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domingo - 31/10/2010 - 09:03h

Notícias de além-mar, retratos e canções da alma portuguesa



Caro amigo:

Vi seu registro da nossa viagem. Obrigado. Estamos cá pela velha Europa, onde as diferenças entre nós e eles aparecem cada vez mais sutilmente.

Há uma tendência de nivelamento, a longo, longo prazo, eu diria, que se pode perceber a partir da onipresença da “worldmidia” – queira desculpar meu neologismo.

Eles descem, nós subimos. É a vida…

Primeiro é bom registrar que atualmente a Europa é dos brasileiros!  Eles estão em todos os lugares. Do metrô aos cafés, é impossível não ouvirmos, momento-a-momento, a língua-mãe. E, hoje, até mesmo os enfatuados garçons europeus já arriscam uma ou outra palavra em “brasileiro” – algo, antes, impossível de encontrar.

Nossa porta de entrada foi Lisboa. Tínhamos que ir, e fomos, à Torre de  Belém – magnífica! – beijando o Tejo, a guardar Portugal e nos dar uma pálida idéia de suas glórias passadas.

Como contraponto aos tempos de antanho, o motorista de táxi, este sempre um Mercedes da década de noventa, me disse, sombrio, quando nos conduzia ao hotel: “este é um mundo cão”.

A frase não veio solta no tempo e espaço. Estávamos a falar acerca das greves francesas.

Baixo, magro, sotaque carregado, beirando os setenta, maus dentes, típico representante da melancolia portuguesa, explica: “estão acabando conosco”. “Minha aposentadoria anual de paraquedista – eu lutei em duas guerras, na linha de frente – eram cento e trinta euros anuais. Cortaram trinta.”

- Quais guerras o senhor lutou?, pergunto.

“Sim, claro, na linha de frente”, insiste, “sessenta e um, Angola; 63, Guiné-Bissau.”

“Ferimentos?”, pergunto, receoso de alguma resposta brusca.

“Somente na alma; e os carrego junto com algumas medalhas com as quais meus netos brincam. Não servem para nada”

- O que lhe doeu, na guerra? Ele olha de relance para mim, e parece não se dar conta de que os outros são testemunhas atentas da conversa. “Ver, em Angola, um compatriota de chicote na mão a vigiar negros trabalhadores”.

- Por que isso?, perguntei-lhe.

“Se não eles não trabalham”, me respondeu. "Compreendi, ali, que aquela não era uma guerra pela qual lutasse um homem.”

Agora é noite e já estamos no Bairro Alto, onde tudo é Fado, as ruas são estreitas, e há um clima de boemia no ar frio.

Peixe – este é seu nome, o “maïtre d’honeur”, desliza pelas mesas apertadas com a elegância de uma antiga modelo a matar saudades da passarela. É o próprio espírito da Casa que nos acolhe.

Serve-nos um vinho jovem do qual não nos arrependemos. Explica-nos as apresentações dos cantores de Fado. E nos confidencia: “são todos grandes divas”.

É verdade, percebo logo a seguir. Todos têm dois nomes. Nada daquela intimidade fácil do Brasil; nada de Chico, Caetano ou Roberto.

Ali, desde a ainda jovem, para os padrões do Fado, a bela Ana Marta, até a crepuscular Lenita Gentil – a “grande dama” e principal atração da noite, variam os estilos: do contido, elegante, de Antônio Rocha, ao exuberante, popular, de Anita Guerreiro, mas, todos, expressões máximas de uma arte que eles manejam com rara habilidade e distanciamento, e que tento explicar aos meus companheiros, lhes dizendo que tudo isso expressa uma verdade implícita, a de que se nós não gostarmos do fado, a culpa é nossa; portanto, entendamos: ali se canta a alma de um povo, não canções quaisquer.

Nada representa tanto esse “espírito das coisas” quanto aquela a quem eu alcunhei de “a velha dama”: imperial, majestosa, de perfil forte, no qual despontava um queixo autoritário, toda de negro, ela cantava para si e para suas lembranças enquanto cantava para nós, a dominar o pequeno espaço no qual revoluteava entre ondas de um forte perfume de toalete e esgrimia seu xale com rara maestria.

O acompanhamento, feito pela viola de sete cordas tocada como se fosse violão, e a guitarra portuguesa, era soberbo. No final, uma homenagem aos brasileiros: “Ai, Mouraria”, um pedido meu, seguido de um fado de Vinicius de Moraes, e a presença da “grande dama” na nossa mesa, a aceitar, condescendente, nossas homenagens, enquanto sobre nós espargia um olhar esverdeado e uma voz rouca enfeitiçante.

Honório de Medeiros é escritor, professor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

Categoria(s): Nair Mesquita

Comentários

  1. Francisco Rodrigues da Costa diz:

    Ir a Lisboa e não visitar o bairro da Mouraria, para, ali, escutar o fado “Ai Mouraria”, é como ir a Areia Branca e não visitar o Beco da Galinha Morta.

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