domingo - 10/01/2016 - 10:01h
Conversando com...Zygmunt Bauman

“As redes sociais são uma armadilha”, avisa sociólogo


Do El Pais

O polonês (Poznan, 1925) era criança quando sua família, judia, fugiu para a União Soviética para escapar do nazismo, e, em 1968, teve que abandonar seu próprio país, desempossado de seu posto de professor e expulso do Partido Comunista em um expurgo marcado pelo antissemitismo após a guerra árabe-israelense.

Renunciou à sua nacionalidade, emigrou a Tel Aviv e se instalou, depois, na Universidade de Leeds (Inglaterra), onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Sua obra, que arranca nos anos 1960, foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades de 2010, que recebeu junto com Alain Touraine.

Zygmunt Bauman faz reflexões sobre um tempo de incertezas no mundo dito moderno (Foto: Web)

Bauman é considerado um pessimista. Seu diagnóstico da realidade em seus últimos livros é sumamente crítico. Em A riqueza de poucos beneficia todos nós?, explica o alto preço que se paga hoje em dia pelo neoliberalismo triunfal dos anos 80 e a “trintena opulenta” que veio em seguida.

Sua conclusão: a promessa de que a riqueza acumulada pelos que estão no topo chegaria aos que se encontram mais abaixo é uma grande mentira. Em Cegueira moral, escrito junto com Leonidas Donskis, Bauman alerta sobre a perda do sentido de comunidade em um mundo individualista. Em seu novo ensaio, Estado de crise, um diálogo com o sociólogo italiano Carlo Bordoni, volta a se destacar.

O livro da editora Zahar, que já está disponível para pré-venda no Brasil, trata de um momento histórico de grande incerteza.

Bauman volta a seu hotel junto com o filósofo espanhol Javier Gomá, com quem debateu no Fórum da Cultura, evento que terá sua segunda edição realizada em novembro e que traz a Burgos os grandes pensadores mundiais. Bauman é um deles.

Pergunta. Você vê a desigualdade como uma “metástase”. A democracia está em perigo?

Resposta. O que está acontecendo agora, o que podemos chamar de crise da democracia, é o colapso da confiança. A crença de que os líderes não só são corruptos ou estúpidos, mas também incapazes. Para atuar, é necessário poder: ser capaz de fazer coisas; e política: a habilidade de decidir quais são as coisas que têm ser feitas. A questão é que esse casamento entre poder e política nas mãos do Estado-nação acabou. O poder se globalizou, mas as políticas são tão locais quanto antes.

A política tem as mãos cortadas. As pessoas já não acreditam no sistema democrático porque ele não cumpre suas promessas. É o que está evidenciando, por exemplo, a crise de migração. O fenômeno é global, mas atuamos em termos paroquianos. As instituições democráticas não foram estruturadas para conduzir situações de interdependência. A crise contemporânea da democracia é uma crise das instituições democráticas.

P. Para que lado tende o pêndulo que oscila entre liberdade e segurança?

R. São dois valores extremamente difíceis de conciliar. Para ter mais segurança é preciso renunciar a certa liberdade, se você quer mais liberdade tem que renunciar à segurança. Esse dilema vai continuar para sempre. Há 40 anos, achamos que a liberdade tinha triunfado e que estávamos em meio a uma orgia consumista. Tudo parecia possível mediante a concessão de crédito: se você quer uma casa, um carro… pode pagar depois. Foi um despertar muito amargo o de 2008, quando o crédito fácil acabou.

A catástrofe que veio, o colapso social, foi para a classe média, que foi arrastada rapidamente ao que chamamos de precariat (termo que substitui, ao mesmo tempo, proletariado e classe média). Essa é a categoria dos que vivem em uma precariedade contínua: não saber se suas empresas vão se fundir ou comprar outras, ou se vão ficar desempregados, não saber se o que custou tanto esforço lhes pertence… O conflito, o antagonismo, já não é entre classes, mas de cada pessoa com a sociedade. Não é só uma falta de segurança, também é uma falta de liberdade.

P. Você afirma que a ideia de progresso é um mito. Por que, no passado, as pessoas acreditavam em um futuro melhor e agora não?

R. Estamos em um estado de interregno, entre uma etapa em que tínhamos certezas e outra em que a velha forma de atuar já não funciona. Não sabemos o que vai a substituir isso. As certezas foram abolidas. Não sou capaz de profetizar. Estamos experimentando novas formas de fazer coisas.

A Espanha foi um exemplo com aquela famosa iniciativa de maio (o 15-M), em que essa gente tomou as praças, discutindo, tratando de substituir os procedimentos parlamentares por algum tipo de democracia direta. Isso provou ter vida curta. As políticas de austeridade vão continuar, não podiam pará-las, mas podem ser relativamente efetivos em introduzir novas formas de fazer as coisas.

Veja material mais completo AQUI.

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Comentários

  1. jb diz:

    A propósito de “A riqueza de poucos beneficia todos nós?” lembra-me isto:”Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas(5) que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.” Almeida Garret, em ‘Viagens na Minha Terra’

  2. Samir Albuquerque diz:

    Bauman é, sem duvidas, um dos maiores filósofos contemporâneos. Infelizmente, deixamos de ler pensadores como ele próprio, Lévi-Strauss, Merleau Ponty, Jean-Paul Sartre, Slavoj Žižek, entre tantos outros, para ouvir os “pensadores beijinho no ombro”.

    Essa realidade de distanciamento de nosso povo, sobretudo nossa juventude, de uma literatura mais profunda, muito incentivada pelo combate militar, durante a ditadura que se instalou nesse pais em 1964, aos cursos de filosofia de nossas universidades tem, acredito, levado as ultimas gerações à essa apatia política, o que só contribui para perenizar os problemas que enfrentamos em nosso pais.

  3. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Diria que não só uma armadilha, mais ainda, uma grande ilusão por parte daqueles que que se debrussam tal e qual autómatos grande parte do dia-a-dia em responder incontáveis comunicados e comentários através das chamadas redes sociais de supostos amigos e seguidores.

    No caso, em uma sociedade caracterizada pelo imediatismo, a falta de solidariedade política e, sobretudo pela compreensão e entendimento estúpidos de que há soluções fáceis para problemas complexos e coletivos, o que se verifica mais e mais é, de fato, o aprofundamento do narcisismo, da superficialidade e do distanciamento, entre outras características das relações virtuais, formando pessoas cada vez mais individualistas e egoístas.

    Se formos analisar e refletir o cotidiano das chamadas novas gerações, hoje em dia as pessoas tem perdido os limites e muitas vezes abrem mão da sua privacidade sem um fato que contextualize e (ou) ampare uma razão para tal. São tantos com fotos e atualizações de status contando cada segundo da sua vida, onde estão, o que estão fazendo exatamente naquele momento, sem contar as fotos expondo o corpo e coisas da vida pessoal e ínitma que todo mundo sabe que você faz, mas não existe a necessidade de tamanha exposição.

    Mesmo não sendo usuário, tenho a pretensão de afirmar, seja uma pessoa de caráter, se você tem dificuldade nessa área, comece hoje a buscar enfrentar tais verdades, lute por caráter íntegro e verdadeiro, mesmo quando o assunto seja rede social. Você não precisa provar nada pra ninguém, todos passam por problemas e por dificuldades e a grande maioria que se mostra tão superior a tudo na verdade vive uma vida de superficilaidades, frivolidades e de aparências apenas.

    Por fim ante esse mundo tão virtual e ao emos tempo líquido que escorre pelo ralo do imediatismo frivolo e oco, afirmo que…

    “Para manter uma mentira, são necessárias várias outras mentiras. Para manter uma verdade é necessário CARÁTER!

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  4. João Claudio diz:

    Em um passado não muito distante, era comum jovens e adultos caminharem portando um livro nas mãos. Isso acabou. Hoje, percebe-se que crianças, jovens e adultos possuem um ou mais aparelhos celulares, ligadinhos em redes sociais. Dificilmente se vê alguém com um aparelho no ouvido. A moda agora é teclar. Seja em casa, caminhando na rua, no trabalho, ou ate mesmo guiando um automóvel. É a ”febre contagiosa” do momento.

    99,9% das mensagens recebidas e enviadas, não passam de lixo pornográfico, pegadinhas, fotos das refeições que foram degustadas no almoço e jantar, tipo de roupa que vai sair a noite, onde será o esquema de hoje a noite, etc etc etc.

    Infelizmente e pelo que tenho presenciado, as redes sociais não levam a lugar nenhum. Ninguém aprende nada, exceto, fuleiragens, esculhambações, humorismo e sexo. Hoje, quem não é usuário do whatsapp, é considerado (quase) excluída pela sociedade ”moderna’ e antenada’. Sejas nas classes A, B, ou C.

    Eu não sou usuário do whatsapp. Logo, não existo.

    As redes sociais não me fazem falta. Ainda prefiro os livros e me comunicar com outros usando a minha voz, como faziam os antepassados.

    Eu faço parte do time daqueles que afirmam sem sombras de duvidas… ”nós eramos felizes e não sabíamos”.

    Entretanto, quem se acha feliz passando quase que 24 horas teclando inutilidades em um celular, que continue assim.

    Quanto ao futuro dessa gente, bem, ai são outros quinhentos.

  5. João Claudio diz:

    104 alunos tiveram nota mil na redação do Enem e 53.032, nota zero.

    Vasculhem que descobriram. Esses 53.032 só não fazem uso do WhatsApp quando estão dormindo, e mesmo assim, dormem abraçados ao celular. Agem como se não existisse mais nada neste mundo. Apenas WhatsApp .

    Esse aplicativo já é o tropeço, senão o fim do sonho de muitos jovens. Se é tinham sonhos.

    O aplicativo tornou-se uma praga, cujo mal adquirido é incurável.

    Anotem!

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