domingo - 23/06/2019 - 08:04h

Donos da verdade


Por Odemirton Filho

O livro 1984, de George Orwell, narra a história de um tempo em que o “grande irmão” vigiava tudo e todos com o objetivo de controlar a vida em sociedade.

Winston, principal personagem da narrativa, como seus pares, vivia preso à mão controladora do estado que observava os passos de cada um.

Entre os vários órgãos de controle estatal um merecia destaque: o ministério da verdade, que tinha por escopo recontar a história para ser se amoldar aos caprichos do grande líder.

“A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário”.

Com efeito, diante da quadra atual, presenciamos o recontar da história, através daqueles que se arvoram donos da verdade.

Ou seja, negar os fatos que ocorreram outrora parece ser a tônica do momento, tudo no afã de legitimar condutas e ideologias.

Ora, como sabemos, não se pode apagar o passado. Mas, para alguns, o que ficou para trás precisa ser esquecido ou, melhor, recontado, de acordo com o que pensa e apregoa, em um verdadeiro contorcionismo interpretativo.

Sobre o tema, em recente entrevista, o escritor Ignácio de Loyola Brandão reverberou: “A censura é o braço direito do governo totalitário. Querem, por exemplo, mudar os livros de história, mudar a história do Brasil”.

Entretanto, parece-me que o objetivo é, tão somente, redirecionar a nau ideológica à estibordo.

Esquecem, todavia, que fatos pretéritos devem ser sopesados, e não reescritos. É lição comezinha que erros e acertos ocorreram em todas as hostes políticas, seja à esquerda ou à direita.

Os fatos aconteceram e não podem ser recontados para atender aos interesses obtusos de alguns.

Assim, aos que querem ser donos da verdade, tomo por empréstimo a assertiva do douto professor Aécio Cândido, transformando-a em interrogação: “mas, enfim, o controle da verdade é o desejo de consumo de todo governo com tendências totalitárias”?

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Ailson Fernandes Teodoro diz:

    Concordo parcialmente com o texto – bem escrito -, do Professor Odemirton. Existe a dubiedade muito grande de todas as tendências ideológicas em busca de uma verdade acolhedora de suas paixões. Muita parte disso, fruto da Vaidade humana. Já que o senhor Citou Aécio Cândido, recorrerei a Jorge Bergoglio, também conhecido como Papa Francisco, que disse há aproximadamente 4 anos, que vivíamos na sociedade das curtidas. Onde as pessoas não se preocupavam com o conteúdo do que era postado, mas tão somente, em ganhar “likes”. E esse artifício atinge gente de todos os matizes ideológicos, é fato, não adianta questionar os acontecimentos. Mas é bem verdade também, que durante muitos debates nas redes sociais, especialmente Facebook, no auge da Lava Jato, muita gente, a grande maioria para agradar Juízes e Promotores, atacavam o PT e, endeusavam o Boçal, criminoso, parcial e analfabeto vernacular, Sérgio Moro.

    Lembro que muitas vezes, EU e vários outros amigos, opositores do “IMPEACHMENT” da Presidenta, e contra as prisões preventivas arbitrárias e desnecessárias, decretadas por Moro, Éramos ridicularizados pelos que defendiam o JUIZ/Estrela, muitos usavam termos chulos como mi mi mi de PeTista. Agora que o The Intercept trás à baila, parte da verdade, mostrando o jogo sujo feito pelo MPF e Pelo Ministro da “Justiça”, muitos calam-se, em vez de fazer autocrítica. O texto do senhor serve de lição para todos nós, a história não pode ser alterada pelas pessoas, remontada em livros de forma diferente.

    Bom dia!

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