domingo - 23/09/2018 - 04:14h

Saga empresarial do Grupo João Santos entra em colapso


Por Josivan Barbosa

A Fábrica de Cimento Nassau de Mossoró, inaugurada há quase 45 anos, vive dias difíceis sobre suas perspectivas de continuar produzindo com competitividade. Com nove de suas 11 fábricas de cimento paralisadas, o Grupo João Santos, dono da marca Nassau, enfrenta hoje não apenas a crise do setor, mas uma acirrada disputa entre os seus sócios-herdeiros.

João Santos: espólio desfigurado (Foto: Web)

Nas últimas semanas, um dossiê de 91 páginas foi enviado para Polícia Federal (PF), Ministério Público Federal (MPF) e Ministério Público do Trabalho (MPT) em Pernambuco, onde o Grupo João Santos é sediado.

João Santos

Falecido em 2009, com quase 102 anos, o patriarca João Santos teve seis filhos, dos quais quatro estão vivos. Pouco antes de morrer, o empresário, que deixou ainda 15 netos, fez um arranjo em que a condução dos negócios da família ficou exclusivamente nas mãos de Fernando e José, hoje com 71 e 80 anos, respectivamente. Juntos, os dois têm cerca de 32%. Na prática, enquanto estiverem do mesmo lado da briga familiar, os irmãos não podem ser retirados do poder. O demais acionistas – as irmãs Ana Maria, 76 anos, e Maria Clara Santos, 73 anos, e os netos do patriarca – são detentores dos demais 68% do capital da empresa. Embora tenham a maior parte do capital, têm os poderes limitados pelo estatuto.

João Santos II

Nascido em Serra Talhada, interior de Pernambuco, João Santos fundou a Nassau em 1951. Concentrou suas atividades nas regiões Nordeste e Norte. O nome foi uma homenagem ao holandês Maurício de Nassau, que representou a invasão holandesa no Brasil na terceira década do século XVII e viveu em Recife.

Órfão aos dois anos, João Santos começou a trabalhar cedo, aos oito, em uma fábrica em Paulo Afonso (BA), do industrial Delmiro Augusto da Cruz Gouveia. Em 1930, aos 23 anos, formou-se economista pela Faculdade de Comércio de Pernambuco. Antes de criar a Nassau, deu o primeiro passo como empresário, com um sócio, ao investir em usinas de açúcar. No início dos anos 70, entrou no ramos de celulose e papel. Ergueu um império investindo também em outros negócios.

Grupo João Santos

O Grupo João Santos chegou a faturar R$ 3 bilhões em 2010, mas hoje esse valor não chega a R$ 1 bilhão com apenas duas de suas fábricas em funcionamento – uma em Mossoró e outra em Capanema, no Pará – e outros negócios menores na área de comunicação (Rede Tribuna), papel e celulose, açúcar, transportes e mineração. A dívida fiscal do grupo superaria hoje R$ 8 bilhões, dos quais quase R$ 5 bilhões já estariam inscritos na dívida ativa da União.

O grupo João Santos tem hoje cerca de 7 mil funcionários, metade do que tinha em 2013. A capacidade instalada de produção de cimento do grupo é de 8,4 milhões de toneladas ao ano. As suas 11 fábricas, embora com localização estratégica, não foram modernizadas ao longo das últimas décadas.

Ociosidade do setor de cimento

O Brasil tem uma capacidade instalada de produção de 100 milhões de toneladas de cimento ao ano, mas encerrou 2017 com pouco mais da metade utilizada.  Atualmente, há uma ociosidade de 47% do parque fabril. A previsão do Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (SNIC) é de que este seja o quarto ano de retração da indústria, com decréscimo de 1% a 2% nas vendas.

Concorrência no setor de cimento

Como não se modernizou nem cresceu, como as concorrentes, o Grupo João Santos passou a enfrentar uma competição mais acirrada, inclusive de novos entrantes no setor – caso de Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Brennand (que voltou), além de pequenas fabricantes. As grandes rivais, como Camargo Corrêa – que adquiriu os ativos da Cimpor e assumiu o segundo lugar -, Lafarge e Holcim ganharam mais fôlego fazendo investimentos em fábricas e em expansão das existentes.

A Fábrica de Cimento Nassau de Mossoró passou, a partir do início dessa década, a enfrentar a concorrência de duas grandes fábricas de cimento construídas a menos de 50 Km uma da outra.

Em Baraúna, a fábrica de cimento Mizu está funcionando ainda abaixo da sua capacidade planejada e em Quixeré – CE, localizada na Comunidade de Bom Sucesso, a fábrica de cimento Apodi está em pleno funcionamento.

RN e NATAL sem aval da União

Estão impedidos de contratar novas operações de crédito com a União (por causa de atrasos de pagamento e honras da União) os Estados de Minas Gerais, Piauí, Roraima, Amapá, Goiás, Rio Grande do Norte e Roraima. Também estão sob efeito da medida os municípios de Natal (RN), Belford Roxo (RJ) e Chapecó (SC).

Como garantidora de operações de crédito, a União é comunicada pelos credores de que o Estado ou município não realizou a quitação de determinada parcela do contrato. O Tesouro Nacional (que representa a União), então, informa o mutuário da dívida para que se manifeste quanto aos atrasos nos pagamentos e, caso o ente não cumpra suas obrigações no prazo, paga os valores em questão.

Chineses na região

Encontra-se na região do Polo de Agricultura Irrigada RN-CE empresários chineses ligados a GBI Agroindustrial que esperam a aprovação definitiva do IDEMA, IBAMA e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do empreendimento que vai explorar comercialmente o jumento. Os empresários chineses estão, também, interessados no negócio de frutas tropicais e aproveitarão a oportunidade para conhecer o potencial da região para a exportação de frutas para a Ásia.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA)

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Adriano Ferreira diz:

    Sou sobrinho dos primeiros sócios da Empresa Adriano e Cia e homônimo do sócio titular dessa empresa, padrinho de casamento e de J. Santos, estabelecida na década de 30, em Pernambuco. Conheci J. Santos no velório da minha tia Olindina, sua madrinha, no cemitério do Caju no Rio de Janeiro, em 1979.

  2. Valdenira Silveira De Araujo diz:

    Olá! Estou a procura de informações do funcionário do Grupo João Santos (fábrica de açúcar)em Coelho Neto-MA. Ele trabalhou lá, na década de 90. Mais precisamente antes de 1995. Estou precisando dos nomes das 2 filhas e de 1 filho, recebiam salário família, quando o pai deles, Benedito Bezerra De Araujo, trabalhou neste grupo. Por gentileza, se alguém souber de informações, envie-me para o meu e-mail: Valdenira2020@gmail.com, estou precisando demais dessas informações! A data de nascimento de Benedito Bezerra De Araujo é: 23/11/1955; Filho de Aldo Bezerra De Araujo e Alexandrina Carneiro Bezerra. O nome dos filhos dele, que estou pedindo informações são: Vera Lúcia Silveira De Araujo; Ana Lúcia Silveira De Araujo e Jeronir Silveira De Araujo. Desde já, grata! Att. Valdenira Silveira De Araujo
    Celular: 61 99276 3319

  3. Hugo diz:

    O ocaso do grupo João Santos se deve a sua administração mesquinha e as manias do “barato sobre o valor”. O parque industrial existente e um amontoado de sucata com um atraso tecnológico de 50 anos.
    Uma recuperação judicial e pouco promissora com este atraso empresarial em todos os sentidos. Um grupo sem visão e sem vocação para perpetuar um negócio rentável. Sempre apostou no “barato” do atraso vindo da Prerov!
    Com o ocaso da Prerov não houve quem se interessasse por um empreendimento que sempre desprezou a indústria Brasileira mas quis prosperar na economia Brasileira. Se deu mal e merecidamente.

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