sábado - 14/05/2011 - 23:08h

Quem dá as cartas no jornalismo atual


Vivemos uma época em que jornalistas precisam dar a cara a tapa. O jornalismo e os meios de comunicação se tornaram, nas sociedades contemporâneas, importantes demais na construção da agenda pública, na difusão de práticas de consumo e na formação de opiniões para se recusarem a tomar parte em um debate aberto sobre si próprios.

Numa sociedade democrática, todos nós que atuamos no campo jornalístico devemos encarar com naturalidade questionamentos sobre nossos critérios de produção e edição, a forma como empacotamos e distribuímos os conteúdos noticiosos ou mesmo os vínculos econômicos, políticos e ideológicos que nos movem ou movem as organizações nas quais trabalhamos.
 
Claro. Ninguém é obrigado a aceitar grosseria ou atos de má-fé. Civilidade e respeito são o mínimo que podemos exigir de quem nos cobra explicações, coerência ou o que for.

Respeitado esse pré-requisito, entendo, qualquer discussão deve ser bem-vinda. Aceitar críticas e nos submeter ao democrático escrutínio da sociedade pode ser às vezes algo sofrido, mas sempre propicia nosso aprimoramento, como cidadãos ou profissionais da informação.

Tudo isso para dizer que o tema “mídia” me soa meio que obrigatório num veículo como o Congresso em Foco. Como fazer jornalismo inovador e participativo, que é o que perseguimos, sem discutir de público o que fazemos? E, em matéria de jornalismo, não dá pra perder as maravilhosas chances que o século 21 oferece para refletir sobre velhos procedimentos e testar novas possibilidades.
 
Escrevo este texto sob o impacto de uma experiência recente, dividida em duas etapas.

A primeira, realizando um sonho quase tão antigo quanto este site (no ar, lembre-se, desde fevereiro de 2004). Ela consistiu, sobretudo, em um périplo, em Washington, por algumas empresas e instituições que estão na vanguarda da produção de informações sobre o Congresso e a política nos Estados Unidos.

Mas houve uma esticada até o Vale do Silício, na Califórnia, pra respirar um pouco da atmosfera do principal centro de geração de conhecimento tecnológico do mundo. E, de passagem por Nova Iorque, me vi encarando um mito ao visitar a redação do jornal The New York Times e conhecer os responsáveis pela área de mídia interativa.

Mal retornei ao Brasil, voltei a Washington, agora a convite da Fundação Sunlight.

O nome da entidade, luz do sol, é uma referência a uma célebre afirmação do ex-juiz da Suprema Corte americana Luiz Brandeis, ao defender a transparência de assuntos governamentais: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

A fundação convidou um grupo de duas dezenas de profissionais estrangeiros para participar de dois dias de encontros com o seu qualificadíssimo corpo técnico e do Transparency Camp, evento que reuniu mais de 200 pessoas, todas elas de alguma maneira envolvidas com ações destinadas a trazer à tona fatos, números e problemas que poderosos dos quatro cantos do planeta gostariam de manter escondidos sob o tapete.

Publicarei algumas matérias sobre coisas que vi e ouvi por lá. Destaco aqui algo que carrego como a lição mais viva das três semanas que passei ao Norte deste vasto continente americano.

Talvez ela lhe pareça pequena, óbvia. E acho que é mesmo. Em mim, admito, ela confirmou uma sensação que vinha de longe. Mas, num momento em que tudo é dúvida no mundo das comunicações, eu a guardo como finíssima joia. Porque é preciso entender o cenário.
 
Financiamento é um problema para quase todo mundo. Gigantes da comunicação amargam o explosivo desequilíbrio entre custos altos e receitas publicitárias em queda.

Organizações sem fins lucrativos com atuação no terreno jornalístico – fato raro no Brasil, mas comum nos EUA – têm sido alertadas por doadores tradicionais para a necessidade de buscarem a autossustentabilidade. E, pelo mundo afora, muitos veículos novos da internet ainda têm dificuldades para transformar audiência e prestígio em operações lucrativas.

Há ainda incertezas imensas em relação a um sem-número de questões relativas às novas ferramentas tecnológicas e o seu impacto no fazer jornalístico.

Smart phones, tablets, redes sociais, iPads, recursos multimídia… a indústria de comunicação foi e continua sendo bombardeada por inovações. É coisa demais para conhecer, aprender a usar, e num ambiente em que a tecnologia tirou do jornalista o monopólio de produzir e distribuir informação. Como provam blogueiros, tuiteiros, membros de comunidades virtuais etc.

Sei, mais que nunca, quem é o cara que dá as cartas nesse universo, e esta é a lição a que antes me referi. É você aí do outro lado. Mulher ou homem, seja em que cidade estiver ou que ocupação – ou idade – tiver, você tem a capacidade de determinar os rumos que as coisas tomarão.

Graças à web e às novas tecnologias de comunicação, leitores, telespectadores, ouvintes, usuários experimentam um poder inédito. Não apenas porque há mais opções disponíveis: novos veículos ou novos serviços e plataformas criados pelos veículos tradicionais. Mas, especialmente, porque reúnem maiores condições para influenciarem, e não apenas serem influenciados, pelo jornalismo que consomem.

Sylvio Costa é jornalista (ex-Folha de São Paulo, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Correio Braziliense), mestre em Comunicação pela Universidade de Wesminster (Londres-Inglaterra), criador e diretor do site Congresso em Foco (AQUI)

Categoria(s): Fred Mercury

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