domingo - 20/09/2026 - 09:14h

STF – de usinas do mal e Lampedusa

Por Honório de Medeiros

Lampedusa: tudo feito para ficar como sempre foi (Foto licenciada pela Creative Commons)

Lampedusa: tudo feito para ficar como sempre foi (Foto licenciada pela Creative Commons)

O ex-ministro Luís Roberto Barroso, do STF, certa vez concedeu deu uma entrevista na qual afirmou que “o sistema político brasileiro é uma usina do mal”.

O ex-ministro parece não saber o que é “sistema”, tampouco “política”, ou estava fazendo jogo-de-cena.

Ora, um sistema político está para o Poder Político assim como a espuma está para as ondas do mar.

Simples assim.

Tal é o animismo moderno, que evoluiu da concepção de que as coisas têm vida, para a concepção de que as abstrações têm vida.

Algo muito primitivo, sem dúvida, mas que presta um enorme serviço a quem detém o Poder Político.

Sua expressão máxima é o funcionalismo americano. É algo mais ou menos como imaginar que a culpa dos pneus estarem descalibrados é inerente a eles mesmos, e, não, às estradas ruins.

Troca-se o pneu e fica tudo bem.

Dessa visão do mundo também nasce nossa medicina, na qual os seres humanos precisam apenas melhorar as peças de reposição, que tudo fica otimizado.

Uma variante humorística – e crítica – de uma percepção funcionalista da realidade está na estória do homem que flagra a esposa em adultério. Revoltado, desfaz-se da cama onde ocorreu a traição.

Assim fez o ministro: não podendo se desfazer dos corruptos, quer modificar o sistema político.

Como se em cada sistema político não existissem corruptos.

Antes tivesse lido Lampeduza, ministro, Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

É dele, em “Il Gattopardo”, a frase célebre: “tudo deve mudar para que tudo fique como está”…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
domingo - 13/09/2026 - 09:36h

Do homem

Por Honório de Medeiros

Arte produzida por  Emrah Avci

Arte produzida por Emrah Avci

Assim é a rede social: uma praça virtual semelhante às das cidades do interior, onde a vida de cada um e de todos é passada a limpo todos os dias.

Continuo crendo que o homem não mudou nada com o passar dos anos, desde a era da caça e coleta..

Antes, andávamos a pé ou em cima de animais, hoje viajamos de avião; antes, comunicavamo-nos aos grunhidos, hoje via internet; o homem, entretanto, continua o mesmo, talvez muito pior: está mais fragmentado, mais cheio de ódio, rancor e ressentimento.

Não sua, destila fel.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Estado do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 09/08/2026 - 07:16h

O que leva os jovens ao crime

Por Honório de Medeiros

Alba Zaluar faleceu em 2019 (Foto: Folha)

Alba Zaluar faleceu em 2019 (Foto: Folha)

Em 13 de outubro de 2012 escrevi, e postei, em meu blog (honoriodemedeiros.blogspot.com), um artigo cujo título é “O que leva o jovem ao crime?”

Nele eu dizia o seguinte:

“Uma das consequências possíveis relacionadas com a teoria da Antropóloga Alba Zaluar, Coordenadora do Núcleo de Pesquisa das Violências (NUPEVI), ligado ao Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), de que apenas a pobreza e a desigualdade social não explicam a ida de jovens para a criminalidade, é dar razão ao senso comum do povo quando clama pelo endurecimento da legislação penal.

A teoria, exposta em matéria assinada pelo jornalista Antônio Góis, da sucursal da Folha de São Paulo no Rio de Janeiro, apresenta como uma das causas do envolvimento de jovens com a violência a estrutura cultural que induz o surgimento do que ela chamou de ‘etos da hipermasculinidade’, ou seja, trocando em miúdos, ‘a busca do reconhecimento por meio da imposição do medo’.

É algo decorrente da chamada ‘cultura machista’: os filhos homens são criados em ambientes que reproduzem condutas herdadas de desrespeito sistemático às mulheres, aos homossexuais, aos negros, às minorias, e a valorização direta ou subliminar dos ícones da masculinidade distorcida: a música, a tradição oral, o lazer, a literatura, a própria postura passiva das minorias contribuem para a construção desse perfil medíocre e ameaçador.

A antropóloga lembra que ‘se a desigualdade explicasse a violência, todos os jovens pobres entrariam para o tráfico. Fizemos um levantamento na Cidade de Deus (conjunto habitacional favelizado na zona Oeste do Rio de Janeiro) e concluímos que apenas 2% da população de lá está envolvida com o crime’.

É outra comprovação científica que respalda o senso comum: se apenas a pobreza fosse passaporte para o crime, não haveria Sociedade da forma como conhecemos. Melhor, não haveria tantos ricos criminosos.

De posse do trabalho apresentado por Alba Zaluar talvez pudéssemos pelo menos iniciar a discussão em torno da ampliação das penas no Brasil.

Quem sabe instaurarmos a prisão perpétua: não outra punição merece uma quadrilha de assaltantes recentemente presa em São Paulo, todos na faixa dos vinte anos, especializados em condomínios, que se tornaram conhecidos por torturarem suas vítimas, fossem elas novas ou idosas.

Prisão perpétua com alimentação, saúde, lazer, tudo pago com trabalho – há tantas estradas para ajeitarmos, Brasil afora, tanta terra para ser arada…

E o maior empecilho, para aumentarmos a dosagem das penas no nosso país, para criarmos a prisão perpétua, é exatamente esse remorso social – quando não é a defesa em causa própria, como por exemplo, o caso dos nossos congressistas, grande parte respondendo algum tipo de processo – hipócrita que nos corrói a capacidade de enxergar o óbvio agora corroborado cientificamente.

Sempre achamos, segmentos da elite, que a criminalidade tinha ligação direta com a pobreza. Recusávamo-nos a perceber, com o povão, que sofre nas mãos da delinquência e nas mãos da polícia, que não era assim, afinal não se justifica que haja tortura e morte desnecessária em cada assalto realizado: a crueldade é um ritual de passagem na hierarquia do crime, dependente da admiração dos companheiros; quanto mais cruel, mais admirado, quantos mais homicídios, mais enaltecido.

Agora é tempo de ir atrás do prejuízo antes que seja tarde demais: contamos nos dedos as casas e condomínios onde não há cerca elétrica e cães, isolamento e medo.

Fazemos de conta que não há guerra civil em São Paulo e Rio de Janeiro. Iludimo-nos pensando que o Estado é soberano em algumas áreas das grandes cidades do Brasil”.

Em 13 de junho de 2014, voltei ao tema, novamente em meu blog: “Da criminalidade.”

“Diferente da corrente majoritária hoje nas análises sociológicas acerca das causas da criminalidade e suas consequências, defendo uma abordagem, acerca do tema, de caráter darwinista.

Ou seja, penso que está mais que no tempo de superar a falida postura de atribuir às condições sociais, à pobreza, por assim dizer, o surgimento da criminalidade.

A pobreza não é causa, é um dos ambientes do surgimento da criminalidade. Para o senso comum, principalmente o brasileiro, é fácil entender essa hipótese: basta acompanhar, diariamente, o noticiário acerca da corrupção.

Existe uma lógica perversa, típica, por trás da difusão e aprofundamento dessa manobra diversionista que é atribuir á pobreza o surgimento da criminalidade. É uma lógica de gueto, secessionista, da qual se apropriam os interessados em usufruir da confusão que ela origina.

Em relação ao reconhecimento desse ‘ethos da hipermasculinidade’, ou seja, trocando em miúdos, ‘a busca do reconhecimento por meio da imposição do medo’, a literatura também se manifesta, mesmo que obliquamente, no sentido de reconhecê-la como uma das causas da criminalidade.

Dezenas de corpos foram expostos por comunidade após o confronto (Foto: Fabio Teixeira/Anadolu via AFP)

Pelo menos 121 corpos perfurados à bala em em confronto entre policiais e facção no Rio de janeiro em 2025 (Foto: Fabio Teixeira/Anadolu via AFP/Arquivo)

Leiam atentamente o trecho a seguir, pinçado de ‘Maigret Hesita’, do genial Georges Simenon, escrito em 1968:

‘É provável que lá também encontrasse um pobre sujeito que havia realmente matado porque não podia agir de outro modo, ou então um jovem delinquente de Pigalle, recém-chegado de Marselha ou da Córsega, que eliminara um rival para se fazer crer que era um homem’.”

Aí está o senso comum e a literatura mais uma vez mostrando, de forma inequívoca, por qual razão podem e devem essas questões serem pontos-de-partida para o conhecimento da criminalidade.

** Antropóloga e socióloga brasileira que teve seu trabalho voltado ao estudo da violência urbana. Alba fundou em 1997 e coordenou o Núcelo de Pesquisa em Violências (NUPEVI), no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, com pesquisas sobre violências doméstica, policial, urbana, vinculada ao tráfico de drogas. Faleceu em 2019.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
domingo - 26/07/2026 - 10:32h

Para que servem as palavras

Por Honório de Medeiros

Imagem da página Duas ou Três Blogspot

Imagem da página Duas ou Três Blogspot

“As palavras valem também para isso, dar alguma existência aos nossos delírios”, diz Raduam Nassar em “Cantigas d’amigos”, Cadernos de Literatura Brasileira, Ariano Suassuna.

Ariano, entrevistado pelo Cadernos, em certo momento: “não sou um escritor de muitos leitores; costumo dizer que sou um autor de poucos livros e poucos leitores -, (…) Mesmo que eu não publique, tem um círculo de leitores que sempre lê o que escrevo”.

Retruca o Cadernos: “Este é um circuito antimoderno, o circuito da comunidade interessada”.

Qual uma confraria de amigos, na Idade Média. Bocaccio, Cino de Pistoia, Petrarca; a rede dos trovadores na Provença, sul da França e Península Ibérica…

Assim é, assim será, dado o caráter dos tempos atuais, no qual a imagem evanescente e superficial é tudo e as palavras, suas profundezas, mesmo se delírios, manjar para poucos.

Quem ainda lê Proust?

Aqui a palavra é arte.

Relendo “O Crime do Padre Amaro” do imenso Eça de Queiróz, lá encontro essa ideia pela voz do seco Padre Notário:

– Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou um pedreiro-livre! O que eu quero dizer é que é um meio de persuasão, de saber o que será que passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali… E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é – a absolvição é uma arma”.

Recordo que dizia para meus alunos de Filosofia do Direito ser a confissão um inteligente serviço secreto, à serviço da aristocracia, para a manutenção dos interesses da elite política.

A palavra: arte ou instrumento. Às vezes ambos ao mesmo tempo.

Não somente a palavra escrita, mas também a falada, mesmo a que dá existência aos nossos delírios.

Natal, em 7 de março de 2015.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 05/07/2026 - 11:30h

Conhecimento horizontal e conhecimento vertical

Por Honório de Medeiros

Foto ilustrativa captada pelo autor da crônica

Foto ilustrativa captada pelo autor da crônica

Visitei Antônio Gomes na Serra das Almas.

Ficamos de conversa vai, conversa vem, temperada com café e nacos de rapadura enquanto D. Ciça preparava a galinha com fava verde e Raimundo colhia umas cajaranas para o suco.

“Tá escrevendo alguma coisa”, perguntou ele.

“Não, ninguém mais se interessa por leitura”.

“Eu acho que você está enganado”.

“Como assim?”, perguntei.

“Antes de responder, vamos ampliar o sentido de Ler para o de Conhecer. Talvez seja verdade que não se leia hoje como se lia antigamente, não se sabe ao certo porque envolve estatísticas improváveis”. “Entretanto, nunca se conheceu tanto quanto se conhece hoje em dia”. Há o conhecimento que cresce horizontalmente, e aquele que cresce verticalmente”; um é raso, o outro, profundo”.

Acrescentou: “hoje em dia, qualquer matuto de pé de serra sabe muito mais acerca das coisas que seus antepassados do século passado, mesmo que seu conhecimento seja horizontalizado”.

Ele fez uma pausa, olhou para o imenso céu azul, quase despido de nuvens à sua frente, e rematou: “ainda por cima, à força de ouvir rádio, ver televisão, e ter sua atenção abduzida pelo celular, sua capacidade de raciocínio, quer queira, quer não, está sendo provocada, instigada, acelerada, e seu conhecimento está crescendo exponencialmente”.

É assim que acontece quando vou lá. Ele provoca e, depois, sigo estrada afora, convicto que meu conhecimento cresceu, não sei se horizontal ou verticalmente…

Quinta da Aroeira, 2 de julho de 2026.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 28/06/2026 - 13:04h

Às máquinas, o mundo

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa da Web

Arte ilustrativa da Web

Conto, em meu Poder Político e Direito – A Instrumentalização Política da Interpretação Jurídica Constitucional, um fato narrado a partir de Sir Winston Churchill em My Early Life – A Roving Comission, para ressaltar seu “lado” pouco conhecido de epistemólogo que fez uma opção decidida pelo Realismo, em oposição ao Idealismo.

Esse seu “lado” de filósofo – é bom lembrar que ele foi também escritor, pintor e memorialista e a sua obra, nomeadamente as Memórias de Guerra (1948-1954), valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 1953 – me veio à mente ao ler, quase que por acaso, uma frase que ele proferiu: “Moldamos os nossos prédios e depois eles nos moldam”.

A leitura foi na excelente resenha que Ricardo Abromovay publicou na Revista “Quatro Cinco Um”, acerca de três obras ainda não traduzidas para o português e que tratam daquilo que é denominado de “Sociedade da Vigilância em Rede”.

Pois bem: Abromovay nos induz ao seguinte raciocínio analógico: se nos moldam os prédios que nós construímos, segundo o brilhante “insight” de Churchill, podemos esperar algo diferente em relação à “Rede”?

Até então tudo tranquilo. É difícil quem pense o contrário. O problema é que o diabo mora nos detalhes, como diz o famoso provérbio alemão.

Cito Abromovay:

“Na verdade, as informações permanentemente coletadas e analisadas por algoritmos, cujo funcionamento nos é completamente opaco, permitem que nossa conduta seja previsível e, justamente por isso, abrem caminho a uma interferência em nosso cotidiano que é inédita e atinge todas as esferas da vida social.

Em 2014, por exemplo, a Amazon patenteou um sistema que permite antecipar o que os clientes querem comprar, antes mesmo que eles próprios o saibam. A mágica está nas informações reunidas sobre cada um de nós e na análise que delas é feita”.

Apavorante.

Lembrei-me que certa vez perguntaram a Stephen Hawking se a inteligência artificial iria nos superar – a chamada “singularidade tecnológica”.

“É bem provável que sim”, respondeu ele. E propôs embutir sensores éticos nas nossas máquinas inteligentes.

“Como assim”, me perguntei. “Sensores éticos?”

E me lembrei da sociedade distópica imaginada por George Orwell em 1984: no futuro totalmente controlado por intermédio da inteligência artificial não é o “Grande Irmão” quem dará as cartas.

Serão as máquinas.

Honório de Medeiros é professor, escritor, ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 21/06/2026 - 12:44h

O direito enquanto estratégia do poder político

Por Honório de Medeiros

Xadrez (Foto ilustrativa de O Globo/Arquivo)

Xadrez (Foto ilustrativa de O Globo/Arquivo)

O Direito é, antes de tudo, um fato social, criação humana.

Como ponto de partida, com Karl Popper e Gaston Bachelard, que defendem ir, na busca do conhecimento, enquanto última instância, do Racional para o Real o vetor epistemológico, ao contrário do marxismo, que o supõe, em última instância, obra e graça da infra-instrutura econômica, que seja o Direito entendido como conseqüência última da Razão, mais precisamente, do Poder Politico.

A ideia antecede o fato.

A noção de Direito é algo que construímos quando nos aproximamos, enquanto espectadores engajados ( lembrando Raymond Aron), do emaranhado de fatos sociais ou físicos que constituem a Realidade, como o fazemos em relação a qualquer outro ramo do conhecimento humano, seja Física, Musica, Jardinagem, Arte, etc…

Para apreendê-lo, sendo fato social, é necessário partirmos de algumas premissas metodológicas conjecturais, postas pela epistemologia.

A PRIMEIRA delas é que o Ser (a totalidade das coisas, o “Tudo”) compreende não apenas seu observador, mas, também, aquilo que se observa e a interação entre ambos. Essa é uma perspectiva totalizante. O Ser é, e adjetivá lo é lhe impor uma descaracterização fatal.

A SEGUNDA premissa é um axioma: passando da Ontologia para a Gnosiologia para tentar compreender qualquer fenômeno, entre eles o jurídico, é optar pelo discurso da Razão (Popper).

Ou seja, em condições idênticas, o mesmo acontecimento já observado há de se repetir. Tal premissa nos permitiu rumar às estrelas, embora ainda não tenhamos chegado a qualquer conclusão acerca da causalidade, por exemplo entre as partículas quânticas de estranheza.

A TERCEIRA premissa implica em aceitar que a mera existência do Objeto impõe, ao Observador, um “status” de complexo interativo com a realidade: mesmo quando inerte, as relações são estabelecidas entre ele e o que o circunda, entre ele e e ele mesmo.

Essas relações podem ser chamadas de “feixes”. Tais feixes são conjuntos interagentes de idéias. Um Observador é, portanto, um compósito complexo de idéias.

Essas idéias, inatas ou não (apud Sir Karl Popper e Sir John Eccles), têm sempre um objetivo: sobreviver. São estratégias e táticas em ação objetivando um determinado fim: compreender.

A QUARTA premissa propõe a famosa concepção Heracliteana: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”, resumindo sua filosofia do devir.

A ideia central é que a mudança é a única constante no universo: as águas do rio passam e fluem para o mar, assim como a própria pessoa está em constante transformação a cada instante.

A QUINTA premissa afirma que o comportamento estratégico (que existe independente da vontade ou não dos seres vivos) para a sobrevivência é o segredo íntimo do “Tudo” social (a inação é uma estratégia).

O Homem é um permanente “instante” de estratégias para a sobrevivência: ele as cria contra si, dentro de si, contra os outros e as coisas, pelos outros, e assim por diante.

O mínimo ato, o não-ato, é a concretude de uma estratégia. O bebê que se dirige, instintivamente, ao seio materno, em busca de alimento, usa uma estratégia para sobreviver.

A dor é uma estratégia do corpo.

A SEXTA premissa diz que para dar curso às suas estratégias, o homem usa instrumentos (que nada mais são que estratégias coisificadas: uma enxada é uma idéia), entre eles os abstratos, tais quais as técnicas.

A SÉTIMA premissa aponta o Direito como um instrumento estratégico. Usam-no aqueles que produzem as normas jurídicas: grupos que detém o Poder Político (idéia + violência).

Esses grupos lutam para mantê-lo enquanto estratégia para a sobrevivência.

Quando um dos aparelhos do Estado (o Poder Judiciário), através de um dos seus tentáculos, prolata uma sentença, é o resultado de uma estratégia de Poder Político (Apud Gaetano Mosca; os marxistas).

Assim, tudo é estratégia. E ela existe em decorrência da necessidade de sobrevivência de homens, de seres vivos, de suas idéias.

Vencerá, sempre, o mais apto.

Essa é a síntese.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
domingo - 14/06/2026 - 03:34h

O cangaceiro Medeirinhos

Por Jânio Rêgo

Honório de Medeiros, em foto capturada de sua rede social Instagram

Honório de Medeiros, em foto capturada de sua rede social Instagram

Volto a Mossoró e me deparo com Francisco Honório de Medeiros Filho no Cangaço. Parceiro de Kydelmir, Paulo Gastão e outros cangaceiros e coiteiros. Não me surpreende. A Turma do Patamar de São Vicente, embora orgulhosa de Seu Manoel Duarte e da torre da igreja crivada de balas, sempre nutriu certa identidade com os cangaceiros. Nas profanações à sacristia, roubando hóstias de Pe. Sátiro, desafiando Clodoaldo e Major Bezerra ou mesmo trocando tapas com os meninos do rabo-da-gata.

De linhagem e porte fidalgos, Chico nunca foi dos mais endiabrados. Como Ricardo Pinto, originalmente do bando da Praça da Cadeia, mas com incursões constantes ao universo do Patamar, a ponto de ser um dos nossos. Ou Marcos Porto, que era um cangaceiro pop e vanguardista, uma espécie de Zé Limeira da São Vicente.

Ambos de comportamentos imprevisíveis, fosse no futebol, fosse na bandeirinha, no jogo de dupla ou nas conversas noturnas ao som das corujas brancas e dos morcegos rasantes. Mas, como todos nós, Medeirinhos tinha seus rompantes de crueldade em brigas de tirar sangue no adversário. Portanto, mesmo sendo um Fernandes Sena tradicional e letrado, era um cangaceiro que todos respeitávamos e não ousávamos atiçar sua ira incontrolável.

Foi-me natural, portanto, vê-lo integrado ao bando novo formado em Mossoró. Só não imaginei que levaria isso tão a sério, a ponto de se meter pelos sertões potiguares e paraibanos em busca de histórias, fotos e depoimentos sobre Massilon, o cão danado que quase infortuna a vida do coronel Rodolpho Fernandes ao convencer Lampião a atacar Mossoró.

Desconfio que foi uma suspeita sobre paixão de Massilon pela filha do Intendente, publicada no Diário de Natal, que despertou o pesquisador.

Talvez movido pela curiosidade científica mesmo, talvez movido pelo sentimento de estirpe.

De todo modo, só teremos a ganhar. Chico Filho, Medeirinhos (como ainda o chama Carlos Santos), Honório de Medeiros, só se mete numa empreitada para fazer bem feita.

Jânio Rêgo é jornalista

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 31/05/2026 - 13:42h

Obter o controle. Controlar. Manter o controle

Por Honório de Medeiros

Desenho à mão de Bárbara de Medeiros (filha do autor), quando era criança (Reprodução do BCS)

Desenho à mão de Bárbara de Medeiros (filha do autor), quando era criança (Reprodução do BCS)

Obter o controle. Controlar. Manter o controle: faz parte da estratégia militar ou política.

Quem tem o controle tem o Poder Político, dizia, para um dos seus escravos, o extraterrestre que governava a terra no romance Campo de Batalha: Terra, de L. Ron Hubbard, aquele autor americano de ficção científica que ficou mais famoso como criador da Cientologia, estranha seita preferida por vários atores famosos americanos, dentre eles Tom Cruise.

O controle está para o Poder como a célula está para o tecido, o átomo para a matéria. É através do controle que se estabelece a hierarquia, seja qual seja o ser vivo, lembrando Sir Karl Popper e sua Teoria Evolucionária do Conhecimento, ou seja, da ameba ao humano.

Lula, que não é lido, mas não é burro, deixou bem claro ao analisar Pedro Simon e sua quixotesca candidatura a Presidente do Senado, anos atrás: “ele não é confiável”. Confiável ou controlável? Dá no mesmo nesse contexto sórdido da política.

Na raiz desse controle está a tendência inata do ser humano de explorar, absorver, extrair, para si, tudo quanto, naquilo que o cerca, amplie sua possibilidade de sobrevivência.

Richard Dawkins – esse mesmo que desencadeou uma cruzada contra Deus a partir de Charles Darwin, em Deus, Um Delírio – afirmaria que fazemos isso manipulados pelos nossos genes.

Para ele, nós somos nossos genes. O resto é invólucro. Ou seja, o resto é resto. Há controvérsias. Alguns acham muito radical essa hipótese.

Trazer para o mais íntimo de nós, no aspecto físico, o que está por trás – mesmo que remotamente, das ações humanas, deu um corpo de vantagem a Darwin sobre o velho Karl Marx.

Este, como se sabe, coloca a divisão do trabalho na raiz do problema do controle. Segundo ele, a divisão do trabalho, vai fazer surgir a propriedade privada, ou vice-versa, as relações de produção, a infra-estrutura material, a superestrutura ideológica, e, enfim, a luta de classes e a exploração do homem pelo homem.

Entretanto, o que estaria por trás do surgimento da propriedade privada? O que está no começo da exploração do homem pelo homem? Marx não disse.

Talvez seu companheiro Friedrich Engels tenha esboçado algo a respeito a partir da análise dos estudos de Lewis Henry Morgan, um antropólogo e etnólogo americano que andou estudando os nativos de seu país no final do século XIX, e publicou uma obra que é muito citada nos meios acadêmicos, e pouco lida.

Charles Darwin disse. Claramente. E, com ele, começou um novo capítulo das ciências sociais e, mais especificamente falando, da Psicologia Social Evolutiva.

Voltamos ao ponto de partida. Somos levados, instintivamente, a controlar para explorar. Isso tanto em nível pessoal quanto social. Quem controla estabelece hierarquia. O povo, que não é besta, há muito denuncia, como pode, a arrogância da elite que põe o dedo em riste e pergunta ao Zé Mané: “você sabe com quem está falando?”.

Aparentemente não há limite para a intenção de controle. O céu é o limite. “Quanto mais temos, mais queremos ter.” Quanto mais queremos ter, mais somos predadores. O povo diz, o povo sabe. O senso comum, quando devidamente criticado, é o ponto de partida para o conhecimento.

Claro que os controladores dão nomes bonitos a tudo isso. Faz parte do jogo, é uma estratégia de controle. Chamam a esse impulso predatório de ambição social, luta para deixar o legado na história, defender os interesses da sociedade, luta para ascender na escala social… Tudo lorota.

Na essência, é o ruim e velho capitalismo de guerra e sua teia de argumentos justificatórios. No âmago do âmago, como diriam os exagerados, está esse egoísmo inato cujas vísceras Chares Darwin expôs.

E os santos, alguém perguntaria. O altruísmo, diria eu, se cavarmos fundo, é sempre uma espécie de egoísmo. O egoísmo do bem…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
domingo - 31/05/2026 - 09:22h

Diligências

Por Odemirton Filho

Lampião nas proximidades do Rio São Francisco em 1936 (Foto: Benjamin Abrahão)

Lampião nas proximidades do Rio São Francisco em 1936 (Foto: Benjamin Abrahão/Arquivo do BCS)

Estou assistindo a minissérie Guerreiros do Sol, bem como, lendo o livro homônimo, do escritor e historiador Frederico Pernambucano de Mello. Não enveredarei pela história do cangaço, pois me falta conhecimento para tanto. Referido tema, deixarei para os competentes Honório de Medeiros e Marcos Pinto, colaboradores do “Nosso Blog”, e profundos conhecedores do assunto.

No entanto, entre as várias passagens interessantes do livro, li que, certa vez, o juiz da Comarca de Pau dos Ferros exarou o seguinte despacho:

“Manda ao oficial de justiça de sua jurisdição a quem este for apresentado, depois de devidamente assinado, que em seu cumprimento procure neste município, onde for encontrado, o bandido Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, prenda-o e recolha-o à cadeia pública desta cidade, por ter este Juízo decretado a prisão preventiva contra o mesmo, por estar sendo processado”.

O oficial de justiça, doutro lado, certificou nos seguintes termos:

“Certifico, em cumprimento ao mandado retro, ter procurado neste município o bandido Virgulino Ferreira, vulgo Lampião, e não o encontrei. Dou fé”.

Ora, prender Lampião, com certeza, não era uma diligência das mais simples, e o oficial de justiça, acredito, não iria se embrenhar na caatinga, ao lado das famosas “volantes”, à procura do famigerado cangaceiro.

A determinação do magistrado era de difícil efetivação, uma vez que era imprescindível o apoio da Força Pública para conseguir tal objetivo, embora, creia-se, tenha sido acompanhado pela polícia.

Na verdade, estar nas ruas, cumprindo diligências, muitas vezes percorrendo ruas esburacadas, bairros afastados e em zona rural de difícil acesso faz parte do nosso cotidiano. Apesar das intimações por meio de aplicativo de mensagem facilitarem o cumprimento dos mandados, vez ou outra há algum contratempo, exigindo-se o deslocamento ao respectivo endereço.

Intimamos, às vezes, pessoas que nos atendem de forma ríspida, talvez, por não compreender o trabalho, uma vez que algumas diligências são atos executórios, com reflexo patrimonial, a exemplo da penhora de bens ou a busca e apreensão de um veículo. No geral, entretanto, as diligências são realizadas sem intercorrências.

No tocante às prisões, elas são cumpridas pela polícia, somente quando se trata de custódia por inadimplemento na pensão de alimentos é que os oficias de justiça se fazem presentes.

Por fim, diga-se, que tanto ontem, como hoje, é preciso cautela no cumprimento das diligências, uma vez que não havia bandidos somente nos tempos do cangaceirismo. Infelizmente, ainda existem muitos “bandos”, aqui e ali, tocando o terror.

No dizer do escritor Graciliano Ramos: “Comparem-se os minguados grupos dos bandoleiros antigos às grandes massas que se têm posto em armas ultimamente em certas regiões flageladas”.

Odemirton Filho é oficial de justiça

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
quarta-feira - 27/05/2026 - 14:50h
Maravilha!

O céu de Cerro-corá

Cerro-corá, na região Seridó do RN

Cerro-corá, na região Seridó do RN

A foto acima é do professor e escritor Honório de Medeiros.

De ontem, terça-feira (26).

É o céu de Cerro-corá, região do Seridó, a 149 km de Natal, numa altitude de 718 m.

Média anual de temperatura fica em torno de 21-23°.

No inverno pode cair pra 15° ou menos ainda à noite.

Maravilha!

Acesse nosso Instagram AQUI.

Acesse nosso Threads AQUI.

Acesse nosso X (antigo Twitter) AQUI.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica / Gerais
domingo - 24/05/2026 - 09:50h

A negação da morte, Ernest Becker

Por Honório de Medeiros

Becker e como sobreviver na memória dos outros (Foto: reprodução do themarginalian.org)

Becker e como sobreviver na memória dos outros (Foto: reprodução do themarginalian.org)

Adolescente, recém-chegado a Natal, apaixonado por livros, não sabia por onde começar na biblioteca de minha tia, que me acolhera em seu apartamento lá pelos meados da década de 70.

Li muitos, ali. Alguns livros, várias vezes. Naquele tempo não havia celular, e a televisão engatinhava.

Dia desses me perguntei quais daqueles livros, alguns ainda em minha posse, me marcariam hoje. Não precisei procurar tanto nos desvãos já meio empoeirados da memória. Foram três, não tenho dúvida.

Um deles é um clássico: O Meio é a Mensagem, de Marshall McLuhan. Na época, quando o li, não compreendi quase nada. Mas o conceito de “Aldeia Global”, um “meme” de McLuhan, fixou residência definitiva em meu cérebro.

Outro foi um romance de Rabindranath Tagore, A Casa e o Mundo. Uma estória de amor vivida na Índia, escrito com uma sutileza incomum, e uma prosa densamente poética.

Entretanto, o fundamental, aquele que me marcou para sempre, foi A Negação da Morte, de Ernest Becker, que ao autor valeu o Prêmio Pulitzer de Não-Ficção Geral de 1974.

É traumatizante a leitura de A Negação da Morte para alguém recém-saído da adolescência. Muito do que li, quando o peguei pela primeira vez, também me era incompreensível.

A custo, entretanto, de relê-lo muitas vezes e ir em busca dos conceitos-chaves utilizados por Becker na obra de Freud que jazia completa, à minha disposição, nas estantes de minha tia, terminei entendendo o núcleo de sua argumentação.

Para Becker o que é há de fundamental no ser humano é o medo da morte.

Esse receio, temor, medo, que está em cada um de nós desde que construímos nossas primeiras noções acerca do que nos cerca, é o motor que nos impulsiona e a fonte de nossa permanente angústia.

Agimos, em consequência, para reprimi-lo, construindo “mentiras vitais” que nos permitam enfrentar a morte sob a ilusão de permanência histórica, e explicam, assim, a conduta do homem.

Uma delas, a mais importante, é a ânsia por heroísmo, que em acontecendo, nos permite sobreviver na memória dos outros.

Creio, mas posso estar enganado, que Becker bebeu na fonte instigante de Sir Bertrand Russel que mina do seu Power: A New Social Analysis, onde ele expõe a teoria de que os acontecimentos sociais somente são plenamente explicáveis a partir da ideia de Poder.

Não algum Poder específico, como o Econômico, ou o Militar, ou mesmo o Político, mas o Poder com “P” maiúsculo, do qual todos são decorrentes, irredutíveis entre si, mas de igual importância para compreender a Sociedade.

A causa da existência do Poder, para Russel, é a ânsia infinita de glória, inerente a todos os seres humanos.

Se o homem não ansiasse por glória, não buscaria o Poder. Infinita posto que o desejo humano não conhece limites.

Essa ânsia de glória dificulta a cooperação social, já que cada um de nós anseia por impor, aos outros, como ela deveria ocorrer e nos torna relutantes em admitir limitações ao nosso poder individual.

Como isso não é possível, surgem a instabilidade e a violência.

É possível ler mais em:
//honoriodemedeiros.blogspot.com.br/2015/05/bertrand-russel-e-causa-da-existencia.html

Em tempos mais modernos, a incessante busca por notoriedade substituiu o impulso pelo heroísmo.

Talvez haja uma forte distinção entre um e outro calcada no caráter ético.

Enquanto no primeiro caso as ações parecem determinadas pelo narcisismo, no segundo pode haver a busca de passar para a história pelos feitos realizados em prol de uma ideia de Bem.

Ou será que a causa primeira nada mais seria que o narcisismo?

O certo é que Becker criou raízes fundas em mim, seja pelo impacto de uma teoria que tudo explicava mas nada devia a mitologias, seja pela angústia e prazer intensos que voar alto, nas coisas do espírito, ocasionam.

Nunca mais fui o mesmo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
  • Art&C - PMM - Iluminação - Outubro de 2026
domingo - 10/05/2026 - 11:44h

Cortez Pereira

Por Honório de Medeiros

Cortez Pereira enfrentou forças da própria Arena, seu partido, no governo e política (Foto: reprodução)

Cortez Pereira foi governador do RN (Foto: reprodução/Arquivo)

Conheci Cortez Pereira pessoalmente quando, presidente do Centro Acadêmico do curso de Direito, convidei-o para proferir palestra acerca das relações entre marxismo e Filosofia do Direito, em um dos seminários que nós regularmente promovíamos.

De pronto, aceitou.

Na ocasião, dentre as críticas ao marxismo por ele esgrimidas, estava a do descompasso entre as previsões de Karl Marx quanto ao surgimento da revolução socialista na Inglaterra – único país, naquela época, que cumpria a necessária etapa do aprofundamento das contradições da classe burguesa através da revolução industrial -, e o fato de o processo revolucionário ter acontecido na Rússia feudal.

Perguntei-lhe se a teoria de Lênin acerca da tensão revolucionária queimar a etapa da ascensão da burguesia não seria correta, ao que ele me redargüiu que a tese carecia de comprovação histórica. Perfeito.

É difícil explicar nosso fascínio juvenil por Cortez Pereira naquela época, pois ele era um liberal e havia sido Governador através do Movimento de 64, enquanto nós, no verdor de nossa carreira intelectual, ávidos para salvarmos o Brasil e o mundo, pertencíamos a algum dos matizes esmaecidos da esquerda tupiniquim.

Talvez a presença de sua retórica envolvente, misto de conhecimento técnico e arroubo poético; o eco de sua difícil e romanesca vitória no concurso para professor de Introdução ao Estudo do Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; suas memoráveis defesas de projetos e programas de Governo e, principalmente, sua imolação no altar da ditadura, através de uma cassação hipócrita, fruto de politicalha, tivesse construído essa aura de respeito que lhe tributávamos.

Pouco depois, ainda no tempo em que todos os cursos da Universidade Federal do RN (UFRN) colavam grau juntas e o orador das turmas concluintes era escolhido por concurso, nós o tivemos como paraninfo – salvo engano a primeira homenagem pública pós-cassação.

Quando terminou de nos falar pediu ao cerimonial que me trouxesse a sua presença para confirmar se eu, “de fato, pelo que pude perceber do seu discurso, não era mais marxista”.

Disse-lhe que estava em fase de transição, ele me abraçou dizendo baixinho: “também eu sonhei seus sonhos”.

Entretanto, o mais emocionante dos momentos que vivi através de Cortez Pereira ocorreu quando assisti seu depoimento em “Memória Viva”.

Várias vezes meus olhos se encheram de lágrima – uma delas mais intensamente: ele nos contava, aos seus interlocutores e espectadores, qual o instante mais intenso que vivera no seu Governo, e não hesitara em dizer que fora aquele no qual, no final de uma tarde, pleno pôr-do-sol, arriou a Bandeira do Brasil do seu mastro, saudado por quase uma centena de cantadores de viola que tinham vindo até o Palácio Potengi prestar-lhe uma homenagem.

Agora, na maturidade, ainda permaneço fascinado pela concepção estratégica de seu plano de governo e sua capacidade de agregar valores humanos no seu entorno.

Tão importante é sua contribuição, nesse aspecto, que ela permanece como referência aos políticos e administradores públicos.

Honro sua memória com essas lembranças quase esmaecidas e o respeito que alguém intelectualmente superior sempre nos suscita, quaisquer que tenham sido seus erros, se os houve.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 03/05/2026 - 11:50h

“A elegância do ouriço”, Muriel Barbery

Por Honório de Medeiros

Muriel barbery e seu livro (Reprodução do blog de Honório de Medeiros )

Muriel barbery e seu livro (Reprodução do blog de Honório de Medeiros )

É divertido o romance de Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço.

Recomendo.

Vou, aqui, editar um trecho do livro que fala acerca da fenomenologia de Edmund Husserl.

“O quê?”. “Fenomenologia?” “Em um romance?”

É. Em um romance. E esse trecho prova, para mim, por a + b, que somente a literatura salva a filosofia da chatice dos filósofos.

Leiam:

“Então, a segunda pergunta: que conhecemos do mundo? A essa pergunta os idealistas como Kant respondem. Que respondem? Respondem: pouca coisa.

(…)

Conhecemos do mundo o que nossa consciência pode dizer dele porque isso aparece assim – e não mais.

Vejamos um exemplo, ao acaso, um simpático gato chamado Leon. (…) E pergunto a vocês: como podem ter certeza de que se trata de verdade de um gato, e até mesmo saber que é um gato? (…) Mas a resposta idealista consiste em demonstrar a impossibilidade de saber se o que percebemos e concebemos do gato, se o que aparece como gato na nossa consciência é de fato conforme ao que é o gato em sua intimidade profunda.

(…)
Eis o idealismo kantiano. Só conhecemos do mundo a IDEIA que dele forma a nossa consciência”.

Agora vem a parte hilariante:

“Mas existe uma teoria mais deprimente que essa (…) Existe o idealismo de Edmund Husserl (…)

Nessa última teoria só existe a apreensão do gato. E o gato? Pois é, o dispensamos. Nenhuma necessidade do gato. Para fazer o quê, com ele? Que gato? (…) O mundo é uma realidade inacessível que seria inútil tentar conhecer.

Que conhecemos do mundo? Nada. Como todo conhecimento é apenas a autoexploração da consciência reflexiva por si mesma, pode-se, portanto, mandar o mundo para os quintos dos infernos.

É isso a fenomenologia: a CIÊNCIA DO QUE APARECE À CONSCIÊNCIA. Como se passa o dia de um fenomenologista? Ele se levanta, tem consciência de ensaboar no chuveiro um corpo cuja existência é sem fundamento, de engolir o pão com manteiga inexistente, de enfiar roupas que são como parênteses vazios, ir para o escritório e pegar um gato.

Pouco se lhe dá que esse gato exista ou não exista, e o que ele seja na própria essência. O que é indecidível não lhe interessa. Em compensação, é inegável que na sua consciência aparece um gato, e é esse aparecer que preocupa o nosso homem”.

Aí está.

Por isso digo que o idealismo radical é a loucura da razão.

Fica mais fácil para eles entenderem o grande mistificador que foi Platão.

Entender que não existe algo Justo-Em-Si-Mesmo. Entender o uso manipulativo, retórico, das teorias filosóficas.

E entender por qual razão os professores de Direito, com algumas exceções, são como os gatos existencialistas…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
  • Art&C - PMM - Iluminação - Outubro de 2026
domingo - 26/04/2026 - 10:42h

Psicologia evolutiva

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de IA para o BCS

Apesar da chamada “teoria do design inteligente”, que diz ser insuficiente o darwinismo enquanto explicação para o surgimento e propagação da vida na terra, depois de abençoada por Sua Santidade o Papa, a verdade é que a Teoria da Evolução vai, aos poucos, se firmando como a única das macro-teorias oriundas do século XIX que sobrevive integralmente às críticas da comunidade científica.

As outras, como a psicanálise, nunca recebeu “status” científico; o marxismo ruiu com a Revolução Russa de 1917; a queda do Muro de Berlim, que permanece por terra; e a Teoria da Relatividade, de Einstein, por não ter conseguidou superar suas divergências fundamentais com a física quântica.

Um dos rebentos mais interessantes do darwinismo, chamemo-lo assim, é a Psicologia Evolutiva.

Como se pode depreender, trata-se de uma tentativa de explicação da psique humana utilizando-se as ferramentas próprias da Teoria da Evolução.

Nesse campo específico, nada tem suscitado tanto debate quanto às afirmações feitas pela Psicologia Evolutiva quanto a amor e sexo.

Por exemplo: a Psicologia Evolutiva explica que a traição, por parte do homem, é uma herança genética que o impele à tentativa de disseminar seus genes!

Isso seria algo ancestral – na aurora da história do homem, quando ele vagava pela terra caçando e coletando raízes e frutas, foram selecionados para sobreviver aqueles que tinham esse tipo de comportamento; quanto mais braços para a defesa e a procura de alimentos, melhor para a tribo.

A mulher, por outro lado, como era obrigada a conduzir, durante nove meses, sua gravidez, ficava estética e organicamente inviável para o jogo sexual, o que abria o espaço para a fecundação de outras.

Essa propensão, diz a teoria da evolução, não é um fatalismo, até mesmo porque o ser humano, que reina inconteste em pleno século XXI, para o bem ou para o mal, foi capaz de construir um aparato intelectual que lhe permitiu fazer opções de caráter ético fundamentais para assegurar sua sobrevivência.

Nesse sentido a Moral seria uma estratégia humana, uma espécie de instrumento adaptativo que lhe permite continuar sua saga sobre a face da Terra.

Ou seja, embora haja essa tendência individualmente falando, enquanto espécie o homem aposta na fidelidade.

Não é assim que acontece se prestarmos bem atenção ao que se passa ao nosso redor?

Dessa forma a Psicologia Evolutiva explica muitas condutas masculinas e femininas.

Uma delas, bastante curiosa, por sinal, é a chamada “Síndrome da Rejeição”. Por que a mulher, por exemplo, parece se interessar mais pelos homens que a rejeitam?

A resposta seria que a mulher, programada geneticamente para lidar com o procura masculina, ao sentir-se desprezada, sente ameaçada sua capacidade de interessar sexualmente e, assim, procriar.

Isso por que nosso objetivo básico, segundo a Teoria da Evolução, é propagar nossos genes.

Esta teoria não explica nosso amor desmesurado por nossos filhos?

Se forem polêmicas as afirmações feitas pela psicologia evolutiva no que diz respeito ao relacionamento amoroso, imaginem o que não se discute quanto à política, mais especificamente ao Poder.

Esta, entretanto, já é outra história.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
domingo - 19/04/2026 - 15:26h

Paulo Maia

Por Honório de Medeiros

Da esquerda para a direita: Fred Câncio, Paulo Maia, Hélton, eu, Fernando Negreiros, Segundo Paula, Lenilson Fernandes, Anchieta Medeiros, Delevam Gurgel, Jânio Rêgo. Turma da Quarta Série Ginasial, 1972, Colégio Diocesano Santa Luzia, reunidos em 2011, Mossoró (Foto: Reproduçao)

Da esquerda para a direita: Fred Câncio, Paulo Maia, Hélton, eu, Fernando Negreiros, Segundo Paula, Lenilson Fernandes, Anchieta Medeiros, Delevam Gurgel, Jânio Rêgo. Turma da Quarta Série Ginasial, 1972, Colégio Diocesano Santa Luzia, reunidos em 2011, Mossoró (Foto: Reproduçao)

Paulo Maia dizia que era baixinho por minha culpa: eu tinha roubado o leite dele, quando recém-nascido.

Tudo porque eu nasci três dias depois do 23 de abril de 1958, no qual ele veio ao mundo, ambos na Maternidade Almeida Castro, em Mossoró.

Como mamãe não conseguia matar minha fome com seu pouco leite, valeu-se da generosidade da mãe dele, Manolita Pereira, que nos alimentou.

Manolita dizia que é minha mãe de leite. Eu respondo, sempre respondi, que eu e Paulo tínhamos que ser irmãos, estava escrito no livro da vida, e beijo a mão dela, reverente.

Entre idas e vindas, altos e baixos, seguimos próximos vida afora, sempre muito próximos.

Amigos desde a maternidade.

Um dia, eu lá pelas bandas de São João do Sabugi, no Seridó, em busca das misteriosas raízes genealógicas do meu avô paterno, acordei cedo, abri o celular, e li a devastadora notícia de sua morte.

Um baque.

Botei o carro na estrada e fui calado de lá até Mossoró, rasgando o centro do Estado, percorrendo um mundão de terra em um tempo que sequer vi passar.

Michaela respeitou meu silêncio.

Uma espécie de solidão amarga, ensimesmada, uma onda de tristeza que teimava em vir, tomou conta da gente.

Sensação de impotência. Solidão, tristeza e impotência.

Falam que há conforto na partida de alguém que lutou bravamente por dois anos contra essa maldita doença cujo nome amedronta tanto, que o abreviaram.

Pode ser. Sei que lutou ele, a esposa, filhos, a família toda, os amigos, os amigos dos amigos. Rezamos muito.

Luta vã.

Que seja feita a vontade de Deus.

Descansou, então, e por fim.

E a saudade?

Paulo, você se lembra daquele dia em Tibau no qual Antônio de Bé nos levou em sua jangada, começo da madrugada, para além da última visão de terra, como companheiros de pescaria?

Lembra das tardes de cerveja e Belchior, lá no Asfarn, em Natal?

Lembra dos veraneios em Tibau? Do jipe, das meninas, dos amigos comuns, das pescarias no Arrombado?

Do Diocesano e da turma da quarta série ginasial de 1972?

Lembra como decidimos, junto com Delevam, quem seria o padrinho de Paulinha?

Lembra daquele dia no qual fomos barrados na ACDP?

Lembra daquele dia… não, não, melhor não contar, não é?

Ê, Paulo, são tantas e tantas memórias.

Um dia eu conto para meus sobrinhos! As que eu puder, claro.

Paulo, aguarde aí. Um dia, chego.

Descanse em paz, meu irmão.

Estamos juntos!

Vou juntar as imagens desse tempo que passou tão rápido…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Art&C - PMM - Iluminação - Outubro de 2026
domingo - 12/04/2026 - 10:40h

Subliminar – como o inconsciente influencia nossas vidas

Por Honório de Medeiros

Stephen Hawking e Leonard Mlodinow: parcerias (Reprodução)

Stephen Hawking e Leonard Mlodinow: parcerias (Reprodução)

Aos meus alunos da disciplina Filosofia do Direito, vez por outra eu propunha o seguinte problema:

“Façam de conta que vocês são chefes de uma estação de trens, responsáveis, entre outras coisas, pela direção que as locomotivas devem tomar em seus percursos diários.

Um dia, durante o expediente, vocês recebem um comunicado urgente lhes informando que uma das locomotivas que passam em sua estação está completamente desgovernada e em alta velocidade.

Em sua estação vocês têm a possibilidade de conduzir a locomotiva, apertando os botões A ou B, por duas diferentes opções.

Seu tempo para decidirem é extremamente curto. Algo como segundos.

Vocês sabem que na linha A trinta homens estão trabalhando na manutenção. E sabem que na linha B cinco homens lá trabalham fazendo o mesmo.

Qual a decisão de vocês?”

Em todos os anos de ensino, a resposta foi sempre a mesma: todos optaram por apertar o botão B.

Ao lhes indagar por que faziam assim, respondiam-me que lhes parecia certo submeter a linha na qual estavam menos homens à possibilidade do choque.

Então eu lhes perguntava: “e se, na linha B, estava um engenheiro de manutenção, que por coincidência, era pai de vocês e um irmão, seu auxiliar”?

Seguia-se um silêncio embaraçoso. A grande maioria se recusava a responder a questão. Um ou outro, muito pouco, tendia para um lado ou para o outro.

Questões como essas começam a ser esmiuçadas pela psicologia social, um ramo que em muito deve seus avanços à combinação de duas vertentes poderosas: a teoria da seleção natural de Darwin, e o afã em larga escala, tipicamente americano, de realizar pesquisas de campo.

É nesse nicho que transita Leonard Mlodinow, festejado autor de O Andar do Bêbado, em seu novo livro denominado Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas.

Mlodinow é doutor em física e ensina no famoso Instituto de Física da Califórnia. Mais que isso, ele é coautor, junto com Stephen Hawking – sim, isso mesmo – de alguns livros de inegável sucesso tanto de público quanto de crítica.

Em Subliminar” Mlodinow, fundamentado em vasta pesquisa, apresenta hipóteses instigantes, como essa que eu transcrevo abaixo:

“Como enuncia o psicólogo Johathan Haidt, há duas maneiras de chegar à verdade: a maneira do cientista e a do advogado. Os cientistas reúnem evidências, buscam regularidades, formam teorias que expliquem suas observações e as verificam. Os advogados partem de uma conclusão (com) a qual querem convencer os outros, e depois buscam evidências que a apoiem, ao mesmo tempo em que tentam desacreditar as evidências em desacordo. Acreditar no que você quer que seja verdade e depois procurar provas para justifica-la não parece ser a melhor abordagem para as decisões do dia a dia. (…) Podemos dizer que o cérebro é um bom cientista, mas é um advogado absolutamente brilhante. O resultado é que, na batalha para moldar uma visão coerente e convincente de nós mesmos e do resto do mundo, é o advogado apaixonado que costuma vencer o verdadeiro buscador da verdade”.

Muito embora o autor refira-se a advogados, claro que ele alude a todos quanto lidam com a tarefa de produzir, interpretar e aplicar a norma jurídica.

Em assim sendo faz sentido acreditar, como muitos acreditam, que os juízes, por exemplo, primeiro constroem um ponto de partida extrajurídico (sua visão do mundo, seus valores, seus interesses pessoais, etc.) e, somente depois, buscam evidências que apoiem suas futuras decisões.

A Retórica é exatamente isso..

A hipótese, a partir da qual os operadores do Direito constroem esse ponto de partida, pode ser lida em um dos mais instigantes capítulos da obra de Mlodinow: “In-groups and out-groups”. Nesse capítulo o autor chama a atenção para um fenômeno que, hoje, é fato científico: a tendência que temos de favorecer “os nossos”:

“Os cientistas chamam qualquer grupo de que as pessoas se sentem parte de um ‘in-group’, e qualquer grupo que as exclui de ‘out-group’. (…) É uma diferença importante, porque pensamos de forma diversa sobre membros de grupos de que somos parte e de grupos dos quais não participamos; como veremos, também veremos comportamentos diferentes em relação a eles.

Quando pensamos em nós mesmos como pertencentes a um clube de campo exclusivo, ocupando um cargo executivo, ou inseridos numa classe de usuários de computadores, os pontos de vista de outros no grupo infiltram-se nos nossos pensamentos e dão cores à maneira como percebemos o mundo.

Podemos não gostar muito das pessoas de uma maneira geral, mas nosso ser subliminar tende a gostar mais dos nossos companheiros do nosso ‘in-group’”.

Essa constatação – de que gostamos mais de pessoas apenas por estarmos associados a elas de alguma forma – tem um corolário natural: também tendemos a favorecer membros do nosso grupo nos relacionamentos sociais e nos negócios.

Ou seja, como diz o senso comum: para os amigos tudo; para os indiferentes, a lei; para os inimigos, nada…

Se assim o é, e a ciência vem mostrando que sim, um dos corolários da obra de Mlodinow é pelo menos intrigante, e dá razão ao que dizem, desde há muito, os anarquistas e marxistas: a “visão de classe” contamina as decisões do aparelho judiciário. Não somente do aparelho judiciário. Contamina a produção, interpretação e aplicação da norma jurídica.

Isso quanto aos marxistas e anarquistas. Quanto aos darwinistas, nem se discute mais o assunto. Para quem não é anarquista ou marxista, basta Gaetano Mosca, que também aborda, brilhantemente, essa perspectiva, quando trata da “classe política dirigente”.

E quanto ao mundo jurídico? Neste caso, ainda está muito atrasada a discussão. Ainda há “juristas” que crêem ser o Direito uma ciência…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
domingo - 05/04/2026 - 10:44h

“Demian”, de Hermann Hesse

Por Honório de Medeiros

Hesse, uma leitura que parece imperecível (Foto: Swissinfo.ch/Reprodução do BCS)

Hesse, uma leitura que parece imperecível (Foto: Swissinfo.ch/Reprodução do BCS)

A Luz e as Trevas, o Bem e o Mal

“O caminho que sobe e o que desce é o mesmo” (Heráclito de Éfeso, dito “O Obscuro”).

“- Mas terá que aceitar isso – retrucou Woland, e o sorriso irônico entortou sua boca. – Você mal apareceu no telhado e já disse bobagens, e vou dizer onde elas residem: na sua entonação. Você pronunciou suas palavras de tal maneira como se não reconhecesse as sombras, e muito menos a maldade. Não seria muito trabalho de sua parte pensar na seguinte questão: o que faria a sua bondade se não existisse a maldade, como seria a terra se dela sumissem as sombras?” (Mikhail Bulgákov, O Mestre e Margarida).[1]

Quem, nos anos 70, gostava de ler, possivelmente teve entre as mãos algum livro de Herman Hesse.

Talvez Sidarta, no qual ele romanceou a vida de Gautama Buda, ou mesmo O Jogo das Contas de Vidro e O Lobo da Estepe, os mais cultuados; quem sabe Demian; Gertrud; Pequenas Histórias; Narciso e Goldmund, para mencionar os mais conhecidos.

É possível que Demian seja considerado um livro menor, assim como Gertrud, sua continuação.[2] Na verdade, a crítica teceu e tece loas à O Jogo das Contas de Vidro e, em menor escala, a O Lobo da Estepe, muito embora o mais famoso seja Sidarta.

Em Demian, Hesse nos apresenta a um enigmático adolescente e sua mãe, mulher bela e misteriosa iniciada em uma seita religiosa, o Cainismo, que fascinam Sinclair, colega dele de escola e relator da história.

O Cainismo foi uma seita gnóstica cristã do século II, considerada herética pela Igreja Católica, que venerava Caim como filho de um espírito superior ao que teria engendrado seu irmão Abel.

Quando essa questão aparece na convivência entre Demian e Sinclair, aquele aponta, como ponto-de-partida para a iniciação do amigo na doutrina, o conhecimento da vida de uma relação de personagens significativos, embora condenados pela história oficial, começando por Eva, depois Caim, irmão de Abel, cujo nome batiza a seita, bem como Judas Iscariotes, dentre outros.

Sabe-se que o Cainismo foi resgatado no século XIX da total obscuridade por Lord Byron, o cultuado e maldito poeta romântico inglês, e hoje é possível que somente exista em obras emboloradas de historiadores praticamente desconhecidos, a grande maioria ocupando estantes empoeiradas no “Cemitério dos Livros Esquecidos” que fica em Barcelona, do qual nos deu a conhecer Carlos Ruiz Zafón, em famosa tetralogia.

Voltando a Demian, a pergunta que ele faz a Sinclair no processo de sua iniciação nos segredos da seita, durante o transcorrer da trama, é se haveria Adão sem Eva; Abel sem Caim; Jesus, sem Judas, e assim por diante. Evidentemente, a verdadeira pergunta, implícita e fundamental, é se haveria a Luz, sem as Trevas.

Não é ousadia supor que o Cainismo seja descendente do Zoroastrismo ou Mazdeísmo, a religião dominante no Império Persa por volta do século VI a.C. até a invasão e dominação, no reinado de Dario III, por Alexandre “O Grande”, rei macedônio.

O zoroastrismo professava uma interpretação dualista do mundo, entendendo-o como governado pelas forças antagônicas do Bem e do Mal. Existiria um deus supremo, criador de dois outros seres poderosos que seriam extensões de sua própria natureza: Ormuzd (ou Ahura-Mazda, ou ainda Oromasdes, segundo os gregos), a fonte de todo o Bem, e Ariman (Arimanes), a fonte de todo o Mal, depois que se rebelou contra seu criador.

Os conflitos entre o Bem e o Mal seriam constantes até o momento em que os adeptos de Ormuzd venceriam, condenando Ariman e os que o seguiam às trevas eternas.

Tampouco é ousadia acreditar que o Maniqueísmo seria parte dessa linhagem herética e gnóstica originada na Pérsia. Muito tempo depois renascida no Império Romano (sécs. III d.C. e IV d.C.), sua doutrina, plena de um dualismo religioso sincretista, consistia em afirmar, também, a existência de um conflito cósmico entre o reino da luz (o Bem) e o das sombras (o Mal), assim como em localizar a matéria e a carne na escuridão.

Do Maniqueísmo foi seguidor, por um bom tempo, ninguém mais, ninguém menos, que Santo Agostinho de Hipona, Doutor da Igreja, talvez o mais importante pensador católico, autor da “magnum opus” De civitate Dei (A Cidade de Deus), por quem Santa Mônica, sua mãe, tanto rezou para o converter.

Avançando no tempo, mas ainda na mesma linhagem, essa mesma percepção gnóstica, dualística, da realidade, constituiria o cerne da doutrina do Catarismo, professado pelos Perfeitos, os quais a Inquisição, no Século XIII, varreu da face da França, naquela que seria a Primeira Cruzada da Igreja Católica, liderada por São Luis, o nono Rei da França.

Questões como essa suscitaram debates ardentes durante os famosos e esotéricos anos 60 e 70, quando se questionava o modelo de vida que o capitalismo impunha ao mundo. Havia, então, um inebriante fascínio pelo Oriente misterioso dos zoroastristas, cainitas, maniqueístas, iogues, faquires, dervixes, sadhus, budistas, taoístas e seu estilo de vida, enquanto contraponto à hegemonia da sociedade de consumo e do marxismo ocidental.

Não por outra razão ainda hoje encontramos, em alguns nichos pulverizados que a internet tende a ressaltar, uma preocupação esotérica com a vida que parece muito distante do feijão-com-arroz cotidiano ao qual estamos acostumados.

Existem também espaços diminutos, embora alvoroçados, no campo das ideias, resultantes de raízes solidamente firmadas nessa tradição oriental, que se voltam para a tentativa de explicar os fenômenos da antimatéria, física quântica, teoria do caos, em uma perspectiva mais aberta, resvalando para a metafísica, menos atenta ao rigor metodológico ortodoxo próprio da ciência.

Que o diga Fritjof Capra, famoso físico teórico autor de O Tao da Física e O Ponto de Mutação.

Por fim, quanto a Herman Hesse, é possível entender que em Demian e Gertrud, ele tratou obliquamente, ao utilizar o Cainismo como pano de fundo da trama cujo epicentro é a relação entre Demian, Sinclair e Gertrud, da origem e essência do Bem e do Mal.

Mais: ao fazê-lo, trouxe para a claridade, ou pelo menos tentou, a misteriosa seita que seus personagens professavam e, para quem optou por se aprofundar na questão, os mistérios do Zoroastrismo, Maniqueísmo e Catarismo.

Todas essas seitas conectadas pela crença na Realidade enquanto emanação de uma divindade única e suprema, e constituída pela existência concomitante e antagônicas do Bem e do Mal (a Luz e as Trevas), formando a unidade definitiva e primordial de todas as coisas.

[1] BULGÁKOV, Mikhail. O Mestre e Margarida. Rio de Janeiro: Alfaguara. 2003.

[2] HESSE, Hermann. Demian. Rio de Janeiro: Record. 2015.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 29/03/2026 - 11:20h

No Remanso da Piracema, de François Silvestre

Por Honório de Medeiros

François Silvestre (Foto: rede social)

François Silvestre (Foto: rede social)

Frederico de Deus Perdoe está incorporado, definitivamente, ao acervo de obras literárias marcantes constroidas lentamente, ao sabor do tempo, dos lugares, e das circunstâncias no imaginário das pessoas, pois é um observador engajado de si, dos outros, e das coisas, que vão ressurgindo – seja no viés alegre que a primeira leitura dos seus relatos expõe; seja no viés melancólico que surge quando mergulhamos em uma releitura – por intermédio de articulados engastes frasísticos, esteticamente surpreendentes, expressos em sínteses vestidas de paradoxos estilísticos.

Não somente por isso; não somente pela forma.

É ele, Frederico, o fio que conduz, enquanto narrador, uma estória na qual a humanidade se apresenta por inteiro em seus detalhes, pois em cada um deles está o todo: não importa quando, não importa como, não importa porquê, se eu descrevo minha aldeia, ou minha saga, e for bem descrito, descrevo a terra inteira.

Se eu disser um homem, digo toda a humanidade.

Frederico vive episódios que a crônica oral ou escrita do homem comum condenaria ao esquecimento. Entretanto, não ocorre assim quando ele os conta.

Se a morte de Dr. Antônio, vítima de ciúme atroz, se torna único pela forma como é contada, levando-nos à sofreguidão pela busca do desfecho; se não é diferente quanto à história da traição da qual é vítima o narrador quando, pela primeira vez surge, em seu bolso, muito dinheiro; se ocorre o mesmo na metamorfose de Nogueira, há muito mais além do relato que uma primeira leitura apresenta.

Basta que aprofundemos nossa leitura, por exemplo, nas memórias da tia do narrador.

Quanta identidade entre a solidão à qual foi condenada a tia de Frederico pela época, lugar onde viveu, e a de tantos outros!

Seria essa solidão algo desconhecido dos homens ao longo de suas histórias? Não. Ao contrário. A solidão de sua tia é a solidão de cada um de nós, fruto do destino comum.

Somos todos, cada um e o todo, órfãos de um sentir que a razão não explica, mas o coração sente e o corpo padece.

Abandonados à própria sorte, nossa vida não é saga, é fado, por mais que lutemos.

Assim, a bela narração de Frederico cativa e magoa, aproxima e transtorna, alegra e entristece porque, em uma justa medida, expressa a dimensão da tragédia de um sentimento individual originado de uma herança comum.

Através de Frederico somos mesquinhos e altruístas, santos e demônios, céu mirífico e lama infinda.

Leia também: O “remanso” de François e Frederico de Deus Perdoe

É preciso ler No Remanso da Piracema, a estória de Frederico de Deus Perdoe, seja para o deleite do sentir, seja para o deleite da razão.

É preciso ler.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 22/03/2026 - 12:50h

Aquelas noites do sertão

Por Honório de Medeiros

* Em memória de Compadre Adauto Fernandes

Naquelas noites do Sertão a escuridão tomava conta da entrada do Sítio onde, à luz do lampião, Compadre Adauto Fernandes – eu, menino, o chamava assim, e ele assim me tratava – reunia, no seu entorno, a família e os amigos para uma xícara de café e ouvirem as estórias que constituíam a antiga tradição oral dos nossos antepassados.

Às vezes havia lua e o mar de prata criava ademanes fantasmagóricos nos arbustos lá fora, no terreiro; ao vê-los instintivamente aproximava-mo-nos um pouco mais do círculos dos adultos e somente relaxávamos quando sua risada cristalina pontuava essas estórias; até então, ele nos deixara, a todos, em permanente suspense.

Decerto nunca mais pude fugir de um compromisso alegando uma mentira inocente sem recordá-lo e a um desses “causos” em especial.

Dizia respeito a alguém do seu conhecimento que para fugir de um compromisso social jurara, através de bilhete, estar, em casa, de repouso e, ao voltar de um forró onde se esbaldara a noite inteira, em outra localidade, mal apeara do cavalo escutou choro e lamentações, e seu pressentimento foi confirmado pelos fatos – ela, sua esposa, jazia nos braços das filhas nos estertores da morte. Exposto assim parece pouco, quase nada, mas somente sabe acerca da magia daquelas noites quem as viveu no Sertão, à luz bruxuleante do lampião, céu estrelado, ouvindo, de quando em vez, dentre outros, o canto arrepiante dos rasga-mortalhas…

Eram estórias de amor, gestas, ódios de família, tesouros enterrados, botijas, estes descobertos por intermédio de sonhos que precisavam de uma sabedoria centenária para serem interpretados corretamente, raptos consensuais ou não, caçadas às onças nas quais somente a habilidade sobrenatural do caçador o fizera escapar com vida, pescarias milagrosas, recuperação da saúde via feitiços e orações de benzedeiras e curandeiros, secas e invernadas desmedidas, justiça divina a corrigir desmandos humanos, feitos com armas, aventuras de parentes e amigos nas terras desconhecidas da Amazônia, para a qual tantos tinham ido e não mais voltado, os segredos da Serra das Almas…

Na forma arrastada com a qual meu compadre contava suas estórias, havia uma magia que segurava a atenção: uma cadência hipnótica na voz, uma lógica precisa no encadear das frases buriladas com palavras que Luis da Câmara Cascudo não hesitaria em classificar como egressas do puro português colonial e que os folgados das cidades grandes alcunhariam de “matutês”, por pura ignorância, uma sabedoria antiga de quem herdara e cultivara o dom de contar uma estória.

O desfecho sempre ensinava uma lição de vida e, não raro, eram belíssimos achados a externar uma apropriada observação acerca da natureza dos homens e seu destino de desprezar o caminho certo, a senda justa, a trilha verdadeira, na vida, em troca das facilidades enganosas que o diabo apresentava, enquanto armadilhas, para a perdição da alma dos incautos.

Mas Compadre Adauto Fernandes não era somente um contador de estórias sem igual e um dos últimos integrantes daquela raça de titãs que colonizou o Sertão e que nasceu no começo do século XX. Dotado de arguta percepção a respeito dos homens e das coisas, certa vez me confessou por que não votara no candidato a prefeito que entusiasmava, então, sua numerosa família: “meu compadre, se ele não consegue arrumar sua casa, como vai arrumar a dos outros?”

Não deu outra. Foi uma desastre.

E quando lhe indagávamos, ansiosos, acerca do inverno, tão esperado todos os anos, respondia calmamente: “isso é com Deus, mas a experiência dos antigos diz que…”; quase sempre acertava.

Compadre Adauto Fernandes também era um poeta, em um certo sentido, alguém com o dom de dizer belamente, em momentos especiais, com tiradas de brilho incomum, algo que nunca brotaria, com facilidade, dos nossos corações e mentes. Dele escutei, certa vez, quando falávamos da morte, rompendo um seu mutismo inabitual, que “a morte, para quem fica, é uma saudade sem esperanças”.

Acaso alguém poderia ser mais preciso e poético ao descrever esse sentimento?

De outra, referindo-se aos caminhos e descaminhos de um amigo comum, saiu-me com essa, aludindo à eterna vitória da esperança sobre a razão: “compadre, quem nos puxa mesmo é a mão da ilusão…”

Tantos anos passados, todos nunca esquecidos. Tantas vidas vividas e sua lembrança não esmorece.

As vidas, meu compadre, sem homens como você, íntegro, único, profundo, está cada dia mais parecida com o que lhe ouvi dizer várias vezes a esse respeito – “é uma roca sem fuso!”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

*Texto originalmente publicado nesta página no dia 02 de março de 2014, há 12 anos.

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
  • Repet - Arte Nova - 16=03=2026
domingo - 08/03/2026 - 10:32h

A hora de sair

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa em estilo aquarela, com recursos de Inteligência Artificial, a partir de foto do autor da crônica, para o BCS

Arte ilustrativa em estilo aquarela, com recursos de Inteligência Artificial, para o BCS, a partir de foto do autor da crônica

Um homem tem que saber a hora de sair.

Recolher-se.

Perceber que o tempo passou.

Tirar as esporas, encostar a cela.

Pendurar as armas, despir a armadura.

Não mais se afadigar debaixo do sol.

Beber seu café; contar casos.

Ver seus rebentos irem para a arena.

Sair de cena.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Crônica
domingo - 01/03/2026 - 11:08h

Nem os coronéis são os barões da ralé

Por Honório de Medeiros

O cartoon de Dalcio Machado é o vencedor do Salon International de la Caricature et du Cartoon em 2024

O cartoon de Dalcio Machado é o vencedor do Salon International de la Caricature et du Cartoon em 2024

Li, e fiquei impressionado, com Clãs Políticos no Congresso Nacional, da pesquisadora Lauren Schoenster, “Transparência Brasil”.

Procurem no Google. Leiam. Vão redescobrir o óbvio. Ou serem surpreendidos.

Mudaram pouco os coronéis. Principalmente nos rincões. Não mudou o coronelismo. É a mesma estrutura de Poder de antes. Poucos mandam, muitos obedecem. Será que Jorge Luiz Borges sempre esteve certo? A democracia é mesmo uma ficção estatística?

Quando a massa consegue alguma coisa, fruto de um espasmo circunstancial tipo uma manobra politiqueira de um segmento integrante dos poucos que mandam, o Sistema se abala, mas volta logo ao normal e tudo continua como dantes.

Certo, também, Giuseppi di Lampeduza e sua célebre frase em O Leopardo, “algo deve mudar para que tudo fique como está”.

Entretanto, os poucos que mandam, mandam mesmo? É certo que, mandando ou não, vivem bem, às custas do “Zé Povinho”.

Nos tempos de hoje, o malandro não é mais o Barão da Ralé, como disse Chico Buarque, em samba antológico, a não ser que seja um malandreco.

Os coronéis criam e manipulam os malandros e os malandros, para os coronéis, são ralé do mesmo jeito, nada de Barões.

Eles, também, terminam sendo usados pelo dinheiro que pasmem para esse antropomorfismo, tem vida própria, cria, dita, interpreta e  impõe as regras do jogo.

Cada ser humano que o segura em suas mãos inocentes ou criminosas nada mais faz que ser uma marionete nesse jogo imenso, colossal, incomensurável, no qual cada um de nós dá mais de si, seja de que forma seja, do que o necessário para aumentar a vida do dinheiro e alimentar cada um dos membros da Ralé que compõem a teia, a malha, o sistema, que sem ter um ponto de partida nem de chegada, é algo em si mesmo e enreda tudo e todos…

O filósofo francês Jean Baudrillard, em quem os criadores de “Matrix” se inspiraram, disse, em Simulacros e Simulações, que o que a humanidade vive não é a realidade. Sustenta ele que a Sociedade, hoje, substituiu a realidade por signos e símbolos. Pode ser que esteja certo e tudo isso não passe de um imenso simulacro a esgotar cada um de nós, grão de areia perdido no cerne de um incomensurável deserto.

Eu, pelo meu lado, penso que a criatura engoliu o criador.

Nada mais.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Compartilhe:
Categoria(s): Artigo
Home | Quem Somos | Regras | Opinião | Especial | Favoritos | Histórico | Fale Conosco
© Copyright 2011 - 2026. Todos os Direitos Reservados.