segunda-feira - 02/02/2015 - 18:44h
Rompimento

Por se sentir traído, José Dias quer distância de Robinson


Por Dinarte Assunção (Portal Noar)

O deputado estadual José Dias (PSD) ainda não sabe para onde vai depois que sair do PSD. Ao anunciar o rompimento com o governador Robinson Faria, a quem foi leal durante muitos anos, ele revelou emocionado que está arrasado com a atitude do chefe do Executivo.

No fim da sessão que definiu a nova mesa diretora da AL, o rompimento entre os dois se concretizou na seguinte entrevista que Dias concedeu à imprensa:

Deputado falou com firmeza (Alberto Leandro)

O senhor está rompido com o governo de Robinson Faria?

Deputado José Dias: Plena e totalmente.

Já conversou com ele?

Não conversei. Fui à casa dele ontem, sem avisar evidentemente, porque quando se vai comunicar uma má notícia, não sei se pra ele, pra ele até pode ser uma boa notícia, mas não posso fazer esse julgamento. A gente vai até pela confiança. Fui. Cheguei às 12 horas, saí às 2h30. Pedi à senhora dele desculpas e pedi muitas desculpas de ter que deixar com ela o meu recado.

Qual foi o recado?

Que estava fora completamente do governo.

Por qual motivo?

Ele querer me utilizar como instrumento de traição. Eu não traio por interesse próprio. Não vou trair por nenhum rei.

O rompimento também é de amigo?

Não chego nesse aspecto porque aí não tá no campo político. Queria discutir o problema político. Queria dizer como Álvaro Moreira disse: as amargas não. No campo pessoal é amargo, mas prefiro esquecer essas amargas. No campo político fui absolutamente correto com ele. Fui solidário, quando ele estava sozinho. Fui solidário nas maiores dificuldades. Até quando ele não era candidato, porque houve momento em que ele só dizia a mulher dele e a mim que não tinha condição de ser candidato. Fui dormir muitas vezes achando que eu não era candidato, porque se a candidatura dele não vingasse eu não apoiaria outra candidatura adversária.

O senhor disse ontem que muita coisa poderia ser dita, poderia ser revelada? O que é isso?

O que posso revelar é no campo político. No campo pessoal não revelo nada. Vou levar para o túmulo. Se a amizade continua ou não é algo que não depende da gente, mas manter a dignidade a gente tem que manter. A gente não revela nem os amores nem as amizades pessoais e familiares.

O senhor aceita conversar com ele?

Não aceito conversar com ele em hipótese alguma.

Nem para tratar de algo pessoal?

Por ora não.

Mas o senhor votou em Ezequiel, candidato de Robinson.

Votei porque disse a ele que minha posição era de que tinha compromisso político que o governador tinha. E começam as revelações. Para aprovar o que se aprovou aqui na Assembleia, e olhe que o governo Rosalba teve dificuldades na questão do empréstimo… A fusão dos fundos previdenciários: conseguimos aprovar e digo a vocês que foi contrariando minhas convicções ideológicas porque foi contra minha concepção de administração, finanças e gestão responsável. Porque era sacar contra o futuro do Rio Grande do Norte, mas só tínhamos esse caminho. Se não fosse isso, o governo estaria devendo dezembro e janeiro.

No governo anterior houve saque acima do permitido. Qual era minha expectativa? Que nós resolveríamos o problema de dezembro e faríamos esforço para diminuirmos os saques desse fundo, senão vai acabar logo. É um balão de oxigênio: se não for realimentado, se acaba. Para que isso fosse possível foi necessário haver acordo geral nessa casa. Eu briguei nesse período com a própria equipe do governo dele.

Com pessoas ligadas a ele, que não queriam que o empréstimo fosse aprovado porque isso obrigaria o governador a cumprir os compromissos que tinham com Ricardo Motta. Esses compromissos foram acordados comigo inúmeras vezes e três vezes com ele, Ricardo e eu. Uma vez na governadoria e duas vezes na minha residência. Aqui na casa fizemos reunião com os deputados e eles me perguntaram: você avaliza esse compromisso? Disse que sim porque não poderia acreditar que Robinson me utilizasse como instrumento tão baixo de enganar os outros.

Vai fazer oposição ao governo?

Com certeza vou.

Vai deixar o PSD?

Claro. Não quero convivência com o governador. Vou pedir desligamento. Ainda não sei para onde vou. Vou esperar se vai haver a fusão do partido e saio automaticamente, senão vou pra justiça conseguir a minha alforria. Eu me sinto absolutamente livre para isso.

Em que momento o senhor percebeu que seria utilizado como instrumento de traição?

Quando Mineiro me disse no domingo de manhã que não havia conversado com Robinson. E na sexta-feira, no Abade, Robinson me disse que tinha conversado com Mineiro. Eu disse que era fundamental, pois se não fosse cumprido o acordo eu estaria totalmente desautorizado perante meus colegas. Tenho 28 anos nessa casa e não há um episódio que alguém possa dizer que não cumpri com minha palavra.

O senhor se diz decepcionado?

Não diria decepcionado. Se pudesse dizer uma palavra seria um pouco arrasado. Não digo com o ser humano porque somos frágeis. Mas ele me disse várias vezes: ‘se há uma pessoa para quem não posso mentir é você’. E isso é porque eu nunca menti para ele.

O poder mudou Robinson?

Não sei. Não sou psicólogo. Evidente que existe fértil literatura que aponta para esse lado, mas eu não sei.

Antes do episódio do restaurante, já havia auxiliares do governador trabalhando em favor de Ezequiel. Isso não era sintomático de como o governador também iria se comportar?

Todas as pessoas me diziam isso. Mas a todas eu dizia: fico com a palavra de Robinson. Mas não fico contra a minha dignidade. E minha dignidade está acima da palavra dele. Romper dessa forma é a maior surpresa. Mas também é graça de Deus. Rompi com os outros no último ano de governo, e nesse é o no primeiro ano, no primeiro mês.

Sua decisão é irreversível?

Se eu não tiver capacidade de manter a minha dignidade, eu estou, aí sim, liquidado.

Tradicionalmente o senhor é voz forte de oposição. Vai ser no governo Robinson?

Não consegui no governo Rosalba ser a mesma oposição que fui para Wilma. Mas digo o seguinte: os passos que vou dar aqui dependem não de mim, mas do governo.

Como ficam suas bases no interior? Qual sua orientação?

Tenho a maior preocupação com meus amigos e correligionários. Tenho a graça de Deus de dizer que não dependo do governo. Não depende de um favor do governo. Todas estão liberadas para tomar o destino que bem entender e com meu apoio. Quem me perguntar vou dizer que tome o caminho que bem entender. As pessoas que votaram em mim sabiam que eu não mentia, que não me acovardo e que eu não traio. Sabiam que eu sou solidário à palavra empenhada.

Por que o senhor acha que o governador achou assim com o senhor?

Você quer que eu faça um exercício de adivinhação. Não sei o que pensar de um homem que me disse na sexta-feira que Ricardo ia ganhar folgadamente e a coisa era exatamente o contrário. Eu confesso que não sei.

O senhor se arrependeu de votar em Robinson para governador?

Não me arrependo do que faço. Me arrependo muito mais pelo que não faço. Meus gestos são agônicos. São gestos que tomo e não me arrependo.

O senhor é capaz de se integrar à oposição coordenada por Henrique Alves?

Eu não vou especular, até porque são muito variadas, inclusive o grupo de Henrique votou em Ezequiel. Não tenho diálogo com Henrique e não passa por minhas preocupações hoje qualquer relacionamento político com ele. Minha preocupação era demonstrar a meus colegas que eu não estava mentindo. Quando eu disse a meus colegas que Robinson ia ajudar na eleição de Ricardo se Ricardo ajudasse na aprovação dos projetos…

Robinson disse a Ricardo na minha frente: sou um homem grato e respondo com a mesma gratidão aos que fazem por mim. Perante meus colegas tinha a preocupação de demonstrar que falei com convicção. Meu respeito à palavra dele era quase sagrado. Tenho uma responsabilidade perante à opinião pública igual à mulher de César. Um político não deve apenas ser honesto, deve parecer e para parecer eu precisava tomar essa atitude. E tinha um exemplo a dar à minha família. Sou falho, mas procuro não ser vil.

Categoria(s): Conversando com... / Entrevista/Conversando com... / Política

Comentários

  1. luis claudio diz:

    Essa foi a maior traição na história do RN. Ficará marcado como dia ” D” da Assembléia Legislativa.

  2. luis claudio diz:

    MENTIRAS, TRAIÇÃO, ESSA FACE O GOVERNADOR ROBINSON NÃO MOSTROU NA CAMPANHA. E AINDA COMPROVA QUE CONTRIBUIU E USOU O DINHEIRO DA PREVIDÊNCIA DOS SERVIDORES PREJUDICANDO-OS NA APOSENTADORIA.
    O PIOR É Á SENADORA FÁTIMA FICAR CALADA DIANTE DESSE DESCALABRO APESAR DE NÃO SER NOVIDADE. ELA FICOU CALADA COM O SINTE DIANTE DO ATRASO DOS SALA´RIOS DOS SERVIDORES POR CAUSA DE UNS VOTINHOS.

  3. jb diz:

    Posicionamento, digno, do deputado José Dias lembra-me diálogo entre Mendo Pais e seu sogro Tructesindo Ramirez:
    “O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:
    — Bem, bem, a cear, pois! À ceia, Frei Múnio!… E vós, Mendo Pais, deixai receios.
    — Se deixo! Não vos pode vir dano que me anseie de cem lanças, de duzentas, que vos surjam a
    caminho…
    — Só um cuidado me pesa. E é que, nesta jornada, senhor meu sogro, ides ficar de mal com o
    Reino e com o Rei.
    — Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra e comigo!” Eça de Queiroz, em ‘A Ilustre Casa de Ramirez’

  4. Tiago diz:

    O governador deve tá assistindo muito House of cards…

  5. Antonio Augusto de Sousa diz:

    Interessante é que Henrique perdeu à campanha, pelo motivo de ser CITADO, pelo delator Roberto, como um dos recebedores de dinheiro da PETROBRAS. Eu disse CITADO!!! O caso citado, AINDA está sendo APURADO!!!

    O deputado Zé Dias, afirma textualmente que, “…à fusão dos fundos previdenciários…”, “Porque era sacar contra o futuro do Rio Grande do Norte, mas, só tínhamos esse caminho…”

    Eu, inclusive, peço socorro aos colegas WEB leitores que também sejam advogados: E pode??

    O “politiquez” do deputado é complicado… foi feito pra não se fazer entender. Então o governo saca nosso fundo previdenciário pra pagar aos servidores estaduais com o dinheiro do IPE!!!. E pode??? Isso não é motivo para pelo menos uma investigação por parte do MINISTÉRIO PÚBLICO???

    Cadê à imprensa que não noticia ISTO???

    O silêncio dos bajuladores do governador, até é compreensível, mas, e a nossa VIGILANTE IMPRENSA???

    Francy, Sami, o inteligente historiador Marcos Pinto… socorram à minha salutar ignorância, por favor amigos.

    ISSO PODE????

  6. Moisés Araújo diz:

    Prezado Carlos, há uma informação aí na entrevista que deveria estar nos preocupando bem mais do que o rame-rame de Zé Dias com Robinson: “No governo anterior houve saque acima do permitido. Qual era minha expectativa? Que nós resolveríamos o problema de dezembro e faríamos esforço para diminuirmos os saques desse fundo, senão vai acabar logo. É um balão de oxigênio: se não for realimentado, se acaba. Para que isso fosse possível foi necessário haver acordo geral nessa casa. Eu briguei nesse período com a própria equipe do governo dele”.

  7. sueli diz:

    Nos meus parcos conhecimentos este Deputado José Dias, é um louco varrido, um dia esculhamba um e defende outro, no dia seguinte aquele que ele defendeu já esta esculhambando. Ele é uma controvérsia em figura.

  8. edward bezerra diz:

    Parabéns ao governador Robinson,eleger um presidente da assembléia que foi coordenador da campanha de Henrique,não tinha sentido.Ezequiel Ferreira foi seu adversário,mais fez uma campanha sem radicalismo.Vamos pedir a deus que tudo dê certo e que o governador faça um bom governo para o bem de todos norte riograndenses.

Trackbacks

  1. [...] racha político (AQUI) e, tudo indica, também pessoal, entre o deputado estadual José Dias (PSD) e o governador [...]

  2. [...] prática, o desabafo (veja AQUI) do deputado José Dias (PSD), se dizendo traído pelo governador no processo de escolha da mesa [...]

  3. [...] Enfezado, Dias deixou um vácuo profundo com sua verborragia e ressentimentos (veja AQUI). [...]

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