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domingo - 31/12/2017 - 03:52h

Política, xadrez e futebol


Por Honório de Medeiros

Cheguei em Natal, vindo de Mossoró, para estudar, em 1974. Escolhi, depois de alguma hesitação, a antiga Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN), e não o Marista, para onde foram meus amigos de infância. Na Etfrn dei três passos no rumo do que seria onipresente em minha vida, de uma forma ou de outra: escrever e ser lido, mesmo que por (muito) poucos, o jogo de xadrez, e a política.

Na Etfrn eu e Rui Lopes criamos o jornal mural “A Capa”, sucesso entre os alunos, que causou alguns incômodos à administração da imensa figura humana que foi o Professor Arnaldo Arsênio por sua postura, digamos assim, meio inconformista, ao ponto de sermos chamados a seu gabinete para uma “admoestação” carinhosa.

Fui, também, para meu orgulho, Presidente do Centro Cívico Escolar Nilo Peçanha, o que me introduziu na política estudantil.

Naquela época, plena ditadura, implantamos na Etfrn uma experiência inédita: debate direto entre a direção e os alunos realizado sempre no Ginásio de Esportes, o que me levou a ser convidado pelo Padre Sabino Gentilli para dar uma palestra aos colegas do Salesiano.

O primeiro deles foi exatamente com o Professor Arnaldo Arsênio.

Por outro lado representei, após o maior enxadrista norte riograndense de todos os tempos, Máximo Macedo, as cores da Etfrn nos disputadíssimos Jogos Estudantis do Rio Grande do Norte, o JERNS, com Alexandre Macedo, e sua hegemonia de nove anos obtendo a medalha de ouro.

Naquele ano, 1975, conseguimos acrescentar a décima medalha de ouro consecutiva à coleção da Escola.

Ironia do destino: no ano seguinte quebramos, eu e Gilson Ricardo de Medeiros Pereira, outro depois notável enxadrista potiguar, a hegemonia da Etfrn, e a conseguimos para o Winston Churchill, creio que sua primeira medalha de ouro no xadrez.

Gilson Ricardo, eu, Maurício Noronha, Wilson Roberto, Dilermando Jucá, João Maria “Tarrasch” e Jairo Lima constituíamos a turma mais jovem que frequentava o P4BR Clube de Xadrez, de saudosa memória, do qual cheguei a presidente.

Funcionava no último andar do Edifício Barão do Rio Branco, no mesmo andar onde Manxa, excepcional artista plástico do nosso Estado, tinha seu estúdio, e, assim como nós, invadia as madrugadas nos dias-de-semana e sábados até a hora de irmos embora a pé, sem medo de absolutamente nada, por uma Natal adormecida.

Tigran Petrosian (Foto: Web)

Conversávamos muito, na época, acerca de xadrez: seus jogadores do passado, os grandes feitos, a história do esporte/arte, a situação local, quais torneios participaríamos, mas o importante mesmo era discutir a grande questão: a qual estilo nós, individualmente, nos filiávamos: seríamos posicionais ou táticos? Privilegiávamos a defesa ou o ataque?

Quem defendia o estilo posicional tinha, como ídolo, Tigran Petrosian; quem assumia o tático incensava Mikhail Tahl. Ambos eram, se podemos dizer assim, os maiores representantes de cada um dos estilos, segundo o entendimento dos estudiosos do assunto.

Hoje sei que eu, mesmo mediocremente, poderia ser considerado um jogador de estilo posicional, aos moldes de Petrosian, apesar de todas as limitações que um amador ingênuo possa ter. Cheguei a essa conclusão muito mais pelas características da personalidade de Petrosian que, propriamente pelo seu belo e estranho estilo de jogar.

O “insight” veio quando li uma frase por ele proferida em algum momento de sua vida: “Em meu estilo, como em um espelho, está refletido meu caráter”.

Caráter não enquanto moral, mas, sim, como forma-de-ser, muito embora Petrosian fosse muito respeitado por sua dignidade e postura.

De fato seu xadrez era cauteloso, prudente, posicional, defensivo. Mas ele não via o seu estilo defensivo como passivo. Nós dizíamos, no nosso tempo, que ele parecia uma jiboia: envolvia progressivamente seu oponente, e ia triturando-o lentamente, deixando-o sem espaço e, cada vez mais sem opções de jogada, até o arremate final.

Um dos grandes feitos de Petrosian, interromper uma sequência de dezenove partidas ininterruptas de Bobby Fischer em seu auge, originou um precioso comentário do gênio americano em seu My 60 Memorable Games: “Eu estava pasmado no transcorrer do jogo. Cada vez que Petrosian conseguia uma boa posição, ele manobrava para obter uma melhor”.

Petrosian dera um nó no gênio Bobby Fischer! Quando Petrosian derrotou Botvinnik, ganhando o título mundial, este comentou assim o feito: “Petrosian possui um talento único em xadrez. (…) Mas enquanto Tahl tentava alcançar posições dinâmicas, Petrosian criava posições nas quais os eventos se desenvolviam em câmara lenta. É difícil atacar suas peças: as peças atacantes só avançam lentamente, atoladas no pântano que cerca o campo das peças de Petrosian.”

Ou seja, para Petrossian, o primordial era primeiro defender, para depois atacar; enquanto que para Tahl, o ataque era a melhor defesa.

Pois bem, ao longo dos anos, canhestramente, passei a crer que Petrosian tinha razão quando disse que o jogo de xadrez refletia a forma-de-ser de cada jogador. E, ousadamente, ampliei o espectro do alcance de sua teoria: estou convicto que qualquer esporte reflete as características pessoais dos jogadores quando de sua atuação, desde o xadrez até o futebol, passando por pôquer ou pelas artes marciais.

E creio, hoje, que no futebol, por exemplo, estão presentes as duas escolas tradicionais do xadrez, como reflexo da personalidade de seus protagonistas, principalmente os técnicos, quais sejam a posicional e a tática, a postura centrada na defesa, e a postura centrada no ataque.

Com base em Anatol Rapoport, o psicólogo e matemático americano nascido russo, em seu famoso livro de 1960, “Fights, Games, and Debates”, que entende que os princípios que norteiam sua “teoria dos conflitos” se estende, por exemplo, aos debates, vou ainda mais longe: podemos perceber a existência desses dois estilos até mesmo na política.

É o caso, por exemplo, de Tite e Guardiola, no futebol, e de Tancredo Neves e Leonel Brizola, na política. Tudo isso, claro, convicto de que na realidade não há nunca somente preto e branco. Há os infinitos matizes do cinza…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Categoria(s): Crônica

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