Por Marcos Ferreira
Penso agora no tempo dos primeiros passos, os avanços que demos. É isso. Poderia ter se livrado de mim naqueles anos do Facebook. Teria pulado uma fogueira, como se costuma dizer. Mas não, ela não me ignorou na rede social do Mark Zuckerberg nem quis pular a tal fogueira. Algo em mim, de modo recíproco, agiu de um jeito que fomos passo a passo nos aproximando. Continuou me dando fôlego, a encorajar os meus sutis e dissimulados galanteios, certas atitudes, fagulhas de ousadia. Coisa discreta, com disfarce, subjacente tipo assim uma brasa ainda viva que arde por baixo das cinzas.
O clima foi melhorando, ganhando afeições, encantamento, elogios moderados. Até que um amigo comum nos apresentou em certa ocasião. Um seu colega de trabalho que enfeitou ainda mais este pavão desimpedido àquela época.
Com pouco já havíamos adquirido certo entrosamento, trocamos afinidades. Vieram alguns elogios (todos recíprocos) e, quando me dei conta, nossos números telefônicos estavam compartilhados. Devagar transcendemos a rede social do americano cheio da grana. O celular, que naquele tempo era bastante caro, tornou-se o elo, o meio pelo qual um dia estreitamos laços. Não revelarei aqui o dia, porém informo tão só que foi em um feriado nacional quando em uma noite de setembro nos colocamos cara a cara. Isso já tem dez anos. Aí todo o cerca-lourenço findou.
O jogo foi aberto, tudo posto às claras, e a pequenina brasa do desejo já estava exposta. Então nunca mais nos desgrudamos. Até parece que foi ontem. Alguns meses depois, infelizmente, surgiram tribulações, passei por grandes terremotos e maremotos existenciais, contudo ela não me largou, continuou ao meu lado, não pulou a fogueira do meu desgoverno. É isso aí, eu me encontrava desgovernado. Enfermo sem tratamento, sem diagnóstico.
Fui parar em um famoso e extinto manicômio deste município; minha situação se complicara, exigia uma medida extrema. Ainda assim não me virou as costas. Nossos amigos entraram na raia, deram apoio, todavia foi ela quem segurou a barra, continuou firme junto a mim. Não demorou e recobrei a razão, tomei remédios fortes e readquiri o prumo. Sigo em tratamento até hoje.
Ela foi (ainda é) o maior e melhor presente que ganhei na vida. Ora retomo este assunto, quem sabe esteja me repetindo, porque existem alguns momentos em que a rotina, a monotonia, concorre para que esqueçamos do quanto bonita e vencedora é nossa história. Uma história que merece ser escrita, louvada e enaltecida sempre que este coração disser que sou privilegiado por tudo. Outras recordações, a exemplo destas, poderão surgir novamente. Não cansarei de me repetir.
Marcos Ferreira é escritor











































