Por Ivan Maciel de Andrade
Em palavras iniciais à “História da alimentação no Brasil” (Itatiaia, 1983), Luís da Câmara Cascudo revela que durante “uma temporada andou tentando Josué de Castro, em conversa e carta, para um volume comum e bilíngue. Ele no idioma da nutrição e eu na fala etnográfica”. Mas reconhece que não daria certo: “Josué pesquisava a fome e eu a comida”. Josué de Castro é autor de “Geografia da fome” (1946), uma das obras mais importantes, mais densas e inovadoras das ciências sociais em nosso país.
Nela se demonstra – desmistificando uma visão naturalista e fatalista – que a fome que atingia e, apesar de todos os programas assistencialistas governamentais, ainda atinge significativas camadas da população brasileira, tem causas socioeconômicas, políticas e culturais. Em “Geopolítica da fome” (1951), Josué de Castro ampliou sua análise, estendendo os princípios que a orientaram para focalizar o problema da fome “em escala mundial”. Lamentável: Josué de Castro foi perseguido pela ditadura militar de 64 e hoje é vítima da desinformação que leva ao desconhecimento e esquecimento.
No primeiro capítulo do segundo volume da sua “História da alimentação no Brasil”, Câmara Cascudo refuta Goethe, para quem “no princípio foi a ação”. Para mestre Câmara Cascudo, “no princípio foi a fome”. Isso porque, “depois da respiração, a primeira determinante vital é a alimentação”. Ainda mais que “o imperativo da reprodução aparece muito depois, quando a nutrição desenvolveu os órgãos funcionais”.
Esse é o ponto de partida para a pesquisa historiográfica e etnográfica objeto desta obra única da literatura nacional, pela erudição, pela saborosa abordagem dos temas e pela peculiar qualidade estilística do texto cascudiano. Uma pesquisa abrangente que acumula informações do passado remoto da humanidade, de nossa formação colonial e de etapas diversificadas da cultura contemporânea de muitos países. Um livro que se lê não só com interesse, mas com enorme prazer.
Lamenta Câmara Cascudo que, “vivendo como vivemos, sob o signo da velocidade e a égide da angústia, estão os homens perdendo a legitimidade do paladar”. E argumenta com a ousadia de um Dom Quixote espectador e crítico das frustrantes conquistas de nossa civilização: “Para a tranquilidade fisiológica, e decorrentemente psicológica, da população terrestre, a deglutição de uma boa feijoada é mais útil do que a posse da Lua.” O lema atual é “não perder tempo”. O que nos obriga a “comer depressa, digerir depressa” e abandonar rapidamente a mesa. Ou seja, somos absorvidos pela “vida prática”. Que significa, por sua vez: “Pé no acelerador. Avião hipersônico. Olho no relógio. Tempo é dinheiro, mas todos sabem que dinheiro não é tempo. Quando possuem o dinheiro, perderam o tempo que o valoriza”.
Considero essa citação indispensável para destacar um trecho do livro que sintetiza a filosofia de vida de mestre Cascudo. Foi praticando-a que ele adquiriu a imensa erudição que revela em seus livros, escritos com paciência, esmero, amor. O importante é valorizar a própria vida, no que ela tem de essencial – capaz de realizar a nossa capacidade de ser, individual e coletivamente. A mesma filosofia que justificava seu aliciante apelo de retorno “à boa e veneranda tradição cozinheira”.
Ivan Maciel de Andrade é professor, advogado, escritor e membro da Academia Norte-riograndense de Letras – ANRL













































