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domingo - 22/07/2018 - 08:42h

Lirismo torto


Por François Silvestre

Quem nasceu no pé da serra, e depois subiu a serra, e depois morou na serra, tem por destino certo viver com a cabeça nas nuvens.

Quem nasceu na beira do rio, e depois entrou no rio, e depois nadou no rio, tem por destino certo viver contra a correnteza.

Quem nasceu na praia do mar, e depois entrou no mar, e depois nadou no mar, tem por destino certo enfrentar a força das ondas.

Quem nasceu na beira do mato, e depois entrou no mato, e depois se perdeu no mato, tem por destino certo ser presa do caçador.

Quem nasceu na entrada da rua, e depois entrou na rua, e depois morou na rua, tem por destino certo enganchar-se na multidão.

Quem nasceu na franja da bandeira, e depois marchou com a bandeira, e depois se enrolou na bandeira, tem por destino certo fugir de todos os hinos.

Quem nasceu ouvindo hinos, e depois cantou os hinos, e depois ensinou os hinos, tem por destino certo fugir de todas as bandeiras.

Quem nasceu na porta da biblioteca, e depois se fez de biblioteca, e depois sumiu na biblioteca, tem por destino certo esconder-se por trás dos livros.

Quem nasceu no patamar da igreja, e depois entrou na igreja, e depois rezou na igreja, tem por destino certo duvidar das orações.

Quem nasceu na rua do fórum, e depois entrou no fórum, e depois conheceu o fórum, tem por destino certo zombar da pompa forense.

Quem nasceu ao som da política, e depois entrou na política, e depois conheceu a política, tem por destino certo a escolha entre a mentira ou a fuga.

Quem nasceu na escada da escola, e depois entrou na escola, e depois aprendeu na escola, tem por destino certo rever quase tudo que aprendeu.

Quem nasceu no primeiro verso do soneto, e depois atravessou os quartetos, e conseguiu passar dos tercetos, tem por destino certo desvencilhar-se das rimas.

Quem nasceu no escuro do mofumbo, e depois saiu do mofumbo, e viu a luz pelas mãos da parteira, tem por destino certo rir-se da vida e desdenhar da morte.

Quem nasceu na porta do bar, e depois entrou no bar, e depois se embriagou no bar, tem por destino certo recitar a verdade do vinho.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
quarta-feira - 18/07/2018 - 20:48h
Opinião

Mais um que muda de plateia


Por François Silvestre

Quando o ministro Luís Roberto Barroso foi indicado por Dilma Roussef (PT) para o Supremo Tribunal Federal (STF), não faltaram vaias dos tucanos e outros que tais. Foi acusado de esquerdista juramentado. Após os votos de Barroso, a plateia mudou.

Dias Toffoli: outra visão (Foto: STF)

Agora, ele é herói dos que antes o execravam e vilão dos que esperavam muito dele. Depois, veio Luiz Edson Fachin. Foi acusado por Aloysio Nunes, senador tucano, na sabatina do senado, de ser “quadro” do PT e exercer advocacia impeditiva no Paraná.

Hoje, Fachin tem plateia nova.

Os petistas o detestam e os anti-petistas o idolatram.

Surge um novo ministro que mudará de plateia, Dias Toffoli. Até ontem era o cupincha de Zé Dirceu, na boca dos anti-petistas.

Hoje, ao declarar que não pautará mudança de jusrisprudência sobre prisão em segunda instância antes do segundo turno das eleições, ganhou a adesão dos antigos desafetos e já é chamado de covarde pelos petistas.

Gilmar Mendes muda de plateia a cada julgamento. Tá nem aí.

É esse país de pátria chinfrim, com a população dividida na intolerância e o Supremo Tribunal Federal brincando de legislar.

Cada ministro é uma Constituição. E ela, a Constituição escrita, é apenas um Alcorão para ser recitada.

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Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 15/07/2018 - 09:34h

Sabiá ou jumento?


Por François Silvestre

“Cessem do sábio Grego e do Troiano/ as navegações grandes que fizeram;/ Cale-se de Alexandre e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram;/ Que eu canto o peito ilustre Lusitano,/ A quem Netuno e Marte obedeceram:/ Cesse tudo o que a Musa antiga canta,/ Que outro valor mais alto se alevanta”.

Camões inicia duas aventuras épicas. A intencional: de responder a Homero que fincara nos versos a aventura dos gregos, e a Virgílio, que cumprira papel semelhante na origem da aventura latina.

A segunda não foi intencional: estruturar o esqueleto de um idioma. A “última flor do Lácio, inculta e bela”; do dizer de Bilac. Que responderia à pergunta do tempo: “ora direis ouvir estrelas”.

Era o português uma algaravia, desde 1139, (Sec. XII) que se confundia com o galego, a linguagem da Galícia. Ganhou contorno morfológico com a obra teatral de Gil Vicente e o Cancioneiro de Garcia de Resende, (Sec. XV). Porém, foi a épica camoniana (Sec. XVI) que teve o mérito de criar o arcabouço sintático da língua que nos define e nos fotografa.

Os Lusíadas, muito mais do que a louvação heroica das aventuras marítimas, é uma fábrica de metáforas. O forno que modelou uma forma de compor versos, na língua nascente.

A metáfora consegue remodelar o conteúdo opaco para fazê-lo brilhante, na forma recriada. Não fosse ela, a poesia seria apenas uma repetida composição de rimas. Sonoridade vocálica, pobreza poética.

A rima, nos Lusíadas, é pobre. Combinando mais das vezes desinências verbais. A metáfora, não. E é delas que ele tira a tintura dos versos para engrandecer pequenos atos. Ao dar-lhes feição maior do que o gesto.

A aventura grandiosa da circunavegação Lusitana vai se desenrolando ao apelo metonímico da mitologia. Com a cumplicidade de Vênus e Marte, sofrendo a oposição de Baco e Netuno.

A metáfora produz poesia. Ela é a rainha das figuras na composição do estilo. Dando nós onde há linha lisa e alinhando a linha onde há nós. Mesmo que seja poesia de pedra, rústica ou polida. Afagando o ouvido ou a leitura.

Dante, Shakespeare, Neruda degustaram metáforas. E deram vida à poesia nossa de cada dia. O resto não é resto, é metáfora do que resta da sobra. Onde se escondem os verbos nos porões da zeugma ou se omitem os nomes, nos escaninhos da elipse.

Aí não se pode esquecer a política nossa de cada noite. No Brasil de hoje, só a língua, mesmo maltratada, ampara a Pátria.

Só que a metáfora na política é a tentativa de esconder a verdade, muitas vezes feia, para vender a mentira falsamente bela. E o povo, metáfora da abstração, deixa-se enganar concretamente na mesma cumplicidade da metafórica democracia de faz de conta.

Na circunavegação da falsidade, institucionalmente estabelecida, senhora dos poderes e controles, o embuste ético humilha a língua de Camões.

A repetição deste texto dá-se pelo abuso com que a televisão, os blogs e twitters, na ausência do jornalismo impresso, assassinam diariamente o que ainda resta da língua que unificou a nossa linguagem cultural.

A falar a língua do povo, no dia a dia, é uma coisa. Outra coisa é usar o texto escrito para enterrar a língua portuguesa.

O que há de “sábios”, que entendem de tudo, usando a língua que desconhecem no mais elementar da sua estrutura, é de se imaginar que estão a criar uma “nova língua”. Ou edificar o seu sarcófago.

Uma língua inculta e feia, próxima da ortografia do rincho, com desculpas ao nosso jumento, inculto e belo.  Té mais.

François Silvestre é

Categoria(s): Artigo
sexta-feira - 13/07/2018 - 23:12h
Opinião

Prisão sem trânsito em julgado é negação da Constituição


Por François Silvestre

As prisões processuais no Brasil, sem prazo e sem critério, estão desmoralizando a nossa vinculação jusfilosófica à Escola Clássica do Direito Penal. Prisão sem trânsito em julgado é negação escrachada da Constituição.

São duas constatações que configuram a fascistização do nosso desmoralizado sistema processual. Também é fato.

O triste é que cada lado desse embate político justifica qualquer dessas aberrações desde que contra o lado oponente. E se revolta quando o seu lado é o atingido.

Essa postura juspolítica tem ajudado à continuação do fascismo forense.

Prefiro tratar do assunto sem fulanização.

Seja quem for o atingido, ou acusado, essa prática fere a liberdade de todos.

Estamos vivendo um momento perigoso dos “julgamentos da sociedade”, que lembram “os julgamentos de Deus”, da idade média.

Em suma, mais perigoso do que triste.

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Categoria(s): Artigo
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quinta-feira - 12/07/2018 - 10:43h
Josip Broz Tito

Exemplos, exemplos, exemplos…


Por François Silvestre

A presidente da Croácia viajou para a Rússia pagando passagem e despesas do próprio bolso. Alguém aí vai querer divulgar isso ou é melhor esquecer pra não servir de exemplo? A Croácia (do tamanho da Paraíba) é um dos pequenos países resultantes do fim da Iugoslávia. Era croata o líder da Iugoslávia, Josip Broz Tito.

Josip Broz Tito: líder (Foto: Web)

Eu disse Tito e não Tite. Além da Croácia, outro desses países, a Sérvia, participou da Copa. Os outros são Bósnia, Eslovênia, Montenegro e Macedônia. E mais duas províncias vinculadas à Sérvia que reivindicam independência.

A Iugoslávia, sob o comando de Tito, lutou contra o Nazismo e foi o único país socialista do Leste europeu que não se submeteu ao cutelo de Stalin.

Quando da resistência a Hitler, chefiando os Partsans do seu país, Tito solicitou ajuda da Inglaterra. Churchill  respondeu que não podia ajudar, pois o esforço de guerra estava em processo de exaustão. Tito respondeu: “Tudo bem. Assim ninguém poderá associar-se ao sacrifício do nosso povo nem apresentar fatura pelo nosso sangue derramado”.

Nos tempos da Casa do Estudante, eu estava lendo um livro de sua autoria intitulado “O caminho socialista da Iugoslávia”, quando fui reprendido por um amigo daquele tempo, stalinista do PCBR, sugerindo que eu suspendesse a leitura. Não suspendi. Viva Tito, morra Stalin.

A Iugoslávia esfacelou-se após a morte de Tito. A Rússia não perdeu nada com a morte de Stalin.

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Categoria(s): Artigo
terça-feira - 10/07/2018 - 19:18h
Crônica

Getúlio no Centro de Nhé Dinô


Por François Silvestre

Nhé Dinô nem tava em função, no seu Centro espírita Jeje-Nagô, quando ouviu um barulho de vento vindo do lado do trapiá. Preparou-se rapidamente, pressentindo uma visita não invocada. Tal não foi sua surpresa quando, ao sentir o cheiro da fumaça de charuto, viu sentado ao lado do fogão de lenha o Presidente Getúlio Vargas.

O velho caudilho fez sinal com a mão para Nhé não se aproximar. Baforou uma fumaçada, retirou o charuto da boca e riu.

“Passei pra descansar, não pergunte nada”. E ficaram ali.

Getúlio fumando e o “pai de santo” em pé, imóvel.

Ao despedir-se, o Presidente levantou-se lentamente e já saindo falou: “E pensar que antecipei a partida sem necessidade, só por conta de um tiro idiota no pé de um malandro”.

Nova ventania balançou as folhas caídas e cobriram de saudade o pátio do “Terreiro”.

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Categoria(s): Crônica
  • Repet
domingo - 08/07/2018 - 10:24h

O bom texto


Por François Silvestre

O bom texto literário não trata da boa vida humana. Não cuida do prazer nem das alegrias. O bom texto é a negação do bom.

Há na escritura de um texto bom uma carga de ruindade que cospe na cara do leitor. Foi assim desde que o primeiro escriba vingou-se do seu tempo, dos seus algozes, das suas mazelas.

Nas escrituras, todas elas, das sacras às profanas, há uma avalanche de maldade que faz do escracho à condição humana uma urdidura do bom texto.

Sem exceção. Os textos suaves, bocós, melosos, agradáveis, têm vida curta.

A dura escritura é tarefa de recalcados, sofridos, até suicidas covardes, que não se matam. Suicidam-se em cada frase e renascem na estupidez do destinatário do seu texto, que é o leitor idiota.

Me vem à memória uma multidão de bons textos e de excelentes escritores que assim o fizeram. Não citarei nenhum. É minha vingança de detestá-los por não conseguir me comparar.

E se meus atropelos pudessem merecer um texto que escarrasse no focinho do leitor, meu talento raquítico não me fornece matéria prima.

Sobra-me falar mal do leitor, reduzi-lo à condição funcional do focinho, como se o texto tentasse pôr uma brida, com rédeas sob meu controle, mesmo montado num animal desconhecido.

Esse é um bom texto? Se você disser que é, não entendeu nada. Se disser que não é, entendeu menos ainda. É melhor ficar calado.

O mundo é uma caverna na Tailândia, com crianças esperando respirar com a sobra do ar de asmáticos.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 01/07/2018 - 09:04h

Os juízes da Copa


Por François Silvestre

O pensamento filosófico, que nasceu agregado ao conhecimento científico, foi a primeira rebeldia da descoberta. Do intelecto impondo a luz para romper as trevas.

A cada descoberta de uma verdade nova, uma dúvida era vencida; e um deus abatido em pleno voo caía aos pés do caçador. Assim mesmo, dessa luta temporal entre a sombra e a luz. Uma luta de complementação, não de confronto, como o fazem os pintores.

De início, consciente da ignorância, o homem começou a identificar os sinais da ciência. Num embate em que a dúvida nascia da angústia e desaguava na descoberta.

A ciência é da essência natural, independentemente da ação humana, à exceção da História. Porém, foi pela filosofia que o homem enfronhou-se no tecido cognitivo do misterioso mundo científico. Desfraldando a bandeira do conhecimento pelo aceiro da sua franja. A dúvida nascida no estuário filosófico provocou a curiosidade necessária para ingressar no terreno da Ciência.

Da lição inesquecível de Teilhard de Chardin: “Deslocar um objeto no tempo, para trás, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Seguidas tão longe quanto possível na direção da sua origem, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo”.

Chardin, padre e filósofo, perseguido pela intransigência canônica do catolicismo de sacristia, veio da origem filosófica de Aristóteles, e fez conexão de voo com Thomaz de Aquino. Todos construtores em cadeia, numa corrente de elos presos pela sabedoria que tocava o invisível. A invisibilidade infinita de cognição quase inalcançável, na presença universal do Cosmo.

Para Thomaz de Aquino o Universo é criação de Deus. Para Teilhard de Chardin o Universo se cria, sob a regência de Deus. E continua sob permanente autocriação. No contorno de um invólucro infinito; “sistema” pela multiplicidade, “totum” pela unidade e “quantum” pela energia.

Para os filósofos gregos, de onde vem Aristóteles, o conhecimento é a própria criação. Dado que no escopo do conhecer pode-se aferir que até os macacos “sabem” que o conjunto das bananas maduras é menor do que o conjunto das bananas.

O primeiro conceito da palavra Deus, do protossemítico ao sânscrito, não significa aquele que cria, mas aquele que fala. “O princípio era o Verbo”…

Nós evoluímos em tecnologia, no último meio século, mais do que nos últimos quinhentos anos. Contudo, involuímos intelectualmente na mesma proporção.

Vivemos o tempo da involução pensante. Enquanto as máquinas que criamos aprimoram-se, o nosso cérebro criador regride. Tempo de embrutecimento humano, pobreza cultural, imbecilização política, feiura esportiva. E Estados paralelos, ilegais, como ocorre no Brasil, onde quem manda é a bandidagem, nem se submetem aos vídeos corretivos.

A ausência do pensar filosófico, dos tempos de hoje, implantou o reino da mediocridade. O convencimento foi substituído pela imposição. A vocação deixou de ser um impulso do talento para acomodar-se às cobranças do mercado.

Os filósofos medicaram a humanidade contra a estupidez, mas o medicamento perdeu a validade.

A revisão das decisões dos juízes de futebol, pela tecnologia dos vídeos, pode até corrigir equívocos, mas burocratizou a disputa. Falta fazer o mesmo sobre os equívocos dos julgamentos na seara jurídica. E olhe que nem será uma burocracia a mais. Será apenas mais uma burocracia.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
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domingo - 24/06/2018 - 08:26h

Os cordões


Por François Silvestre

Ivo de Cidinha é do cordão encarnado, organiza sua barraca embandeirada de rubro vivo.

Canindé de Olavo é do cordão azul, nem põe a lona de cobertura para usar o céu como teto da sua barraca.

Na hora da dança, no patamar, eles nem se cumprimentam. Desdenham um do outro. Detestam-se. Entre eles, a Diana, cujas vestes ostentam as duas cores; a banda da saia azul virada para o cordão encarnado e a banda vermelha da saia virada para o cordão celeste.

Ivo ver tudo vermelho, na sua vida. Gosta de carne quase crua, de beterraba e suco de melancia. Prefere os dias nublados pra não ver o azul do céu. E gosta de apreciar o por do sol, quando as quebradas do Poente fazem as nuvens avermelhadas e tingem de chumbo o sossego do Nascente.

Canindé detesta carne vermelha, de melancia só aprecia a fruta intacta, pra não ver seu miolo. O céu é sua paisagem preferida, principalmente com as nuvens recolhidas, onde o azul se espalha como lona perene da sua barraca. Seu carro é azul e as portas da sua casa também.

Os dois se odeiam. Nos tempos normais, sem a festa das barracas, odeiam-se cordialmente. Na época da festa, a desavença torna-se incontrolável.

A Diana, com suas duas cores, não merece a confiança de nenhum dos dois. Cada um acha que ela se rebola mais animada para o lado da saia do cordão contrário.

“Ela é azulada”, diz Ivo. E a olha com desdém. “Ela nunca desencarnou”, afirma Canindé. E a trata com desconfiança.

E assim, intolerantes, levam a vida num inferno de disputa sem trégua. Não há bandeira branca, que é mistura das cores; nem preta, ausência dos matizes.

Ou o céu escancarado ou o sangue derramado. Não frequentam o mesmo bar, a mesma igreja nem torcem pelo mesmo time. Nas Copas do Mundo, um veste camisa azul e o outro camisa amarela. Ivo reclama de não ter vermelho na nossa bandeira. E Canindé adora quando o Brasil joga com o terno azul.

Se o padeiro português deixar o pão mais tostado, Canindé o acusa de barraqueiro avermelhado. Se o pão ficar pálido, Ivo o acusa de traíra. “É preciso tostar bem pra casca ficar vermelha”.

A vida deles não comporta neutralidade nem isenção. Ou é tudo do seu lado, ou é tudo do lado oposto. Ninguém pode apreciar mérito algum nos dois cordões. Nem defeitos. Ou cada cordão é a cor agregada feito tatuagem ou é a cor a ser expelida, sem a menor chance de convivência. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
quarta-feira - 20/06/2018 - 09:36h
Opinião

O fascismo “tendencioso”


Por François Silvestre

O sofisma é uma artimanha retórica de clássica escola grega. A modernidade aproveitou-se do método para deformá-lo e usá-lo em proveito de interesses políticos e escusos.

Sem escrúpulos. Em todas as direções da Rosa dos Ventos.

Trump e Jong-Un: agora, amigos (Foto: Web)

Veja um caso concreto.

Donaldo Trump, que dorme e acorda pensando em Barack Obama, declarou ser prejudicial à democracia americana uma aproximação com a ditadura cubana. Pelo perigo de Cuba? Não. Por ter sido uma decisão de Obama.

Mais recentemente, o mesmo Trump resolveu aproximar-se da ditadura coreana, chamando o ditador da Coreia de “jovem talentoso”.

A ditadura da Coreia do Norte é mais humana e “democrática” do que a cubana? Não. É muito pior.

Mas Obama falara muito mal de Kim Jong-un.

Foi a deixa para Trump amar a Coreia do Norte e odiar Cuba.

Qual a palavra que melhor alcança a definição desse procedimento? Fascismo. E o método? Sofisma.

Não existe cultura inútil, posto que inútil é a ignorância.

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Categoria(s): Artigo
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domingo - 17/06/2018 - 07:42h

Um morreu, o outro esperneia


Por François Silvestre

O stalinismo morreu. Ponto. O comunismo nunca existiu; teve o nome associado a uma caricatura por repetir como oração o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.

Foi uma ilusão a pensar numa humanidade do porvir. Mas prestou um grande serviço. A quem? Ao capitalismo.

Todo idiota que detesta a palavra socialismo usa o “comunismo” como desculpa para babar-se de espuma hidrofóbica contra toda e qualquer manifestação humana de liberdade não convencional.

São os fascistas.

O fascismo vive.

Vive na repulsa à liberdade. Vive no ódio à fraternidade. Vive a aspergir a gosma do preconceito.

A depender deles, a burca das mulheres árabes deveria chegar aqui. Mesmo que eles as despissem para serem violentadas no esconderijo das suas taras. É isso.

O fascismo é o estuário das taras. E a primeira delas é a incapacidade de conviver com opiniões contrárias.

Stalin morreu e foi sepultado. Felizmente.

Hitler vive, a iluminar o epitáfio de um túmulo inexistente.

No mesmo forno onde o fascismo cremou judeus, agora os fascistas convocam o sionismo para cremar opiniões.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
domingo - 10/06/2018 - 08:30h

As mazelas do poder fraco


Por François Silvestre

Não é fácil conviver com a crise. Nem com a seca. Nem com a escassez. E menos ainda com a “ética” dos métodos, banquete de hipocrisia. Pra cada sujeira apontada no quintal vizinho, um charco de lama na própria soleira.

Já houve quem sustentasse não ser pessimista para não parecer chato; nem otimista, para não parecer bobo. E chegou a inventar o realismo consciente. A moderação na crença e a tolerância no descrédito.

O candidato contamina-se de otimismo para convencer o eleitor a segui-lo. E ao eleitor é oferecido um pacto de entusiasmo. E a surrada promessa de mudança. E ambos fingem. Cada um no seu grotão.

O eleitor se faz de besta e oferece o bolso bobo para receber a prebenda do esperto. O eleitor sabe que seu voto é uma mercadoria e o candidato intui que o comprado e pago não comporta cobrança.

Mesmo assim e talvez por isso mesmo a crise seja um rompimento de trevas. Uma lanterna a clarear no quarto escuro. Um puxão de orelhas da realidade. A crise institucional escancara-se. Tão grave quanto a econômica. A economia se arruma, mesmo que demore.

A ascensão de um governo legitimado ajudará na recuperação. Porém, as Instituições sem crédito só se recuperam com nova ordem constitucional. Isso tá mais claro do que o sol da manhã no sertão de Novembro.

Nem a Democracia é plena nem o voto é livre. Fosse livre, o voto não seria obrigatório. Tanto a Esquerda quanto a Direita defendem o voto obrigatório. Por quê? A Direita sabe que o voto livre seria muito mais caro. E a esquerda percebe que o voto voluntário seria muito mais exigente.

A Direita precisaria de mais grana para arrancar alguém de casa e a Esquerda precisaria revisar a baboseira sofista para convencer o eleitor desobrigado de votar. O voto obrigatório é democracia de curral. Coisa de rebanho e não de povo.

A crise rasga a mentira. O discurso, a liberdade do voto, a promessa, a propaganda, os debates ocos, a mídia venal, a fiscalização de fachada. Esse é o útero onde se fecunda o óvulo do embuste e nasce feto da crise.

Os candidatos são espermatozoides. O eleitorado é o óvulo maduro a esperá-los, no cérvix da urna. No ovário, eles se encontram. Após a caminhada difícil que veio do gozo, enfrentando cada um a hostilidade da militância inimiga.

E a conquista? O candidato excitado penetra o cio da militância. Os lados oponentes abrem as pernas do rebanho, no berço esplêndido. E há o coito. O resultado do coito é o coitado.

Reina o Estado Cérbero, falido, e suas castas famintas de privilégios e empanzinadas de hipocrisia.

E a seca? Apenas “uma eterna e monótona novidade”, como disse Cunha, o Euclides. Eterna porque sempre existiu. Monótona porque vem em ciclos. E novidade porque nunca nos preparamos para seu retorno inevitável.

De todo modo a crise educa, seja no aprendizado ou na reflexão. Nas trevas descobrimos o valor da luz; na retirada, recuperamos a memória do torrão. E no aperreio valorizamos a pobreza da posse precária, cuja legitimidade só se configura pelo trabalho e não pela esmola.

Posse pior do que a da esmola só aquela adquirida pelo roubo ou pela corrupção. Cuja repressão há de ser despolitizada, sob o risco de pairar dúvidas no controle e na punição.

Quanto ao comando atual do Estado brasileiro, vem à memória aquele verso de Camões que Francisco de Souza Nunes gosta de recitar: “O fraco rei faz fraca a forte gente”. Té mais.

François Silvestre é escritor

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sábado - 09/06/2018 - 09:20h
Reflexão

Uma disputa idiota


Por François Silvestre

“A morte de qualquer homem me diminui porque faço parte do gênero humano, por isso não perguntes por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”. Foi deste verso de John Donne que Hemingway retirou o título do seu famoso romance, celebrizado pelo filme de Sam Wood.

O país está tão idiotizado que há disputa até sobre qual morte merece mais repúdio. Uns, de um lado, cobram dos outros, do outro lado, protesto pela morte dos “seus”. Os mortos não têm lado. Seja policial, militante civil ou pessoa do povo.

Nem os bandidos merecem o assassinato. Por piores que sejam. Não há pena de morte legal, por que então se defende a pena de morte ilegal?

Quando um policial é assassinado e não se sabe quem o matou, nem há inquérito elucidativo, é o próprio Estado, pelos seus órgãos de controle e repressão, o assassino.

Quando uma pessoa do povo é morta e não se sabe quem a matou, o Estado não é o assassino, mas é cúmplice.

Cumplicidade da ação omissiva.

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Categoria(s): Pensando bem...
domingo - 03/06/2018 - 08:30h

Filé de rato


Por François Silvestre

Somos todos honestos fugindo dos ladrões? Ou pode também ser o contrário? Onde reside o endereço da fuga? Em que lugar dessa terra dá pra se armar uma tenda sem endereço, fugindo de notificações, intimações, citações.

Na sombra dos holofotes?

Num sopé de gruta, com pedras listadas de cinza, restos de maravalha, galhos de trapiá, piado de morcegos, cheiro de saudade, afago da solidão, barulho suave do escorrer dos restos da última neblina, escavado nas folhas secas da jitirana de um calango assustado, passos de feirantes tristes, vindos de uma feira de misérias.

A cangalha abandonada num banco de perna quebrada, restos de arreios guardados numa brecha da soleira, o trinado do cancão avisando que vai furtar e esconder no ninho; o sol se pondo escondido no fim da tarde cansada.

Em vez do jumento ruço, uma motocicleta sem registro. Em vez do roçado de milho, uma carroça de vender água. O rádio de pilha encostado enfeita um baú de couro. A televisão recebida por pagamento de conta antiga, nos tempos de uma bodega, traz o mundo até olhos e ouvidos.

Na manhã do antigo cuscuz com queijo de coalho, agora pão francês dormido com Coca-cola. Já emprestou dinheiro a juros, nos tempos de agiotagem entre pequenos. Já comprou produtos de furtos e passou alguns dias na cadeia. Precisou mudar de morada, distante da antiga cidade.

Joga no bicho toda semana, na loto, mega-sena e no baú de Silvio Santos. Mudou de lugar, mas não de vontades. Ainda sonha em ser rico. Batizado Leôncio, apelidado Filé de Rato.

Deu um agrado ao soldado que pediu os documentos da moto. Foi-se a grana de uma quinzena. Na garupa, montou um pequeno engradado onde encaixa vários garrafões, desses de vinte litros, e sai pela madrugada a furtar água de caixas ou reservatórios próximos das estradas.

Leva uma mangueira grossa adaptada ao motor da motocicleta que serve de bomba de sucção. Enfia a mangueira na caixa e de lá traz a água para os garrafões. Se uma galinha ou guiné cochilar, vai junto.

Pela manhã, sai vendendo. “Olha a água mineral mais barata do lugar”.

Após a ceia, de arroz com galinha furtada, senta-se em frente à tevê e assiste aos jornais do dia. Sempre tem vizinhos, além dos dois filhos que lhe restam, pois os outros se mandaram, a terceira ou quarta mulher, todos de olhos fixos na tela.

Só ele fala, apontando para a televisão e repetindo: “Só tem ladrão nesse país. E tudo solto. Olha a ruma de dinheiro qui esse fi duma égua guardou em casa”.

Cada um que aparecia no noticiário merecia um monte de impropérios que Filé de Rato soltava, cobrando honestidade dos políticos. “Precisa acabar essa ladroagem”.

E pensando só com os botões, sussurra para si mesmo: “Bicho burro. Tão fácil de esconder. ah! Se fosse cumigo”! Té mais.

François Silvestre é escritor

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sexta-feira - 01/06/2018 - 22:30h
Caiu

Lugar de parente é aqui


Por François Silvestre

Pedro Parente caiu. Estava escrito, desde quando o governo garantiu que ele era intocável.

Como ocorre com técnicos de futebol. Qual o seu destino, o destino do Parente?

Venha ser candidato no Rio Grande do Norte. Aqui é o paraíso dos parentes.

Tudo que é parente aqui tem mandato ou lugar de destaque nos cargos de indicação.

A nobiliarquia potiguar pode não ter o charme do Reino Unido, mas tem a pose dos príncipes tribais.

Tudo com o aval da estultice dos súditos do jerimunzal.

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Categoria(s): Artigo
domingo - 27/05/2018 - 08:28h

O fantasma de Lobato


Por François Silvestre

Fim dos anos Vinte, Monteiro Lobato encontra-se nos Estados Unidos em busca de informações sobre o petróleo. Observa que a coisa girava em torno de um tripé que envolvia siderurgia, escoamento e combustível. Aço, transporte e petróleo.

Sua fixação de extrair petróleo nas terras do Brasil não servia aos interesses dos petroleiros americanos. Nem aos brasileiros lacaios desses interesses.

O Presidente Washington Luiz dissera numa frase célebre que “governar é abrir estradas”. Essa manifestação chamou a atenção de Lobato, que de lá mandou uma declaração de apoio ao candidato oficial, Júlio Prestes. Estrada impõe transporte e transporte requer combustível.

Prestes ganhou, mas não assumiu. O movimento de 1930 pôs Getúlio Vargas no poder. Monteiro Lobato era uma figura célebre, por conta de sua atividade de escritor. Bastante popular em todo o Brasil. Jeca Tatu era lido de Sul a Norte.

Ele criou uma fixação sobre o petróleo. Mas essa fixação produziu inimigos terríveis, estrangeiros e internos. O governo o considerava adversário, por conta do seu apoio a Júlio Prestes, que derrotara Vargas.

O novo governo consolidado, Monteiro Lobato manda uma carta para Getúlio, explicando as necessidades brasileiras de investir na extração de petróleo. O governo fazia coro com os interesses americanos, na repetida balela de que não havia petróleo no Brasil. A carta foi respondida com o silêncio.

Lobato ainda tentou agir por conta própria, conseguindo extrair o óleo em alguns lugares. Tudo economicamente inviável. Os inimigos de Lobato o acusavam de querer lucros. Qual o crime, se o lucro é o salário da empresa?

Uma segunda carta, ácida, foi remetida. O governo respondeu com a prisão e condenação de Lobato. O gigante fora amordaçado. Saiu da cadeia falido e desencantado. Seu último desabafo: “…O pior foi a incoercível sensação de repugnância que desde então passei a sentir sempre que leio ou ouço a expressão “Governo Brasileiro”.

Pois bem. Morto Lobato, o tempo repôs a verdade. O Brasil tinha petróleo, muito e de boa qualidade. Veja a ironia: Foi Getúlio, agora presidente eleito, o criador da Petrobrás, em 1953.

E o slogan da Empresa foi a frase de Monteiro Lobato: “O petróleo é nosso”.  Na Carta testamento de Vargas, o suicida acusa as mesmas forças, inimigas de Lobato, de serem os inimigos do Brasil e do povo brasileiro.

O resto da história não é edificante. Mais recentemente, no governo de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Francis denunciou roubalheira na Petrobrás. Não delatou a fonte, foi processado pela Empresa e condenado ao pagamento de uma multa de milhões de dólares.

Impagável.

Segundo amigos do escritor, esse processo teve papel marcante nas causas da sua morte.

Aí vem o petrolão. O mais fantástico escambo de corrupção já visto na parceria público-privada.

Agora, sob o pretexto de “salvar” a empresa, o governo escancara a fragilidade econômica de sua política.

Põe um pretenso administrador para brincar de capitalismo em plena recessão. Atrelando preços de combustíveis ao mercado internacional do petróleo. E nenhum economista desse arremedo de governo viu ou previu a monstruosidade do problema que estava e ainda está sendo montado. Mascarado em números falsos de inflação “sob controle” e mentira de crescimento do PIB.

O fantasma de Monteiro Lobato manda seu embaixador, Visconde de Sabugosa, repetir o alerta de que ao brasileiro só restam duas alternativas: Conhecer o Brasil, pela educação, para assumi-lo, ou entregá-lo pela ignorância. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
  • Expofruit - Teaser - 20-07-18 a 21-08-18
domingo - 20/05/2018 - 08:28h

Só a vontade coletiva


Por François Silvestre

Tempos de miséria dialética. A considerar-se tudo que se confronta, enfrenta-se, afirma-se e se nega.

Hegel resgata da era clássica a dialética empírica e lhe dá feição idealista. A lógica, então método usual, foi superada na investigação filosófica. Arquivamento dos silogismos.

Um discípulo de Hegel, Karl Marx, repensou a dialética e contestou Hegel. Dizia ele que Hegel acertara na superação da lógica, mas pusera a dialética de cabeça para baixo. E quem fora discípulo, agora era revisor.

Mesmo que os marxistas detestem o revisionismo, não foi outra coisa o que Marx fez com Hegel. Desvestindo a dialética do idealismo para dar-lhe compleição materialista. Aliás, nesse aspecto, Engels foi mais profundo do que Marx.

A negação dos marxistas ao revisionismo vem dos diversos momentos em que foi preciso justificar o poder, mesmo negando princípios originários do próprio marxismo.

Até Fustel de Coulanges, equivocadamente chamado de positivista, foi tachado de “precursor” do revisionismo. Daí negou-se a importância da sua obra clássica, “A Cidade Antiga”, que se debruçou sobre a religião, organização política e vida familiar nas Cidades-Estados da era Clássica.

É verdade que a dialética tem vida muito mais antiga do que Hegel e Marx. Aristóteles, Demóstenes, Heráclito de Éfeso são alguns ensaístas da dialética primitiva. Também operada por Tomaz de Aquino, na Escolástica. E arranhada por Santo Agostinho, na Patrística.

A tese, antítese e síntese superam e substituem as deficiências simplistas da lógica. Hegel tem o mérito histórico da sua transposição para o pensamento moderno. Marx e Engels cumpriram papel semelhante, na aplicação do método dialético ao pensamento político de transformação. Isto é, no materialismo histórico.

Cuja práxis prometida, negadora do idealismo, produziu o mais fantástico fracasso histórico de quantas revoluções houve.

Pois bem. O Brasil conseguiu, sem revolução, o feito de aprimorar a dialética do fracasso. A política brasileira é “A boneca de uma menina que não tem braços”, como a felicidade definida por Humberto de Campos.

O capitalismo brasileiro é pré-feudal, o socialismo brasileiro é pré-burguês e a política do Brasil ainda cisca no terreiro da caverna.

Tudo no contorno infindável da promiscuidade público-privada, estuário institucionalizado da trampolinagem e demagogia. Horta fértil de cujo estrume brotam “salvadores da pátria”.

A dialética, no Brasil, não tem tese. Só antítese, sem síntese. Desordem institucional, desonestidade administrativa e farsa de controle.

O único governo que tentou reformas de base, inclusive agrária, foi João Goulart, um latifundiário. E caiu por isso. Imprensado no meio da guerra fria, travada pelo império capitalista americano contra o império militarista da burocracia soviética.

A pátria dos quartéis vendeu-se. A pátria dos políticos prostituiu-se.

O povo recebeu a sucata da pátria, cujo conserto, hoje, atropela-se na dialética da mediocridade. Só a vontade coletiva poderá romper o fracasso. Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo
sexta-feira - 18/05/2018 - 15:26h
Realeza

É para quem phode


Por François Silvestre

A Globo ganhou direito preferencial para comandar o casamento de mais um príncipe da realeza britânica. Ali, tudo é muito distante do alcance de nós que somos o resto do mundo. Até a fisiologia.

O cocô de um principezinho faz a alegria das apresentadoras da Globo, até Alexandre Garcia gagueja de emoção.

O sabão de essências do Himalaia, com flocos de raízes de Mântua, dissolvido com colônia de cidreira dos Andes, serve para lavar e perfumar as virilhas da Rainha. (Renato Machado já disse que a Rainha não tem virilhas, mas encontros góticos).

O pai da noiva não comparecerá pois foi acometido de uma forte crise de hemorroidas.

Porém, após o casamento da filha a evacuação do novo sogro real sairá com raios azulados no sangue.

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quinta-feira - 17/05/2018 - 18:35h
Rio de Janeiro

Anjos da Rua Conde Lage


Por François Silvestre

Hoje, uma loja das Americanas foi assaltada à luz do dia, na Rua da Glória (Rio de Janeiro). Próxima ao cruzamento com a Cândido Mendes, passando pela Rua Conde Lage.

Quase na mesma hora, um policial foi executado no Largo do Machado, a duas estações do metrô da Glória. Área de classe média, antigamente tranquila, cuja violência limitava-se às farras da Lapa, próxima dali, cuja informação de Nelson Gonçalves dizia que “na Lapa baixam valentes, malandros e otários”.

Hoje, não há lugar para otários, malandros nem valentes. O lugar é de bandidos e vítimas.

Os anjos da Rua Conde Lage, pequenas estatuetas, que as meretrizes usavam de enfeite na penteadeira, nem precisam ser virados para a parede, como elas faziam, para poupá-los das cenas obscenas. Não.

A obscenidade do Rio de Janeiro é resultado da corrupção, combate de mentira da corrupção, domínio da bandidagem e intervenção federal completamente desmoralizada.

Os anjos da Rua Conde Lage, que não tinham vergonha das suas donas, sumiram. Roxos de vergonha.

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Categoria(s): Artigo
terça-feira - 15/05/2018 - 07:30h
Governo Temer

Peraí


Por François Silvestre

O governo federal publicou nota “defendendo” as Forças Armadas sobre documento da Agência de Inteligência Americana, CIA, que informa sobre a tortura e assassinato de brasileiros durante a Ditadura Militar.

Peraí.

As Forças Armadas do Brasil não têm nada a ver com isso. Foram generais politiqueiros, com o apoio de políticos reacionários, que usaram a força militar para implantar uma Ditadura sanguinária, que não poupou nem seus aliados originários, exemplo de Carlos Lacerda.

As Forças Armadas,  Instituição Permanente e indispensável à vida e soberania do Brasil, não é acusada de nada.

Quando foi usada indevidamente, não teve culpa. Foi usada.

Por generais corruptos da democracia e politiqueiros desde os Anos Vinte. Coronéis dos anos Quarenta e generais dos anos Cinquenta.

As Forças Aramadas de hoje, com exceções desprezíveis, cumprem seu papel constitucional.

O governo Temer quer por cortina de fumaça no embaçado do seu desgaste.

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Categoria(s): Artigo
  • Repet
domingo - 13/05/2018 - 15:08h

Às mães (Poema de nomes)


Por François Silvestre

Mariana Suassuna, Guilhermina de Alencar (Mãe-Guilé), Vevéia, largada de sua gente para cuidar de filho alheio, Madrinha Zeneida Correia de Alencar, Didi Gurgel, Tercina Pereira, Antônia de Bibiana, Diínha, Margarida Simplício.

As que partiram nas asas do beija-flor.

Dilma, irmã mais velha, cuja valentia só encontrou adversário no Alzheimer, Terezinha, mãe do filho e vice-mãe dos irmãos, Dalva, mãe acolhedora dos desvalidos nos tempos idos de Sobradinho, Aurélia Suassuna, cuja casa foi abrigo e amparo de tantos e de todos, Betaceli Suassuna, irmã de escolha, Suelene Suassuna, mãe das três, Aurélia Tâmisa, filha e mãe, Fernanda Tâmisa, filha e mãe, Raíssa Tâmisa, vice-mãe dos sobrinhos

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Crônica
sexta-feira - 11/05/2018 - 07:56h
Regime Militar

Cai a máscara


Por François Silvestre

Eu nunca tive dúvidas sobre diferenças fundamentais entre os ditadores que “governaram” o Brasil após 1964. Eram todos do mesmo conluio, da mesma estratégia e do mesmo “patriotismo”.

Criaram um mito da “diferença” entre iguais. Dando a Castelo Branco e Geisel posições menos violentas. Tudo enganação. No caso de Castelo havia uma aparência de “institucionalidade” para agradar a comunidade internacional, que revelou-se contrária à banição de Juscelino Kubitschek.

Figueiredo e Geisel: matar, matar (Foto:Weber)

O general, “mais feio por dentro do que por fora”, segundo Hélio Fernandes, prometera eleições, no discurso de posse, mas fez tudo para a implantação continuada do regime de opressão. Era o “anjo da Rua Conde Laje”, conforme definição de Carlos Lacerda.

No que se refere a Geisel a aparência era necessária posto que a Ditadura começava a agonizar. Golbery do Couto e Silva, o Chico Ciência do regime, inventou a teoria da sístole e diástole da nossa realidade política. E convenceu Geisel de que era melhor uma distensão negociada do que virarem réus, vislumbrando o cansaço e envelhecimento da quartelada, apoiada por políticos ruins de urna, em 1964.

Agora, mesmo tardiamente, a máscara ruiu. E quem prestou esse serviço à História? O Tio Sam.

Os bancadores e avalistas da Ditadura. Pois é.

A Agência Central de Inteligência (CIA) torna públicas informações sobre autorização e controle do procedimento de tortura e assassinato de políticos, tudo dirigido pelo núcleo superior do regime. Inclusive com a conversa documentada em que Geisel e Figueiredo autorizam a continuação da política de extermínio, que vinha do governo Castelo, ampliou-se no período Costa e Silva e tornou-se escancarada no período Médici. Geisel exigiu que se limitasse aos “mais perigosos” e que tudo fosse centralizado no Serviço Nacional de Informação (SNI), sob o comando de Figueiredo.

A diferença entre os cinco ditadores era só de método.

A CIA põe o ventilador na boca das valas onde ainda “exala um estranho cheiro de súplica” , em cujos escombros “repousam” aqueles que não tiveram direito ao enterro comum dos mortos.

Leia também: Em memorando, CIA diz que presidente Geisel autorizou assassinato de opositores.

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Categoria(s): Artigo
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