sexta-feira - 13/12/2019 - 05:34h
13 de dezembro

Festa de Sta. Luzia – da Amplificadora do Padre às redes sociais


Por David de Medeiros Leite

“Festa de Padroeira é uma coisa só”, dirão alguns. Pode-se admitir a assertiva; porém, contextualizando-a e elegendo algumas variáveis, tais como, demografia, expressão religiosa e o sistema de comunicação utilizado no e para os festejos. Portanto, teríamos que “trabalhar”, no mínimo, com esses três parâmetros para, mesmo que perfunctoriamente, avaliarmos a evolução da Festa de Santa Luzia na cidade de Mossoró.

A título de ilustração, usando números aproximados e intervalos de trinta anos, verificamos que a população de Mossoró, em 1960, era de 40 mil habitantes, saltando para 190 mil, em 1990, e, atualmente, alcançando os 300 mil habitantes. Somente esse aumento demográfico (mesmo sopesando o crescimento de outras vertentes religiosas) daria “panos pras mangas” numa abordagem específica.

Em termos de comunicação, torna-se imprescindível referir-se à aparição da Rádio Rural de Mossoró, em 1963, que funcionou como uma espécie de “divisor de águas”, considerando que, nas décadas anteriores, o que pontificava na Praça Vigário Antônio Joaquim, principal ponto geográfico da Festa de Santa Luzia, era um velho serviço de som, apelidado de “Amplificadora do Padre”, que pertencia à municipalidade.

Vale registrar que a referida denominação decorria do fato de ter sido o Padre Mota, quando prefeito da cidade, o responsável pela instalação de tal aparato sonoro, cujo “estúdio” funcionava no pequeno sobrado localizado onde hoje se encontra edificado o Teatro Lauro Monte Filho.

Durante a Festa de Santa Luzia, a audição dessa Amplificadora era disputada pelas precárias “bocas de som”, dos parques de diversão, instalados pelas redondezas, ou mesmo pelos esgoelados gritos de leiloeiros e pregoeiros das dulcíssimas “maçãs do amor” e outras guloseimas típicas e ansiadas naquelas ocasiões.

A Rádio Rural modificou a Festa, tanto no sentido religioso (transmissões de missas e novenas), como no âmbito profano. Quatro ou cinco linhas é um espaço demasiadamente curto para comentarmos, por exemplo, um evento promovido pela Rádio, durante a Festa de Santa Luzia, que marcou época: o concurso “A Mais Bela Voz”.

As cidades vizinhas realizavam etapas eliminatórias, e os finalistas disputavam o pódio do concurso em apoteóticas noites. E tudo na harmônica sequência: terminada a novena, a multidão naturalmente se voltava para o palco da “A Mais Bela Voz”. Muitos talentos ali foram revelados e consequentes carreiras iniciadas.

Claro que, concomitante e posteriormente ao momento concurso, barracas de jogos, brinquedos, doces e salgados, seguiam suas ofertas no mesmo largo e adjacências. Namoros, flertes e paqueras pululavam entre púberes olhares. Sem falar noutro lado menos romântico, quando àqueles chatos e exaltados “cavavam” empurrões e entreveros, a fim de exporem suas “machezas”. Acontecimentos, infelizmente, recorrentes em aglomerados humanos.

Pois bem, nos últimos anos, após as novenas, as atenções se voltam para o Oratório de Santa Luzia. Espetáculo teatral considerado sucesso de público e de crítica. Não vou adentrar em detalhes, mas aproveito o ensejo para homenagear (in memoriam) uma artista mossoroense que estava afastada do teatro e, com o Oratório, voltou à ribalta de forma extraordinária: Ivonete de Paula.

Pena que essa sua segunda fase tenha durado tão pouco. Citando-a, desejo estender essa singela homenagem a todos que já atuaram (e atuam) em cena ou nos bastidores.

A equivalência que se estabelece, considerando uma hipotética emulação entre o concurso “A Mais Bela Voz” e o Oratório de Santa Luzia, é que a Festa de Santa Luzia continua ensejando revelações artísticas e isso, por si só, suscita verdadeiro milagre, dado os reveses que talentosos jovens sofrem em nossa realidade.

Vale ressaltar que outros tantos eventos abrolharam nesses últimos anos: Cavalgada da Luz (na sua 13ª edição), Motorromaria da Luz (11ª edição), Pedalada da Luz (10ª edição), Caminhoneiros da Luz (3ª edição), Romaria Ciclista (1ª edição). A motivação religiosa cada ano amplia sua dimensão, graças à criatividade e ao engajamento das Comissões Organizadoras. Dando-se, claro, também o devido crédito à visão e ao direcionamento dos vigários-gerais às novas empreitadas.

A curva ascendente do volume da movimentação econômica fica evidenciada a olhos nus. No entanto, neste ano de 2019, temos a celebrar que um estudo acadêmico, protagonizado pela Faculdade de Economia, irá mensurar o impacto derivado dos festejos na economia da cidade e região.

No quesito midiático, mesmo considerando que Rádio Rural segue atuando como importante braço da Diocese, constatamos que as chamadas Redes Sociais emergiram como fenômeno transversal, avalanche igualmente observada em quaisquer segmentos.

Utiliza-se das redes para divulgação institucional dos eventos da Festa, ao mesmo tempo que os flashes dos celulares disparam e reverberam em grupos, momentos daqueles que curtem a festa, desaparecendo aquele vínculo dispendioso das fotos de outrora.

“E a Procissão, você não irá comentar?” Poderia resumir, de uma forma um tanto simplista, que é o ápice da Festa. Todavia, em verdade, em verdade, a Procissão de Santa Luzia é bem mais de que isso. Trata-se de uma manifestação em que o mossoroense, seja de nascimento ou adoção, prefere vivê-la e senti-la a descrevê-la.

Tarde-noite para caminhar, cantar, rezar e meditar sobre a vida, a sua terra… sob as bênçãos da “Virgem-mártir, invicta heroína…”.

Viva Santa Luzia!

David de Medeiros Leite – Professor da UERN, atualmente assessor jurídico da Presidência do TRE. Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha.

* Texto publicado originalmente na Revista de Santa Luzia – 2019

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Fernando diz:

    Lendo a saudade batendo e os olhos marejando.

  2. João Claudio - Jingle Bell - Hô! Hô! Hô! Hô! diz:

    Belo, belo e belo. Parabéns, David. Meus aplausos.

    Se me permite, eu não troco a Mossoró dos anos 60, 70 e 80, desprovida de tecnologias, por 300 Mossoró de hoje, onde se respira tecnologia 24 horas.

    Creio que todos os leitores com idade acima de ou chegando aos 60 anos que leram o seu texto, devem ter comentado em silêncio:

    ‘Eu era feliz e não sabia.’

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