domingo - 05/04/2020 - 06:42h

Sobre canções e histórias de conversão


Por Marcos Araújo

Nesses tempos de albergamento involuntário, a leitura, a música e a oração servem para alimento do espírito e auxílio à manutenção da sanidade. Aproveitando o início da semana santa, pensei em escrever associando canção com conversão. E nada melhor do que começar com “Amazing Grace”, a canção mais conhecida da língua inglesa e uma das mais executadas no mundo, tendo sido interpretada por centenas de artistas, entre eles Aretha Franklin, Ray Charles, Johnny Cash, Willie Nelson e Elvis Presley.

São mais de 12 milhões de execuções por ano.

O autor dela é John Newton, um inglês traficante de escravos do século XVIII (1725-1807).  Era do seu ofício sequestrar negros de tribos da costa Africana para trabalho nas ricas propriedades dos anglo-saxões. Em 1748, quando retornava de uma de suas viagens, o navio foi pego em uma tempestade horrenda na costa da Irlanda e quase afundou.

Newton implorou a Deus e a carga miraculosamente se deslocou para preencher um buraco no casco do navio, salvando-se com sua tripulação. Em face deste quase naufrágio, o escravagista ateu se converte em um cristão fervoroso.

De sua conversão, nasce a composição “Amazing Grace” (Graça maravilhosa). Uma curiosidade: a letra tem autoria, a melodia não. Para os biógrafos com formação musical, a melodia se assemelha ao canto de lamento dos escravos africanos. Outro detalhe: no piano, a canção fica melhor executada apenas com as cinco teclas pretas.

Um dado histórico relevante próprio da contradição humana na biografia de John Newton: um homem branco, a princípio ateu, compõe uma canção de fé que vai se tornar símbolo do movimento espiritualista dos negros anglo-americanos. E mais: é dele, um ex-escravagista, a publicação de um panfleto chamado “Thoughts Upon the Slave Trade” (Pensamentos sobre o comércio de escravos), descrevendo as condições horríveis dos navios negreiros, tratado que irá influenciar decisivamente o movimento abolicionista na Inglaterra.

A canção de John Newton nos diz muito sobre o tempo atual.  Desesperado, diante de uma aparente morte inevitável, Deus foi a sua esperança: “O Senhor prometeu algo bom para mim / Sua palavra me deu esperança garantida / Ele será meu escudo e minha porção / Enquanto a vida durar” (No original, “The Lord has promised good to me / His Word my hope secures / He will my shield and portion be / As long as life endures”).

O ateu escravagista, de trato e vida selvagem, acostumado ao domínio e submissão pela força, diante do imprevisto submete-se à ação da graça da fé. Diz ele que “Foi a graça que ensinou meu coração a temer / E a graça aliviou meus medos / Como preciosa aquela graça apareceu / A hora em que eu acreditei”. (na língua de origem,  “Twas grace that taught my heart to fear
/ And grace my fears relieved / How precious did that grace appear / The hour I first believed
).

Outra canção–poema de conhecimento mundial é o Cântico das criaturas (em italiano: Cantico delle creature), também conhecido como Cântico do Irmão Sol (Cantico di Frate Sole), composta por Francisco de Assis, no ano de 1224.

Dizem os biógrafos que São Francisco teria composto o cântico enquanto se recuperava de uma doença em San Damiano, em uma pequena cabana construída para ele por Clara de Assis e outras mulheres pertencentes à sua ordem. De acordo com a tradição, ela teria sido cantada pela primeira vez por São Francisco e pelos irmãos Angelo e Leo, dois de seus companheiros originais, no leito de morte de Francisco, com o verso final que louva a “Irmã Morte” acrescentado apenas alguns minutos antes do padecimento do Santo.

A história de São Francisco é muito conhecida. Desde a sua juventude irrequieta e mundana à conversão radical, quando se volta para uma vida religiosa de completa pobreza.  Um dia do outono de 1205, enquanto rezava na igrejinha de São Damião, ouviu a imagem de Cristo lhe dizer: “Francisco, restaura minha casa decadente”.  O chamado, ainda pouco claro para São Francisco, foi tomado no sentido literal e o santo vendeu as mercadorias da loja do pai para restaurar a igrejinha. A venda das mercadorias enfureceu o pai de São Francisco, que indignado procura o Bispo e envia carta ao Papa Inocêncio III, deserdando o filho.

São Francisco mendigava para comer. De certa feita, ao ler a Bíblia, deteve-se na passagem do envio dos apóstolos pelo Cristo, e diante do exemplo da total pobreza e precariedade dos enviados, exclamou extasiado: “Ser missionário de Cristo também é cuidar dos pobres e dos doentes, é isso que eu quero, é isso que procuro, é isso que eu desejo de todo o coração”.

O Papa Bento XVI veio a exclamar em uma de suas exortações apostólicas: “O que é a vida de São Francisco, convertido, senão um grande ato de amor?”.

John Newton e São Francisco têm em comum a conversão e a beleza de suas canções. Há um elo entre as letras de “Amazing Grace” e “Cantico delle criature”: a convicção e a esperança em Deus, que tudo fez e tudo criou.  Nos dois,  houve uma mudança radical de vida para uma entrega total ao Cristo, “nossa paz”, o próprio princípio do cosmos, pois “nEle tudo foi feito”, como dito por São Francisco em sua carta de despedida.

Voltando-se para o presente, que lições essa pandemia trará para a humanidade? Como responder aos grandes questionamentos do momento: por que sofremos? Quem viverá? Por que alguns morrerão? Quem serão os escolhidos a viver ou a morrer? De onde vem o mau?  São tantas as perguntas atuais que brotam no coração do homem/mulher…

Uma coisa eu sei: nada mais será como antes! Existem coisas acontecendo e mudando o mundo. Auspícios de “conversões” são noticiadas. Bancos têm doado dinheiro para campanhas sanitárias e estendido prazos de pagamento para seus devedores. O dinheiro deixou de importar.

O ser humano voltou a ser o centro das atenções, e não mais as tecnologias. No mundo do Direito, ambiente em que reina o agnosticismo e o pedantismo, cujo símbolo tirânico de Justiça é uma Deusa com uma espada numa mão e uma balança na outra, ainda por cima vendada, dando a entender que os seus “golpes” podem ser errôneos e dados às cegas, tem sobrado exemplos de solidariedade, humildade e compreensão.

Juízes, promotores e Advogados da geração dos positivistas, seguidores extremistas de Kelsen, manipuladores de Códigos e invictos na sabença repetitiva de dispositivos da lei, estão se “convertendo”, pois descobriram – tardiamente – que a Lei não traz solução para tudo.

A exemplo da embarcação de John Newton, o Direito entrou numa crise paradoxal, sendo uma nau que vaga tormentosamente entre dois escolhos: o rochedo do exagero do legalismo e o banco de areia do moderantismo epistemológico.

Para não afundar, terá que adotar o escolho epistemológico Kantiano-Cristão para fixar sua nau.

Nas suas canções, John Newton e São Francisco responderam aos questionamentos da sociedade de suas épocas de uma só maneira: confiem em Deus (Lord), nosso Senhor, criador de todas as coisas e de todas as criaturas!  A confiança n´Ele garante a plenitude do viver.  Seja na terra ou no céu.  Aliás, como dizia o poeta grego Plauto, “morrer é apenas mudar de casa, fica o corpo e se muda a alma”.

Está se iniciando a Semana Santa, momento propício para um encontro pessoal com o Cristo Ressuscitado, que também passou pela cruz. Que esse encontro gere uma conversão e dela uma missão.

Ao fim, quando a “tempestade” passar, poderemos saber que lições desse tempo a humanidade colherá. Quem viver verá!

Feliz Semana Santa a todos. Que possamos neste período ressuscitar com o Cristo!

Marcos Araújo é professor e advogado

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Ari Junior diz:

    Um belo artigo.

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