Por Marcos Ferreira
Volta e meia, coberta de razão, Natália me diz que estes meus escritos estão sem graça. Aqui, obviamente, a palavra graça quer dizer encanto. Estou de acordo. Há um bom tempo não me sinto “inspirado”. Não a ponto de trazer a lume páginas deveras atraentes e com boa carga de literariedade. Admito, pois, que ando assim nesta escrivaninha, vou capengando no gênero da crônica, que é considerado por alguns o patinho feio da literatura, categoria inferior. Exceto, por exemplo, quando se trata de trabalhos assinados por um José Carlos Oliveira, uma Rachel de Queiroz, um Rubem Braga, Ivan Lessa, Otto Lara Resende, Antônio Maria ou uma Clarice Lispector. Aí apenas o nome do indivíduo já confere à página uma aura de coisa benfeita.
Nesses casos, sem o menor vestígio de inveja, digo que a narrativa pode ser medíocre, nada de muito extraordinário. Por essas e por outras costumo falar que nem as ostras produzem somente pérolas. Como qualquer mortal, esses astros e estrelas também deram à luz certas sensaborias. Trata-se, contudo, de escritores admiráveis, de elevado quilate.
Mais uma vez, ratificando o ponto de vista de Natália, pego um rumo, uma temática sem sal, um tema que tem todas as chances de falhar outra vez no tocante à boniteza. Admito que nos últimos meses, fazendo valer a minha autocrítica, já pensei em dar uma pausa, tirar umas férias do BCS — Blog Carlos Santos. A própria Natália, entretanto, é quem diz que não devo entregar os pontos, jogar a toalha. Esta peleja do Diabo com o dono do Céu, segundo ela, tem me feito bem.
Outra vez está correta. Escrever semanalmente estas linhas, ainda que a duras penas, e a anos-luz de um Antônio Maria ou Rubem Braga, representa um exercício de saúde mental. Mas esse tipo de terapia não se trata de algo cem por cento eficaz. Vocês (decerto não todos) viram o que aconteceu com autores célebres como o alemão Friedrich Nietzsche e o brasileiro Lima Barreto. Ambos, embora geniais, fritaram a cuca, caíram nas malhas da loucura.
Mesmo às voltas com a insanidade, feito vários outros artistas da palavra escrita, produziram literatura da melhor qualidade e se tornaram imortais, inesquecíveis, sem a frágil imortalidade de uma academia de letras. Virginia Woolf, Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Hilda Hilst e Ernest Hemingway, assim como outros escribas, lutaram (e perderam) contra a esquizofrenia, a bipolaridade, o alcoolismo e a depressão. Todos esses são figuras notáveis, excepcionais.
No que me diz respeito, por mais que não pareça, vivo na corda bamba (sem rede de proteção) de transtornos psicológicos que vou atenuando à custa de remédios psicotrópicos. Há um bocado de anos estou sob os cuidados do Dr. Dirceu Lopes, médico psiquiatra que também se submete a tratamento apropriado para manter um “arco-íris na sua moringa”, como na canção do Paulo Diniz.
Voltando às minhas crônicas, conforme devo reconhecer, as coisas não estão muito bem. Aqui, com uma parcela de enrolação, tento não deixar uma lacuna no elenco que meu editor estampa em seu blogue todo domingo, chova ou faça sol. Então, sustentando a peteca aos trancos e barrancos, sigo o estímulo de Natália, que não deixa de ser a leitora mais exigente que possuo. Estou certo, conhecendo-a como conheço, de que vai torcer o nariz para esta página indiscreta e de brilho fraquinho. Estou certo de que sim. Condenará o fato de seu nome vir à tona em um (sem falsa modéstia) texto medíocre. Ou mediano, para abrandar esta lenga-lenga.
O resto é tão só teimosia. Sabe aquele osso que não largamos por nada? Pois é. Insisto em conhecer o caminho das pedras. As palavras são pedras que vamos encontrando no meio do caminho e com as quais, palavras ou pedras, tentamos edificar nossa escrita. Ainda que isso nos custe a sanidade.
Marcos Ferreira é escritor











































