domingo - 20/05/2018 - 08:28h

Só a vontade coletiva


Por François Silvestre

Tempos de miséria dialética. A considerar-se tudo que se confronta, enfrenta-se, afirma-se e se nega.

Hegel resgata da era clássica a dialética empírica e lhe dá feição idealista. A lógica, então método usual, foi superada na investigação filosófica. Arquivamento dos silogismos.

Um discípulo de Hegel, Karl Marx, repensou a dialética e contestou Hegel. Dizia ele que Hegel acertara na superação da lógica, mas pusera a dialética de cabeça para baixo. E quem fora discípulo, agora era revisor.

Mesmo que os marxistas detestem o revisionismo, não foi outra coisa o que Marx fez com Hegel. Desvestindo a dialética do idealismo para dar-lhe compleição materialista. Aliás, nesse aspecto, Engels foi mais profundo do que Marx.

A negação dos marxistas ao revisionismo vem dos diversos momentos em que foi preciso justificar o poder, mesmo negando princípios originários do próprio marxismo.

Até Fustel de Coulanges, equivocadamente chamado de positivista, foi tachado de “precursor” do revisionismo. Daí negou-se a importância da sua obra clássica, “A Cidade Antiga”, que se debruçou sobre a religião, organização política e vida familiar nas Cidades-Estados da era Clássica.

É verdade que a dialética tem vida muito mais antiga do que Hegel e Marx. Aristóteles, Demóstenes, Heráclito de Éfeso são alguns ensaístas da dialética primitiva. Também operada por Tomaz de Aquino, na Escolástica. E arranhada por Santo Agostinho, na Patrística.

A tese, antítese e síntese superam e substituem as deficiências simplistas da lógica. Hegel tem o mérito histórico da sua transposição para o pensamento moderno. Marx e Engels cumpriram papel semelhante, na aplicação do método dialético ao pensamento político de transformação. Isto é, no materialismo histórico.

Cuja práxis prometida, negadora do idealismo, produziu o mais fantástico fracasso histórico de quantas revoluções houve.

Pois bem. O Brasil conseguiu, sem revolução, o feito de aprimorar a dialética do fracasso. A política brasileira é “A boneca de uma menina que não tem braços”, como a felicidade definida por Humberto de Campos.

O capitalismo brasileiro é pré-feudal, o socialismo brasileiro é pré-burguês e a política do Brasil ainda cisca no terreiro da caverna.

Tudo no contorno infindável da promiscuidade público-privada, estuário institucionalizado da trampolinagem e demagogia. Horta fértil de cujo estrume brotam “salvadores da pátria”.

A dialética, no Brasil, não tem tese. Só antítese, sem síntese. Desordem institucional, desonestidade administrativa e farsa de controle.

O único governo que tentou reformas de base, inclusive agrária, foi João Goulart, um latifundiário. E caiu por isso. Imprensado no meio da guerra fria, travada pelo império capitalista americano contra o império militarista da burocracia soviética.

A pátria dos quartéis vendeu-se. A pátria dos políticos prostituiu-se.

O povo recebeu a sucata da pátria, cujo conserto, hoje, atropela-se na dialética da mediocridade. Só a vontade coletiva poderá romper o fracasso. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
sexta-feira - 18/05/2018 - 15:26h
Realeza

É para quem phode


Por François Silvestre

A Globo ganhou direito preferencial para comandar o casamento de mais um príncipe da realeza britânica. Ali, tudo é muito distante do alcance de nós que somos o resto do mundo. Até a fisiologia.

O cocô de um principezinho faz a alegria das apresentadoras da Globo, até Alexandre Garcia gagueja de emoção.

O sabão de essências do Himalaia, com flocos de raízes de Mântua, dissolvido com colônia de cidreira dos Andes, serve para lavar e perfumar as virilhas da Rainha. (Renato Machado já disse que a Rainha não tem virilhas, mas encontros góticos).

O pai da noiva não comparecerá pois foi acometido de uma forte crise de hemorroidas.

Porém, após o casamento da filha a evacuação do novo sogro real sairá com raios azulados no sangue.

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Categoria(s): Artigo
  • Repet
quinta-feira - 17/05/2018 - 18:35h
Rio de Janeiro

Anjos da Rua Conde Lage


Por François Silvestre

Hoje, uma loja das Americanas foi assaltada à luz do dia, na Rua da Glória (Rio de Janeiro). Próxima ao cruzamento com a Cândido Mendes, passando pela Rua Conde Lage.

Quase na mesma hora, um policial foi executado no Largo do Machado, a duas estações do metrô da Glória. Área de classe média, antigamente tranquila, cuja violência limitava-se às farras da Lapa, próxima dali, cuja informação de Nelson Gonçalves dizia que “na Lapa baixam valentes, malandros e otários”.

Hoje, não há lugar para otários, malandros nem valentes. O lugar é de bandidos e vítimas.

Os anjos da Rua Conde Lage, pequenas estatuetas, que as meretrizes usavam de enfeite na penteadeira, nem precisam ser virados para a parede, como elas faziam, para poupá-los das cenas obscenas. Não.

A obscenidade do Rio de Janeiro é resultado da corrupção, combate de mentira da corrupção, domínio da bandidagem e intervenção federal completamente desmoralizada.

Os anjos da Rua Conde Lage, que não tinham vergonha das suas donas, sumiram. Roxos de vergonha.

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Categoria(s): Artigo
terça-feira - 15/05/2018 - 07:30h
Governo Temer

Peraí


Por François Silvestre

O governo federal publicou nota “defendendo” as Forças Armadas sobre documento da Agência de Inteligência Americana, CIA, que informa sobre a tortura e assassinato de brasileiros durante a Ditadura Militar.

Peraí.

As Forças Armadas do Brasil não têm nada a ver com isso. Foram generais politiqueiros, com o apoio de políticos reacionários, que usaram a força militar para implantar uma Ditadura sanguinária, que não poupou nem seus aliados originários, exemplo de Carlos Lacerda.

As Forças Armadas,  Instituição Permanente e indispensável à vida e soberania do Brasil, não é acusada de nada.

Quando foi usada indevidamente, não teve culpa. Foi usada.

Por generais corruptos da democracia e politiqueiros desde os Anos Vinte. Coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta.

As Forças Aramadas de hoje, com exceções desprezíveis, cumprem seu papel constitucional.

O governo Temer quer por cortina de fumaça no embaçado do seu desgaste.

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 13/05/2018 - 15:08h

Às mães (Poema de nomes)


Por François Silvestre

Mariana Suassuna, Guilhermina de Alencar (Mãe-Guilé), Vevéia, largada de sua gente para cuidar de filho alheio, Madrinha Zeneida Correia de Alencar, Didi Gurgel, Tercina Pereira, Antônia de Bibiana, Diínha, Margarida Simplício.

As que partiram nas asas do beija-flor.

Dilma, irmã mais velha, cuja valentia só encontrou adversário no Alzheimer, Terezinha, mãe do filho e vice-mãe dos irmãos, Dalva, mãe acolhedora dos desvalidos nos tempos idos de Sobradinho, Aurélia Suassuna, cuja casa foi abrigo e amparo de tantos e de todos, Betaceli Suassuna, irmã de escolha, Suelene Suassuna, mãe das três, Aurélia Tâmisa, filha e mãe, Fernanda Tâmisa, filha e mãe, Raíssa Tâmisa, vice-mãe dos sobrinhos

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
sexta-feira - 11/05/2018 - 07:56h
Regime Militar

Cai a máscara


Por François Silvestre

Eu nunca tive dúvidas sobre diferenças fundamentais entre os ditadores que “governaram” o Brasil após 1964. Eram todos do mesmo conluio, da mesma estratégia e do mesmo “patriotismo”.

Criaram um mito da “diferença” entre iguais. Dando a Castelo Branco e Geisel posições menos violentas. Tudo enganação. No caso de Castelo havia uma aparência de “institucionalidade” para agradar a comunidade internacional, que revelou-se contrária à banição de Juscelino Kubitschek.

Figueiredo e Geisel: matar, matar (Foto:Weber)

O general, “mais feio por dentro do que por fora”, segundo Hélio Fernandes, prometera eleições, no discurso de posse, mas fez tudo para a implantação continuada do regime de opressão. Era o “anjo da Rua Conde Laje”, conforme definição de Carlos Lacerda.

No que se refere a Geisel a aparência era necessária posto que a Ditadura começava a agonizar. Golbery do Couto e Silva, o Chico Ciência do regime, inventou a teoria da sístole e diástole da nossa realidade política. E convenceu Geisel de que era melhor uma distensão negociada do que virarem réus, vislumbrando o cansaço e envelhecimento da quartelada, apoiada por políticos ruins de urna, em 1964.

Agora, mesmo tardiamente, a máscara ruiu. E quem prestou esse serviço à História? O Tio Sam.

Os bancadores e avalistas da Ditadura. Pois é.

A Agência Central de Inteligência (CIA) torna públicas informações sobre autorização e controle do procedimento de tortura e assassinato de políticos, tudo dirigido pelo núcleo superior do regime. Inclusive com a conversa documentada em que Geisel e Figueiredo autorizam a continuação da política de extermínio, que vinha do governo Castelo, ampliou-se no período Costa e Silva e tornou-se escancarada no período Médici. Geisel exigiu que se limitasse aos “mais perigosos” e que tudo fosse centralizado no Serviço Nacional de Informação (SNI), sob o comando de Figueiredo.

A diferença entre os cinco ditadores era só de método.

A CIA põe o ventilador na boca das valas onde ainda “exala um estranho cheiro de súplica” , em cujos escombros “repousam” aqueles que não tiveram direito ao enterro comum dos mortos.

Leia também: Em memorando, CIA diz que presidente Geisel autorizou assassinato de opositores.

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Categoria(s): Artigo
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quarta-feira - 09/05/2018 - 04:10h
Alerta

Atenção, servidores públicos!!


Por François Silvestre

É preciso denunciar e mobilizar-se contra! Essa muganga de vender a folha de pessoal do estado não pode nem deve prevalecer.

O servidor não sabe nem participa desse negócio estranho. Vai mudar de Banco, mudar de agência, fazer operações com taxas escusas, dificultar a movimentação do salário (atrasado) e aderir sem consulta ao sabor de uma instituição bancária privada.

Pra quê? Pro governo “botar em dia” salários dos servidores até às vésperas das eleições. E depois deixar todo mundo entregue aos caprichos e ganâncias de um banqueiro qualquer. Patifaria é o nome disso. E silenciar sobre essa cachorrada é cumplicidade com a safadeza.

Acorda, servidor!

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Categoria(s): Administração Pública / Artigo
domingo - 06/05/2018 - 07:36h

O atraso da praga rogada


Por François Silvestre

Morei ou me escondi em São Paulo em várias e variadas circunstâncias.

Morando, fui jornalista ou free-lance de vários veículos. Jornal da Tarde, Revista Visão, Boletim Cambial. No Boletim Cambial fui admitido pelo chefe da sucursal, Jornalista Arnaldo Lacombe. Cheguei a dirigir a redação.

A matriz do Jornal ficava no Rio de Janeiro e a sucursal de São Paulo na Rua Clóvis Beviláqua, ali próximo da Praça do Patriarca. Muitas vezes, saía da redação para ouvir Cantos Gregorianos, Cantochão, no Mosteiro de São bento.

Participei da fundação da Gazeta do Brás, desde o número zero até várias outras edições. Nem sei se ainda existe.

Ainda na condição de morador, exerci a advocacia.

Militei no Fórum Cível João Mendes, o “primus inter pares”, e no Criminal Clóvis Beviláqua, tudo ali próximo da Praça da Sé. Participava do Escritório Lívio de Souza Melo, na Estrada do Rio Pequeno, fronteira de Osasco. Minha primeira inscrição na OAB foi em São Paulo, cuja carteira foi assinada pelo Secretário da Ordem, Márcio Thomaz Bastos.

Ainda guardo essa Carteira, que deveria ter devolvido quando da minha inscrição aqui. Mas combinei com Roberto Furtado e inventei que havia extraviado.

Os abonadores, inscritos na Ordem, foram o próprio Lívio de Souza Melo e Geraldo Pedroza de Araújo Dias, vulgo Geraldo Vandré.

Porém, não fui apenas morador regular. São Paulo também me abrigou na clandestinidade. Pelo menos por duas vezes lá me aboletei nessa condição.

E foi nessa situação que conheci, admirei e detestei o prédio Wilton Paes, na Rua Antônio Godoy, esquina com a Rio Branco, no Largo do Paissandu, Bairro de Santa Ifigênia.

Tempo em que aquele prédio abrigava a Polícia Federal, que era a polícia política da Ditadura. A regra era prender militantes de esquerda; sindicalistas, estudantes, jornalistas, operários, padres, o que fosse. A exceção era prender contrabandistas ou traficantes.

Num pequeno boteco, na própria Antônio Godoy, eu baixava para tomara caipirinha, especialidade do bar. E ficava ali vendo o movimento das camionetes Veraneio, pomposas e ostensivas, trazendo ou levando presos políticos.

E rogava praga, pedindo ao imponderável, para aquele belo prédio cair. Despencar por cima das viaturas. Sabia que era apenas um exercício de catarse, sem o menor propósito. Como iria ruir um prédio tão belo e tão bem construído, com as técnicas modernas dos anos Sessenta?

Pois bem. A praga rogada pegou.

Só que chegou atrasadamente; quando o prédio ficara feio, pobre e abrigo de miseráveis.

A PF evoluiu, São Paulo mudou pra pior e o Brasil do sonho virou pesadelo. O fantasma de Sérgio Paranhos Fleury deve ter despencado nos escombros, carregando os restos torturados da esperança mutilada.

O coração da Pátria é uma canoa na seca, que se perdeu ao navegar no vento. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
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terça-feira - 01/05/2018 - 06:50h
RN

As baratas declinaram


Por François Silvestre

Notícias dão conta de um carro forte explodido na BR 304 (veja AQUI), de um Desembargador do Trabalho, Eridson Medeiros, assaltado e vendo ser levado pelos assaltantes o carro oficial do TRT (veja AQUI).

Cinco homicídios na região Oeste do Estado, dois assaltos com morte na região oeste da Capital, mais outro homicídio em Mossoró, duas farmácias assaltadas na zona Sul.

Enquanto isso o governador diz que tudo é “guerra de facções”. Não sei qual a facção do carro forte nem do meu amigo Eridson Medeiros .

Nem dos donos das farmácias. Sei que tudo terminará sem inquérito, pois o MP está ocupado buscando delações. E a polícia ensinando as pessoas a respeitarem os bandidos.

O Estado só não está entregue às baratas porque as baratas declinaram da entrega. E devolveram.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 22/04/2018 - 09:00h

Lirismo torto


Por François Silvestre

Quem nasceu no pé da serra, e depois subiu a serra, e depois morou na serra, tem por destino certo viver com a cabeça nas nuvens.

Quem nasceu na beira do rio, e depois entrou no rio, e depois nadou no rio, tem por destino certo viver contra a correnteza.

Quem nasceu na praia do mar, e depois entrou no mar, e depois nadou no mar, tem por destino certo enfrentar a força das ondas.

Quem nasceu na beira do mato, e depois entrou no mato, e depois se perdeu no mato, tem por destino certo ser presa do caçador.

Quem nasceu na entrada da rua, e depois entrou na rua, e depois morou na rua, tem por destino certo enganchar-se na multidão.

Quem nasceu na franja da bandeira, e depois marchou com a bandeira, e depois se enrolou na bandeira, tem por destino certo fugir de todos os hinos.

Quem nasceu ouvindo hinos, e depois cantou os hinos, e depois ensinou os hinos, tem por destino certo fugir de todas as bandeiras.

Quem nasceu na porta da biblioteca, e depois se fez de biblioteca, e depois sumiu na biblioteca, tem por destino certo esconder-se por trás dos livros.

Quem nasceu no patamar da igreja, e depois entrou na igreja, e depois rezou na igreja, tem por destino certo duvidar das orações.

Quem nasceu na rua do fórum, e depois entrou no fórum, e depois conheceu o fórum, tem por destino certo zombar da pompa forense.

Quem nasceu ao som da política, e depois entrou na política, e depois conheceu a política, tem por destino certo a escolha entre a mentira ou a fuga.

Quem nasceu na escada da escola, e depois entrou na escola, e depois aprendeu na escola, tem por destino certo rever quase tudo que aprendeu.

Quem nasceu no primeiro verso do soneto, e depois atravessou os quartetos, e conseguiu passar dos tercetos, tem por destino certo desvencilhar-se das rimas.

Quem nasceu no escuro do mofumbo, e depois saiu do mofumbo, e viu a luz pelas mãos da parteira, tem por destino certo rir-se da vida e desdenhar da morte.

Quem nasceu na porta do bar, e depois entrou no bar, e depois se embriagou no bar, tem por destino certo recitar a verdade do vinho.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
  • Repet
sábado - 21/04/2018 - 22:56h

Maniqueísmo? Tô fora!


Por François Silvestre

Não me alinho nem me filio automaticamente a qualquer dos dois lados dessa estupidez nacional.

Prefiro usar o cérebro em vez do fígado. E deixar o fígado em paz, para que possa cuidar da cerveja. E com o cérebro ver, sem paixão, o que há de errado ou certo em qualquer dos lados.

Claro que tendo a limitação da minha própria visão, que poderá também, e certamente, errar tanto quanto os erros que vejo nos dois lados.

O que não aceito é compromisso automático com essa ou aquela orientação. Prefiro que cada lado pense que sou do outro lado, a ter que prestar vassalagem ou dar satisfações a quem quer que seja.

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Categoria(s): Opinião
quinta-feira - 19/04/2018 - 13:12h
Opinião

Carniça atrai urubus


Por François Silvestre

Paulo Maluf dominou boa parte da vida pública brasileira por meio da corrupção e trampolinagem. Foi governador do maior Estado do Brasil, prefeito da maior cidade, deputado federal com votações acachapantes.

Maluf: prisão (Foto: Web)

Acólito da Ditadura, mandou agredir operários e estudantes. Financiou torturas e protegeu torturadores.

Quase chega à Presidência da República. Tudo isso sob acusações às escâncaras de aparelhamento do erário para fins de enriquecimento ilícito, seu e dos seus. Enquanto exerceu esses cargos e teve poder de agir, ninguém mexeu com ele.

Navegou em mar sereno, nas barbas da Justiça e dos órgãos de controle. Impunemente.

Agora, quase moribundo é alvo da fúria ética. Enquanto carne, ninguém o molestou. Após carniça, alvoroçam-s e os urubus.

É o Brasil…

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Categoria(s): Artigo
  • Repet
quarta-feira - 18/04/2018 - 10:22h
Opinião

Voto nulo


Por François Silvestre

Demóstenes Torres, mosqueteiro de capa da Veja, ganhou elegibilidade.

Cassado por corrupção, processado por corrupção, condenado por corrupção, o sacripanta que vendia ética e recebia dinheiro de Carlinhos Cachoeira, que ele chamava de “professor”, vai ser candidato.

Membro do Ministério Público, continuou exercendo o cargo e recendo salários, todos os auxílios e todas as mungangas.

Agora fará o que sempre fez.

Nos palanques e tribunas, se eleito, conduzirá cruzadas morais na teoria e regará hortas de imoralidade pública na prática. E ainda querem defender o “voto válido”.

No Brasil de hoje todo voto é nulo.

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Categoria(s): Opinião
segunda-feira - 16/04/2018 - 07:40h

Os mísseis da metrópole


Por François Silvestre

Nos últimos meses, sem exceção, todo dia a mídia divulga uma operação da PF, ou uma denúncia do MP, ou uma sentença da Lava Jato. Todo dia que deus dá. Nos últimos três dias, essa rotina mudou.

Se houve alguma operação, denúncia ou sentença ninguém tomou conhecimento.

Por quê?

Porque a metrópole foi a produtora da notícia. E as notícias da colônia são secundárias quando a metrópole produz notícia. A metrópole jogou mísseis na Síria. Pronto. Não teve outro assunto durante três dias e a Lava Jato sumiu do mapa. vai voltar?

Depende do que acontecer na metrópole. Se a metrópole aquietar-se, a colônia provinciana mostrará a cara. Caso contrário, os holofotes são da metrópole.

A síndrome das caravelas nos persegue. E o alvoroço no Quartel de Abrantes só não vai avante porque não é interesse da metrópole.

Nem mostra êxito na Rocinha.

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Categoria(s): Artigo
  • Repet
terça-feira - 10/04/2018 - 17:26h
Cultura

Potiguar em Ipanema


A Casa de Cultura Laura Alvim, Teatro Rogério Cardoso, apresenta o Monólogo “A Mulher Monstro“, de Caio Fernando Abreu, dito e encenado pelo potiguar, de Santo Antônio, José Neto Barbosa.

O Teatro fica na Avenida Vieira Souto, em Ipanema.

Casa cheia todas as noites, merecendo críticas amplamente elogiosas.

Na Sexta-Feira passada o ator Neto prestou uma homenagem belíssima a outra potiguar.

Após a sessão, ele dedicou aquela apresentação a Raíssa Tâmisa, conterrânea a quem ele declara ter sido estimuladora no início da sua carreira.

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Categoria(s): Cultura
domingo - 08/04/2018 - 06:44h

O “Mecanismo” da Netflix


Por François Silvestre

Pego carona na assinatura que Raíssa fez da Netflix. Prefiro os filmes, mas vejo algumas séries. Algumas, muito poucas, consigo vê-las até o último capítulo.

Séries turcas, indianas, americanas, inglesas, sobre gangues, piratas e até sobre a nobiliarquia de milionários. Algumas me prendem inicialmente, depois me despeço com enfado.

A última que vi foi O Mecanismo, sobre essa coisa da “Lava Jato”. Muita discussão sobre o alcance real dessa ficção mesclada. Não li ainda uma avaliação convincente, seja dos “contras” ou dos “a favor”, sobre o enlace político ali estabelecido.

Vou tratar do que me interessa, nesse tipo de evento. Arte. Não sou crítico de arte ou de cinema, apenas observador e curioso, mas vou meter a colher nessa moqueca mal temperada. Muito dendê e pouco peixe.

Quando uma obra de ficção inspira-se ou se sustenta em fatos ou pessoas reais não deve vassalagem aos fatos ou às pessoas. Mas precisa de verossimilhança. O que não significa apenas copiar a realidade.

A verossimilhança não é pintura do real. É convencimento da ficção. Ela pode estar presente até na ficção de fatos ou pessoais impossíveis na realidade. Desde que convença pelo viés da arte. O realismo mágico ou fantástico é uma prova da verossimilhança ficcional sem necessidade do amparo real. Porque convence.

Pois bem. O Mecanismo da Netflix não convence. É caricato sem a plástica e o convencimento da caricatura. Na caricatura, a deformação acentua pela via da arte os contornos do real. Por isso, a caricatura é verossimilhante. Mas o caricato é a deformação não convincente.

O personagem principal da série não convence nem na realidade nem na ficção. É tão escrachadamente caricato que contamina o ator. Selton Mello é um dos nossos melhores atores, mas nessa obra ele cravou seu primeiro canastrão. Distância cósmica do ator de “O Palhaço” ou do “Auto da Compadecida”.

Aliás, a canastrice nasce no personagem e atinge o ator. O delegado da Polícia Federal, Ruffo, completamente inverossímil é uma piada que faz inveja até ao “Atrapalhando a Suate” de Zacarias, Didi, Mussum e Dedé.

Quando eu vi nas folhas a informação de que o juiz Sérgio Moro gostou do seu personagem, eu pensei:

- “Tomara que ele seja melhor operador do Direito do que observador de arte”.

A representação que a série faz dele é deprimente, coisa de inimigos do juiz. O personagem é patético. Até na burlesca cena sexual, o juiz fica mal; de cama. Quanto à inspiração real, só conheço pelos respingos dos holofotes. E pelas opiniões jurídicas do americanismo, realidade distante da nossa, e adesão política ao liberalismo pré-Adam Smith.

Com Lula, a série foi bondosa. Lulista que reclama, confessa fanatismo bocó. Pinçou uma frase emprestada não incriminadora, se comparada com muitas falas reais gravadas e comprometedoras. Se não do universo jurídico, pelo menos na seara moral.

Com Márcio Thomaz Bastos foram desonestos. Obviamente desonestos. Até a tosse é caricata. Vivo fosse, iria ganhar dinheiro com indenização.

A briga de vaidades entre a Polícia Federal e o Ministério Público foi mal explorada. Essa disputa de “quem é mais importante” retrata nossa incúria institucional. Um bando de bocós disputando notoriedade. Não se salva nem quando o delegado Ruffo chama de Cuzão o procurador do Ministério Público.

Mesmo ruim, vi até o fim. Na ficção ela terminou, mas parece que viverá “ad perpetuam rei memoriam” na realidade.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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domingo - 25/03/2018 - 10:02h

Ombros de gigantes


Por François Silvestre

Posto nos ombros de um gigante, um anão vê mais longe do que o próprio gigante.

Quando, numa conferência, alguém atribuiu a Isaac Newton o maior feito da física pela descoberta da gravitação universal, ele disse: “Eu me pus sobre os ombros de gigantes”. E pronunciou a frase, originária de Bernardo de Charters, que abre o texto.

Dentre os gigantes elencados estavam Pitágoras, Arquimedes, Copérnico, Bruno, Galileu e outros feitores de descobertas e desvendadores dos mistérios infinitos do Universo.

Einstein pôs-se sobre os ombros de Newton e viu mais longe. Percebeu que a atração da matéria, entre os corpos, não se limitava à relação proporcional do produto da massa e a inversa proporção do quadrado das distâncias. Acrescentou a percepção de que até a luz sofre alteração pela atração de uma grandiosa massa.

À gravidade de Newton, de massa e distância, agora se acrescenta movimento e velocidade.

Não apenas acrescentou, mas pôs uma pulga atrás da orelha no conhecimento do Universo até então. Ficou o dito precisando de comprovação.

Essa comprovação veio bem depois, na circunstância de dois eclipses do Sol, quando os observadores, postados em lugares diferentes e distantes, fotografaram os fenômenos. E viram que a luz de uma estrela, vista por nós, mudava de lugar ao passar pelo Sol.

A estrela ainda está no mesmo lugar, mas a sua luz, vista da terra, sofre alteração gravitacional ao passar por uma enorme massa. No caso, o Sol. Essa descoberta revolucionou a física e diplomou a credibilidade de Einstein. Para nós, leigos e escassos, não é fácil compreender o alcance dessas descobertas.

Stephen Hawking encangou-se nos ombros de Albert Einstein e foi mais longe. Aproveitando o avanço da relatividade, na comprovação de que o Universo não é composto de espaços planos, mas ondulados, Hawking ousou negar uma “verdade” cristalizada. A crença de que os Buracos Negros engolem matéria e carecem de irradiação.

Hawking anunciou a existência de luz nos Buracos Negros, radiação térmica resultante de efeitos quânticos. Essa radiação recebe o seu nome.

Como ele defende a tese da existência de outros Universos, não seriam os Buracos Negros apenas canais de ligação? Que em vez de engolirem a matéria apenas a transfere para outros espaços universais?

Você conseguiu entender tudo isso? Eu também Não. Ocorre que é mais fácil ver a radiação de Hawking do que ver um raio de luz no “buraco negro” da vida político-institucional do Brasil.

Aqui, no Brasil de hoje, não há gigantes. O país é visto e observado por anões nos ombros de pigmeus. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 18/03/2018 - 08:46h

Relatos de campanha


Por François Silvestre

A campanha político-eleitoral de 1986 teve como núcleo principal a formação do congresso que exerceria o papel de constituinte.

Participei ativamente da campanha que elegeu Ismael Wanderley, cuja participação naquele parlamento teve o reconhecimento da sociedade, atestado por jornalistas e entidades de representação social.

Relembro a participação de Honório de Medeiros, Ricardo Pinto, Ésio Costa, Inamar Torres, Silvestre Júnior, Dilza Pacheco, Campanholi e muitos outros. Eu e Campanholi cuidávamos dos textos, discursos, entrevistas e emendas à sistematização da nova Constituição.

Há um número incontável de emendas com a iniciativa ou participação ativa de Ismael Wanderley. Vou falar de duas dessas participações. O terço de férias, que hoje parece ter sido pacífico, não foi.

Quando percebemos que um lobby das federações de indústrias e comércio queriam descartar a emenda, Ismael apresenta uma emenda pesada, que dava não um terço de férias, mas um salário completo.

Aí, o bicho pegou. Os lobbystas se assustaram porque a emenda do salário completo estava ganhando espaço e assinaturas. Recuaram e tiveram de engolir o terço da emenda anterior, também de Ismael. Foi uma jogada vitoriosa.

Outra foi o caso Fernando Noronha. Um grupo influente da constituinte decidiu acabar com a autonomia governamental daquele arquipélago. Ismael participou ativamente dessa articulação. Pernambuco e Rio Grande do Norte eram os principais interessados nesse desfecho.

A primeira votação foi relativamente fácil. Fernando de Noronha perdeu a autonomia governamental. A segunda foi batalha. Pernambuco apresentou emenda reivindicando a posse do arquipélago. Ismael apresentou emenda reivindicando a posse para o Rio Grande do Norte.

A grande surpresa foi a votação, mesmo minoritária, que teve o Rio Grande do Norte. Perdemos, mas assustamos Pernambuco. Fernando Lira parabenizou publicamente Ismael pelo trabalho de aliciamento e pela votação surpreendente.

Toda campanha tem espetáculo, num ou noutro sentido. Chegamos para fazer um comício em Governador Dix-Sept Rosado; Ismael, eu, Ricardo Pinto e Silvestre. Ismael era candidato a deputado federal e eu a estadual.

Um vereador da cidade, Pompeu, admirador meu do movimento estudantil me apoiou e estendeu o apoio a Ismael. Era um produtor e comerciante de gesso. Figuraço.

Carro de som, na praça cheia. Não pelo comício, mas por falta de alternativa. Ricardo Pinto fazendo a locução. Aparece um senhor e pede para que deixemos seu filho abrir o comício. “Ele fala como ninguém”. Pompeu discordou, dizendo que era uma manifestação rápida.

Mas eu aceitei e Ismael também. Pompeu balançou a cabeça. Aí Ricardo anuncia a figura. “Vai falar fulano, aqui da terra, dando seu apoio a nossa luta”. O orador era um recém-formado. Com um enorme anel no dedo.

E ele começa. E fala besteiras que nada tinha a ver com eleição. E tome conversa furada, com erros de português e histórias da vida dele.

Ficamos vendo a praça rindo.

Pompeu aproxima-se por trás dele e diz com autoridade: “Fale dos candidatos”. Ele interrompe o que dizia sobre seu primeiro namoro, olha para o céu e continua. “Pois é, vou falar dos canidatos”. Assim mesmo, com “ni”.

Virou-se pra mim e disse: “Aqui desse lado está o canidato…como é mesmo? seu Francimá Silvêra. E desse outro lado está o candidato… se me lembro,  seu Wanderleys Marizes”.

Ismael, perto dele, falou alto: “Ricardo, tome o microfone desse fela da puta”.

A fala de Ismael saiu clara no carro de som. A praça caiu numa gargalhada, virou um espetáculo burlesco. Pompeu dizia: “eu avisei”.

O pai do orador aproximou-se de mim e comentou: “Lá em casa tudim fala bem, mas esse é o qui fala mió”.

Desse tempo pra hoje, a preguiça do tumulto esculpiu-me solitário. Mesmo assim, ainda de longe admiro a multidão.

mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
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quinta-feira - 15/03/2018 - 13:55h
Reflexão

As carpideiras dos quarteis


Por François Silvestre

Foi-se o tempo de se bater às portas dos quarteis para impor controle à Democracia, no interesse da burguesia emergente. Tanques nas ruas fechavam parlamentos e derrubavam governos. Inquéritos policias militares puniam desafetos e desmoralizavam líderes populares.

Mataram politicamente Juscelino Kubitschek, João Goulart, Carlos Lacerda, Carlos Prestes, Francisco Julião, Tenório Cavalcanti e muitos outros.

Marighella e Lamarca (Fotos: Web)

Mataram fisicamente estudantes e operários.

Mataram líderes de uma luta armada cujas armas eram revólveres calibre 32.

Esse era o calibre do revólver encontrado no cadáver de Marighella.

No de Lamarca, um facão de cortar mato.

Após a redemocratização, as Forças Armadas mantiveram-se distantes da bagunça institucionalizada. Uma espécie de distância higiênica.

Agora, com essa intervenção no Rio de Janeiro, o Exército mergulha na bagunça. Ou resolve o problema ou paga o preço histórico de não ser mais nem o “amparo dos falsos desvalidos”.

E será motivo para titular um romance tosco: Ninguém mais apela aos coronéis.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 11/03/2018 - 05:38h

Índole da vergonha


Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freire abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. E a índia não era fácil, era enganada ou possuída. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade. A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes. Da mesma Europa falida; italianos, alemães, poloneses, espanhóis, russos, escandinavos, somados aos orientais, de onde o sol nasce primeiro.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores. Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes.

Se o futuro dessa molecada que cresce agora for melhor do que estamos construindo, certamente terá vergonha do nosso presente. Tomara que assim seja, a vergonha de uma índole de mentira. E que essa molecada consiga repor, na prática, a antropologia do otimismo.

mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
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domingo - 04/03/2018 - 09:04h

Federação sem descarga


Por François Silvestre

“Como se define o Brasil, de sistema e regime político”? Respondi: “Denomina-se República Federativa do Brasil”. Foi Paulo Macedo quem me fez essa pergunta e questionou minha resposta. “Essa conceituação guarda sintonia com a realidade”?

“Não guarda”! Foi minha resposta. Aí ele me provocou: “Então escreva sobre isso”. Fá-lo-ei, como diria Jânio.

O que significa “república”? Coisa de todos. Nesse sentido não há repúblicas no mundo. Nenhum país do mundo é propriedade do seu povo. E “povo” é apenas uma abstração retórica. O que há são populações desapropriadas das suas pátrias. Umas mais, outras menos. O Brasil é escancaradamente uma propriedade de pouquíssimos.

Basta observar os principais “bens públicos”. Educação, saúde e segurança. No caso da segurança nem os pouquíssimos proprietários a possuem. Pois vez ou outra precisam sair das casas protegidas ou dos carros blindados.

O Brasil só é república na desgraça. Na vida social, econômica, salarial, de laser e cultura, de serviços públicos, o país é uma reprivada. Coisa de poucos. República? Nem teórica.

Federativa? Nunca foi. O que é uma federação? É uma União politicamente organizada, com entes federados constitucionalmente autônomos, os Estados, divididos em Municípios administrativamente independentes, com dignidade financeira.

Em qual desses tópicos se enquadra o Brasil? Nenhum. As constituições estaduais não são sequer citadas nas Ações em que os Estados figuram, ativa ou passivamente. Acima da legislação estadual há inúmeras instâncias federais, todas com competência reformadora.

Sem Estados autônomos não há federação. O Senado, inútil, representa o inexistente.

E os Municípios? Possuem independência administrativa e dignidade financeira? Pobres mendigos de porta de mercados. Com sua baciazinha de queijo do reino, que foi comido por algum desconhecido, de cujo gosto o mendicante nem sente o cheiro. Dependentes e lisos.

A única federação que o Brasil conheceu foi num intervalo da primeira república. Federação de dois Estados, que por força da aristocracia agropecuária fez de São Paulo e Minas Gerais os donos da União.

Reprivada sem descarga e desfederada é o que somos; com todos os sentidos que a expressão comporta. Do nome, sobra a homenagem à tintura do pau: Brasil.

Saída? Uma Constituinte originária e exclusiva, sem qualquer amarra com a desordem vigente. Recepcionando apenas as conquistas libertárias e sociais, que não saíram do papel.

Ou então se repristine a Constituição de 1946, acrescida do artigo 5º da carta de 88. Sem medo de enfrentar as castas estabelecidas e calcificadas. Essa bagunça institucional serve ao corporativismo e ignora a sociedade, que as corporações dizem defender. Só dizem, e defendem-se a si mesmas.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 25/02/2018 - 05:28h

Lição perdida


Por François Silvestre

Sobre Rui disse José do Patrocínio: “Deus acendeu um vulcão na cabeça de Rui Barbosa”. E o tribuno ímpar da Bahia fez uma oração aos moços.

Começou discorrendo sobre os cinquenta anos de dedicação ao Direito. E debulhou encantos e desencantos, naquele momento, orientações e luzes no templo da vetusta Faculdade do Largo de São Francisco.

O Direito não era uma categoria profissional, para Rui Barbosa. Não. Era uma justificação de vida. Uma espécie de catarse dos pecados e das culpas. Rui tinha, em erupção, um vulcão na cabeça; como definiu José do Patrocínio.

Quem sou eu para mandar recado aos moços, diante da releitura de Rui Barbosa?

Depois, muito depois, cantou Lupicínio Rodrigues: “Esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei”.

Quem sou eu para remendar a recomendação de Lupicínio, na solene declaração de tristeza diante da amargura da preterição? Não foi traído, foi preterido. Trair é mentir e enganar para obter vantagem.

No caso do amor, não há traição. Há preterição, sob a regência do desejo, que foge do controle.

Quem sou eu para recomendar lições aos moços, depois de Rui Barbosa e de Lupicínio Rodrigues?

Porém, uma coisa há de estarrecer a observação dos tempos pós-modernos. As fogueiras rasas, de labaredas escassas, que Deus tem acendido nas cabeças dos jovens de hoje que se enfronham na pretensão de “novas” ideologias.

Nem são novas nem se agasalham no escopo das ideias, apenas caliças de escombros que se desmoronaram após produzirem brutalidade e desumanização.

Foi bem ali, no aceiro do tempo. O nazismo, o fascismo e o stalinismo. Quantas gerações ainda não guardam desses monstros as marcas do sangue mal enxuto, a exalar “um estranho cheiro de súplica”.

Que atração miserável tem a força do ódio disfarçado! Como se o passar do tempo prescrevesse a monstruosa degradação da tortura, essa execração da própria descondição humana.

Sei não. Rui, apague o seu vulcão! Lupicínio, tente ensinar aos velhos! Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
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