Por Marcos Ferreira
Quando apago a luz, com a escuridão minimamente reduzida por uma luzinha amarela plugada em uma tomada do quarto, vem-me à cabeça um sem-número de pensamentos. Assim deve ocorrer com muitos indivíduos que padecem, sobretudo, de insônia. Ou têm a consciência pesada por algum motivo. Entre a minha profusão de pensamentos, contudo, estão alguns de revolta, ideias destrutivas e também um sentimento de gratidão por ao menos estar vivo, por não rolar na sarjeta deste município como tantos por aí. Fico me virando de um lado para o outro da cama aguardando os remédios me apagarem, me vencerem.
Por vezes imagino que não pertenço a este mundo. Não a este universo de tanta gente poderosa, insensível e perversa. Sim, coisas desse tipo. Desconfio de que não sou deste planeta. Possuo enorme dificuldade de me ajustar, de me adequar ou me enturmar com a manada conhecida por sociedade. Para ser franco, não tenho o menor interesse de me encaixar, de fazer parte dessa multidão que passa mais tempo nas redes sociais do que conectada com sua verdadeira identidade.
Não são muitos os tipos com os quais fico confortável, feliz por estarem à minha volta. Existem outros que, em número um pouco menor, estão longe fisicamente, todavia sinto um bem-estar reconfortante por saber que esses amigos e amigas me têm sincero apreço e manifesto carinho. Pois é, o meu círculo de amizades não é grande. Pequeno, aliás. Volta e meia, para a minha alegria, um ou outro dá o ar da graça e vem aqui tomar um cafezinho comigo, trocar umas ideias.
Um homem tem que saber discernir, distinguir entre o ser e o ter. Não quero com isso sugerir que não é possível conciliar as duas coisas. O problema é que grande parcela da humanidade tem maior interesse em possuir bens materiais do que adquirir um bom caráter, ser fraterno e humilde de espírito. No afã de possuir, portanto, muitos acabam possuídos pela fixação de acumular dinheiro. O capital é o deus do próprio umbigo. Há alguns sujeitos que têm maior zelo com o carro do que com suas esposas. E o fato de o veículo ser financiado em cinco ou dez anos não importa, é um mero detalhe.
O que conta (não só para os marmanjos) sãos as aparências, o status. Outra parte desses caracteres, à custa realmente de esforços e incansável obstinação, tornaram-se baludos, têm panos para as mangas. Outros nasceram em berço de ouro, herdaram expressivo patrimônio e de fato podem ostentar, arrotar riqueza. Um homem, a exemplo de seus congêneres, precisa valorizar menos suas contas-correntes do que, por exemplo, aqueles invisíveis rapazes que recolhem sacos de lixo de nossas calçadas.
Um gari merece toda a nossa admiração e reconhecimento. Do mesmo modo devemos estimar e ter especial deferência com os coveiros, esses trabalhadores que mais cedo ou mais tarde vão nos cobrir com boa quantidade de terra. Sou a favor de que sejam criados o dia do gari e também o dia do coveiro. Tenho profundo respeito por essas duas categorias de trabalhadores. Criamos o dia do poeta, dia do escritor, dia disso e daquilo outro, entrementes não se faz a devida homenagem ao pessoal que leva embora o nosso lixo muitas vezes podre. Os coveiros, ao contrário dos garis, fazer o papel inverso. Pois cuidam da semeadura de nossas carcaças.
Paga-se mal (às vezes com atraso) essas duas categorias tão imprescindíveis. Ache ruim quem quiser, porém exemplifico que não considero certos vereadores parasitas mais necessários do que um gari e um coveiro. O que seria de nós sem essa mão de obra crucial e, repito, invisível? São coisas dessa espécie que às vezes me vêm à cabeça quando estou esperando o sono chegar. Neste minuto esqueço os coveiros e garis e confiro o relógio do computador. Já passa da hora de tomar os meus psicofármacos e de sepultar esta crônica de perfil iconoclástico quanto pessimista.
Marcos Ferreira é escritor













































