domingo - 31/05/2015 - 20:54h

A “reforma” do leopardo


Por François Silvestre

Volta e meia, ou meia-volta, os políticos do Brasil voltam a falar de reforma política. Não é apenas uma mentira a mais. Não. É a mãe das mentiras. A mentira-mor da nossa farsa.

Ou o papai Noel que se fantasia na frente da garotada, que animada pela festa bela prefere fazer de conta que aquele é de fato o velhinho com um saco de presentes saídos da imaginação e não da compra dos parentes.

Os enganadores precisam da fé dos enganados. E fazem desse mercado de trocas uma acomodação de interesses.

Sobre as reformas de faz de conta há uma lição literária que resume como arquétipo as outras imitações. “Il Gattopardo” de Giuseppe Tomasi de Lampedusa.

No “Leopardo”, o autor trata da decadência da aristocracia siciliana, durante o Risorgimento italiano, quando as lutas de unificação sinalizavam para uma nova ordem política, social e econômica.

O resumo da obra se dá no diálogo entre os personagens Don Fabrizio, príncipe decadente de Salina, com o sobrinho Tancredi, picareta príncipe de Falconeri.

“É preciso que tudo mude, para que fique tudo do mesmo jeito”. Visconti adaptou a obra para o cinema, com Burt Lancaster, Alain Delon e Cláudia Cardinale.

O Brasil conseguiu superar a lição de Lampedusa. Aqui nem se muda nada para que tudo continue como sempre foi. E não raramente para pior do que era.

O golpe republicano apenas transformou a aristocracia monárquica em aristocracia republicana. Não foram os republicanos históricos que assumiram o poder. Quem tomou conta das decisões foram os próceres da Monarquia, agora republicanos.

O movimento de 1930 derrubou a República Velha sob o comando de um ex-ministro do governo decaído. E os antigos aliados do regime velho viraram sustentadores do regime novo.

A redemocratização de 1945 foi sustentada pelos mesmos sustentadores da ditadura Vargas. E o primeiro Presidente da nova ordem fôra o avalista militar da ordem antiga.

O golpe de 1964 foi endossado pelos mesmos que se serviam do governo deposto. Partidos e imprensa. Os partidos foram extintos e a imprensa levou pé na bunda.

Ao cair a Ditadura, não foram os seus inimigos que assumiram o poder. Foram os seus aliados. Tancredo Neves negociou com militares e políticos que sustentavam o regime de violência. Quem assumiu o poder foi José Sarney, acólito político da Ditadura.

Lula representava o antimalufismo, em São Paulo e no Brasil. Onde estão? Do mesmo lado. Collor foi a encarnação do antilulismo, o instrumento que evitou naquele momento a vitória do barbudo que assustava a burguesia e a classe média alta. Onde estão? Do mesmo lado.

Cada país tem sua pátria e cada pátria tem o seu caráter.

No Brasil, a geografia fotografa Deus e a pátria revela Macunaíma.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Chagas Nascimento diz:

    Verdade François Silvestre. Me lembro que no último Governo Militar, o senador José Sarney era líder do Governo no Senado e o senador Antonio Carlos Magalhães, um dos defensores mais ardoroso e truculento do regime vigente. Quando a situação foi ficando complicada para os militares continuarem no poder, eles mudaram de lado. Quando a oposição assumiu o poder, quem eram os novos líderes da chamada “Nova República”? Ninguém menos que os velhos caciques da ditadura. A presidência da Nação cai no colo do Sarney e o Antonio Carlos Magalhães é “agraciado” com um Ministério. Coisas do Brasil!!!

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