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domingo - 06/08/2017 - 11:02h

Carta recebida

Por François Silvestre

Petrópolis, 05 de Agosto de 2017.

Meu caro François:

Acho que preencho os dois requisitos que você estabeleceu para a leitura de sua missiva, mesmo compreendendo muito bem o intuito dela. O que reduz o mérito da ignorância.

Moro em Petrópolis, numa bucólica rua próxima da Encantada de Santos Dumont. Mas não sou daqui, pois nasci em Portalegre. Papajerimum da Serra.

Devo ser mais novo do que você; como sei? Sobre a morte do seu pai, assassinado no meio da rua, aí na minha cidade, eu li que você tinha entre dez ou doze anos, eu ainda engatinhava. Vim a saber dos fatos muitos anos depois. Meu pai contava que eles eram grandes amigos. Um crime covarde e brutal, que marcou a história daquela cidade.

Mas isso é outra e triste história, que não vem ao caso. Apenas para situar meu interesse nessa resposta, que espero não estar enchendo o saco ou descascando feridas.

Tenho lido, desde muito tempo, seus textos do Domingo. E vez ou outra eles dão causa a discussão aqui no barzinho, de frente para o Palácio Rio Negro. Petrópolis amanheceu sob chuva fina, com cinza na serra imitando as daí.

Li e me credenciei como destinatário. Sou seu desconhecido e também ignorante. E como você disse que se dirigia a destinatário semelhante ao remetente, ouso chamá-lo de colega.

Posso? Se a resposta for sim. Então Lá vai. Mesmo sem ser o imperativo de lavar. Ou seria lavái?

Di-lo-ei sem sobroço que fui ao Bechara, e tava lá. Evanildo foi nosso mestre? Digo, sem mesóclise, “nosso”, se você me aceitar como colega. Essa língua é complicada, pois eu não como colega. Bem, teve uns tempos de internato, em Mossoró… Não conto nem sob tortura.

Pois, pois. Li sua carta e fiquei matutando. O que danado quis dizer esse conterrâneo, que nem conheço pessoalmente, sobre desconhecido ignorante?

Isso é anonimato ativo ou passivo? Tem o corrupto ativo que é o comprador do “agente público”. No caso, o agente é passivo. Quando na verdade passivo é o povo, que se ferra. Né assim? Quem come né ativo?  E o povo né comido?

Mas voltemos ao anonimato. Quando você assina não é anônimo. Quando você esconde o destinatário, tá criando um tipo novo de anonimato. É anônimo ativo ou passivo? Quem come quem?

E essa história de ignorante desconhecido, apesar do anonimato passivo, carrega um certo achado. É curioso que li e fiquei assim, abobado. Será comigo? Ou não tem por onde, como diria o Chaves?

E o achado tá nisso. É difícil não se achar desconhecido e ignorante. Principalmente na solidão, diante desse mundaréu de sabedoria jogada no lixo diariamente.

Nessa confusão de aconchego fácil e falso da internet. Quando o bom é conviver na pele, roçando a pele. No abraço, aperto de mão, beijo, briga, discordância.

Na visita, na despedida, na chegada. Nos apertos, nos afagos, nas intrigas. Mas, de perto. Na pele.

Caso receba esta, pela via criticada, e quiser um ignorante colega, é só dizer. Permita-me encerrar como você (lá vem o “como”).

Abraço de Hipólito Fialho.

Té mais.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Crônica

Comentários

  1. Amorim diz:

    Como acusei o recebimento de sua missiva semana passada, faltou dizer que foi umas das mensagem mais brilhantes que li últimamente, só lamento refletir fielmente nosso comportamento atual.
    Abraços e lembranças à família.

  2. François Silvestre diz:

    Lembranças dadas e já retribuídas. Abraço.

  3. naide maria rosado de souza diz:

    François Silvestre…repetindo, no mais puro sentimento e para quem entender possa, já que a inexistência de maldade não é por todos alcançada : onde estava você no decorrer de minha vida? Seria mais preparada com a sua inteligência.
    De todo modo, nos encontramos no outono da existência, mas ainda tenho muito a aprender com você.

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