domingo - 27/09/2020 - 12:08h

A morte voluntária nos espreita


Por Roncalli Guimarães

O mês de setembro transformou-se no mês da prevenção ao suicídio e as estatísticas indicam que precisamos desse alerta para tentar reduzir essa trágica causa de morte. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são 800 mil mortes por suicídio anualmente, segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos.

O fenômeno do suicídio já apresentou vários conceitos no decorrer da história, indo do ato heroico à fraqueza moral.Existem relatos de suicídio desde Hipócrates há 400 anos A/C, o qual já associava o suicídio à melancolia e depressão. Temos nas escrituras da Bíblia, Mateus descrevendo o suicídio de Judas, cometido por remorso após a condenação de Jesus.

Nas artes o tema do suicídio foi amplamente descrito e por sinal muito presente nas obras de Shakespeare, como a  “imortal” obra  de Hamlet, na qual o autor narra os sofrimentos do príncipe Hamlet, suas  dúvidas  e coloca o suicídio como opção para cessar a dor dilacerante da sua angustia. Além de Shakespeare, Goethe desnudou o tema também.

Saindo do mundo da arte e fantasia, o suicídio é um tema real e de extrema importância. Estamos diante de algo muito presente em nossa sociedade moderna.

Essa importância vem do fato de que a medicina conhece o comportamento suicida. O ato de fazer algo contra si mesmo não necessariamente inicia pelo desfecho da morte. O comportamento suicida muitas vezes é antecipado por pensamentos e atitudes autodestrutivas perceptíveis.

Estudos comprovam que 80 % das pessoas que cometeram suicídio , estiveram em algum serviço de saúde primaria um ano antes do desfecho. Por isso, a campanha Setembro Amarelo não é apenas um mês soltarmos balões nessa cor e colocarmos frases de efeitos em redes sociais. O Setembro Amarelo é também um tempo de alerta.

Precisamos lutar para que sejam implementadas políticas públicas sérias, contínuas e que não se limitem a governo, mas como uma razão de Estado, por respeito e zelo ao cidadão, à sociedade, à vida. Por amor, compaixão. Por solidariedade.

Doenças como depressão e dependência química têm ampla possibilidade de tratamento e devem ser vistas sem preconceito, sem estigmatizar ou punir ainda mais doentes e suas famílias.

Precisamos modificar padrões de pensamento coletivo errôneo, como o de que o usuário de drogas é viciado porque quer, porque ‘é ruim’, deixando de socorrê-lo.

Temos que combater a subnotificação nos casos de tentativas de suicídio, pois dessa forma teremos maiores meios aos estudos e compreensão desse fenômeno. Entender o pensamento suicida é imprescindível nessa batalha que estamos travando diariamente, segundo a segundo. É uma luta em que todos nós estamos envolvidos.

A morte voluntária nos espreita.

Roncalli Guimarães é psiquiatra

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Amorim diz:

    Parabéns Dr. Roncalli, leitura fácil e exclaredora.

  2. Odemirton Filho diz:

    Ótimo texto. Explicativo e real. Muito bom, Dr. Roncalli Guimarães.

  3. Q1naide maria rosado de souza diz:

    Sim, “A morte voluntária nos espreita”. Precisamos estar atentos aos comportamentos do depressivo e do dependente de drogas porque a depressão é traiçoeira. Muitas vezes, o doente está muito alegre, diferentemente do habitual .É a Euforia e, nessa condição, também comete o suicídio.
    Um esclarecimento, em atendimento às suas famílias para que conheçam a doença e saibam como intervir. Cabe ao Estado, sim, diante das inúmeras perdas sofridas por conta desses males, formar frente de combate com participação efetiva, preservando a preciosidade da vida.

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