domingo - 20/10/2019 - 08:32h

Devaneios


Por Inácio Augusto de Almeida

Parece ser um urso muito grande. Grande e branco. Ao lado um cordeirinho, também branco. Quanto mais olho, mais animais branquinhos vejo. É como se todo o mundo animal estivesse travestido de branco.

A torre da igreja parece deslocar-se no espaço. A cruz, principalmente a cruz, dá-me a impressão de que está adquirindo uma velocidade cada vez maior, como que se estivesse animada por uma aceleração crescente.

O chão é frio e a brisa que vem da praia um tanto quanto distante me refresca e torna suportável a quentura deste sol a pino.Os bichinhos brancos já não estão nos mesmos lugares e alguns até já se transmudaram. Cadê o urso? E o cordeirinho?

Faço um esforço e, mesmo com os olhos um tanto cansados de olhar para o infinito, vejo novas figuras.

Um índio, vejo um índio montado à maneira índia. Um pouco à esquerda, um cavalo, um cavalo como que em disparada.

O vento que sopra e que tudo muda e desloca; a cruz que parece embevecida pela velocidade sem controle; a poeira que se levanta em moinhos em redemoinhos indisciplinados; o relógio que bate a primeira hora da tarde.

Tudo me lembra um barco à deriva num rio caudaloso.

Levanto-me meio sujo de areia, areia do chão frio da calçada ensombrada pela torre da igreja. O estômago dói, tenho fome e ninguém pode sonhar com fome.

Será somente a areia que se levanta tangida por forças as quais não pode resistir? Serão somente as nuvens que mudam de lugar sem o direito sequer de reclamar? E a cruz? Será somente a cruz que parece correr e parada está?

Ventos que levam as coisas, ventos que levam as pessoas.

Tudo, quem sabe, depende do vento que soprar. Da força e da direção do vento…

O barulho do trem é enorme, tão grande quanto a sua lentidão, tão descomunal quanto a sua carga de pedras brancas… Por que tudo se me apresenta branco?

Melhor assim… Que o preto só venha no fim e, mesmo assim, que a laje seja branca… Branca como aquele cordeirinho que agorinha estava ali. Cadê o cordeirinho?…

E amanhã? Serei urso ou cordeiro? Ou melhor, quanto tempo serei urso e quanto tempo serei cordeiro? Certamente tudo dependerá do vento que soprar.

Ah se me fosse possível saber qual a intensidade e a direção do vento que amanhã me levará por estes caminhos e descaminhos…

Sinto mais fome. É a realidade se fazendo presente. É o vento que começa a soprar.

Levanto-me e começo a caminhar. Ao olhar para trás vejo a igreja de São Vicente e consigo ver os furos deixados pelas balas de cangaceiros que tentaram saquear Mossoró. Tenho a impressão de que uma chuva fina começa a cair.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Inácio Rodrigues diz:

    O autor se superou! Fantástico! Fiquei verdadeiramente tonto com as imagens construídas! Um dos melhores textos que eu li do Senhor Inácio!

    • Inácio Augusto de Almeida diz:

      Senhor Inácio Rodrigues
      Muito obrigado por ter lido estas minhas “mal traçadas linhas”…
      O Odemirton Filho já sugeriu a feitura de um livro reunindo crônicas e poesias publicadas aos domingos no nosso Blog. Eu concordo e desde já autorizo a publicação de qualquer texto meu.
      Desde que o conseguido com a venda dos livros seja comprado de tênis para calçar as crianças que nas creches de Mossoró UNIFORME ESCOLAR não recebem e usam sandálias japonesas, quando usam.
      Você, Inácio Rodrigues, saiba que a sua colaboração irá abrilhantar o livro TEXTOS DO NOSSO BLOG.
      O prefácio a senhora Naide Maria Rosado de Souza já assumiu o compromisso de escrever.

  2. Q1Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Sr. Inácio. Mesmo viajando, sem saber se o meu comentário chegará, não posso deixar de dar os parabéns por sua excelente Crônica. Amei!

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