domingo - 07/03/2021 - 07:40h

Convite ao diálogo

Por Odemirton Filho

“Porque é ele a nossa paz, ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava”. (Efésios 2, 14).

Em um diálogo Socrático ressalta-se a imperiosa necessidade de se saber ouvir, aceitar críticas as nossas ideias, respeitar-se o outro, compreender que o errar é inerente ao humano e crescer com a troca de experiências. Em outras palavras: devemos cultivar a nossa humanidade.

Pois bem.

diálogo, vocabulário, conversa,A Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano tem como tema: Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor”. E como lema: “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade”.

O período quaresmal para a Igreja Católica, como se sabe, é momento de reflexão sobre a vida, fazendo-se mea-culpa, sendo um momento para rever nossas ações.

A Campanha tem a finalidade de “convidar comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”.

Nesses tempos de polarização a Campanha da Fraternidade vem a calhar. Vivemos tempos de radicalismo político e violência, sendo imprescindível repensar nossas palavras e atitudes.

A falta de diálogo tem tornado difícil a convivência dos contrários, deixando as relações sociais ásperas, sem o mínimo de razoabilidade, principalmente, nas redes sociais.

Segundo o Texto-Base da Campanha da Fraternidade:

“A paz é nosso horizonte. Ela passa necessariamente pelo enfrentamento das desigualdades econômicas. Todos sabemos que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Aqui, a elite econômica, formada por 1% das pessoas mais ricas, não se sente constrangida em ganhar 33,7 vezes mais do que os 50% mais pobres da população brasileira”.

E acrescenta:

“Como falar de paz, quando pessoas passam fome e não têm trabalho, nem terra e teto? Como falar em paz, sem denunciar essas injustiças econômicas, sociais e ambientais”?

Sim. É preciso denunciar tudo isso e, sobretudo, que aqueles que praticam corrupção, desviando recursos, como uma ferrugem que corrói a saúde, a educação, a segurança e vários direitos sociais do cidadão brasileiro, sejam devidamente punidos. Principalmente o gestor público que se aproveitou da pandemia para a meter a mão nos recursos.

A sadia discussão política é salutar para se alcançar objetivos individuais e sociais para o bem de toda a coletividade. Infelizmente, a marca atual da sociedade é a intolerância, fechando-se ao diálogo, minando pontes que poderiam levar a um país com um mínimo de respeito à dignidade da pessoa humana, aliás, um dos fundamentos de nossa República.

A Campanha da Fraternidade quer despertar, também, a discussão sobre “os efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis”.

Ademais, ressalta a imperiosa necessidade de nesses tempos de pandemia que haja união contra um inimigo comum: o coronavírus. É preciso a junção de esforços, sem a negação da ciência e dos efeitos deletérios da Covid-19.

De acordo com os especialistas somente com a vacinação em massa e a medidas de prevenção poderemos conter a propagação do vírus, agravada por novas variantes. A mutação oriunda de Manaus, dizem, tem um potencial dez vezes maior de transmissão.

Que fique bem claro: o Supremo Tribunal Federal, no início da pandemia, decidiu que a União, Estados, Distrito Federal e Municípios têm competência concorrente na área da saúde pública para realizar ações de mitigação dos impactos do novo coronavírus, conforme esclarecimento feito pela própria Corte Maior.

Ou seja, é responsabilidade de todos os entes da federação adotarem medidas em benefício da população brasileira no que se refere à pandemia

Mesmo porque a saúde é um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação, como preceitua a Constituição Federal no seu Art. 196.

A saúde é um direito fundamental que deve ser efetivado pelas três esferas de Poder, isto, União, estados e municípios. Entretanto, não podemos esquecer que há limitação orçamentária para que o direito à saúde seja plenamente concretizado. Sem dinheiro não há como se fazer milagres.

Não se pode deixar de mencionar, ainda, que enquanto milhares de profissionais da saúde estão no front de batalha, colocando em risco à vida, parte da sociedade fica promovendo festinhas e aglomerações numa total falta de respeito e empatia com o próximo.

Sair para trabalhar ou ir ao médico, por exemplo, é necessário, mas curtir uma “balada”, não. A conta da irresponsabilidade chegou e, agora, estamos pagando um preço alto, enfrentando o pior momento da pandemia, com o número de casos e mortes aumentando a cada dia.

E mais: a abertura de leitos de UTI para atender a demanda nunca será suficiente se a sociedade não fizer a sua parte, afirmam os profissionais de saúde. É preciso toda uma estrutura material e humana e os recursos não são infinitos.

Doutro lado, Estados e municípios começaram a decretar, novamente, lockdown e toque de recolher, fragilizando, ainda mais, a nossa combalida economia.

Como permitir que as pessoas possam trabalhar para garantir o pão de cada dia e, ao mesmo tempo, diminuir a disseminação do vírus e garantir atendimento médico-hospitalar às pessoas que venham a adoecer? Eis o enorme desafio dos governantes.

Sem esquecer que para os mais vulneráveis o auxílio emergencial é para ontem, pois o tempo urge e a fome não espera. É preciso agilidade do Congresso Nacional e do governo Federal.

Em suma: é um desafio que deve ser enfrentando por todos, União, Estados, Municípios e sociedade, em um verdadeiro pacto pela vida. Somente através de um acordo nacional e do diálogo conseguiremos alcançar o objetivo comum, qual seja, vencer o vírus e ter a vida de antes.

Enfim, há outros pontos abordados pela Campanha da Fraternidade, todavia, enfatizamos apenas alguns.

Que as palavras do Papa Francisco sejam benfazejas, reflexivas e um convite ao diálogo:

“A fecundidade do nosso testemunho dependerá também de nossa capacidade de dialogar, encontrar pontos de união e os traduzir em ações em favor da vida, de modo especial, a vida dos mais vulneráveis”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Inácio Augusto de Almeida diz:

    Parabéns, parabéns, parabéns pelo BRILHANTE artigo.
    O Papa Francisco, em sua mensagem da campanha da fraterniade reafirma que não pode haver paz quando tantos passam fome por causa da CORRUPÇÃO.
    Eu sempre digo que a IMPUNIDADE é a mãe da CORRUPÇÃO. Impunidade que se mostra através de penas leves.
    Como se aceitar, sabendo que a CORRUPÇÃO destrói a sociedade, uma condenação por prática de CORRUPÇÃO permtir que o condenado possa continuar exercendo cargo eletivo, fazendo leis e administrando verbas públicas?
    Como se aceitar condenação por prática de CORRUPÇÃO em regime aberto?
    Que os padres ouçam bem o que disse o Papa Francisco nessa sua mensagem da Campanha da Fraternidade.
    Que todos os católicos ouçam o Papa Francisco e se engajem na campanha de combate à corrupção.
    Que todos os cristãos vejam no corrupto o maior inimigo da sociedade.
    Parabéns, Professor Odemirton Filho.
    Parabéns.

    • Odemirton Filho diz:

      Meu caro Inácio, sei de sua luta permanente contra a corrupção. É preciso sim combater essa chaga
      que há tempos destrói o nosso país. Um dia, quem sabe, conseguiremos.
      Obrigado pelo comentário.
      Um abraço. E cuide-se!

  2. Rocha Neto diz:

    Excelente artigo caro Odemirton, infelizmente a cultura do nosso povo torna-se a grande responsável por tudo que estar acontecendo. Pior, não existe horizontes para mudanças. Que pena!!

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