terça-feira - 26/05/2020 - 11:00h
Brasil

Lição sobre a zorra


Por François Silvestre

Dona Zuleide quase não fala, cumprimenta quem lhe dá as horas, sorrir e volta para o livro que lê. Não sei os outros, mas tive a curiosidade de observar o livro. Descobri que não é o livro. De dois em dois dias, o livro é sempre outro. Dona Zuleide é uma leitora permanente. Vejo disfarçadamente que ela gosta de novelas policiais, biografias de filósofos ou pensadores, e mais raramente romances de costumes.

Ela se veste com simplicidade e elegância. Nunca desce do seu Flat sem o cuidado da maquiagem sutil, suave, sem exagero. Sempre com um lenço de seda guarnecendo os ombros, que desce após um laço enfeitando o busto. E da blusa derrama-se um branco linho, em renda debruada.

Aqui tem de tudo. De musicista, advogado, militares da guarda nacional, coronel da policia, aposentados, jornalista, comerciantes, médico, fazendeiro. Somados aos servidores, da manutenção, da administração e camareiras. Tudo

E onde tem de tudo tem opinião. E como sói, divergentes. Em futebol, meio sem briga, pois os campeonatos estão em recesso. Aí, pra manter o hábito, a divergência resiste na política.

A discussão rolava solta sobre a última reunião do ministério. Uns escrachando Bolsonaro e seu acólitos pelos palavrões e outros justificando os palavrões como coisa natural. Uma patifaria, diziam uns. Coisa normal numa reunião privada, rebatiam outros.

Num canto, Dona Zuleide lia. Vez ou outra levantava a vista, fazia um gesto de desagrado e voltava ao livro. Teria saído sem falar, não fosse provocada. Mas o musicista provocou: “Dona Zuleide, o que achou das imoralidades”? Ela perguntou, “que imoralidades, meu filho”? “Os palavrões na reunião do governo federal, a senhora num viu não”?

Ela fechou o Cândido de Voltaire, levantou-se pra sair e respondeu:

“Vi a reunião todinha, mas não houve imoralidades nos palavrões não. Só vi uma imoralidade”. Ao começar a sair, alguém cobrou: “Só uma, qual”? Ela respondeu: “Só uma. Duas horas de um governo reunido, com um bando de malucos, sem um minuto para cuidar de administração, de segurança pública, saúde pública, educação pública, economia. Nada. Os palavr&otilde ;es salv aram aquela coisa. A reunião é que foi a grande imoralidade, não os palavrões”.

Saiu lentamente, após matar todos os argumentos.

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. François Silvestre diz:

    “os palavrões salvaram aquela coisa”.

  2. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Ora Caro François.,nesse conto/ficção que reverbera tormentosa e nada agradável realidade.

    O fato é que, Dona Zuleide que quase não fala….Falou bonito e acertadamente em poucas palavras …!!!

    Um baraço
    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  3. Q1naide maria rosado de souza diz:

    D. Zuleide sabe das coisas. Há pouco, conversando com um colega da faculdade, lembrei de Maria Augusta, da Socila. Com 10 anos de aula com Maria Augusta, Aírton só falaria de flores. E nada salvaria “aquela coisa”. Aírton irá assim até o final do mandato. Não acho bom aquele palavreado dele, D.Zuleide, mas entendi seu posicionamento. Aírton é , com licença, da palavra, “escrachado”. Revela destempero. E, o destemperado, age impulsivamente . Eis o perigo da fala solta: o ato solto, sem comedimento.

  4. Amorim diz:

    Correto!

  5. Fernando diz:

    Falta ao povo brasileiro a sutileza dessa senhora.

  6. Jessé de Andrade Alexandria diz:

    De fato, as obscenidades foram muitas. As menores, os palavrões. Inclusive, uma das maiores foi a proposta de Guedes de oficializar o puteiro. Para esse governo, uma obscenidade mais do que necessária, afinal de contas, a forma tem que seguir o conteúdo. Quanto à preocupação do presidente com sua hemorroida, acho que é indevida. Jamais alguém irá estuprar-lhe a hemorroida. Porque ela não merece…

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