domingo - 30/03/2014 - 08:12h

Ser seu amigo


Por Vinícius de Moraes

Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria.

Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam.

Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo. Se falarem mais de mim do que de Jesus Cristo, chame a atenção deles.

Se sentir saudade e quiser falar comigo, fale com Jesus e eu ouvirei. Espero estar com Ele o suficiente para continuar sendo útil a você, lá onde estiver.

E se tiver vontade de escrever alguma coisa sobre mim, diga apenas uma frase : ‘Foi meu amigo, acreditou em mim e me quis mais perto de Deus !’ Aí, então derrame uma lágrima.

Eu não estarei presente para enxuga-la, mas não faz mal. Outros amigos farão isso no meu lugar. E, vendo-me bem substituído, irei cuidar de minha nova tarefa no céu. Mas, de vez em quando, dê uma espiadinha na direção de Deus. Você não me verá, mas eu ficaria muito feliz vendo você olhar para Ele.

E, quando chegar a sua vez de ir para o Pai, aí, sem nenhum véu a separar a gente, vamos viver, em Deus, a amizade que aqui nos preparou para Ele.

Você acredita nessas coisas? Sim? Então ore para que nós dois vivamos como quem sabe que vai morrer um dia, e que morramos como quem soube viver direito. Amizade só faz sentido se traz o céu para mais perto da gente, e se inaugura aqui mesmo o seu começo.

Eu não vou estranhar o céu. Sabe por quê? Porque ser seu amigo já é um pedaço dele!

Vinícius de Moraes (1913-1980) foi compositor, poeta, jornalista, diplomata, cronista, cantor.

* Clique na seta do boxe constante desta postagem, para ouvir essa crônica-poesia sendo declamada por Rolando Boldrin.

Categoria(s): Crônica / Poesia

Comentários

  1. François Silvestre diz:

    Beleza! Tônia Carrero conta que, num certo barzinho do Leblon, ao chegar o poeta, todos combinavam a seguinte recepção. Um perguntava, cantando: “Quem é o pai de todos os vícios”? E o resto do bar, também cantando respondia: “É Vinícius…é Vinícius”. O mesmo perguntador: “E se os vícios forem pecados mortais”? E o bar respondia: “Então é Vinícius…é Vinícius de Morais”.

  2. Valceli diz:

    Simplesmente Perfeito!

  3. DINO MARQUES diz:

    Espetacular!

  4. naide maria rosado de souza diz:

    Lindo demais. Lido por Boldrin fica , simplesmente, divino!

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