domingo - 20/03/2011 - 01:43h

O ofício de ensinar

De todas as atividades profissionais que exerci, nenhuma me deu tanto prazer quanto a de ensinar. Não por outro motivo continuo ensinando, e até diria que o afeto pelo ensino me levou, incontáveis vezes, a construir inconscientemente obstáculos que me impediram de aceitar outros compromissos mais rentáveis ou mesmo de maior projeção curricular.

Assim, nada me deu tanto orgulho quanto a obtenção, com louvor, do título de mestre através da defesa de dissertação acerca do tema “Poder Político e Direito” ante uma banca de examinadores formada por dois doutores e um livre-docente, este último, inclusive, visceral adversário da minha linha de pensamento no âmbito do Direito, claramente externada anteriormente em memorável prova oral de admissão ao curso de mestrado que durou quase quarenta e cinco minutos!

Contou-me o Dr. Paulo Lopo Saraiva, depois, em jantar comemorativo, que ele insistira em compor a “minha” banca. Uma honra, com certeza.

A vida acadêmica seria, portanto, uma opção natural para mim quando terminei o curso de Direito em Natal. Seria se já naquele tempo do qual os professores universitários de hoje têm saudade, a profissão não fosse tão mal remunerada. E eu não precisava fazer muitas indagações para constatar essa realidade.

A professora Elza Sena, minha tia, com quem eu morara durante meu curso universitário, ainda era viva, estava no penúltimo degrau de sua carreira, e ganhava muito mal. Tomei, portanto, outros caminhos, mas não escondia meu desejo de ensinar.

Até que, em 1999, entrei, através de processo simplificado, na Universidade Potiguar (UnP), onde, desde então, ensino Filosofia do Direito, com raras incursões em outras disciplinas, quase sempre da área propedêutica, por opção própria.

Tenho ensinado, desde então, às vezes com sacrifício pessoal, mas sempre com renovado prazer. E tenho encontrado, sempre, compensações para o parco salário: as controvérsias em sala-de-aula, que enriquecem o conhecimento; a descoberta de talentos fulgurantes entre os alunos; a convivência com a diversidade de opinião entre colegas, no ambiente acadêmico; os laços de afeto que se formam entre professor e alunos; a criação do hábito de estudo para a preparação das aulas.

Mas tenho sentido, na pele, dia após dia, o pouco compromisso da grande maioria dos nossos políticos com a educação, através da falta de investimento em recursos humanos, seja quanto ao básico, à parca remuneração dos professores, seja quanto ao complexo, o distanciamento da opção pela pesquisa científica.

Pedindo desculpas pelo texto auto-referente, concluo observando que é inacreditável termos, no Brasil de hoje, ilhas de excelência na área de educação, resultado da abnegação, do sacrifício, da determinação de alguns. São estes, verdadeiros sacerdotes do saber, heróis anônimos, para recuperar uma definição surrada, batida, estropiada, mas absolutamente verdadeira.

A eles, a nossa eterna e sincera homenagem.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e Governo do Estado do RN

Categoria(s): Fred Mercury

Comentários

  1. François Silvestre diz:

    Honorífico, meu irmão. Tudo que diz de si é pouco. É o pudor da modéstia. Meu abraço e congratulações. Apareça! Você sumiu!

  2. WILLIAM PEREIRA DA SILVA diz:

    Excelente texto… Emociona….realidade….

  3. Karly Robson de Sousa Pereira diz:

    Sensacional.Até parece que foi escrito para mim-desculpe-me a ousadia-que tenho essa mesma visão em relação a arte de mediar em sala de aula e ao mesmo tempo,vítima da falta de valorização.Parabéns,texto magnifíco.

  4. Paulo maia diz:

    Va em frente amigo. Transmita um pouco dessa INTELIGENCIA PRIVILEGIADA para os outros. Grande abraco.

  5. MARCOS PINTO - Da AAPOL, ICOP, IHGRN e do IANTT. diz:

    O ínclito e emocionante artigo do amigo Honório induziu-me a uma viagem ao meu saudoso e profícuo passado, arrancando da retina da história minha investidura como Professor dos colégios DOM BOSCO,DIOCESANO e GINÁSIO SAGRADO CORAÇÃO DE MARIA – o famoso colégio das Freiras. Como a vida é constituída por capítulos norteados por fatos dignos de nota, sinto que esse artigo do Honório delineou e emoldurou um roteiro sentimental de minhas incursões em salas de aula, com a certeza de envelhecer com dignidade espiritual e sabedoria filosófica, adquiridas com as imagens e fatos do cotidiano das salas de aulas. Abraço caro amigo!.

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