Por Bruno Ernesto
Quem tem mais de quarenta anos de idade – me arrisco a dizer -, pelo menos uma vez na vida passou as ponta dos dedos num teclado de uma máquina de datilografar. Se não passou, dificilmente não pôs os olhos numa delas.
Claro, antes dos computadores eletrônicos e, agora, os esmartefones – sim, desse jeito -, as máquinas de datilografia reinaram por mais de um século.
Qualquer local onde a burocracia reinava plenamente, ela estava lá posta. Às vezes às dezenas. Um batalhão de sincopado de dedos rijos, praticamente em riste, que avançava e recuava tecla por tecla, pinçando letra por letra, num frenesi e no limiar do erro.
Uma vez chancelada a letra no papel, não se podia retroceder. Não se podia perder a concentração, nem o raciocínio.
Quem tinha o pensamento ordenado e os dedos firmes tinha vantagem e, evidentemente, até os mais habilidosos datilógrafos também estavam fadados ao erro.
Quando acontecia, lançava-se mão da simples colocação “digo”, e se retificava o erro.
E assim, incontáveis textos nasceram de cabeças extraordinárias, mãos e dedos firmes e disposição para enfrentar essa batalha com o erro que espreitava o datilógrafo do início ao final.
Há vantagens e desvantagens no uso dessas máquinas, pois não precisam de energia elétrica nem sinal de telecomunicação para funcionar.
Aliás, acredito que essa antiga tecnologia foi fundamental para o firme raciocínio dos escritores daquele tempo, pois forçava-os a manter o foco, ainda que estivessem apenas transcrevendo um texto manuscrito.
Sempre fui um entusiasta de máquinas de datilografar, mas, confesso, são impraticáveis para o que nos propomos a fazer diariamente.
Nem que lançasse mão de centenas de digo, ainda assim, essas máquinas me são reservadas para outro tipo de produção textual. Se bem que há erros que são necessários, pois o processo de criação textual é assim mesmo.
Ao contrário do que se pena, simplesmente não nos vem à cabeça e, por vezes, é muito trabalhoso e angustiante organizar as ideias e manter a coesão e coerência.
Na verdade, é mais um modo de me desafiar mentalmente. Qualquer dia vou contar quantos digo precisarei utilizar numa crônica.
Todavia, uma coisa tenho certeza: o que tá dito, tá dito. Com erro ou sem erro.
Aliás, se você lê o mesmo que todo mundo lê, fatalmente você vai escrever e pensar como todo mundo pensa.
É uma questão de destino, digo, escolha.
Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor





















































