domingo - 12/02/2017 - 04:02h

A essência sempre, imoral, do nepotismo


Por Carlos Santos

O nepotismo começou cedo, quando Deus nomeou Seu filho para a Santíssima Trindade.” Frase atribuída a Agamenon Magalhães, 1893-1952, político pernambucano, ministro do Trabalho e da Justiça de Getúlio Vargas.

O que é nepotismo? Num rápido passeiO pelo dicionário colhemos duas definições bem objetivas. Uma, que remonta à origem do próprio vocábulo, ou seja, seu aspecto etimológico/semântico. Outra, atualiza-no sobre sua prática nos dias contemporâneos.

Vamos lá.

Nepotismo é um substantivo masculino. Trata-se da “autoridade exercida pelos sobrinhos ou demais parentes do papa na administração eclesiástica”.

Nepotismo hoje em dia é identificado como “favoritismo para com parentes, especialmente pelo poder público.”

Nossos caríssimos legisladores no Congresso Nacional (Senado e Câmara Federal) vão adaptando a lei aos seus interesses, na proteção da parentela. Içam a justificativa de que nomear parentes para cargos no poder institucional não é nepotismo, mas procedimento baseado na qualificação e confiança no filhote, irmão, mulher, ‘quenga’ etc.

Pura balela.

O fato dos congressistas mudarem a lei aqui e ali, legalizando o que é nitidamente imoral, pode torná-la legal por estar positivada, mas não deixará de ser algo abjeto. Continuará sendo imoral. É nepotismo!

Nem tudo que é legal, é decente. Nepotismo é, em essência, indecente. Legalizado ou não.

Chegará um dia em que eles, os congressistas, vão definir em projeto de lei a ser convertido em lei: “Configurar-se-á nepotismo apenas os casos de nomeação de mais de cinco parentes diretos à administração pública. Revogada as disposições em contrário”. Ponto final.

Assim, ficará claro para os cretinos e beneficiados que bancar filho, patinho de borracha, criado-mudo, pinguim da geladeira ou qualquer outro ‘ser vivo’ de sua casa, a expensas do erário, não será – por lei, nepotismo.

NEPOTISMO vem da palavra em latim nepos, que significa neto ou descendente, e define relações onde temos o favorecimento de parentes de determinada pessoa em diversas situações em detrimento de outras pessoas mais capacitadas, para nomeação ou elevação de cargos.

Seu uso original ocorria no âmbito da Igreja Católica, onde os papas por não possuírem filhos herdeiros, nomeavam os seus sobrinhos ou parentes próximos para cargos dentro da Igreja como cardeais ou conselheiros. (Fonte: Jusdireito)

Apesar disso, insisto: continuará sendo nepotismo por fundo semântico, etimológico e principalmente de ordem ética. Mais do que uma hipotética transgressão jurídica, é um crime moral – que fere os costumes.

A grande maioria dos políticos brasileiros, por formação e por sua cultura de esperteza, não consegue entender isso e não aceita que a coisa pública seja realmente pública, do povo, pelo povo e para o povo.

Daí, particularmente, me revelo cada dia mais descrente com a política e com o político do meu país.

Ainda bem que temos valiosas exceções, que precisam ser aplaudidas, exaltadas e incentivadas. Mas são exceções.

Carlos Santos é editor e fundador do Blog Carlos Santos

Categoria(s): Artigo / Opinião da Coluna do Herzog

Comentários

  1. Gilvandro Alves da Silva diz:

    Morei 19 anos em Mossoró e quero aqui de público, enaltecer a figura de um político honesto, que prezava pelo erário público e não admitia em hipótese alguma o favorecimento de sua família em detrimento do bem comum. Foi prefeito de Mossoró e fez uma administração austera, talvez por isso não seja lembrado, mas lendo essa postagem eu lembrei de JOÃO NEWTON DA ESCÓSSIA.

  2. Inácio Augusto de Almeida diz:

    E assim Mossoró consegue entrar no noticiário nacional.
    Nenhum prefeito neste país nomeou tantos parentes de uma só lapada como Rosalba Ciarlini.
    Imagino se o jornal FOLHA DE SÃO PAULO soubesse que Rosalba fez presidente da Câmara Municipal de Mossoró uma condenada em primeira instância a mais de 5 anos de cadeia por prática de improbidade.
    Mossoró vai terminar entrando para o anedotário nacional por ser uma cidade onde não existe desemprego para parentes da prefeita, claro.
    Cidade onde se exige de um candidato a varredor de rua que nunca tenha cometido qualquer deslize em sua vida, mas que permite que uma condenada em primeira instância por prática de improbidade a mais de 5 anos de cadeia administre recursos que giram em torno de 20 milhões anuais.
    Ou não é este o orçamento da Câmara Municipal de Mossoró.
    Só faltam os independentes radialistas mossoroenses dizerem que os jornalistas da FOLHA DE SÃO PAULO estão com picuinhas, que são invejosos, recalcados etc. Ninguém duvide disto acontecer nos próximos dias.
    Nisto tudo não entendo nenhuma providência ser adotada por quem de direito.
    Passa da hora de mostrar a determinados prefeitos que eles foram eleitos para administrar a cidade e não para serem os DONOS. Aproveito para informar que estão abertas as inscrições a dezenas de concursos em todo o Brasil. Mesmo que o seu diploma seja de faculdade grau 1, você pode participar.
    ////
    OS RECURSOS SAL GROSSO SERÃO JULGADOS NESTE TRIMESTRE. AGUARDEM!
    AS DENÚNCIAS DO EX-PROCURADOR DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOSSORÓ DE QUE EXISTIAM FUNCIONÁRIOS FANTASMAS E VEREADORES FICAVAM COM PARTE DOS SALÁRIOS ESTÃO SENDO APURADAS POR UM PROMOTOR DESDE O DIA 6/12/2016. POR QUE O EX-PROCURADOR CHAMOU OS VEREADORES DE CORJA?

  3. jbsouto diz:

    Éh, Carlos Santos nas gestões públicas municipais – principalmente – do Oiapoque ao Chuí passando pelo Potengi está presente o apotegma de Cícero:”“Multum valet communio sanguinis. – Tem muita força o parentesco.” Aqui em Mossoró basta olhar composição do atual governo para corroborar máxima de Cícero :”O nepotismo, embora não inventado por ele, vinculou-se, com o acento no escândalo , ao papa Alexandre VI(1431-1501), que nomeou toda a família com inúmeros e gordos cargos, só sujeitos ao seu arbítrio, ao seu dispor[...] Mas não ficou nessa prática comum e modesta. Nos negócios religiosos foi mais longe. Cuidou de perpetuar a família no trono da igreja. Ungiu o seu filho putativo César Bórgia… com um arcebispado, aos 16 anos, concedendo ainda o chapéu cardinalício ao seu sobrinho Giovanni. O nepotismo, como afronta e humilhação aos não-sobrinhos, começou aí: não o fato, mas a repercussão do fato. Os parentes do papa não estavam condenados a roer o osso da miséria ou a obscuridade do anonimato.” ‘Raymundo Faoro’, em “Variações sobre o nepotismo”, Carta Capital 14/02/2001. Infere-se pelo artigo de Faoro que o nepotismo não é uma pratica nova, mas diante de tantos casos de nomeação de pessoas sem capacidade administrativa, do descalabro e desperdício de recursos do erário a sociedade repudia pratica tão nefasta à administração pública que acarreta danos ao cidadão que merece receber um serviço público de qualidade. Faoro no artigo sobredito nos contempla com um exemplo edificante entre quem ocupa um cargo e sua relação com a parentela, ei-lo:“Quando João XXIII (1881-1963) subiu ao trono, esclareceu aos jornalistas que o assediavam para saber o que esperavam seus irmãos, lavradores na pobre Sotto el Monte, que seu grande título era serem irmãos do papa.”

  4. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    O texto do jornalista Carlos Santos sobre nepotismo, também, irremediavelmente nos remete a “glorisosa”, para não dizer vergonhosa votação ocorrida quando do IMPEDIMENTO DA PRESIDENTA DILMA VANA ROUSSEF, qaundo então os “ilustres, probos e incorruptíveis” deputados, no mais das vezes gritavam, rosnavam e babavam espumas ao conto da boca supostamente bradando contra a corrupção, e, sempre e sempre ao final da cínica e demagógica fala, afirmavam e reafirmavam sem nehuma cerimônia…Pela minha familia, pelos meus filhos e pelos meus netos..!!!

    Nesse contexto, ao longo da história poltica brasileira, deveras os atávicos costumes de nomeações reiteradas de parentes e aderentes de todos graus posséveis e imagináveis, nos levar irremediavelmente constatar, que, os que ascendem aos cargos públicos, soretudo eletivos, confundem e bastante quadrilha com família.

    Taí os miraculosos resultados práticos do pós IMPEDIMENTO, do qual afloram as sementes e Rosas não só no pais Mossoró, assim como em grande parte dos rincões da terra de Pindorama….!!!

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  5. cezar alves diz:

    Poucos sabem, mas a Lei do Nepotismo começou com a promotora de justiça Patrícia Antunes, na época atuando em Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte.

    Evidentemente que a Lei não chegou nos finalmente conforme ela projetou com tanto cuidado. Chegou com brechas e que brechas, brechas estas que permite estas aberrações.

    Hoje, Patrícia Antunes, que atua no GAECO RN, não esconde sua decepção!!!

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