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domingo - 17/11/2019 - 07:18h

Memórias em cacos


Por Inácio Rodrigues

A verdade é que o copo caiu e os pedaços estavam espalhados pelo quarto. Ivone não pode evitar a colisão com o utensílio de vidro, quando sua mão deslocava-se rapidamente no gestual que ajudava ao ancoramento da vivaz argumentação.

Debatia com Fábio, o companheiro, que era modelo fotográfico, sobre marcas de roupas, perfumes e acessórios. Onde comprá-los mais baratos, e, principalmente, como obter recursos para a realização dos seus prioritários desejos de consumo.

Ivone, ex-miss e agora dona de uma academia, fazia de sua vida com Fábio um deleite de luxo e sofisticação. De jantares a viagens, perfumes, carros e roupas importadas, viviam como se não houvesse o amanhã.Ambos vindos de famílias humildes, haviam esquecido definitivamente as origens.

Sem filhos, apesar da união de seis anos – diziam que era por opção – moravam numa cobertura alugada, antiga mas imponente, com três empregados, e mantinham veículos financiados, cujos carnês se assemelhavam a bíblias, volumosos, indicando o parcelamento em muitos anos. Iam a Miami como quem vai ao shopping do bairro.

Eram até reconhecidos pelos funcionários da imigração dos EUA, tal a frequência das visitas. Nas passeatas pelo impeachment foram presença constante, e com suas camisas patrióticas da CBF, acreditavam que salvavam o país dos “corruptos vermelhos”.

Tudo ia bem, até que veio o agravamento da crise. Como os trabalhos rareavam cada vez mais para Fábio, que aos 38 anos não tinha a cara e nem o corpo de dez anos antes, e a academia há muito não era suficiente para sustentar o alto padrão de vida que usufruíam, estando praticamente falida, naquela noite o casal discutia o mais importante pra eles. Como conseguir dinheiro para manter o mesmo padrão de vida?

As ideias foram surgindo, evidenciando o risível nível de entendimento do mundo que tinham Fábio e Ivone. Pensaram em comprar muamba em Miami para revender no Brasil, pois de produtos supérfluos e luxuosos entendiam muito bem.

Desistiram.

Lembraram que não tinham o capital nem para as passagens. Cogitaram um curso de etiquetas, ministrado por eles, praticamente ingleses, afim de trazer um pouco de civilidade aos mal educados bárbaros do local. Recuaram quando alguém, em um ato de generosidade sincericida, garantiu que eram  eles que tinham menos educação que os possíveis alunos.

Doeu ouvir.

Perdidos em devaneios e maluquices fúteis e sem saída à vista, ouviram o telefone fixo tocar, único aparelho telefônico que ainda não havia sido bloqueado por falta de pagamento. Ivone se viu compelida a atender. A última funcionária fora embora há três dias, levando o microondas como indenização trabalhista e salários atrasados. Com as duas outras já haviam ido uma televisão e o frigobar.

“Alô”, disse Ivone com uma voz empostada, temendo ser aquela mais uma das costumeiras ligações da imobiliária cobrando os meses de aluguel e condomínios atrasados. Inicialmente até se arrependeu de ter tirado o telefone do gancho, mas ao ouvir a voz de uma idosa, sentiu segurança, e perguntou do que se tratava.

Docemente, com a paciência de quem vivera muito, a senhora se identificou como Eponina Martins, e disse que havia conseguido aquele número de telefone com Evandro, irmão de Ivone. Esclareceu que era avó paterna de Rômulo, um amigo de infância de Ivone, na verdade, o seu primeiro namorado.

Terminou dizendo que tinha uma boa notícia, e que se eles aceitassem, no dia seguinte ela iria pessoalmente visitá-los. Claro que aceitaram. E ficou a expectativa. O que aquela senhora queria? O que ela iria propor? Qual seria a natureza da notícia?

Providenciada uma rápida pesquisa no Google, ficou bem esclarecido que  a senhora Eponina era dona de empresas, indústrias e imóveis. Riquíssima.

O coração dos amantes se abriu em esperança que boas coisas viessem. Naquele deserto de opções, uma possibilidade era tudo. Sonhavam com uma solução que propiciasse a volta da boa e velha vida que levavam antes da crise. Fábio perguntou sobre Rômulo. Sabia que ele havia sido o primeiro namorado de Ivone, mas quis saber mais, querendo entender se ele poderia ter alguma ligação com a boa notícia que viria de Eponina.

Ivone se limitou a repetir, como já fizera mil vezes, que o seu namoro com Rômulo fora pueril, coisas de crianças, sem maiores consequências. Afinal, tinha apenas 15 anos e não houve sexo. De forma constrangida, pois Fábio não gostava da lembrança, teve que repetir que sua virgindade só fora perdida dois anos depois, durante uma viagem com a equipe de vôlei da escola.

Romero fora o colega de classe autor da façanha dolorida e sem graça. Lembrou ainda que não sabia que rumo Rômulo havia tomado na vida e nem onde ele residia atualmente.

Quando a manhã chegou os encontrou insones e mais ansiosos que na noite anterior. Quatorze horas fora o horário combinado. Ao meio dia o relógio da sala batia devagar, enquanto cada um cultivava um canteiro de hipóteses e expectativas, sentados imóveis e em um silêncio que contrastava com a agitação do início da manhã.

O tic tac da máquina ditava o ritmo dos corações. Enfim, o horário chegou, e a campanhia tocou. Fábio foi atender.

Ficara assim estabelecido, na longa noite em que os detalhes foram combinados a exaustão, nos vários cenários imaginados pela dupla. Fariam parecer casual. Fabio atenderia a porta com o celular a mão, mesmo que bloqueado por falta de pagamento, e simularia uma conversa com um interlocutor inexistente. Assim, imaginavam – vejam o nível de futilidade – não teriam que explicar a ausência dos criados que deveriam ter aberto a porta e em seguida anunciado a visitante.

Dona Eponina entrou e não pareceu se importar com o fato de a porta ter sido aberta por Fábio. Era uma senhora discreta, vestida como executiva, de blazer e salto alto, aparentando uns 69, 70 anos. Tinha os cabelos pintados de preto e um bom corpo. Chamava a atenção a maquiagem forte, talvez para atenuar sinais do tempo.

Ela foi direta. Cumprimentou Ivone que estava trêmula na sala, e passou a detalhar o motivo da visita. Fábio, que já encerrara a simulação inicial com o telefone, ficou atento ao relato.

A idosa contou que seu neto Rômulo era um profissional muito bem-sucedido na área da construção civil, e que como engenheiro amealhou farto patrimônio financeiro e imobiliário. Era, porque morrera há dois anos, ainda muito jovem, nem chegado aos 40. Apesar do grande patrimônio, Rômulo nunca casara ou tivera filhos. Guardara até a morte, causada por um inesperado e terrível câncer no pâncreas, o segredo que lhe consumiu por toda a vida.

Amou em segredo e profundamente Ivone desde a época do namorico da adolescência.

Com o fim do incipiente relacionamento, forçosamente  foi embora com a família para o sudeste, pois o pai era militar e havia sido transferido. Perdeu o contato com Ivone, mas nunca a esqueceu. Muito pelo contrário. A distância, com o tempo, acentuou as qualidades e suprimiu os defeitos da amada, nas lembranças de Rômulo.

Depois de 23 anos, Ivone era a mulher ideal, intocável, uma perfeição, na visão deturpada construída pela mente do aficionado. Ele até tentou contatá-la em algumas ocasiões, mas a timidez patológica, em contraposição a grande capacidade empreendedora, não o deixava avançar ao contato com a mulher que tanto amava.

Talvez também temesse que algum detalhe injusto da realidade quebrasse aquele encantamento de uma vida inteira. Preferia a segurança da idealização, da lembrança sólida que não pode sofrer a triste ação do presente, esse estraga prazeres. Quando soube que ela passou a viver com Fábio, desistiu de vez da proximidade física, e mergulhou fundo num culto nostálgico, pegajoso e choroso, que sempre preocupou os amigos. Alguns garantiam que na casa dele havia um altar com fotos de Ivone, fato nunca confirmado.

Quando veio a doença, culparam aquele sentimento lúgubre, doentio, pelo aparecimento de tão grave moléstia. Rômulo nunca quis namorar e morreu virgem, consumido por um amor que  criou na cabeça, mas que nunca encontrou eco na realidade. Muitas mulheres o desejavam, era rico e não era feio. Mas não adiantava. Era Santa Ivone e mais ninguém.

Depois de contar tudo em detalhes, Dona Eponina arrematou esclarecendo que Rômulo deixara em testamento, 50%  de todo o patrimônio para Ivone. Rômulo julgara que Ivone era merecedora de tão lucrativa distinção pelo simples fato de ter existido, servindo  de farol a sua curta existência.

Fez-se o silêncio.

Fábio tremia da cabeça aos pés. Ivone ficou em choque. Não conseguia falar. A senhora retirou um papel da bolsa e leu: sua parte, descontados os impostos, é de seis milhões de reais. Fábio sentia a cabeça girando, enquanto aquelas palavras entravam como que em câmera lenta em seus ouvidos. Ivone desmaiou.  Seis milhões. Era um bom dinheiro!

Ivone aos poucos foi acordando. Procurou o companheiro, mas não o enxergou. Dona Eponina também não estava mais no local. Se viu deitada, e com os pulsos amarrados numa cama de uma sala que parecia a de um hospital. Onde estava todos? As palavras de Dona Eponina ainda ecoavam nos seus ouvidos. Seis milhões! Lembrou bem do choque que teve ao saber que tal valor lhe pertencia. Mas não via ninguém e estava sozinha naquele lugar gélido.

Enquanto tentava entender o que se passava, uma senhora entrou no local fardada de faxineira, com vassouras e materiais de limpeza. Tinha um rosto familiar. Em silêncio a tal senhora passou a recolher cacos de um copo de vidro quebrado que estavam próximos a cama na qual Ivone pousava.

Com a proximidade dela, Ivone conseguiu ler na bata da mulher apenas as palavras: “Eponina” e “Clinica psiquiátrica”.

Enquanto Ivone gritava dizendo que não era louca, que queria seus seis milhões e que não havia sonhado ou imaginado tudo aquilo, a assistente de serviços gerais Eponina chamava, também aos gritos, o médico Fábio, o enfermeiro Rômulo e o maqueiro Evandro para atenderem mais um surto daquela senhora esquizofrênica de oitenta e dois anos.

A única verdade é que o copo caiu e os pedaços estavam espalhados pelo quarto.

Inácio Rodrigues é colaborador do Blog Carlos Santos

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Meu Caro Inácio Rodrigues, parabéns pela oportuna, densa e criativa crônica MEMÓRIA EM CACOS….!!!

    Não tenha dúvida, o viés entre ficção e realidade imposto à narrativa, nada mais nada menos representa espectros da realidade factual e fio condutor de muitas histórias do Brasil Burro Nariano pós golpe, em especial vinculadas à nossa chamada reacionária e colonizada classe mérdia….!!!

    Sendo ou não seu primeiro texto publicado no Blog Carlos Santos, surpreendeu-me pela clareza, concatenação e simplicidade do texto…!!!

    Um baraço
    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  2. Ivenio Hermes diz:

    A qualidade de um conto está na habilidade do autor de adensar personagens e a história dentro de um espaço limitado de texto. Nesse conceito, Inácio Rodrigues dá um show, com talento descritivo/narrativo bem equilibrados, fazendo o leitor entender, dentro do devaneio da personagem principal, o caráter por trás da doença menta.

    A contextualização com os dias atuais é a pitada de realismo que se precisa para perceber que a história contada poderia ser real.

    Sem dúvida, sensacional.

    Ivenio Hermes
    Cientista Criminal

  3. Q1naide maria rosado de souza diz:

    Muito bem, Inácio Rodrigues. Vivi segundos de suspense, aguardando Eponina. Crônica criativa. Parabéns.

  4. Délio Rocha diz:

    Já tive o privilégio de ler outros textos do Inácio Rodrigues. Ele sempre nos surpreende. Neste caso, sua inteligência e criatividade unem-se na construção de uma narrativa que prende o leitor, ansioso pelo arremate. Ao mesmo tempo que lia, imaginava alguns desfechos. Pensei, por exemplo, que a proposta de herança estivesse condicionada a uma inseminação artificial, unindo os óvulos da Ivone com os espermatozóides congelados do Rômulo. Uma ideia meio novelesca. O final imaginado pelo Inácio, certamente, é mais surpreendente. Que o autor nos brinde com outros textos. E parabéns!

  5. Júlio Costa diz:

    Parabenizo o amigo e abalizado Delegado de Polícia, Inácio Rodrigues, pelo enredo e personagens criados no conto Memórias em Cacos. Conto de pequena extensão, o amigo desenvolve um enredo digno de autores com grande versatilidade e acima de tudo atualidade. Os amantes do gênero com certeza desejam que o autor, Inácio Rodrigues, continue rascunhando e publicizando inúmeras novas obras de ficção, com enredo claro e linguagem concisa.
    Parabéns,
    Júlio César Barbosa da Costa

  6. Inácio Augusto de Almeida diz:

    O final surpreendente é o fecho de ouro deste conto.
    Na narrativa descreve o que acontece na falida classe média que faz todo tipo de malabarismos para manter as aparências..
    Impressiona a clareza com que descreve o que acontece com a maioria dos que viveram um namorico na adolescência e ficam imaginando que o sentimento permaneceu pela vida afora esquecendo-se que as pessoas não são estáticas.
    Estou ansioso pela chegada do domingo…

  7. LEONARDO DE ANDRADE GERMANO diz:

    Parabéns, Dr. Inácio.

    Impressiona como o preâmbulo do conto se concatenou com o surpreendente desfecho.

    A narrativa é brilhante ao explorar as platitudes sociais e morais da classe média jabuticaba, sobretudo no contexto do golpe de 2016.

    De forma singular, ainda conseguiu explorar um amor platônico, de origem pueril, e introduzir no contexto da narrativa os problemas psiquiátricos suportados por Ivone. Eis que surge o presente, esse estraga prazeres.

    Me regozijei com o conto e o desenvolvimento da narrativa em toda sua perspectiva social, política e romântica. Seriam os devaneios de Ivone a patologia que cerceia o pensamento crítico de nossa classe média?

    Parabéns e obrigado por nos presentear com seu talento.

    Forte abraço!

    Leonardo A. Germano
    Delegado PCRN

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