sexta-feira - 16/10/2020 - 08:30h
Crônica digital

O doce poder de não ser influente


O advento da internet com seu alcance estelar, propiciando nesse ambiente cibernético o surgimento de diversas atividades humanas ou a reprodução do muito que ocorre lá fora, no mundo real, também agasalha a transformação ou nova compreensão sobre a figura do “formador de opinião”. As ciências sociais há muito definiram o perfil desse indivíduo, porém precisam reordenar conceitos.

Os tempos e o mundo são outros.

Com a internet, ele, o formador de opinião, ganhou roupagem americanizada e pomposa sob o título de digital influencer (influenciador digital, numa tradução literal). Simplificando: seria aquela pessoa que tem o poder de influenciar boa quantidade de indivíduos, ‘mudando o curso do rio’, tangendo para essa ou aquela direção uma manada de admiradores ou incautos, conforme o interesse do contratante ou até mesmo por força de suas próprias convicções e preferências.Esse personagem faz parte do que passou a se definir como “marketing de influência”. Ele poderia, presume-se, potencializar compras, determinar escolhas políticas ou convencer muitos seguidores sobre o que é certo ou errado.

Isso não significa dizer que o formador de opinião, clássico, tenha desaparecido ou deva ser menosprezado. Ele continua existindo em todas as comunas, de uma cidadezinha com características de aldeia, a segmentos como jornalismo, medicina e outros nas megalópoles.

O influenciador é um intermediário, quase sempre, entre o produto/marca/ e o público. Porém, é falsa a ideia de que pela quantidade se tem o resultado. Através de redes sociais como Instagram, Blogs, Twitter, Facebook ou Youtube, muitos somam milhares ou milhões de seguidores, o que necessariamente não significa que vendam ou formem opinião.

No jornalismo, por exemplo, há a falsa impressão de um poder e alcance como já constatamos em décadas passadas. Há um paradoxo em muitas análises sobre a força do comunicador social. Se ele (nós, incluindo eu) podemos tanto, por que na maioria das vezes não mudamos nada? Qualquer dúvida, basta verificar o resultado de muitas e muitas eleições, de nosso ambiente paroquial à dimensão territorial do Brasil.

Sou de um tempo, por exemplo, que se marcava compromisso para antes ou depois do Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão. Trabalhei em empresas de comunicação que pontificavam em informação e formação de opinião.

Um pouco mais de um ano antes das eleições nacionais de 2018, pesquisa identificou que a internet teria maior peso eleitoral e, na escolha de nomes, do que a televisão (veja AQUI). Pela primeira vez, cientificamente surgiu essa constatação no Brasil. De lá para cá, o vigor desse meio só tem aumentado, mas é arrogante se imaginar que eu, Carlos Santos, sou “o cara”. Eu apontarei para que lado a correnteza irá nessa ou naquela eleição. Ledo engano. Presunção besta, é o que é.

Nesse momento, algum garoto na periferia de Natal ou Mossoró, descalço, com camiseta falsificada do Los Angeles Lakers, uma bermuda Hang Loose (igualmente pirata) e boné com aba para trás, talvez tenha mais poder de tanger um rebanho de eleitores para determinado candidato a vereador ou a prefeito, do que uma série de reportagens e artigos do Blog Carlos Santos.

Lamento, lamento muito, não ter um milhão de seguidores. Se bem que, quem tem seguidor é líder de seita. Gostaria demais de influir muito, apontar caminhos e estabelecer mudanças de comportamento e de escolhas, sob a égide da minha vivência, crenças e aspirações. Infelizmente, não tenho essa força.

Mesmo assim, não me sinto frustrado. Creio que ao desembarcar nesse admirável mundo novo há cerca 16 a 17 anos, em páginas experimentais, até consolidar esse endereço, aprendi muito, pude contribuir à formação de uma bolha crítica e melhorei como profissional e indivíduo.

Se eu realmente pudesse mudar o curso do rio, mexer com aquilo que questiono e considero atrasado para a sociedade em que vivo, já o teria conseguido. Sou incapaz. Sou apenas um blogueiro nacionalmente ignorado e ‘escritor’ mundialmente desconhecido. Em boa parte do lugar em que vivo, ninguém me conhece e não nota minha presença ou ausência física. Tem lá suas vantagens essa invisibilidade, sublinho.

Contudo, sabe de uma coisa? Todos os dias acordo cedo e durmo tarde para fazer a mesma coisa, acreditando que um dia terei um milhão de gente me acompanhando, e certo de que vamos mudar o mundo – juntos – para melhor. Eu tenho o poder de não influir, sei bem. Espero cativar pelo que penso, faço e sou.

Deixo claro, ainda, que não sou imparcial. Sou parcial (assim mesmo, com letras em negrito). Tenho lado, faço opções e luto por aquilo em que acredito. A imparcialidade humana é uma farsa. Não existe. Não me permito é ser leviano. Nosso Blog (epíteto dado pela webleitora Naide Rosado) é pluralista e democrático. Transformou-se num fórum de debates pela vontade da grande maioria, tratando dos mais diversos temas.

Aqui, nesse espaço virtual, paira o sonho de ser influente, volto a confessar. Por enquanto, desfruto do doce poder de ser levado a sério por alguns e lido mesmo por aqueles que me acham um saco. Se você conseguiu chegar até o fim desse textão, muito obrigado. És um dos nossos.

LEIA AQUI também o artigo “Sou parcial e não nego, além de adorar Mossoró (de graça)”, escrito e postado no dia 24 de junho de 2009, há mais de 11 anos.

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Categoria(s): Comunicação / Crônica

Comentários

  1. François Silvestre diz:

    Opa! cheguei ao fim…do texto.

  2. Ailson Fernandes Teodoro diz:

    Exato. Não sou IMPARCIAL, nem APARTIDÁRIO coisa nenhuma. Sempre deixei claro minhas preferências. Sempre tive lado. Não escondo de ninguém minha paixão e frustrações com o Vasco da Gama. Na política é a mesma coisa.

    Hannah Arendt e outros sofistas, “filósofos” das redes, e escritores me ensinaram a pensar. Certo ou errado. Mas faço questão de mostrar o que penso. E escrever sobre o leio, sinto, “imagino que será”, mas não deixo de fazê-lo.

    É melhor ter lado, que posar de isentão, apartidário e viver em palanques, bolhas, rodas e grupos políticos a cada 2 anos e não ter o respeito sequer da própria família. Caso de muitas pessoas que vivem na mesma aldeia que nós, o País de Mossoró.

    Consegui chegar ao fim do texto sem dificuldade alguma.

  3. João Claudio - ISO 101.000 diz:

    É prazeroso ler o que você escreve. Quanto aos textos, quanto mais longos, melhor.

    Continue.

  4. Odemirton Filho diz:

    Jornalismo com opinião é o que você faz, meu caro. Concordem ou não. A pluralidade é o que faz o “nosso Blog” ser
    o que é.
    “Tamo junto”. Li todo o texto. De cabo a rabo.

  5. Rocha Neto diz:

    Oi Carlão, tú sabe que cada artigo com sua assinatura é uma ordem para quem gosta de aprender, pois os mesmos são aulas para quem tem o propósito do aprendizado. Ler você cotidianmente, é ressuscitar as inteligências de David Nasser, Rafael Negreiros, Woden Madruga, Dorian Jorge, Jaime Hipolito (Prato do Dia Rádio Tapuyo) Agnelo Alves, Mons. Américo Simonete (Comentário da Rural) e tantos outros que estão em plano superior, pois você que nos dá a alegria de sua presença nos faz ler um Vicente Serejo, Cassiano Arruda e os demais que nos faz (ainda) admiradores de boas leituras e assuntos pertinentes ao lado bom da vida. Sou grato a Deus por você existir.

  6. Q1naide maria rosado de souza diz:

    Quem disse da não influência do nobre jornalista? Quantos anseios o “Nosso Blog” já satisfez? De remédios a calçamento de ruas…apelos. Pode não querer influenciar, mas o faz. Escreve bem, está sempre a par dos últimos acontecimentos e e tem bom caráter, o principal. Principal porque transmite confiança. É cauteloso no que apresenta, após minuciosa investigação. Daí a certeza de suas palavras Jornalista Carlos Santos, de jota maiúsculo.

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