domingo - 23/02/2020 - 07:48h

Urso de Carnaval

Por Odemirton Filho

São apenas crianças e adolescentes que saem às ruas a procura de diversão.

Alguns andam com os pés descalços, roupas rasgadas e fantasiados com qualquer retalho de pano.

Às escondidas, longe do olhar dos pais, percorrem as ruas e avenidas das cidades, sem hora para voltar para casa, sendo costumeiro adentrar em alguns estabelecimentos comerciais.

O que querem é brincar e, quem sabe, conseguir algum dinheiro para comprar alguma “besteira”.

Há, talvez, os mais afoitos que levam escondido um pouco de bebida alcoólica.

Muitas vezes voltam para casa sob “chineladas” dos pais que não gostam da brincadeira.

À frente da trupe, se é que se pode chamar assim, sempre existe aquele mais desinibido, que não se preocupa em sair pulando e cantando, com as mãos estendidas, pedindo algum trocado.

É o “urso”, que causa medo em algumas crianças de tenra idade.

Não é incomum que muitos faltem à escola ou “gazeiem” as aulas a fim de, juntamente com os amigos, “desfilarem” pelas ruas e avenidas da cidade.

Gostemos ou não da “zoada” de seus instrumentos musicais improvisados, na maioria das vezes latas vazias, os ursos fazem parte do cotidiano carnavalesco.

Dizem os historiadores que a brincadeira surgiu pelas bandas do estado de Pernambuco, tendo origem nos ciganos da Europa que percorriam a cidade com seus animais presos numa corrente, que dançavam de porta em porta em troca de algumas moedas.

O fato que nada é mais característico no período que antecede os dias de carnaval do que a presença dos ursos nas ruas.

Contudo, nos dias de hoje, poucos são os ursos que vemos pela cidade, como outrora.

Atualmente o carnaval é uma mistura de sons e ritmos.

Os mais saudosos dizem que em tempos passados o carnaval era melhor, pois eram realizados nos clubes, ao som das marchinhas, essas, verdadeiramente, típicas do período momesco.

Hoje, ao contrário, brinca-se o carnaval ao som de vários ritmos, seja lá qual for.

Não importa.

Cada época e fase da vida tem seu brilho e alegria.

Que o folião brinque à sua maneira, inclusive no balanço da rede “solasol”.

Um carnaval de paz, caro leitor.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
sábado - 08/02/2020 - 08:32h
Eu

Uma reflexão sobre amigos e amizade

Não quero muitos amigos; quero amigos.

Se forem muitos, ótimo.

Se não, já estou satisfeito com os que tenho.

São bençãos em minha vida.

Amém.

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domingo - 26/01/2020 - 07:28h

Mossoró não me ama

Por Inácio Augusto de Almeida

Eu te conheci, Mossoró, quando ainda eras pequena e eu um menino mal saído das fraldas. Banhei-me no teu rio, pisei teu solo, cresci amando o Potiguar.

E vi tuas ruas de areia que levantavam poeira com o vento vespertino das tuas tardes quentes. E te amei, Mossoró.

À noite ouvi tuas histórias contadas por Fernando, Lopes, Luís Bandeirantes. Estes teus filhos legítimos me ensinaram a te amar. Eu te vi chuvosa e seca, e tu sempre me parecias linda.Com nuvens negras ou com sol radiante, tu, para mim, eras sempre como uma noiva. E assim, eu aprendi a te amar, a te querer bem.

E tu me traíste, Mossoró. Nunca vistes o amor que eu sentia e sinto por ti. Com Mário de Almeida e Bernardo de Almeida varei as tuas madrugadas. Mário, que de tanto te amar, ao falar de ti, chorava.

Preferistes dar teu reconhecimento a outra pessoa. Uma pessoa que nunca sequer olhou para ti. Por que, Mossoró? Por quê?

Eu e tantos outros que te amamos fomos postergados, esquecidos, feridos naquilo que temos de mais precioso: O amor que sentimos por ti. Por que, Mossoró? Por quê?

Que estarão a dizer os teus outros filhos? Os que te adoram tanto quanto eu, que de ti sou apenas filho adotivo? E isto, à tua revelia…

Talvez, minha querida, ela nem saiba a tua localização no mapa do Brasil. Talvez, minha cidade amada, ela te confunda com uma cidade qualquer do interior do Rio Grande do Sul, ou, quem sabe, até mesmo com uma cidade dos Estados Unidos. Não, não fiques admirada, não penses que é exagero meu; engenheira química nem sempre sabe muito de geografia.

Teus filhos estão sentidos, muito sentidos.

Mas nós continuaremos a te amar. O nosso amor por ti é mais forte do que a loucura que cometeste. E continuaremos sempre a te amar.

Mas, por favor, em respeito à nossa dor, não cometas outras loucuras iguais a esta.

Graça Foster pode ser tudo, menos tua filha.

Como pode alguém ser filha de quem nem sequer sabia a existência?

Eu e todos os teus filhos continuaremos a te amar e a te querer muito, muito mesmo.

Eu te amo, Mossoró.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 19/01/2020 - 05:40h

Tibau (uma imensa saudade)

Por Paulo Menezes

Estou hoje, início de 2020, na varanda do meu “cantinho” na Praia do Meio em Natal, com uma vista privilegiada da ponte Newton Navarro, estuário do rio Potengi, dunas de Genipabu e das águas verde-azuladas do mar.

Curto uma boa leitura e sinto suave brisa numa rede branca com lençol bastante usado, bem macio, cheirando a guardado. A visão panorâmica de uma beleza sem par do majestoso oceano sempre me leva à Tibau dos meus sonhos. Esteja eu onde estiver.

Pois Tibau foi e sempre será a primeira sem segunda, musa dos meus encantos, razão maior dos meus devaneios.

De repente, incontinenti, surgem algumas interrogações motivadas pela grande desolação que senti. Por onde andam as falésias que na minha juventude eram conhecidas por “morros dos urubus” ?

E os pingas d’água doce?

Cadê as areias coloridas ?

E as redes três maio arrastando milhares de peixes e camarões para a praia nas primeiras chuvas de janeiro?

Qual terá sido a causa de não mais serem vistos os papagaios de papel que ao sabor dos ventos coloriam o céu e faziam a festa da criançada?

Para onde foram as velas brancas da mais frágil das embarcações?

Por onde andarão os vendedores de grude e de gelé?

Ainda há o galanteio das serenatas?

E as tertúlias no início das noites?

Os forrós no final delas?

É verdade que foram substituídos pelo barulho ensurdecedor e infernal dos “paredões de som?”

As reuniões no morrinho? Será que ele ainda existe?

As inúmeras mesas com panos verdes onde rolavam disputadas partidas de pif-paf ainda estão sendo formadas?

E as “peladas” antes do banho de mar?

Por que sumiram da areia branca da praia os caranguejos grauçás com seus deslocamentos laterais à procura de suas moradas?

A misteriosa “Furna da Onça” foi aterrada?

E os coqueirais, porque diminuíram tanto?

Será que foi o motivo do desaparecimento das graúnas com seus maviosos cantos nas frias madrugadas?

A luta para acabar com tanta coisa boa de um passado ditoso e feliz na linda praia tem sido grande. Vão terminar conseguindo. E para quem viveu como eu os anos dourados da antiga e encantadora vila, verdade seja dita: sente falta e saudade de tudo isso.

Sei que faz parte do progresso, mas até a areia fina e fria em que pisávamos nas caminhadas noturnas, trajeto de nossas inenarráveis serestas, foi substituída pela tarja negra e quente do asfalto.

Resistindo, mesmo assim um pouco desgastada pelas altas cíclicas das marés e intempéries inexoráveis, restou apenas a “Pedra do Chapéu”, símbolo maior e cartão postal da orla esplendorosa.

Apesar disso, Tibau continua sendo minha querida e preferida praia. As lembranças aqui relatadas vêm acompanhadas de uma imensa saudade. Muita. Incomensurável. Prazerosa.

Paulo Menezes é apicultor

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domingo - 12/01/2020 - 08:18h

Ano novo, velhas promessas

Por Odemirton Filho

Desde que me entendo por gente escuto a mesma cantilena político-eleitoral.

Entra ano e sai ano e as promessas são as de sempre.

Quais?

Os professores serão valorizados, terão dignas condições de trabalho e os salários serão melhores.

Na saúde não faltarão remédios, leitos hospitalares e insumos básicos para atender bem a população.

A segurança pública será dotada de equipamentos e armamentos para que possa desenvolver a contento o patrulhamento ostensivo e repressivo.

Eis, somente, algumas promessas.

Assim, já sabemos de cor e salteado, para usar uma linguagem coloquial, a retórica de alguns candidatos no próximo ano: irei lutar por saúde, educação e segurança. É a gravação no mesmo disco de vinil.

Não se observa qualquer mudança. É algo cansativo. Enfadonho.

Há tempos que a sociedade brasileira escuta a mesma conversa fiada. Todavia, não se vislumbra, de forma efetiva, qualquer mudança significativa.

São os mesmos vícios e as mesmas práticas. E a culpa, diga-se, não é somente dos políticos.

É, de igual modo, de alguns agentes públicos e do cidadão/eleitor.

Com efeito, o que se presencia, dia a dia, são escândalos de corrupção, em todos os níveis do Poder.

Não se pode negar que existem aqueles que têm bons propósitos, mas são engolfados por um sistema devidamente estruturado para manter o status quo.

O objetivo é levar vantagem. O jeitinho brasileiro é lugar-comum. Neste país ser “esperto” é a atitude correta. Quem assim não age é tachado de bobo ou de querer ser “santo”.

Quanto tempo ainda vamos presenciar a incompetência administrativa e a corrupção?

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 05/01/2020 - 09:05h

Para tentar entender os homens

Por Inácio Augusto de Almeida

No bar do Wellington, Lopes, Sandoval e Izaías continuavam tomando cerveja. A noite já adiantada. No céu, as estrelas formavam uma linda colcha de retalhos. Apenas o barulho do motor da geladeira era ouvido, quando o Lopes, fechando a mão, pigarreou. E, respirando fundo, começou:

– E estava Kung Fu-tse sentado num banquinho de três pernas, quietinho, meditando sobre os homens e suas relações, tanto para com a família como para com o estado, buscando uma definição, quando sem mais nem menos adentra ao pequeno recinto um brutamonte, que vendo aquele homem franzino, resolve escolhê-lo para mostrar a todos o quanto era valente.

E espanca Kung Fu-tse.Ainda no chão, Kung Fu-tse não demonstra estar surpreso com aquela atitude. Entende o ato de covardia. Só não consegue compreender uma coisa. E pergunta ao brutamonte:

– Por que fizestes isto comigo? Eu nunca te fiz o bem.

Sem entender, o brutamonte renova a agressão.

Kung Fu-tse renova a pergunta:

– Por que fazes isto comigo. Quando eu te fiz o bem?

O brutamonte apenas gargalha. Sente-se vitorioso, um mandarim. E na sua ignorância festeja a vitória.

Esta pequena história aconteceu há mais ou menos 2500 anos. Sim, cinco séculos antes do nascimento de Cristo. E que grande lição nos deixou Kung Fu-tse.

Lopes, o grande Boêmio (faz questão da maiúscula no boêmio), terminou de falar e ficou a analisar a reação dos seus ouvintes. Izaías, apenas coçou a cabeça. Sandoval foi que arriscou um palpite de uma forma meio tímida.

– Lopes, este Kung Fu-tse não é o grande filósofo Confúcio?

– Aí, inteligência brilhante. Eu sabia que você conhecia o verdadeiro nome do maior pensador que já passou na face da terra.

Izaías, meio tímido, para não ficar calado, arrisca:

– Lopes, e a história? As pancadas que ele levou do brutamonte?

Lopes abriu o seu largo sorriso. E virando-se para Wellington, pede outra cerveja. É preciso fazer o suspense, e nisto o grande Boêmio é imbatível. Encheu o copo, respirou fundo, bebeu um gole e resolveu continuar.

– Izaías, não me diga que você estava pensando que eu estava falando do Kung Fu daquele seriado da TV. Por favor…

– Não, Lopes, eu sabia que era do Confúcio que você falava.

Sandoval riu. Um riso discreto, mas riu. Lopes observou o riso do Sandoval e muito bem humorado, continuou:

– Vou repetir as palavras do Kung Fu-tse.

Sandoval não agüentou e explodiu:

– Lopes, deixa de qualiragem. Chama o homem de Confúcio mesmo.

Izaías, enchendo-se de moral, emendou:

– Aposto como o Lopes aprendeu hoje o nome do homem e fica bancando o erudito.

O bom Boêmio passa a mão por cima dos olhos, descendo por todo o rosto até ficar apertando o queixo. No gesto mostrava que buscava o autocontrole.

– Então os meus amigos não entenderam a moral da história?

Sandoval, que já estava com mais de seis cervejas na cabeça, não agüentou:

– Deixa de ser besta, Lopes. Para com esta cascaria. Vai, diz logo o que tem de dizer.

– É, fala logo, disse Izaías.

– Não entenderam. Não entenderam. Mas eu vou trocar em miúdos.

Wellington ria a não mais poder. Pela pose do Lopes e por estar entendendo bulhufas daquela lengalenga do Lopes.

– O que acontece se alguém a quem nunca vimos nos agride?

– Ficamos surpresos, apressou-se Izaías.

– Pronto. Aí está a resposta.

– Pera aí, Lopes. Mas ele disse, Confúcio disse. Aliás, você disse que Confúcio disse que nunca tinha feito bem ao brutamonte. Ora, se ele tivesse feito o bem, por que o homem iria agredi-lo?

Sandoval ouviu a argumentação do Izaías e baixou a cabeça. Lopes percebeu que Sandoval já tinha alcançado o sentido da história.

E foi com ar professoral, falando mais do que pausadamente, que o grande Boêmio, não sem antes colocar a mão no ombro do Izaías, disse:

– Voltemos às palavras do grande Confúcio. Prestemos atenção no que ele disse: “POR QUE ME AGRIDES SE EU NUNCA TE FIZ O BEM?”

O bom Boêmio fez a pausa, Sandoval já não agüentava o riso preso.

– Você tem quantos anos, Izaías?

– Minha idade?

– Claro.

– Vinte anos.

– É por isso. Claro que é por isso. Quando você tiver quarenta, cinquenta, você não pedirá que lhe expliquem nada.

– Lopes, eu acho é que você não sabe explicar a fala do Confúcio.

Os olhos negros ficaram bem abertos, as sobrancelhas levantadas, o dedo em riste. Lopes era o retrato da indignação. Sandoval já não conseguia prender o riso.

– Quando você tiver os cabelos brancos, menino, vai saber o que acontece quando se faz o bem a alguém. O que se deve esperar. Entendeu agora a surpresa do Confúcio? Confúcio, claro, não é assim que vocês querem que eu chame o Kung Fu-tse. Mas não é por isso que devemos deixar de fazer o bem. Não devemos é esperar gratidão. Já a ingratidão, esta não deve causar surpresa a ninguém.

Sandoval parou de rir. Izaías começou a iluminar o rosto. E Wellington mostrou a sua dentadura mais do que branca. Aliás, a única coisa que tinha de branco, além da alma.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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domingo - 29/12/2019 - 08:20h

Desabafo

Por Inácio Augusto de Almeida

Ah, minha cara amiga. Ah, minha adorável e paciente amiga.

E você me viu neste banco de praça.

E viu o meu desânimo.

É que tem dia que bate uma dor mais doída, daquela que vai cortando devagarzinho, moendo, como se estivesse nos esmagando com prazer, sadicamente. Dor que nos vai transformando num sei lá, como se somente o vazio ficasse dentro de nós.

E sentimos o cansaço da vida, a revolta dos julgamentos em que a defesa foi negada. Somente um gosto amargo fica em nossa boca.Talvez estejamos cansados do caminhar sem norte. Ou, talvez, quem sabe, tornou-se entediante o eterno assistir ao crescimento dos maus.

E por que isto sempre acontece? Por que o final é sempre o mesmo?

Atente minha cara amiga, atente para o fato dos maus sempre agirem em bando, enquanto que o bom sempre está sozinho, isolado.

Veja os super-heróis, minha amiga. Sempre sozinhos. Ah, o Batman e o Robin? Certo, mas viu o que os maus falam da dupla dinâmica?…

A realidade é que os maus se unem contra o bom. E os bons não se unem para combater o mau. Não, não estou me referindo à eterna luta entre o bem e o mal, não, não. Falo da silenciosa, às vezes, nem tanto silenciosa guerra não declarada dos maus contra o bom. Bom, sim, pois os maus na sua grande covardia selecionam os bons um a um, para destruí-los.

Com toda a certeza inspiram-se nas hienas. Talvez por isto vivam sempre a mostrar os dentes, como se estivessem rindo.

E assim vamos indo, buscando consolo na religião ou fantasiando a realidade, sonhando com um ajuste de contas que, sabemos, jamais acontecerá.

Na televisão mostram um assaltante de celular. Um tipo cuja imagem deixa claro tratar-se de uma vítima do nanismo famélico. E durante mais de 80 segundos este assunto, assalto de um celular é mostrado de forma debochada pelo apresentador do telejornal.

Engraçado, este mesmo telejornal nunca falou nada do caso dos corruptos, que condenados por peculato e corrupção, recorreram e conseguiram continuar exercendo cargos eletivos, fazendo licitações, votando leis e aprovando orçamentos.

E assim seguimos nós, assistindo a este eterno crescimento dos que se locupletam, dos que se cevam com o dinheiro arrancado sob a forma de impostos de um povo que não tem o que comer.

Será minha amiga, que Deus tirou umas longas e merecidas férias?

Será?

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Artigo
domingo - 08/12/2019 - 08:30h

Nossas culpas

Por Inácio Augusto de Almeida

Vivemos assustados. Clamamos pela tolerância zero como forma de inibir a delinqüência. Gradeamos as nossas casas e mantemos nossos filhos presos nos jogos televisivos.

Perdemos o direito de ir e vir.

Pagamos o preço da substituição da fraternidade pelo egoísmo.

Trocamos o bom gosto pelo exibicionismo, a beleza pela utilidade, a cultura pela riqueza. Só nos interessa o triunfo do materialismo e da ciência. Importamo-nos muito pouco com a religião e a arte. Arte que desintegramos em manias e maneirismos.Buscamos a riqueza pela riqueza e nos esquecemos de que a riqueza vem e a paz se vai. O corpo prospera, mas a alma decai. Porque a riqueza pela riqueza equivale a perda da honra, do senso de beleza.

Transformamo-nos em amontoadores de coisas, nos ocupamos primordialmente em transferir dinheiro alheio para o nosso bolso.

Vivemos assustados. Clamamos pela tolerância zero.

Pregamos ética, mas só praticamos a ética que nos é conveniente.

Condenamos o egoísmo alheio e nos esquecemos de que a amizade suplanta a filosofia, e as crianças nos tocam a alma com a música mais profunda que todas as sinfonias.

Um dia descobriremos que os homens não são máquinas.

Neste dia, não mais viveremos assustados, não mais clamaremos por tolerância zero. E transformaremos as grades de nossas casas em balanços onde as crianças, risonhas, sentirão a brisa da tarde num parque de diversão, livres de qualquer medo. E prezaremos mais o aperfeiçoamento da vida do que a vitória na vida.

Se hoje as nossas cidades já não possuem alma, amanhã seremos nós que também não mais teremos alma.

Troquemos a nossa montanha de egoísmo, a nossa fraternidade de vitrine, por um grão de humildade, por um pingo de amor ao próximo.

Já é hora de começarmos a reconciliação maior, única maneira de acabarmos com a violência.

E esta reconciliação plena começa dentro de nós mesmos.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Crônica
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quarta-feira - 27/11/2019 - 09:04h
Meu mundo

Estou muito bem

Algumas pessoas me perguntam por que sou arredio a debates em redes sociais. Por uma questão de civilidade e saúde mental, respondo-lhes.

Não tenho linguagem para sustentar altercações baseadas em insultos, recalques e democracia da opinião única.O silêncio me dá paz.

Estou muito bem.

Redes sociais são um péssimo ambiente para discussões. Assemelham-se ao trânsito, em que qualquer um infla músculos e verbo, numa coragem que talvez não tivesse em outro espaço ou contexto.

A arte de ter razão, aqui lembro Schopenhauer, é arrimada na estupidez.

Sei bem que essa interação gera mais seguidores, projeção e acessos.

Esses ativos não me atraem tanto, que fique claro.

Sou iluminista por convicção e exercício diário, o que por si só contraria essa selvageria virtual entre seres que sabem ‘tudo’ sobre tudo.

Descobri com o tempo que minha Santa Mãezinha, Dona Maura, sempre foi aristotélica: “A virtude está no meio”. Segundo ela, na moderação, na tolerância. Na prática de contar até dez, até 1000, para não perder a cabeça.

Aqui, não. Nesse mundo, aluado tem fãs.

Mentiria se lhe falasse que não gostaria de ter 1 milhão de pessoas me acompanhando.

Quem tem seguidor é líder de seita.

Se milhares me ouvem e, às vezes me escutam, ótimo. Se esperam a ofensa pela ofensa: ‘peguem o beco’.

Sei ouvir.

Falem, por favor.

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Categoria(s): Crônica
domingo - 24/11/2019 - 08:24h

Bar raiz

Por Odemirton Filho

Amâncio estava encostado no balcão para tomar umas. O bar de seu Chico de Hemetério era fétido, ou mal frequentado, como diziam os metidos a rico da cidade.

O estabelecimento tinha paredes rachadas com, apenas, uma demão de cal. Não possuía mais do que quatro ou cinco mesas com tamboretes de madeiras.

Uma prateleira ocupava toda a extensão da parede, preenchida com uma grande quantidade de cachaças em garrafas empoeiradas. A ornamentação se resumia a um chifre de boi pendurado.

Amâncio era freguês assíduo, com mais três ou quatro “papudinhos” que frequentavam diariamente o local. Uns falavam em tom alto, outros choravam por motivos diversos, principalmente, ao som das músicas de “sofrência”.Mas para Amâncio não importava o ambiente, queria mesmo era bebericar, comer tripa de porco e esquecer o desemprego.

O país há tempos estava mergulhado em uma crise econômica e, segundo os “entendidos”, por culpa da corrupção e dos desmandos administrativos da classe política.

Não era novidade para ninguém que os políticos somente apareciam em ano de eleição, com aquele sorriso amarelo e abraçando quem encontrassem pela frente, inclusive crianças com catarro escorrendo pelo nariz.

Não podia reclamar. Quantas vezes recebera tijolos, cimento e telhas para reformar a casa em troca de seu voto? Era costume dele e dos vizinhos varar a madrugada, à véspera da eleição, para esperar um agrado que sempre vinha.

Os vizinhos diziam que era a única oportunidade para receber alguma coisa, já que os políticos, em sua maioria, somente olham o próprio umbigo.

Não demoraria e era certo que a sua mulher, D. Francisca, viria buscá-lo, pois, pelo avançado da hora, sabia onde encontrá-lo. Diziam os amigos que era manicaca. Talvez o fosse, era homem de poucas palavras, não gostava de confusão.

Para completar o dia, seu Zé Rosa encostara-se no balcão para puxar prosa e falar da vida alheia. Seu Zé tinha ficado viúvo há pouco tempo, mas se achava o “Don Juan” da redondeza. Arranjara uma mulher bem mais nova, que só queria usufruir do seu “aposento”.

Zé Rosa, querendo-se fazer íntimo, indagou:

– Amâncio, ainda desempregado?

– Sim. Respondeu em tom seco.

E continuou:

– Soube de Toinho? Caiu doente, quando perdeu o emprego na fábrica de móveis.

-Não. Retorquiu sem olhar no rosto do velho.

Continuou a bebericar a dose de cana sem prestar atenção na história de Zé Rosa, que deveria ser sobre uma nova conquista amorosa.

Estava pensando nas contas que tinha a pagar. O seguro-desemprego terminara, os R$500,00 (quinhentos reais) do FGTS que recebera deram somente para quitar umas dívidas em atraso.

A mulher fazia doces e bolos para vender, mas, diante da crise, muitos brasileiros começaram a vender comida e o faturamento mal dava para pagar o básico da casa.

Pensou em procurar o prefeito, uma vez que todos os seus conhecidos assim faziam quando estavam em dificuldade. Tinham em mente que a função do prefeito era pagar as contas dos correligionários e não trabalhar pela cidade.

Contudo, o Chefe do Executivo municipal, como sempre, estava fiscalizando a reforma das praças. Aquele homem só sabe construir e reformar praças? Pensou.

E o vereador da comunidade? Será que não poderia ajudá-lo? Talvez não, deve estar participando de alguma audiência pública, é só o que sabe fazer.

Tomou mais uma. Seu Chico de Hemetério o olhava com cara de poucos amigos, pois sabia que a farra iria ser, de novo, pendurada no “prego”.

Apesar da idade ainda faltava um bom tempo para se aposentar. E pelo que viu na televisão a reforma da Previdência, depois de muito “moído”, foi aprovada. Disseram-lhe que iria “pegar” a transição, seja lá o que diabo isso significasse.

Não demorou muito e ouviu a voz da “patroa”, que veio buscá-lo. Pediu a seu Chico de Hemetério que anotasse na caderneta, que, logo, logo, viria quitar a dívida.

Para agradar o dono do bar, disse-lhe que, ali sim, era um bar de verdade, raiz, como se diz atualmente. O proprietário, entretanto, fez-se de rogado.

Saiu trôpego, sendo conduzido por D. Francisca, ouvindo impropérios.

Ainda ouviu as gargalhadas e o falatório de seu Zé Rosa e dos outros “papudinhos”:

– Ah cabra manicaca!

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 24/11/2019 - 05:40h

Homem

Por Inácio Augusto de Almeida

Mar, terra, céu, homem

Amor, ódio, fidelidade

Traição

Paixão, indiferença, bondade

Homem

 

Correção, cafajestismo

Caridade, maldade

Mar, terra, céu

Homem

Homem, Homem, Homem

 

Insensibilidade, compaixão

Genialidade, loucura

Imbecilidade, Inteligência

Patifaria, honestidade

Homem

 

Mar, terra, céu

Equilíbrio de forças

Homem, Homem, Homem

Simbiose de sentimentos

Antagônicos

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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Categoria(s): Poesia
domingo - 03/11/2019 - 07:46h

O caso

Por Inácio Augusto de Almeida

São sonhos de criança. Sonhos de uma época em que tudo era possível.

A brisa que entra pela janela chega a incomodar. Reluto em levantar-me, mas é preciso fazer a caminhada matinal, afinal, prescrição médica não pode ser postergada assim sem mais nem menos. Mas que dá uma vontade danada de continuar curtindo esta preguiça…Em vão procuro os chinelos, os óculos eu sei que estão na mesinha de cabeceira que alguém inventou chamar de criado mudo.

Chego até a porta e vislumbro a vista maravilhosa. Lá embaixo, as ondas se quebram e com suas espumas brancas colorem as areias finas e claras da praia. Respiro fundo, respiro o ar que posso respirar. Afinal, foram mais de 40 anos de cigarro.

Andei por este mundo de meu Deus, cruzei muitas fronteiras, ia e vinha, sempre sem pressa de ir, sempre desesperado por voltar. E sempre com a esperança de um dia voltar para não mais ir.

Grande foi a alegria ao conseguir o cantinho onde ficar definitivamente. E no local mais do que sonhado.

Mossoró.

Não, não dá para esquecer o primeiro dia em que ao despertar fiquei com medo de chegar até a janela e descobrir que tudo podia apenas ser um sonho. Hoje rio destes pensamentos. Quando se deseja ardentemente uma coisa, quando se ama desesperadamente algo, somente lentamente é que nos convencemos de que a realidade é a que está à nossa frente. Até parece que nascemos para sofrer, já que assimilamos rapidamente como real o que nos magoa e levamos algum tempo para incorporar o que nos dá prazer.

É período de férias e estou em Tibau.

As areias finas no contato com os meus pés causam algum barulho, uma espécie de chiado. É gostoso caminhar descalço. É como se uma massagem estivesse sendo feita nos pés. Acho que é uma massagem, sim. E a melhor de todas, pois a massagista é a senhora natureza.

De volta da caminhada, a grande rede na varanda, o bom livro de algum poeta que sabe, de verdade, fazer poesias. Da cozinha vem o bom cheiro do camarão aferventando. Na geladeira o vinho de uma boa safra. Depois a rede na varanda.

E com o embalo que o vento dá na rede, difícil manter os olhos abertos. O barulho das ondas no seu vai-e-vem soa aos meus ouvidos como uma canção de ninar.

E assim a tarde se vai lentamente, cheia de preguiça, indo com vontade de ficar.

Na linha do horizonte o sol, entre nuvens vermelhas, inicia o seu desmaio diário e começa a mergulhar nas águas transparentes da linda praia.

A luz da lua toca os meus olhos. Um convite a olhar o enorme espelho que forma ao se refletir no mar.

Na praia casais namoram. Estão preocupados com a preservação da espécie. Traçam planos…

Existe lugar melhor para o amor? A lua, a praia, o barulho do mar, a beleza das alvas areias da mais bela praia do mundo…

Obrigado, meu Deus. Eu não merecia tanto.

Inácio Augusto de Almeida é escritor e jornalista

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Categoria(s): Crônica
  • San Valle Rodape GIF
domingo - 27/10/2019 - 09:22h

Solidão e liberdade

Por Honório de Medeiros

Encontrei Antônio Gomes em Pau dos Ferros, no rumo de suas terras na Serra das Almas, fugindo do frio na Europa.Tomamos um café coado no “Maria”.

Me disse que gostara muito de uma frase minha postada no blog.

– Qual?

“Somente é livre quem pode dizer não”. Mas observo que primeiro é preciso dizer sim ao projeto de dizer não para ser livre.

– Você sempre um sofista!

Ele riu e observou, quase que como para si mesmo, que “isso tudo o levara a compreender a solidão, no final da vida, de tantos artistas e pensadores…”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

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Categoria(s): Crônica
domingo - 27/10/2019 - 07:36h

Omissão

Por Inácio Augusto de Almeida

Mataram um traficante.
Você disse: EU NÃO SOU TRAFICANTE.

Mataram um jornalista.
Você disse: EU NÃO JORNALISTA.

Mataram um policial.
Você disse: EU NÃO SOU POLICIAL.

Mataram um promotor.
Você disse: EU NÃO SOU PROMOTOR.

Mataram um deputado.
Você disse: EU NÃO SOU DEPUTADO.

Mataram um governador
Você disse: EU NÃO SOU GOVERNADOR.

Mataram VOCÊ.
O ENTERRO FOI LINDO!

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 22/09/2019 - 10:00h

Falta de tempo

Por Inácio Augusto Almeida

Coelho tinha acabado de pedir outra cerveja. Ageu abriu tendo antes o cuidado de enxugar a garrafa tal a quantidade de gelo que se formara.

– Cerveja só presta assim, bem gelada.

-É isso aí, Ageu. É por isso que eu só tomo cerveja no seu bar.

Luís, sentado num banco alto, debruçava-se sobre o balcão e observava a cena.

No fundo do bar, entre um copo de cerveja e outro de pinga, Valdemar buscava se embriagar.

Na televisão notícias sobre empreguismo de parentes e protegidos de políticos com salários absurdos. Todos não concursados.  Notícias de sempre que não mais atraíam a atenção de ninguém.

Na calçada, pessoas iam e vinham, em passos lentos, desapressados, como se tudo estivesse a esperar por elas.

“Há quanto tempo estou para terminar a leitura daquele livro? Quando, pela última vez, fiz uma visita a um hospital ou a um abrigo de crianças?”

-É água que não acaba mais!

– O Nordeste é assim mesmo, Valdemar. Ou seco de estorricar ou com água capaz de afundar o barco de Noé.

– O barco de Noé, Coelho?

– Perto destas enchentes, aquilo que o Noé viu é chuvisco.

A risada foi geral. Até o Ageu, sempre preocupado em saber a despesa de cada um, riu.

Falavam das chuvas que caíam no Recife e estavam provocando enchentes e causando mortes.

Na televisão as imagens de casas desabando e carros sendo arrastados mostravam um quadro desolador que pouco tocou a sensibilidade daqueles que bebericavam numa manhã tão vazia quanto eles.

Coelho ajeitou-se melhor na cadeira e bebeu um pouco mais de cerveja. Sentiu que ela já não estava tão gelada.

“Há quanto tempo não escrevo para os amigos que estão no Maranhão e em Goiás? E a visita que eu tenho que fazer ao Padre Sátiro?

É… Por quê? Por quê?…”

– O que diabos o Coelho tem hoje que está tão calado?

– Vai ver, Ageu, ele “furou-se” no jogo de pôquer, disse Luís.

– Ah, isso eu duvido. Coelho perder no pôquer… Só se for muita zebra.

– Mas não esqueça, Ageu, que prego também tem seu dia de martelo..Por falar em Roberto, onde anda ele?

Foi a Brasília. Ele só vive lá e cá.

Coelho tudo ouviu e nada disse. Apenas mandou Ageu anotar na caderneta as cervejas que tomara e, despedindo-se de todos, seguiu pela Alberto Maranhão no rumo do centro da cidade.

“Tempo, tempo, tempo… Não tenho tempo para as coisas que preciso fazer.Tempo é o que me falta.”

Ouviu como que um grito:

Tempo é uma questão de preferência. Nós sempre temos tempo para coisas que gostamos de ler.

Riu. E balançando a cabeça decidiu terminar a leitura do livro, visitar o Padre Sátiro e escrever as cartas que tinha que escrever.

Faria tudo isto amanhã mesmo.

No outro dia, na hora de sempre, entrou no Bar do Ageu  e pediu uma cerveja.

Em uma outra mesa, Coelho e Valdemar falavam de corrupção e impunidade.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 08/09/2019 - 08:18h

A moça da praça

Por Odemirton Filho

Passos apressados. Precisava chegar ao trabalho no horário do expediente, pois tinha se atrasado algumas vezes e o patrão já reclamara.

O caminho que percorria sempre passava pelo mesmo lugar: a praça Vigário Antônio Joaquim, defronte à Catedral de Santa Luzia, em Mossoró.

Uma cena, todavia, chamava a sua atenção: havia sempre uma moça sentada no banco da praça, folheando um livro.

Como tinha pressa, não a observava de forma mais acurada, apenas de soslaio. Porém, como a cena era recorrente, começou a se interessar pela presença da jovem. Ela vestia roupas simples, mas possuía um belo semblante.

Algumas vezes, apesar do pouco dinheiro, comprava um jornal na banca do saudoso “Zé Maria”, a fim de ter um motivo para vislumbrar aquela moça.

Nos dias seguintes começou a acordar mais cedo, sempre com o intuito de chegar a praça e ver a desconhecida que tanto o encantava e o intrigava.

Certo dia, arriscou cumprimenta-la e, de forma educada, a jovem respondeu com um sorriso.

Em uma ocasião, tomou coragem, parou e puxou um dedo de prosa. Disse-lhe que estava curioso, pois sempre a via sentada no banco, quase no mesmo horário.

Ela, de forma gentil e com a voz suave, respondeu-lhe que sempre assistia à missa das 06h na Catedral e depois gostava de ficar sentada no banco, lendo e, de quando em vez, acompanhando o voo dos pombos que faziam morada nos arredores da praça.

Como dizia ela: apreciando o simples da vida.

Com o passar dos dias, ele sempre chegava cedo para que pudesse conversar com sua nova amiga, que tinha um “papo” agradável.

A jovem, pedindo reservas, disse-lhe que estava doente e o médico tinha lhe dado pouco tempo de vida.

Quem passasse pela praça acharia que se tratava de um casal enamorados, mas, na verdade, ali estava uma bela amizade. Com o tempo, ambos confidenciavam seus segredos e medos.

Ela o encorajava a buscar um novo emprego e continuar os estudos. Ele, por outro lado, dizia-lhe que tivesse fé, pois ainda viveria muitos anos.

Completavam-se.

Um dia, como de costume, saiu cedo de casa para conversar com sua jovem amiga, contudo, não a encontrou.

Outros dias sucederam e não a encontrava. Começou a ficar aflito.  Entretanto, depois de muito procurar, soube que sua amiga tinha falecido há alguns dias.

A vida continuou, decerto. Porém, ao fazer seu caminho diário e atravessar a praça os olhos marejavam e vinham à mente as mais doces lembranças.

Alegre somente o sobrevoo dos pombos na praça Vigário Antônio Joaquim, no Teatro Lauro Monte Filho e na Catedral de Santa Luzia.

O simples da vida.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

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domingo - 08/09/2019 - 07:24h

Esse é Zé Brasil

Por Inácio Augusto de Almeida

Membro da milícia papal, cavaleiro d ordem de São João da Barra, centrista convicto. Um homem simples, negro velho, amante da boêmia e inimigo número um do capital e do trabalho, principalmente do trabalho.

Conheci Zé Brasil no Espetinho Mossoró, ali, bem pertinho do Mercadinho do Alto da Conceição.

Já octogenário, Zé viveu a Mossoró de Dix-Huit Rosado . Admirador do Monsenhor Walfredo Gurgel, valentemente combateu as arbitrariedades do regime militar, isto entre um conhaque e outro.

Zé é um tipo que se não existisse , seria preciso inventar…

Pertence atualmente à esquerda da Igreja Católica. Não, não se surpreendam. É verdade. Zé Brasil está na esquerda católica. Se ela existe ou não isto é de somenos importância.

No Espetinho Mossoró, tomando mais um conhaque, Zé degusta as frases de efeito do Papa Francisco.

E vibra quando o Papa Francisco diz que a corrupção fede e que o dinheiro da corrupção é sujo com o sangue e as lágrimas de inocentes.

Repete a todo instante, depois de alguns conhaques, claro, que o Papa Francisco afirma que a igreja cansou de dizer amém. E conclui que não mais escutam o Papa.

Espera que um dia o Papa inicie a construção da igreja dos pobres, pois para Zé Brasil a igreja dos ricos já está construída.

Outro dia perguntei ao Zé Brasil quando Cristo voltaria.

Ele, naquela sua simplicidade, me respondeu:

Não volta mais. Ele agora está acordado. E por estar acordado é que sempre está no meio de nós, mas nunca mais voltará a nós. Basta a crucificação daquela época. Hoje seria muito pior.

E entre um conhaque e outro condena abertamente a destinação de recursos públicos para campanhas políticas em uma época que faltam recursos para Educação, Saúde e Segurança. Melhor, na sua opinião, que este dinheiro fosse utilizado na compra de medicamentos e de livros.

Assim é o Zé Brasil, sempre preocupado com os grandes problemas nacionais.

Sonhador, como todos os boêmios, Zé devaneia.

E nos seus devaneios, isto após 15 conhaques, vê um lugar onde os corruptos são punidos com rigor e a forma maior é a inteligência.

E bebe mais um conhaque, convicto de que um dia tudo será como ele sonha…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

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domingo - 25/08/2019 - 05:22h

Manhã de domingo

Por Inácio Augusto de Almeida

Maurílio passara em frente ao Grêmio Mossoró, mas não entrara. Sabia que lá dentro só estavam os carteadores. A turma do bilhar nunca comparecia pela manhã. E como o Grêmio aos domingos só funcionava até o meio-dia, o médico resolveu ir papear no barzinho  do Carlos, como sempre fazia quando não ia a Tibau, a exemplo da metade da população de Mossoró.

Nas manchetes dos jornais espalhados pela calçada de forma ordenada, leu que Jânio Quadros prometia varrer a corrupção do país. Riu, discretamente, intimamente, riu. A dúvida era se ria do Jânio ou de si mesmo. Mas tinha certeza de que alguém estava pensando que alguém era ingênuo.Enquanto atravessava a rua observou que, no átrio da igreja, algumas pessoas papeavam.

– Maurílio, Maurílio!

Era Conversinha com aquele seu jeitinho insinuante e agradável. Sentiu que não escaparia de algumas cervejas.

– Viu as manchetes, Conversinha?

– A do O INDEPENDENTE eu li.

– E você acredita que ele consiga?

– Há, há, há.

– Tá rindo de quê?

– Da sua pergunta, há,há,há.

– Você é mesmo um gozador.

– Eu? Ou você que tá querendo zombetear…

– Vai uma cerveja?

– Claro, claro.

A garapeira do velho Guará estava fechada. Ele nunca a abria aos domingos. Quem gostava disto era o Pelado, pois assim podia ir dar o seu mergulho nas águas quentes de Tibau. Durante toda a semana, Pelado era o incansável servidor de caldo de cana e pão semolina. Mas aos domingos, ninguém o afastava da praia.

-Veio tomar cerveja, Maurílio, ou tá querendo caldo de cana? Você não pára de olhar para a garapeira.

-Sabe, Conversinha, eu às vezes ainda me surpreendo com a solidariedade que existe entre os pobres. Você sabe que o Pelado, o Pelado do Guará.

Fez uma pausa. Engoliu um pouco de cerveja, como se quisesse recompor-se.

-Vai, continua. Eu sei quem é o Pelado. Todos em Mossoró conhecem-no.

Com este conhecem-no do Conversinha, numa conversa de beira de balcão regada a cerveja numa manhã de domingo, Maurílio trocou o ar sério, quase sorumbático, por um meio riso.

– Pois bem. O Pelado, um homem pobre, inculto, é capaz de atos fraternos, de atos fraternos, de atos solidários, coisa que muita gente que vive papando hóstias, pessoas ditas cultas, não são capazes de fazer.

– Maurílio, limpar hostiários não significa estar com Deus. E este tipos a que você se referiu como ditos cultos, na realidade são cultos. Muito cultos. Só que sensibilidade, amor ao próximo, bondade, não são coisas que se aprende lendo. Franz Kafka, Niccoló Machiavel, Michel de Montaigne ou Bernardo de Almeida, todos eles colocaram em suas obras a importância da solidariedade, da fraternidade, do amor. Mas isto não depende de quem escreve. Estes sentimentos são inerentes aos puros, aos de bom coração. Não, não se adquire estes valores através da cultura. Eles brotam de dentro, do fundo do coração.

Maurílio olhava para Conversinha de maneira respeitosa. Sabia das traquinagens que o jornalista fazia, dos “traços” que dava em alguns poderosos e vaidosos. Mas sabia também da bondade existente na alma daquele homem de menos de metro e meio de altura.

– Você tem razão, Conversinha. Enquanto o Pelado arrisca o emprego, a sobrevivência, para dar dois pães a quem só tem ficha pra um, por saber que ali está a primeira e talvez a única refeição de pobres meninos de rua, tipos ricos e cultos negam uma moeda a pedintes famintos.

– Maurílio, o domingo tá bonito, a cerveja tá bem gelada e já vai para quase dois mil anos que Cristo foi pregado numa cruz. A injustiça social vem desde que começou o mundo. Eu já estou é para fundar o PIS.

– PIS, Conversinha?

– Sim, Maurílio. O Partido da Injustiça Social. Uma coisa que já existe há tanto tempo, que todo mundo diz combater e que continua existindo, só pode ser uma coisa muito forte. Forte e boa para quem a quem pratica. E já tenho as palavras  de ordem. Veja: pela exploração do homem pelo homem. Pela desigualdade social. Por aumento nas taxas de juros. Pela criança fora da escola. Por uma anistia ampla e irrestrita a todos os deslizes do colarinho branco.

– Deslizes, Conversinha?

– Deslizes, sim, Maurílio. Pobre é que comete crime. A turma do colarinho branco fica só no deslize. Deixe-me continuar, ou você não quer saber o restante do programa do nosso partido?

Esforçando-se para controlar o riso, Maurílio conseguiu dizer:

– Nosso, não. O seu partido.

– Meu ou nosso, vamos em frente. Por igrejas alternativas mais fortes e em maior quantidade. Pela manutenção dos privilégios e criação de novas castas. Pela acentuação da divisão de classes. E como ponto inegociável do nosso programa: a defesa do direito adquirido! Neste não admitimos que ninguém toque. Ninguém!

Maurílio ria a não mais poder. Chegava mesmo a curvar o corpo. Os seus olhos ficaram cheios de lágrimas, talvez de tanto rir ou, quem sabe, de constatar que tudo aquilo que o Conversinha falava acontecia realmente todos os dias e ninguém se tocava.

Olhou para Conversinha com uma enorme simpatia. Taí a razão de gostar daquele jornalista falante. E quando pensava em dizer alguma coisa, sentiu uma mão pousar no seu ombro.

– Na cervejinha, hein, Doutor.  Vai ver o Conversinha já lhe fez dar umas boas risadas.

– Ainda não, Lopes. Hoje ele está mais para o trágico do que para o cômico.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista

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domingo - 23/06/2019 - 06:28h

Dez razões para ter um celular

Por Carlos Santos

Carlos Júnior deveria ter uns dez anos e insistia em ganhar um celular.

“Não”, eu descartava.

“Você é uma criança ainda. Não há necessidade!” – dizia o porquê.

Sitiado por tanta insistência, fiz-lhe um desafio: teria que me convencer com uma ‘Exposição de Motivos’ em dez pontos, que seria justificável à aquisição desse aparelho, um Nokya lanterninha, algo bem aquém da modernidade de hoje que os smartphones estampam.

Em poucas horas, atendo ligação com um interlocutor-mirim ansioso do outro lado: “Painho, está pronta a Exposição de Motivos. Venha logo ver”.

Vixe! Já?”

No trabalho, em meio às tarefas diárias e inadiáveis, pondero que depois passaria para receber oficialmente o documento, submetendo-o à minuciosa análise. A decisão sairia posteriormente, estabeleço sem cientificá-lo àquele momento.

“Tenha calma. Amanhã eu vejo” – tento adiar, sob pressão psicológica.

“Quando eu sair do trabalho à noite a gente conversa” – acerto, mas sem me livrar do cerco…

“Vai demorar?” – sou acossado por mais uma ligação.

Sem ter como postergar mais, vou ao seu encontro. Em mãos, sob um olhar atento que esperava endosso imediato, leio (e disfarço minhas lágrimas). “Amanhã eu dou uma resposta”, estabeleço com ar durão. Apesar de decepcionado e enfezado, aquiesce (forçosamente).

No dia seguinte, mostro o conteúdo à equipe na redação do Jornal de Fato, do qual era um dos sócios-fundadores. Leio em voz alta para uma plateia atenta que me ajudaria a decidir. Quando começo a comentar e questionar alguns pontos do texto, recebo logo instantânea pressão para adquirir o equipamento.

Colunista e professora de português, Marilene Paiva é quem mais advoga a tese na redação. “Ele merece”, brada. “Você tem que dar esse celular”, fuzilou.

Acabei cedendo.

Passados tantos anos, com o ‘documento’ original em mãos, lembro do episódio e o porquê da provocação: queria instigar o raciocínio lógico, o poder de argumentação daquela criança.

Também era mais uma oportunidade de fazê-lo entender que qualquer conquista deve ser resultado de esforço e mérito.

Acho que acertei.

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terça-feira - 14/05/2019 - 07:40h
Hoje

O céu de Natal

Mossoró é minha pátria amada.

Mas Natal é uma segunda casa, às vezes até a primeira no carinho dos amigos e no reconhecimento profissional.

‘Santos’ de casa não faz milagre, sei bem.

Porém do meu sertão à capital, o que cabe em mim é um sentimento maior, feito de bem-querer, carinho gratuito e espontâneo, com direito à contemplação devocional.

O céu de Natal também é meu.

Em Mossoró, um pouco eu.

Bom dia, Natal!

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domingo - 21/04/2019 - 10:24h

Um beijo para dizer que “te amo”

Por Carlos Santos

Levei uma “cinturãozada” histórica do meu velho quando devia ter uns oito a nove anos, talvez um pouco menos. Não recordo bem; da peia, sim. Doeu bastante.

Renitente, estoico, resiliente, não queria ceder aos argumentos ásperos que queimavam meu corpo raquítico, mas principalmente a alma.

Fiquei dias amuados. Monossilábico.

Muitos, muitos anos se passaram em nossa convivência. Próximo ao seu fim, algumas vezes me deparei com ele numa cadeira, semi-inválido, com dificuldades à fala. Era um homem preso em novos limites, angustiado pela imobilidade que nunca se permitira.

Seus olhos quase sem brilho perscrutavam meu rosto. Ou mapeavam meu coração. Eram vivos, vivos apesar de… Pareciam querer falar o que ele nunca conseguira, por encabulação de quem não tinha jeito para afagos, chamegos e dengos paternais. Era fechado em si.

Compreendia-o. Compreendo-o até hoje, pois fui um pouco assim em boa parte da vida, herança da convivência.

Ficar ali quase estático era sobrecarga incomum para um homem que sempre fora ativo e multifário, inimigo da indolência. Viver ou sobreviver àquele modo era dolorido. Doía também em nós.

Irrequieto por natureza, pai de família, amante da leitura e incapaz de maltratar um animal, difícil saber muito mais sobre o que se passava em sua cabeça.

Bem diferente do que fora sempre, não tinha muito a oferecer. Antes, para tudo tinha solução própria. Era nosso “MacGyver, aquele personagem de uma série de TV (Profissão: Perigo) dos anos 80, que com astúcia e engenhosidade era capaz de resolver qualquer problema utilizando a inteligência, mãos e alguma ferramenta tosca, de um canivete a pedaço de arame.

Guardo até hoje um par de chinelões em couro que, imprestável aos meus olhos, ele refez. Aquela cadeira à mesa de refeições que seria trocada, ganhou reparo com o talento de um artesão. A cisterna com rachadura, o telhado em goteiras, o fogão sem chamas em uma das bocas, a TV que teimava em subtrair a imagem de nós – tudo era solucionado por sua ação e espírito inventivo.

MacGyver. Nosso Chico.

Cheirava e beijava sua cabeça, agradecido por tudo. Cada peia, inclusive. Foram raríssimas. Acho que só essa mesma da cinturãozada. Se houve mais, por favor, não precisa ninguém lembrar. Eu esqueci.

Até seu orgulho de mim, era comedido. Mas eu sabia que o tinha. Aprendi a dizer-lhe “te amo!” antes da partida. Fiquei leve. Ficamos. Sorríamos do nosso jeito.

Mesmo com aquele ar ensimesmado, sem natureza ou tato para agrados físicos, tinha um zelo incomum por nós e retidão de caráter. Até o bichano “Pimpolho”, membro do clã, sabia disso. A propósito, recebia dele cuidado especial e tinha o poder de lhe provocar raros sorrisos.

Explorava-o, que se diga. Tirava-o do sério, mas não da serenidade. Chegava a forçá-lo a abrir a porta ao quintal pela madrugada – após espetá-lo com as garras -, a fim de sair à esbórnia ou às necessidades mais primitivas.

Do meu quarto, quantas vezes não acompanhei os “diálogos” entre ambos? Daria um quadro de “Sitcom” (comédia de situação) de “A grande família”.

Faleceu no Hospital Wilson Rosado (HWR) em Mossoró, após dias de agonia.

Um pouco antes, meu irmão antecipou que nosso Chico estaria nas últimas. “Não vai durar muito mais”, alertou-me.

– Você quer vê-lo?

“Não. Vou guardar uma imagem dele sorrindo para mim, feliz com um beijo.”

(‘Que descanse em paz até nosso reencontro”) – complementei em pensamento.

Carlos Santos é editor do Blog Carlos Santos

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domingo - 14/04/2019 - 04:44h

Independência ou morte

Por João Pedro Cardoso Prudêncio

Era um dia normal. Ou melhor, uma madrugada normal. Nesse período do ano até o sol era preguiçoso, e nem os galos esperavam ele raiar para começarem sua cantoria. Mas eles não eram os únicos que acordavam para a música.

Dona Cândida também já cantarolava, baixinho, enquanto trespassava a cozinha a passos largos, mas graciosos evitando fazer barulho e acordar as crianças tão cedo da manhã. Ela precisava, no entanto, ser objetiva: o café da manhã não iria se preparar sozinho. Seu Joaquim já havia vestido seu calção e amarrava em torno de seu corpo aqueles restos de tecido que muitos anos antes talvez pudessem ter sido chamados de camisa.

A peça mais valiosa de seu vestuário, entretanto, era seu chapéu. Não que fosse pomposo ou mesmo funcional – era apenas um chapéu de palha curta, que, no entanto, o fazia lembrar de seu pai, quem muitas vezes ele viu sair de casa para trabalhar naquele mesmo horário.

O cardápio do café da manhã não era muito diversificado – a família vivia do que a terra e os bichos lhes davam. Era, ainda assim, muito caprichado. Não era sempre que Joaquim conseguia chegar em casa a tempo de almoçar com a família, então Dona Cândida se certificava que o marido saísse de casa com sustância.

O homem se sentava à mesa ao passo que a mulher colocava em seu prato o queijo e os ovos. Ainda não haviam trocado uma palavra sequer naquele dia, mas anos de convívio os havia levado a uma sincronia quase perfeita. Joaquim termina, beija a testa de sua esposa. Vai até o quarto das crianças e faz o mesmo com elas. Não havia tempo para esperar a comida descer, o sol já surgia no horizonte.

Seus bois já estavam a postos. As chuvas nessa época do ano eram frequentes, de forma que o mato era verde e as colheitas eram fartas. O gado estava gordo e forte, ideal para o trajeto longo e o carregamento pesado. Cada um dos bois tinha um nome. Eram quatro, mas o mais velho, Brutus, era seu animal de maior confiança.

O tempo e o trabalho não tinham sido piedosos com o animal, cujo pelo um dia já refletiu a luz do sol, mas hoje já era fosco e quebradiço. A carga que levavam variava muito, pois dependia da demanda da cidade e da colheita realizada. Hoje ele levava toras de madeira; o frio pedia por lareiras, o que tornava a lenha mais rentável. Joaquim terminou de equipar os animais e seguiu em direção à mata.

A vegetação alcançava seu joelho. O verde trazia alimento aos bois, mas também dava abrigo aos mosquitos. Joaquim já estava acostumado, sua pele espessa já não sentia mais as picadas. Descalço, também pouco se importava com as pedras íngremes ou os perigos da terra fofa. Até tinha calçado em casa, mas deixava para as crianças. Já conhecera o estrago que uma enxada imprecisa pode fazer, e prezava pela segurança dos menores.

Não era incomum para Joaquim encontrar outros como ele, afinal ele passava por uma importante rota comercial da região, mas os grupos maiores consistiam de dois ou três tropeiros. Hoje, no entanto, ele encontrou uma comitiva incomum: eram 6 homens, que ao invés dos convencionais cavalos utilizados pelos tropeiros para guiar os bois, montavam mulas carregadas. Pareciam vir de uma longa viagem. Vestiam todos roupas leves, mas um em especial que andava ao centro do grupo estava quase em trajes de dormir. Este se contorcia em cima da mula, parecendo sofrer de um desconforto intestinal.

Joaquim os observava passar na direção contrária, a distância. Em determinado momento a comitiva parou e um dos homens parecia ler um papel. O homem das vestes simples aparentava se esforçar para se concentrar na voz do mensageiro, mas sua cólica carecia, pelo visto, mais de sua atenção. A essa altura Joaquim já passava mais próximo do grupo, e neste momento o homem da carta a recolheu e o do centro de algum jeito conseguiu se endireitar sobre sua mula. Levantou o braço em que carregava sua garrafa dágua, pigarreou e falou em voz fraca:

– Independência ou morte!

Joaquim acelerou o passo. Não sabia do que se tratava essa tal independência, mas da morte ele queria passar longe.

João Pedro Cardoso Prudêncio é acadêmico de medicina

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