – Blog Carlos Santos.

Que seja bem-vindo seu novo rebento.

Ave!

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Categoria(s): Cultura / Gerais
domingo - 26/09/2021 - 06:18h

Guia turístico

Por Marcos Ferreira

Seja bem-vindo. Esta é Mossoró, a minha cidade. O ‘minha’, claro, é mera força de expressão; mais pertenço que possuo. Bom, eis a famosa Mossoró, terra da liberdade, conforme apregoam há quase um século. Município este que, segundo a lenda, expulsou o destemido Lampião e justiçou o também cangaceiro Jararaca quando os fora da lei invadiram esta província lá pelos idos de 1927.

Particularmente, embora os doutores do cangaço torçam o nariz, não me orgulho nem um pingo dessa história de brabeza de Mossoró. No fim das contas, depois de tanta chuva de bala, os bandoleiros dominaram esta comuna na trincheira da cultura. Sim.

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Mossoró em um trecho do seu centro urbano, com destaque à Capela de São Vicente (Foto: Giovanni Sérgio)

Hoje ninguém mais fala nos resistentes, mas tão só no bando de salteadores. Olhe ali, por exemplo, o espaço denominado Arte da Terra: dois bonecos gigantes de Lampião e Maria Bonita bem na frente, dando boas-vindas.

Isto sem falarmos num Memorial da Resistência que não resistiu à tentação de oferecer mais destaque aos invasores do que aos defensores. Hoje em dia, sendo otimista, talvez apenas uma dúzia de nomes que defenderam este fim de mundo à época do ataque ainda seja lembrada pelos mossoroenses de um modo geral, como o então prefeito Rodolfo Fernandes. Pudera, trata-se do prefeito.

Outra coisa. Jararaca, ferido com um balaço e enterrado ainda vivo no São Sebastião, de acordo com alguns historiadores, foi alçado à condição de santo milagreiro pelo povo desta cidade e adjacências. É o que estou dizendo. O sujeito passou de facínora a santo da noite para o dia. A sua cova no São Sebastião é simplesmente a mais visitada no Dia de Finados. Já o túmulo do herói Rodolfo Fernandes, sepultado no mesmo cemitério, salvo exceções, ninguém sabe onde fica.

Aquele prédio imponente ali era o glorioso Cine Pax, ora transformado em loja de roupas. Foi inaugurado em janeiro de 1943 e funcionou por mais de seis décadas. Fechou de vez as portas no ano de 2008, se não me engano. Assisti a ótimos filmes nesse importante símbolo da vida cultural mossoroense. O ponto alto do fim de semana das pessoas do meu tempo era ver um filme no Pax.

Cuidado com a moto! Melhor subirmos na calçada. Nosso trânsito é um bicho traiçoeiro. Aqui não se pratica direção defensiva, mas predatória. Alguns donos desses carrões, sobretudo, só faltam passar por cima da gente. Parece até que eles têm aversão a pedestres, a ciclistas e motociclistas. Tipos arrogantes, tanto os condutores dos carrões quanto os motoqueiros. A maioria vira para um lado e para o outro sem ligar a seta. Em especial os referidos donos dos carros luxuosos.

Está quente, não? Pois bem, meu amigo. Mossoró, entre outras características, é a terra do calor, do siroco em tardes mormacentas como esta e de eventuais madrugadas com uma cruviana gostosa. Durante o inverno, quando há, é uma maravilha, apesar do Centro alagar com facilidade. As noites costumam ser bastante aprazíveis, e os bairros periféricos ficam cheios de cadeiras nas calçadas.

Esta é a Praça Vigário Antônio Joaquim. Mas o busto do vigário se encontra escondido naquela pracinha ao lado da Catedral de Santa Luzia. Por incrível que pareça, a enorme estátua que você está vendo no centro da Praça do Vigário não é do vigário. Esse é um monumento em homenagem ao ex-prefeito desta urbe e ex-governador do Rio Grande do Norte Jerônimo Dix-sept Rosado Maia, que morreu no auge da carreira política em acidente aviatório no ano de 1951.

Como eu disse, ali é a Catedral de Santa Luzia, onde os fiéis curvam os joelhos com peditórios ao Todo-Poderoso. Em geral, apesar da nossa estatística de homicídios ser uma das maiores do planeta, o mossoroense é um povo religioso, com supremacia católica. Aqui predomina a política do olho por olho, dente por dente, contudo as pessoas morrem de medo de ir parar no Inferno. Então, como se buscassem uma espécie de habeas corpus celeste, correm para os pés de Jesus.

Vamos para o outro lado. Que calor, hein? Mossoró não é para amadores, nem para turistas desavisados. Beba sua aguinha gelada, se ainda estiver gelada. Ali é o Mercado Central, primeiro shopping de Mossoró. Eu e meus irmãos ficávamos animadíssimos quando chegava o domingo e meu pai nos trazia, antes do sol raiar, para fazermos algumas compras no Mercado. Era uma festa!

Tempos idos e vividos. Tenho saudades de muita coisa daquela época, embora o pão fosse tão caro e a liberdade pequena, como no poema do Ferreira Gullar. Hoje, entretanto, o pão voltou a custar muito caro, e a liberdade vive sob constante ameaça, se me faço entender. Mas voltemos ao pujante Mercado de outrora. Fico com a boca cheia d’água só de me lembrar do pastel quentinho, feito naquela horinha, que a gente devorava com um copázio de vitamina de abacate.

Quando não era uma abacatada com pastel, traçávamos uma panelada com molho de pimenta-malagueta. O bucho ficava em tempo de espocar, e o suor porejava na testa. “Caiu na fraqueza”, dizia meu pai caçoando de mim e dos meus irmãos. De outra feita, menino já taludo, trabalhei algumas vezes no entorno do Mercado, pastorando as bicicletas da clientela para descolar uns tostões.

Agora quero lhe mostrar o Teatro Municipal Dix-huit Rosado, suntuosa construção que homenageia outro político da tradicional família Rosado e também ex-prefeito desta província, morto no ano de 1996. Jerônimo Dix-huit Rosado Maia, isso é algo fácil deduzir, é irmão do ex-governador Dix-sept Rosado, cuja impressionante estátua, como o senhor constatou, se encontra no meio da Praça do Vigário. Aí está, portanto, o Teatro Municipal, palco da cultura mossoroense.

Veja aquela casa de drinques do outro lado da rua, na Avenida Rio Branco. Ali, durante uns bons anos, funcionou a Livraria Café & Cultura. Lugar excelente, ponto de encontro da intelectualidade local. Escritores, jornalistas, poetas, historiadores, médicos, advogados, professores, juízes, arquitetos, artistas, enfim, toda uma constelação pensante ocupava as cadeiras e mesas da Café & Cultura.

Era uma livraria como hoje não mais existe neste município, administrada e mantida pela senhora Ticiana Rosado. Nesse endereço, permita-me a autopropaganda, fiz o lançamento da primeira edição do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que contou com público expressivo. Foi no ano de 2006.

Atualmente, ouso dizer, no tocante a uma livraria de verdade, com amplo acervo de autores e obras, disponibilizando um bom café para a clientela, estamos órfãos.

Bem, acredito que o senhor está cheio desse papo de letras. Vamos agora a um reduto não menos cultural e emblemático desta aldeia: o Alto do Louvor. Já ouviu falar no Alto do Louvor? Não?! Então, meu caro, apresentá-lo-ei, como diria, cheio de mesóclises, o missivista federal Michel Temer. Trata-se do berço recreativo e sifilítico deste fim de mundo. Mal comparando, vir até aqui e não conhecer o Alto do Louvor é mais ou menos como você ir a Roma e não ver o Papa.

Alto do Louvor é a nossa extinta zona de meretrício. Muitos dos nossos ilustres e respeitáveis homens (não foi o meu caso!) foram iniciados sexualmente nesse antro do amor remunerado. O antes glamouroso Alto do Louvor fechou as portas há muito, porém a lenda das suas casas de tolerância e mulheres de vida nada fácil sobrevive até hoje no imaginário popular como uma ferida benigna.

Beba mais água. O senhor está ofegante.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Crônica
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