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segunda-feira - 28/02/2011 - 21:13h

Inventando a cidade



Aqui e acolá puxo conversa com Carlos Peixoto, nosso diretor de redação, sobre livros – ele é um ledor voraz e de bom gosto – e intercalo nesses papos de começo da noite, enquanto a redação permanece agitada no outro lado do aquário, umas pitadas sobre o jornalismo da província. Ando metido em redação de jornal há 68 anos.

Esta coluna, por exemplo, já completou 47. Sou do tempo em que repórter andava a pé pela cidade catando notícias. Lápis e papel na mão. Fico chateando Peixoto por conta da maneira como os nossos jornais (incluo rádio e televisão) vão inventando uma nova Cidade de Natal, invertendo nomes dos lugares públicos, bairros, ruas, praças, passando o trator do desprezo pela sua história, seu passado e suas tradições, seus filhos ilustres. Vão criando uma cidade falsificada.

De repente os bairros de Petrópolis e do Tirol passam a ser chamados pelos jornais locais, via colunismo social ou coisa parecida, de “Plano Palumbo”, uma referência ao urbanista italiano Giacomo Palumbo que andou por aqui em 1929. Virou moda besta na mídia. Palumbo não botou um meio-fio sequer nem no Tirol e nem em Petrópolis.

Tem nada a ver com os dois bairros que já existiam há mais de 20 anos, traçados por Polidrelli ( outro italiano), em 1904, seguindo o projeto original do intendente Joaquim Manoel Teixeira de Moura, bolado em 1901. Surgia a Cidade Nova. Era o governo de Alberto Maranhão.

A Praça Pedro Velho, construída nos anos trinta, é chamada de Praça Cívica, apelido imposto pela Ditadura de 1964, quando passou a realizar ali os desfiles militares. Parte da imprensa, infelizmente, aceitou a imposição. Esqueceram da velha e graciosa “Pracinha” que marcou a vida social e esportiva de Natal por mais de quatro décadas e que teve o seu tempo áureo entre os anos 40 e 50.

Esquecem o nome de Pedro Velho, o principal líder do movimento republicano no Rio Grande do Norte, o primeiro governador do Estado no novo regime. Foi ainda deputado e senador. Médico, professor, jornalista (o fundador do jornal A República). Seus coleguinhas de hoje, infelizmente, desconhecem sua rica biografia.

Aproveito para sugerir aos coleguinhas a leitura de “Vida de Pedro Velho”, biografia escrita por Luís da Câmara Cascudo, reeditado recentemente pela UFRN. Digo mais: é preciso ler Cascudo. Sua História da Cidade do Natal, sua História do Rio Grande do Norte, suas “Actas Diurnas” reunidas em 10 volumes com o título de O Livro das Grandes Figuras, publicados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, seus livros de memórias.

Ler o que puder ler de Cascudo. Ler Cascudo, além de um rico aprendizado, é um deleite. Seja História, seja Etnografia, seja Antropologia, seja Sociologia, seja Crônica, seja Crítica Literária, seja Música, seja Folclore, seja Jornalismo. Sim, porque o Mestre foi repórter, começou a escrever em jornal. Cascudo, cara, foi nosso colega. Estufe o peito! Vamos lê-lo para se aprender as coisas, ficar sabendo das coisas, ficar sabendo da História da nossa cidade e da sua gente, que somos nós.

O bairro da Ribeira tem sofrido muito nas mãos de vários prefeitos e dos repórteres. A Praça Augusto Severo, coitada, tem levado porradas. Ultimamente os jornais tratam-na como “Largo da Ribeira”, “Largo do Teatro”, “Largo Dom Bosco”. Uma ignorância e um desrespeito àquilo que foi o mais “o mais belo da Cidade”, no dizer de Lauro Pinto, magistrado e escritor.

Está no seu livro Natal que eu vi, de 1971 (Imprensa Universitária) e que o Sebo Vermelho reeditou em 2003 (edição fac-similar). Um desrespeito à memória do seu criador, o grande arquiteto Herculano Ramos, o mesmo que projetou o Teatro Alberto Maranhão e que difundiu a art noveau por estes alagados.

Woden Madruga – Jornalista da Tribuna do Norte (Natal)

Categoria(s): Nair Mesquita

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