terça-feira - 23/01/2018 - 16:30h
Para Caby da Costa Lima

“Azougue.com 5″ – A missão


O “camaradinha” Caby Costa Lima procura-me para ingente tarefa. Ciente de que estou sempre com “um monte de coisas para não fazer”, cobra-me o prefácio do seu mais novo livro: “Azougue.com 5″.

Na verdade, até hoje não entendo o porquê do nosso autor não ter sido ungido à Academia. De tiro, claro. Como alvo, que se diga.

Prefaciando-o, logo me constituo seu cúmplice. Sob ameaça, pois.

Caby, tirando todos os defeitos, é gente boa.

Com Azougue.com 5, derivação de site que o sustenta há anos, ele ratifica um trabalho continuado de memorialista, sob um viés incomum. Não conta história, não exuma gente e fatos como os autores clássicos.

Editor desta página, Padre Sátiro, Caby: 8 de julho de 2016 (Foto: arquivo pessoal)

Ele reproduz o que ficou congelado no tempo, lá atrás, num trabalho de reconstituição documental fascinante. A gente se reencontra em cada esquina, rua, praça ou naquele carnaval que passou.

Somos flagrados “desabonitados” ou apolíneos. Deparamo-nos com um lugar qualquer do passado e, nessa linha do tempo, somos lágrimas diante da imagem de quem partiu ou rimos de nós mesmos.

Reminiscências e experiências passadas eclodem numa mistura palpável e sistêmica em cada página de sua publicação.

Na era cibernética, em que todo o mundo está em nossas mãos, num Smartphone, ele confronta o virtual com a matéria: papel, gente, coisas e fatos parecem que batem à nossa porta; convidam-nos para entrar.

Seu livro, o 36º, tem robustez própria para servir de calço para porta e fazer volume na estante. Mas ninguém ouse utilizá-lo embaixo daquela perna de mesa que insiste em não se equilibrar no chão.

Brincadeirinha, caríssimo leitor.

O lúdico e a troça também fazem parte dessa obra, como espelho do próprio autor. Seu livro, então, é um pouco ele: feito, pronto, mas mesmo assim inacabado.

É um título para a gente dividir com a família, ser folheado entre amigos ou mandarmos para a Faixa de Gaza. Serve para realimentar antigas antipatias, refazer afetos dispersos ou estimular armistícios.

Com seu jeito despojado e “fora de época”, que caberia como uma luva na série “Do bumba”, Caby encarna um tipo de vida e de indivíduo escasso por aqui. Consegue ser a mesma pessoa há décadas ou séculos, mas com uma espantosa capacidade de adaptação ao moderno.

Paradoxal, paradoxal!

Talvez ele seja mais uma prova de que o darwinismo esteja certo. Mantém-se vivo por aprender cotidianamente a se encaixar nas exigências de cada dia, no ecossistema humano. Mas por favor: não o tenham como a evolução da espécie.

O publicitário, o editor de livros, o promotor de eventos musicais, o dirigente e narrador esportivos, o radialista que teima em tratar Roberto Carlos intimamente por “Bebeto Carlos”, parece personagem saído de alguma crônica de Antônio Maria, rabiscada – à madrugada – no balcão de alguma boate carioca nos idos de 50.

Luís Fernando Veríssimo adoraria conhecê-lo. Não tenho dúvidas. Confrontaria-o com o “Analista de Bagé” ou a “Velhinha de Taubaté”. Botaria-o sobre tamancos, como o “Camaradinha de Mossoró”.

Seria o nada “óbvio ululante” de Nelson Rodrigues, tricolor como ele e eu.

O pai de Alice e Alice, não é nenhuma maravilha, concordo. Contudo é o que temos por enquanto.

Sujeito de muitos livros e de algum cabelo, sua idade é inconfessável – mesmo sob doses cavalares de Campari (argh!). Nada que um exame de carbono 14 e goma na bacia não identifiquem, acredito.

Antes que ele corte meu texto e me demita da condição de prefaciador oficial, sem pagar meus cevados honorários, paro por aqui.

Com licença. Vou virar a página e começar a folhear “Azougue.com 5″.

A missão.

Carlos Santos, escritor mundialmente desconhecido e jornalista nacionalmente ignorado.

* Texto originalmente publicado como prefácio do livro “Azougue.com 5″, de Caby da Costa Lima, lançado no dia 13 de março de 2015. A foto que ilustra essa postagem é mais recente, em que eu e Caby emolduramos Padre Sátiro Cavalcanti Dantas. Singela homenagem a quem me tratava com profunda reverência e caudalosos elogios, por “Do suspensórios” ou apenas… “Carlão”. Obrigado, Camaradinha! Vá em paz.

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Rocha Neto diz:

    Carlos ,
    Não poderias ter escolhido nenhuma outra forma melhor, que esta pra homenagear o nosso ex-companheiro de rádio de Mossoró, o eterno, irreverente e insubstituível CAMARADINHA, através deste Prefácio transcrito.
    De e onde Kaby se encontra neste instante estará a te aplaudir e reconhecer como um génio das letras. Neste momento, com certeza ele estar a somar no universo celestial para viver na bem-aventurança dos justos. E com cecerteza tambem aqui, irá nos fazer falta, por que sua maneira de viver só ele sabia desempenhar com maestria.

  2. PITULEIRA diz:

    Com sua permissão Carlos nós “colamos” ESSE TEXTO NO BAR DE FERREIRINHA.Olha meu irmão esse cara vai fazer muita falta,pode ter certeza.

    • Carlos Santos diz:

      NOTA DO BLOG – Obrigado, meu caro amigo. Vai, sim. Nós sabemos.

      Abração a todos do Bar de Ferreirinha aí em Caicó.

      Por esses dias arrancho por aí novamente.

  3. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Só fiz chorar, Carlos Santos, lendo sua “crônica despedida”.
    Lembrei de Caby aqui no Rio e de nosso encontro na Feira de São Cristóvão, para a qual nos convidou. Noite maravilhosa. Não podia ir a Mossoró, então, Caby trouxe Mossoró para mim. Sérgio e eu pisamos em solo mossoroense e nos divertimos à valer, ao som da alegria inteligente de Caby, de sua versatilidade encantadora.
    Gostaria que a família dele soubesse que essa noite foi uma das melhores de nossas vidas .
    Caby, sua presença no meu coração é preciosa!

    ,

  4. Vicente diz:

    A morte de Caby, assim como a de outros nomes que nos tem deixado (Tasso Rosado, Milton Marques, Lupercio Azevedo, Manoel Barreto…) é a imagem de uma Mossoró que está indo embora.

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