domingo - 16/12/2018 - 08:30h

Falácia do espantalho


Por Odemirton Filho

Na defesa de uma tese ou de uma ideia é fundamental que o expositor apresente argumentos para basear seu trabalho ou raciocínio em socorro daquilo que entende correto.

Sendo assim, “argumentar é a capacidade de relacionar fatos, teses, estudos, opiniões, problemas e possíveis soluções a fim de embasar determinado pensamento ou ideia”.

Com efeito, apenas emitir uma opinião acerca de um determinado assunto não a torna digna de certeza ou validade, porquanto estamos diante de uma crença do interlocutor. Falta, no mais das vezes, argumentação para dar substrato ao que se estar a defender.

Nesse diapasão, estamos vivenciando, sobremaneira, nas redes sociais, um debate infrutífero, em alguns casos, despido de qualquer cobertura de razoabilidade ou atividade argumentativa.

O que se presencia é um acinte a boa regra de convivência na sociedade. Não se discutem fatos, agride-se as pessoas sem o menor receio. O que importa é contrapor-se ao seu interlocutor, mesmo com fragilidade de argumentos.

É a falácia do espantalho.

Falácia é uma palavra de origem grega utilizada pelos escolásticos para indicar o silogismo de Aristóteles (silogismo é um tipo de argumento lógico que aplica o raciocínio dedutivo para extrair uma conclusão de duas ou mais proposições, que se supõe sejam verdadeiras).

É, desse modo, entendida como qualquer erro de raciocínio, seguido de uma argumentação inconsistente

“A metáfora usada para dar nome a essa falácia é bastante expressiva. Ela faz referência a uma estratégia de ataque ou rebelião que leva grupos de pessoas a criar uma espécie de boneco de palha do líder do grupo a ser atacado e transferir simbolicamente o ataque da pessoa para o boneco que a representa”.

“Em contextos de argumentação, essa é uma estratégia que consiste em substituir a opinião real sustentada por um adversário por uma versão distorcida dessa opinião, ou seja, criar um espantalho da opinião real, e em seguida, refutá-la ao invés da opinião real”.

Ou seja, usa-se o ardil para distorcer aquilo que o outro disse a fim de tirar a credibilidade do explanador. Se esse não coaduna com o que pensa, o debatedor procura encontra um caminho inverso, ao contrário do que foi efetivamente dito.

Na campanha eleitoral que findou, essa falácia foi devidamente usada, seja por alguns candidatos, seja por seus eleitores. Não se apresentava um contraponto ao que foi dito, procurava-se desqualificar o opositor, muitas vezes, atacando sua honra, esquecendo de apresentar argumentos com o mínimo de plausibilidade.

As redes sociais estão aí como prova. Mesmo pós-eleição o que vale é achacar, desmerecer, ofender, sejam em comentários ou em um diálogo.

Acrescente-se que a falácia não é somente na seara política. Toda e qualquer opinião contrária ao que se pensa, em simples conversas, é motivo para discordar e atacar de forma insubsistente.

A dialeticidade que deve servir de base para impugnar um arrazoado, cedeu espaço para opiniões destituídas de qualquer fundamento. Fala-se o que se pensa, sem sopesar as palavras ou o vazio de seus argumentos.

Qualquer palavra dita por aquele que, no meu entender, é “persona non grata” é distorcida para que possa, a falta de boa técnica argumentativa, refutar o pensamento contrário.

São crenças e ideologias amorfas que já não se coadunam com o tempo presente.

O mundo virtual, certamente, trouxe-nos um cabedal de conhecimento. Entretanto, a superficialidade de nossas opiniões nos tornaram meros replicadores e digladiadores na arena, que se entende sem regras, das redes sociais.

Desse modo, é inegável que a divergência é salutar para o enriquecimento do debate, desde que haja argumentação contra os fatos, e não agressão às pessoas.

Odemirton Filho é professor e oficial de Justiça

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Parabéns pelo lúcido, substancioso e argumentativo artigo…!!!

    É por essas e outras meu Caro Odemirton, que sempre estive, estou e estarei longe do que chamam de redes sociais, NA VERDADE LIXOS SOCIAIS, deveras à contaminar e embrutecer mais ainda uma sociedade dita pós moderna, absolutamente ignara e despolitizada.

    Já dizia o Filólogo, escritor e pensador Italiano Umberto Eco….em palavras mais ou menos semelhantes:

    ” A INTERNET OPORTUNIZOU QUE O MAIS IMBECIL DE CADA RUA, ESQUINA E ALDEIA DO NOSSO PLANETA, TENHA VOZ E VEZ DE EMITIR SUA OPINIÃO ABSOLUTAMENTE VAZIA E DESCOLADA DA REALIDADE, TAL E QUAL UM BÊBADO EM LATENTE MACHISMO SE DIZENDO HOMEM POR VARIAS E VARIAS… REPETIDAS VEZES”

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  2. Inácio Augusto de Almeida diz:

    “Ou seja, usa-se o ardil para distorcer aquilo que o outro disse a fim de tirar a credibilidade do explanador.”
    Este ardil de tanto usado está desgastado.
    Infelizmente ainda tem quem, por conveniência, finja validar esta prática imunda.
    Nem mesmo quando se apresenta fato irrefutável deixam de tentar através da distorção invalidar o que está apresentado. E para completar, posam de vítimas e chegam até a mover processos por calúnia e difamação a quem torna público uma decisão de um Tribunal de Justiça.
    Aos poucos este tipo de enganação está sendo rejeitado pelo povo.
    São dignos de pena os que pensam fazer o povo de bobo.
    Não sabem que enquanto puderem fazer doações com dinheiro público contarão com a “compreensão” de líderes religiosos. Depois, quando afastados dos cargos…
    As mudanças acontecem de forma lenta. E elas estão acontecendo.
    ////
    NADA MAIS TRISTE E DIGNO DE PENA DO QUE A DECADÊNCIA DE UM CORRUPTO.

  3. João Claudio diz:

    O pensador italiano tinha uma mania esquisita. Passava o dia enfiando repetidas vezes o dedo no ( * ) e em seguida metia nas narinas.

    - Hummmmmmmmm…! Hoje, ‘ele’ está como nunca.

    Ficou conhecido como ( * )zinho Cheiroso.

  4. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    O mundo virtual chegou e tomou o espaço. Vi pessoas esclarecidas retransmitindo fakes, sem filtrá-los…e eram tantos que já não se podia dar credibilidade nem às notícias verdadeiras. Vi pessoas se desentendendo por credos políticos diferentes. Então, passei a ser, apenas, receptora de Whatsapps. A modernidade já se apresentara em demasia, para mim. Acompanhá-la, meio complicado, mas me esforço. Agora, sair me digladiando com as inconsistências alheias e as minhas, era demais. Tomei um rumo “da hora”: “tô fora”.
    Parabéns, Prof. Odemirton.

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