Por Marcos Ferreira
Passaram-se mais de dez anos, talvez uns quinze, sem que me veja acometido por uma clássica dor de cotovelos. Dor de amor, roedeira, se me faço entender. Sim. Às vezes a mulher, ou o homem, chega para o outro ou a outra e diz solenemente, com aquela cara de que não se trata de coisa boa: “Precisamos ter uma conversa.” Aí bate logo um gelo, um friozinho na barriga. O sangue nos foge das faces. Em seguida, conforme desconfiamos, o assunto é mesmo de alta gravidade.
A pessoa nos olha com expressão de pena, as palavras custam a sair, mas enfim desembucha, põe tudo às claras. Não dá. Decidiu que o relacionamento não tem mais sentido algum, que é preciso colocar um ponto final. Acabou o amor. Pede desculpas, mas sustenta que é melhor assim. O olhar se desvia com frequência. Exibe dificuldade de nos encarar. Trata-se de algo muito difícil para se dizer e também de se ouvir. O cara ou a fulana desmorona intimamente. Perde-se o chão. A partir desse instante a pessoa rejeitada já começa a viver um luto devastador.
Não faz tempo escrevi a respeito dessa tragédia chamada separação. Volto a bater na mesma tecla porque tenho a desconfiança de que deixei de abordar certos pontos. Há alguns meses três casais com quem tenho afinidade romperam a relação. E nos três casos foram as mulheres que decidiram terminar.
Não é mole. Principalmente quando o lado excluído da vida de quem rompe nutre absoluto amor por quem optou pelo desquite, divórcio, etc. O coração fica em frangalhos. Não tem jeito. Nenhum argumento é acatado pela criatura que está nos largando. Pior ainda quando a pessoa vítima do desamor precisa juntar o que lhe pertence, os objetos pessoais, e deixar a residência. É isso. Na maioria dos casos é o homem que tem que pegar a porta da rua. O tipo, emocionalmente falando, fica ao rés do chão. Sente-se desimportante como o cocô do cavalo do bandido.
Em nenhum dos três casos o sujeito foi trocado por outro. Não. As mulheres apenas chegaram para os ex-maridos e comunicaram que o motivo do rompimento foi simplesmente porque não gostam mais deles.
De um modo ou de outro, digo com propriedade, a rejeição machuca, fere o peito e a alma. Isso me lembra uma música do Chico Buarque chamada “Atrás da porta”. Como diz a letra, o camarada fica sem acreditar. Insiste na argumentação, rasteja, pede que ela não se precipite, que lhe dê uma chance. Não há remédio. A bem-amada está resoluta. Só resta ao elemento juntar suas coisas, seus pertences, e partir. A mulher, como se se livrasse de um fardo, respira fundo, feliz consigo.
Ainda jovem, com a beleza preservada, ela sabe que qualquer dia encontrará um outro homem e se apaixonar de novo. Por enquanto, sobretudo se o casal tem filhos, ela ficará quietinha, dedicar-se-á (perdoem a mesóclise) à criança ou crianças. Compreende, no entanto, que mais cedo ou mais um estranho vai olhá-la dos pés à cabeça, sorrir de um jeito encantador e lhe dirá algo decisivo.
Nessas situações, feito me ocorreu, não há o que se possa fazer. Exceto viver um luto que vai durar por tempo indefinido. É o fim da linha para o casal outrora tão apaixonado. Como diria o saudoso humorista Espanta, tenho mais experiência em ser descartado do que a Caixa Econômica com poupança.
Marcos Ferreira é escritor






































