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domingo - 29/09/2019 - 07:38h

A sereia do Cristovão


Por Odemirton Filho

Em alto-mar a solidão era uma constante. Dias e noites com dois ou três companheiros que, como Zé Pequeno, faziam da pesca o ganha pão, ou peixe, como queiram.

Aprendera com o pai a profissão. Desde cedo acompanhava-o na “lida” em uma pequena jangada que içava suas velas brancas e singrava mar adentro.Com o tempo, o trabalho exigira uma embarcação maior, a motor.

Partindo de Tibau, dos morros das areias coloridas, navegavam pela costa entre Grossos e Areia Branca, até chegar próximo ao Porto Ilha que abastece vários navios cargueiros no transporte do sal.

Quando se estar há vários dias em alto-mar, os momentos são entrecortados por uma dose de pinga, muitas conversas e uma imaginação fértil.

Às vezes iam em busca da praia da ponta do mel, navegando pelos mares próximos à praia de baixa grande, morro pintado, redonda e Cristovão, tudo no intuito de fisgar uma maior quantidade de peixes.

Ultimamente, a pesca já não era como nos tempos de seu pai. Não se sabe se por causa das mudanças climáticas ou pelo castigo de Deus, que se irritara com as atitudes humanas.

O fato é que a quantidade que pescavam não dava, muitas vezes, nem mesmo para as despesas da embarcação.

Mas era o ofício que aprendera.

Quando criança, acompanhando seu pai na pescaria, ouvia seu genitor contar estórias de peixes grandes, tubarões e enormes baleias. Barcos que apareciam e desapareciam em um passe de mágica.

Até uma estória que lhe contara Luiz Fausto de Medeiros, lá das areias brancas, sobre um pescador que lutou com um tubarão, bravamente, e conseguiu matá-lo.

Zé Pequeno ouvia fascinado. Contudo, não acreditava nessas conversas. Eram estórias de pescador.

Tinha um pouco de estudo e apenas sorria com esses devaneios. As estórias, sem dúvida, eram para passar o tempo e tornar a viagem menos cansativa e enfadonha.

Certa feita, já adulto, lá pelas bandas da praia do Cristovão, Zé Pequeno estava no barco, acordado à noite, pensando na vida. Os companheiros estavam dormindo, vencidos pelo cansaço.

De repente, viu, próximo a embarcação, algo se mexer na escuridão. Levantou-se e focou com uma lanterna. Aquilo emergia e submergia com enorme rapidez. Será um peixe grande? Pensou.

Visualizou, entretanto, uma mulher. Os cabelos eram compridos, como naquele livro de um escritor das terras alencarinas que, apesar de não ser afeito à leitura, lera na escola: “Tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira”.

Uma sereia? A cachaça, certamente, tinha subido à cabeça.

Contudo, o vulto não parava. Deslizava na água igual a um peixe. O espectro o olhava e o encantava. Ouvia-se um canto suave. Por pouco não caiu em tentação e mergulhou em busca do desconhecido.

Após alguns minutos o mar serenou e aquilo, fosse o que fosse, desaparecera.

Pela manhã, contou aos amigos o que tinha visto. Ninguém acreditou, decerto. Riram e afirmaram que era melhor jogar a cachaça no mar, pois devia estar “batizada”, ante o que acabara de relatar.

A vida e a pescaria continuaram.

Por muitos e muitos anos sempre voltava ao mesmo local na vã esperança de reviver aquele momento. Nunca mais viu ou ouviu o canto que o fascinou.

Com o tempo, Zé Pequeno ensinou o ofício ao filho e contou-lhe várias vezes o ocorrido. O menino ficava com os olhos fixos e brilhando, igual ficava em sua infância.

Até o último dos seus dias jurava que a sereia do Cristovão não era estória de pescador.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Q1Naide Maria Rosado de Souza diz:

    E a Sereia de Cristóvão existiu…poesia de olhos cansados, mas fiéis.
    Linda Crônica, Prof. Odemirton!

  2. Amorim diz:

    Ô rapaz vc agora fez–me cair um lágrima canto no direto do olho, saudades tenho do tempo; que não perdi, usufrui, que morei por aquelas querências, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Chico de Loudinha (Areialvas) que me contou esta HISTÓRIA, talvés consiga fundamenta-lá mais adiante, disse-me ele: quando criança ia com com meu pai para alto mar em sua jangada e quando diminuia a água ele lançava uma garafa presa a uma corda, vazia tampada com rolha de cortiça e lacrada com breu até atinjir doze braças, nem mais nem menos, e pouco tempo depois puxava a corda e a garafa vinha cheia de agua doce!
    Sentado num tronco de árvore que tinha em seu alpendre, pensei ai tem!
    Tempos depois eu minha esposa e amigos fomos passear de “bike” pela praia e prá encurtar a História, não aquentei o trajeto, parei perto a uma jangada e fiquei esperando eles voltarem, pois muito bem; quando se me aproxima um Senhor, entabulei converça e relatei o que o Seu Chico me contou, ja que ele também era de Areialvas, disse-me de para o meu espanto: quanhei muito dinheiro com isso!
    Fiquei sabendo dias depois que se tratava do Seu Caverna.
    Fundamentei a história?
    Oportunamente contarei a historia do moço que fez um barco de pesca movido a motor “pegar no empurão” em alto mar.
    Caro Odemirom, se me permites; não são estórias e sim histórias!
    Buenas ! “Seque o rumo do seu do seu próprio coração”

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