domingo - 08/09/2019 - 07:24h

Esse é Zé Brasil


Por Inácio Augusto de Almeida

Membro da milícia papal, cavaleiro d ordem de São João da Barra, centrista convicto. Um homem simples, negro velho, amante da boêmia e inimigo número um do capital e do trabalho, principalmente do trabalho.

Conheci Zé Brasil no Espetinho Mossoró, ali, bem pertinho do Mercadinho do Alto da Conceição.

Já octogenário, Zé viveu a Mossoró de Dix-Huit Rosado . Admirador do Monsenhor Walfredo Gurgel, valentemente combateu as arbitrariedades do regime militar, isto entre um conhaque e outro.

Zé é um tipo que se não existisse , seria preciso inventar…

Pertence atualmente à esquerda da Igreja Católica. Não, não se surpreendam. É verdade. Zé Brasil está na esquerda católica. Se ela existe ou não isto é de somenos importância.

No Espetinho Mossoró, tomando mais um conhaque, Zé degusta as frases de efeito do Papa Francisco.

E vibra quando o Papa Francisco diz que a corrupção fede e que o dinheiro da corrupção é sujo com o sangue e as lágrimas de inocentes.

Repete a todo instante, depois de alguns conhaques, claro, que o Papa Francisco afirma que a igreja cansou de dizer amém. E conclui que não mais escutam o Papa.

Espera que um dia o Papa inicie a construção da igreja dos pobres, pois para Zé Brasil a igreja dos ricos já está construída.

Outro dia perguntei ao Zé Brasil quando Cristo voltaria.

Ele, naquela sua simplicidade, me respondeu:

Não volta mais. Ele agora está acordado. E por estar acordado é que sempre está no meio de nós, mas nunca mais voltará a nós. Basta a crucificação daquela época. Hoje seria muito pior.

E entre um conhaque e outro condena abertamente a destinação de recursos públicos para campanhas políticas em uma época que faltam recursos para Educação, Saúde e Segurança. Melhor, na sua opinião, que este dinheiro fosse utilizado na compra de medicamentos e de livros.

Assim é o Zé Brasil, sempre preocupado com os grandes problemas nacionais.

Sonhador, como todos os boêmios, Zé devaneia.

E nos seus devaneios, isto após 15 conhaques, vê um lugar onde os corruptos são punidos com rigor e a forma maior é a inteligência.

E bebe mais um conhaque, convicto de que um dia tudo será como ele sonha…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Q1Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Sr.Inácio, amei a sua crônica. Eis que aquele que se propõe, com toda a energia, a lutar pelo fardamento e merenda da rede pública, no combate ferrenho à corrupção, vem e mostra quão versátil é sua inteligência, nos brindando com excelente Crônica.
    Um dia, chego lá…

  2. Odemirton Filho diz:

    Parece-me que teremos o prazer de ler, semanalmente, os seus
    belos escritos.
    Continue, por favor.
    Abraços.

  3. François Silvestre diz:

    Excelente.

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