domingo - 31/01/2010 - 11:05h

A ousadia que nos falta


A China pós-crise está recebendo investimentos diretos estrangeiros da ordem de 10 bilhões de dólares por mês. A projeção para os próximos doze meses é de 120 bilhões de dólares.

Provavelmente, o triplo do que o Brasil irá receber no mesmo período.

O investimento na China visa, sobretudo, aumentar a margem de lucro de quem vende no mundo inteiro. Vamos tomar o exemplo do iPhone. Quanto será que custa fazê-lo na China? A empresa iSuppli, uma empresa de pesquisa de Mercado, desmantelou um iPhone 3GS de 16GB, e chegou a conclusão de que o aparelho custa US$178,96 para ser feito.

Para padrões chineses, é um produto caro. Tanto é que já existem dezenas de aparelhos similares feitos na China por preço muito mais barato. A qualidade não é grandes coisas. No entanto, se o iPhone fosse feito nos Estados Unidos deveria custar o triplo. O que, de cara, iria inviabilizar a sua popularização no mundo.

Encontrando preço barato na China, a Apple fez um produto tecnologicamente avançando e que está nas mãos de milhões em todo o mundo.

Por que o Brasil não pode fazer o mesmo? Bem, o Brasil tem uma mentalidade burocrática, intervencionista e uma estrutura trabalhista arcaica onde o patrão paga muito e o trabalhador recebe de menos.

O pedágio estatal é alto demais.

Na China, não existe legislação trabalhista, o salário é de fome, as leis ambientais inexistem e um pré-capitalismo, em seu pior e mais perverso aspecto, é praticado com profundidade e frieza nos tempos atuais.

Por exemplo, se uma futura fábrica tem que desalojar uma favela ou uma tribo não há nenhum problema. A policia tira todo mundo em dois minutos. Não existe IBAMA demorando cinco anos para dar uma licença ambiental. Nem TCU nem Ministério Público. A imprensa só publica a versão oficial. E a internet é censurada.

Mesmo assim, 120 bilhões de dólares vão chegar lá nos próximos doze meses.

Evidente que um mercado consumidor de mais de um bilhão e trezentos milhões de pessoas é atraente. Mas, o poder aquisitivo não é dos melhores. A renda per capita chinesa, em 2010, deve chegar a Us$ 2,400.

No Brasil, com todas as injustiças e desvios do sistema, vamos ultrapassar a renda per capita de US$ 8,000. Assim, um brasileiro pode consumir, pelo menos, quase quatro vezes mais do que o chinês. Pela renda e, principalmente, pelo fato de que o consumidor brasileiro está sendo educado para o consumo há muitas décadas.

Assim, o Brasil tem o potencial de atrair o dobro do que atraí em investimentos. O que o Brasil pode fazer para ter o sucesso chinês sem o peso da desigualdade e das injustiças do sistema?

Basicamente temos que atuar nas seguintes frentes: reduzir o custo fiscal das exportações; ampliar o financiamento de nossas exportações; reduzir o custo de contratação da mão de obra; eliminar a burocracia; ter políticas de incentivo a setores em que queremos ser competitivos; fortalecer o BNDES em seu papel de "eximbank"; manter a expansão do crédito; fortalecer nossa representação comercial no exterior; e, sobretudo, manter o ganho de renda dos mais pobres.

O Brasil pode crescer muito mais ancorado em seu mercado interno e nas suas exportações.

Se a China é um mercado fabuloso, o Brasil será sempre um mercado menor com maior potencial de consumo per capita e desenvolvimento social. Porém, ainda nos falta ousadia para aproveitar intensamente as oportunidades que se apresentam.

Murillo de Aragão é cientista político

* Extraído do Blog do Borjão (AQUI).

Categoria(s): Fred Mercury

Comentários

  1. jb diz:

    Além das frentes elencadas devemos investir fortemente em P&D e consequentemente em INOVAÇÃO. Segundo Roberto Nicolsky “exportamos cinco toneladas de soja ou quatro de minério de ferro pelo preço de um laptop, cuja produção gerou muito mais empregos e renda. A indústria brasileira de transformação, que agrega tecnologia e deixa o produto pronto para o consumidor final, está crescendo bem menos do que o PIB. A nossa economia é cada vez mais produtora de commodities agropecuárias e minerais, de produtos básicos e de serviços simples, como o comércio.

    A indústria instalada no País, seja eletrônica, farmacêutica, de máquinas e equipamentos etc., importa mais e mais componentes com os quais finaliza ou monta os produtos, sem que o Governo aja na defesa da renda e dos empregos industriais. Já tivemos a quinta indústria de bens de capital do mundo e hoje temos apenas a décima quarta, com muito menos conteúdo tecnológico próprio. Isto é a desindustrialização! Entre 2006 e 2008, o deficit do comércio exterior em produtos de maior valor agregado e alta intensidade tecnológica quadruplicou, alcançando US$ 51 bilhões, enquanto exportávamos cada vez mais commodities.” Jim O’Neill, chefe de pesquisa econômica do banco Goldman Sachs e inventor em 2001 da sigla Bric disse “Não sou especialista em Brasil, mas acho que a chave é, como em outros países que se desenvolveram, encorajar mais pesquisa e desenvolvimento, para entrar em áreas de valor agregado nas quais seja difícil para outros competirem.”
    Fonte:www.protec.org.br

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