domingo - 01/07/2018 - 09:04h

Os juízes da Copa


Por François Silvestre

O pensamento filosófico, que nasceu agregado ao conhecimento científico, foi a primeira rebeldia da descoberta. Do intelecto impondo a luz para romper as trevas.

A cada descoberta de uma verdade nova, uma dúvida era vencida; e um deus abatido em pleno voo caía aos pés do caçador. Assim mesmo, dessa luta temporal entre a sombra e a luz. Uma luta de complementação, não de confronto, como o fazem os pintores.

De início, consciente da ignorância, o homem começou a identificar os sinais da ciência. Num embate em que a dúvida nascia da angústia e desaguava na descoberta.

A ciência é da essência natural, independentemente da ação humana, à exceção da História. Porém, foi pela filosofia que o homem enfronhou-se no tecido cognitivo do misterioso mundo científico. Desfraldando a bandeira do conhecimento pelo aceiro da sua franja. A dúvida nascida no estuário filosófico provocou a curiosidade necessária para ingressar no terreno da Ciência.

Da lição inesquecível de Teilhard de Chardin: “Deslocar um objeto no tempo, para trás, equivale a reduzi-lo aos seus elementos mais simples. Seguidas tão longe quanto possível na direção da sua origem, veremos que as últimas fibras do composto humano confundem-se com o próprio estofo do Universo”.

Chardin, padre e filósofo, perseguido pela intransigência canônica do catolicismo de sacristia, veio da origem filosófica de Aristóteles, e fez conexão de voo com Thomaz de Aquino. Todos construtores em cadeia, numa corrente de elos presos pela sabedoria que tocava o invisível. A invisibilidade infinita de cognição quase inalcançável, na presença universal do Cosmo.

Para Thomaz de Aquino o Universo é criação de Deus. Para Teilhard de Chardin o Universo se cria, sob a regência de Deus. E continua sob permanente autocriação. No contorno de um invólucro infinito; “sistema” pela multiplicidade, “totum” pela unidade e “quantum” pela energia.

Para os filósofos gregos, de onde vem Aristóteles, o conhecimento é a própria criação. Dado que no escopo do conhecer pode-se aferir que até os macacos “sabem” que o conjunto das bananas maduras é menor do que o conjunto das bananas.

O primeiro conceito da palavra Deus, do protossemítico ao sânscrito, não significa aquele que cria, mas aquele que fala. “O princípio era o Verbo”…

Nós evoluímos em tecnologia, no último meio século, mais do que nos últimos quinhentos anos. Contudo, involuímos intelectualmente na mesma proporção.

Vivemos o tempo da involução pensante. Enquanto as máquinas que criamos aprimoram-se, o nosso cérebro criador regride. Tempo de embrutecimento humano, pobreza cultural, imbecilização política, feiura esportiva. E Estados paralelos, ilegais, como ocorre no Brasil, onde quem manda é a bandidagem, nem se submetem aos vídeos corretivos.

A ausência do pensar filosófico, dos tempos de hoje, implantou o reino da mediocridade. O convencimento foi substituído pela imposição. A vocação deixou de ser um impulso do talento para acomodar-se às cobranças do mercado.

Os filósofos medicaram a humanidade contra a estupidez, mas o medicamento perdeu a validade.

A revisão das decisões dos juízes de futebol, pela tecnologia dos vídeos, pode até corrigir equívocos, mas burocratizou a disputa. Falta fazer o mesmo sobre os equívocos dos julgamentos na seara jurídica. E olhe que nem será uma burocracia a mais. Será apenas mais uma burocracia.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Santo Ignácio de Loyola!!!

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