domingo - 06/10/2019 - 09:40h

Reminiscências


Por Inácio Augusto de Almeida

Tinha o Papai Noel, isto até ter a certeza de que tudo não passava de uma tapeação cheia de boas intenções dos seus pais. Mas nem por isso esta descoberta deixou de se constituir na sua primeira decepção.

Depois foi a visita que fez a uma tia.

Deitada dentro daquele caixão, cercada de flores, ela lhe pareceu muito gorda e amarela. Seu pai tentou lhe explicar que ela tinha morrido e que todos morrem um dia. Ficou muito chocado e achou aquilo um absurdo.

Depois veio a época dos super-heróis.Tinha o Capitão Marvel, o Superman, o Capitão América. Deste não gostava. Aquela enorme estrela no peito e aquela sua roupa listrada não ficavam bem para um super-herói.

Lembrava mais um palhaço que vira num circo sem lona. Uma coisa não entendia em todos aqueles super-heróis. Sendo dotados de tantos poderes, como aceitavam submeterem-se às ordens daqueles homens engravatados, gordos e carecas.

Não, ainda não entendia todo o poder do dinheiro. Não podia compreender que entre parar trem em alta velocidade com o peito, voar mais rápido do que uma bala e ter dinheiro havia uma diferença enorme. Tudo aquilo frente às cédulas virava fichinha, como até hoje vira…

Depois veio a época que seu pai só falava numa tal de guerra. E era uma guerra muito grande, enorme mesmo. Até nas revistas em quadrinhos, da Xuxa e do Triguinho, apareciam aquelas estórias que o seu pai contava em casa.

O americano era o mocinho, o alemão o bandido. Quando seu pai lhe trouxe muitos ioiôs que o Brasil recebera dos americanos, ficou mais certo ainda de que aqueles alemães eram mesmo uns bandidos.

Só muitos anos depois soube que aqueles brinquedos foram recebidos como indenização pelas perdas de guerra. E começou a duvidar quem era o mocinho e quem era o bandido. Mas isto já é coisa de quando grande e nós ainda estamos na fase em que o nosso herói era um rapazinho imberbe.

Veio a época de servir a Pátria.

Seu pai lhe disse que agora ia aprender a ser homem. Estranhou aquela expressão do “velho”. Não entendia como alguém pudesse aprender a ser homem em algum lugar. Quando voltou à vida de antes não se sentiu nem mais nem menos homem. Continuava o mesmo.

Chegou o tempo da faculdade e se dedicou inteiramente aos estudos. Depois de formado foi vencendo, com muito sacrifício, as barreiras. Vendo colegas seus filhos de gente importante disparando na vida, lamentou não ser filho de um Ministro ou de um Senador. Se fosse, pensou, não existiriam tantas barreiras.

Já homem feito viu a instalação do governo militar e percebeu como a corrupção acontecia, mesmo que de forma acanhada.

Sentiu todo o peso da censura e por não concordar com determinados comportamentos, sofreu perseguições e teve prejuízo na sua vida profissional.

Depois, com a chamada redemocratização, viu a corrupção agigantar-se de maneira tal que sentiu saudades do que era chamada ditadura.

Conheceu muitos “amigos” e poucos amigos. Pouco-a-pouco foi se convencendo que aquela fábula da raposa e das uvas era o que de mais perfeito existe em matéria de lição de vida. Viu o quanto os homens são sensíveis aos seus interesses imediatos e abandonam facilmente os seus ideais em troca de lentilhas.

Mais uma vez se lembrou da força do dinheiro. E concordou que a burguesia tem os seus encantos.

Avô, como todo avô que se preza, sentado na sua cadeira de balanço observa o netinho lendo uma revistinha de estórias de quadrinhos. E disse só para si o quanto seria bom se os heróis realmente existissem e surgissem para combater os bandidos.

Quando fechava os, olhos pensando em sonhar com o Capitão Marvel, ouviu do seu netinho:

- Adianta não, vô. Não tá vendo que eles recebem ordens dos que têm dinheiro?

Riu, riu e procurou dormir…

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Q1Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Parabéns, sr. Inácio. Nos surpreende com capacidade poética e literária. Linda Crônica!

  2. Amorim diz:

    Com todo respeito!
    Macho “véi” , vocé matou a pau!
    Parabéns mesmo, lendo artigos como este a esperança volta.
    Brigado mesmo.

  3. João Claudio diz:

    Inácio, houve uma época em que muitos brasileiros desprezaram os super heróis americanos e passaram a acreditar piamente nos ‘milagres’ de um um suposto novo Messias enviado à Terra por por um suposto Deus para supostamente salvar a humanidade.

    Ao contrario do primeiro enviado, o segundo deu chabu. Transformou-se no Coringa brasileiro e passou a cometer todo tipo de pecado mortal.

    Porém, não podemos omitir o seu primeiro e único ‘milagre’. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

    Meu amigo e minha amiga, a multiplicação de notas de 100 e a distribuição das mesmas entre o próprio enviado, amigos e familiares foi mais que um milagre. Foi um milagre com M MAIÚSCULO (Sorry! Jesus). Aleluia! Aleluia! Aleluia!

    Oremos, irmãos.

  4. Pedro Rodrigues diz:

    Corrupção acanhada na ditadura é piada?

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