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domingo - 29/05/2011 - 23:48h

Que lindo dia para lhe desejar “bom-dia”



Que estranho tempo vivemos hoje, compartilhando espaços e coabitando a terra, esse verdadeiro serpentário de gente. Que estranho tempo, heim!?

Estranho por quê?

A pergunta é óbvia, haja vista que não me fiz claro.

Falo de um tempo em que calculamos se vale a pena alongarmos o braço pro aperto de mão. Tempo em que o sorriso é contido ou falseado para parecer natural. Tempo em que abraçar pode ter duplo sentido ou o pior das intenções.

Tempo em que apenas proclamar "bom-dia", "boa tarde" ou "boa noite" oscila entre a afetação e a provocação. Tempo em que fazemos o mal, por manifestarmos o bem.

É um tempo em que gentileza, cordialidade, educação e alegria de viver podem insultar. "Bicho besta," ouvi alguém resmungar em certa ocasião, porque fora cumprimentada com beijo à mão, ou seja, fidalguia a uma dama.

À criança, um bom-dia é capaz de ser entendido como forma de assédio sexual: vira insinuação de pedofilia.

Se o faço na direção de uma mulher, é provável que ganhe interpretação de assédio sexual.

Entre homens, gera também a desconfiança: o interlocutor pode pensar que aspiro lhe pedir algo ou subtraí-lo de um bem precioso, como seu tempo.

 

Que estranho tempo, heim?

Tratar bem, sorrir, dizer "bom-dia", "boa tarde" e "boa noite" passaram a ser ensinados em cursos de Administração ou Marketing. Fazem parte dos "recursos humanos", de uma cartilha de sobrevivência da selva de pedras.

São dicas para que sejamos aceitos, contratados ou nos mantenhamos empregados. Sejamos corporativos, integrados, de equipe, como se feitos em série industrial.

 
Precisamos ir à universidade aprender o que nossos avós ensinavam na prática: sorrir abre não apenas portas, mas principalmente corações.

No Japão, sempre tão rígido nos costumes, o cumprimento a outrem impõe a coluna cervical curvada e o aperto de mão. Cá entre nós, em alguns países ocidentais, o beijo no rosto entre pessoas muito próximas, sendo homem-mulher ou não, é aceito.

 
Nos países árabes, homens se beijam na face em sinal de amizade e respeito. Se fizerem o mesmo, numa mulher, é ofensa gravíssima.

O "tchauzinho", com uso da mão ereta, empalmada, é quase universal. Presume-se que se origina dos primórdios das civilizações quando tribos davam esse sinal para oponentes, avisando que não possuíam arma. Sinal de busca por diálogo, de paz.

Do cinema e da cultura norte-americana, importamos um leve levantar da aba do chapéu, para saudarmos outra pessoa. Chapéu é coisa rara hoje em dia, mas o gesto ainda não desapareceu, nem seu significado.

 

Os dedos indicador e médio, em "V", popularizaram-se como marca pacifista nos tempos do "sexo, droga e rock and roll", movimento "hippie" dos anos 60. Funcionam até hoje, de modo quase que planetário.

 

Certas etnias saúdam com a testa colada na outra. Na Nova Zelândia, por exemplo, a milenar tribo Maori ensina esse gesto: o nariz toca o do amigo-amiga. Simultaneamente faz-se aperto de mãos ou elas são postas sobre o ombro alheio. Os olhos fecham-se, revelando força espiritual e respeito ao indivíduo saudado.

Entre surfistas, as últimas décadas popularizaram o gesto de mostrar os dedos polegar e mínimo, curvando os demais, com a mão apresentada à altura do peito e de costas para a pessoa cumprimentada. Sinal de familiaridade, identificação de costumes e valores. Fala-se que nasceu entre surfistas havaianos. Ganhou o mundo.
 
O cinema e a música também ajudaram a popularizar, a partir dos guetos nova-iorquinos, uma sequência de gestuais com braços e mãos, que se tocam em punhos cerrados, entrelaçam-se, enaltecendo irmandade étnica e ideológica.
 
Há saudações milenares que não desaparecem, puxadas pela força religiosa. "Salamu Alaikum" ("que a paz esteja sobre você") é uma expressão islâmica; "paz do Senhor", popularizada entre evangélicos.

Por mais que sejamos diferentes nos gestos, em face de valores culturais, somos um só. Somos da espécie humana, com todos os defeitos e algumas virtudes. Assusta, porém, que na condição de um ser inteligente, que pensa, ainda sejamos tão primitivos ou estejamos regredindo como civilização. Até transpirar "bom-dia" virou um peso à convivência em sociedade.

Incrível! "Sorria, você está sendo filmado", informa uma plaquinha no elevador, na padaria, lanchonete, no banco ou consultório. É uma forma subliminar de avisar que se você bobear, tudo estará gravado. Se ficar carrancudo, o efeito é o mesmo. Não pode é transgredir, se não eles vão lhe pegar.

Então, sorria, vai! Não custa nada. Acene com a mão espalmada, para exercitar gentileza, mesmo que não sejas notado pelo olhar eletrônico. Você está sendo filmado.

Que lindo dia para lhe desejar "bom-dia".

Bom domingo.

O meu começou excelente e assim vai continuar. Amém ("Que assim seja", em hebraico).

Categoria(s): Nair Mesquita

Comentários

  1. Larissa Gabrielle diz:

    Crônica de bom dia feliz.
    Linda, aliás.

  2. Izaurinha diz:

    carlos, sao essas leituras atraves de suas palavras com tom de zelo, prudencia, respeito e cortesia q nem mais se utiliza usual e cotidianamente, q enriquece, alimenta e torna-nos assiduos(as) ao seu blog e às suas verdades. minha admiração renovada.

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