domingo - 13/05/2018 - 07:52h
História

Geisel autorizou execução de pelo menos dois potiguares


Por Rafael Duarte (Agência Saiba Mais)

Três dias depois da reunião em que o então presidente da República Ernesto Geisel autorizou as “execuções sumárias de subversivos perigosos”, o jornalista natalense Luiz Ignácio Maranhão Filho foi preso por agentes do Estado em uma praça pública de São Paulo e desapareceu. A prisão dele ocorreu em 3 de abril de 1974 e até hoje seu corpo não foi encontrado.

Destino semelhante teve o jornalista, ator e poeta caicoense Hiram de Lima Pereira, preso pelos órgãos de segurança em 15 de janeiro de 1975.

Geisel orientou Figueiredo para que "apenas subversivos perigosos fossem executados” (Foto: posse de Figueiredo 15-03-79)

O nome dos militantes comunistas Luiz Maranhão e Hiram Pereira voltaram à tona depois que o Departamento de Estado dos EUA revelou um memorando, datado de 11 de abril de 1974, enviado pelo diretor da Agência de Inteligência Norte-americana (CIA) ao então secretário de Estado Henry Kissinger.

O documento foi trazido a público pelo pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Matias Spektor e confirma que a cúpula do governo brasileiro sabia dos assassinatos contra os opositores do regime militar. Até então, essa versão era negada oficialmente.

Dois presidentes

No memorando consta que, inicialmente, Geisel pediu para refletir sobre a questão, mas em 1º de abril de 1974, “informou ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que extremo cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados”. E exigiu ao Centro de Informações do Exército a autorização prévia do próprio Palácio do Planalto.

Jornalista, ator e poeta, Hiram de Lima Pereira nasceu em Caicó (Foto: Web)

Ernesto Geisel governou o país de 1974 a 1979, quando passou a faixa presidencial para o general João Batista Figueiredo.

Luiz Maranhão e Hiram Pereira estão na lista dos 89 desaparecidos políticos oficiais da ditadura militar, a partir de 1º de abril de 1974, que nunca foram encontrados. O relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV) diz ainda que 11 pessoas podem ter desaparecido ou morrido também a partir de abril daquele ano, mas as datas não foram esclarecidas.

Ao todo, foram confirmadas pela CNV 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar no país. Entre elas, 210 estão desaparecidas.

Mortes

O destino dos corpos dos militantes desaparecidos durante o regime militar vem sendo revelado aos poucos por colaboradores e agentes da ditadura. Há depoimentos registrados pela Comissão Nacional da Verdade confirmando as mortes de vários militantes, entre eles Luiz Maranhão Filho e Hiram Pereira.

O ex-sargento do Exército Marival Chaves revelou em 2012 que Hiran foi interrogado no centro de torturas e execuções, implantado clandestinamente pelo Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) em Itapevi, na Grande São Paulo, morreu sob torturas e teve seu corpo lançado em um rio próximo a Avaré.

Já o assassinato do jornalista Luiz Maranhão Filho foi trazido à tona, também em 2012, pelo delegado Cláudio Guerra, autor do livro “Memórias de uma guerra suja”.

Segundo ele, Maranhão foi barbaramente torturado e teve o corpo incinerado numa usina de açúcar, no Rio de Janeiro.

Maranhão teve corpo queimado em usina (Foto: Comissão da Verdade)

Impacto

O pesquisador da FGV Matias Spektor, responsável por trazer o documento que comprova a anuência de Ernesto Geisel em relação às execuções pelo regime, registrou sua perplexidade diante da informação:

– Este é o documento mais perturbador que já li em 20 anos de pesquisa.

A Agência Saiba Mais procurou o economista Roberto Monte,  principal referência em Direitos Humanos no Rio Grande do Norte e maior pesquisador sobre registros da ditadura militar no Estado.

Para ele, na prática, o documento não muda muita coisa, mas é importante:

– O documento que veio à tona agora revela o que todo mundo já sabia, mas mesmo assim uma coisa é você ouvir dizer outra é saber que aconteceu de fato, por isso é importante. Agora em termos de novidades, as grandes informações vieram do (ex-sargento) Marival Chaves e do Cláudio Guerra, que contaram com detalhes o que aconteceu e ali fica patente a participação do Estado.

Blog Carlos Santos

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Categoria(s): Política

Comentários

  1. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Pode até parecer para uns mau gosto, para outros insensibilidade, para muitos, falta do que fazer, porém, entendo que, exatamente por estarmos a vivenciar o dia das Mães em um ciclo econômico e político, por demais controverso da nossa história, entende oportuno falar sobre a a vida politica ora vivenciada, seus umbilicais e históricos entrelaçamentos aos sombrios e tenebrosos acontecimentos de ordem política e social ocorridos durante o triste e sombrio período do dito “ciclo revolucionário” de 1964, patrocinado pelos USA.

    Como todos sabemos, a mãe, só a mãe é dado privilegio e a primazia de imprimir ao contexto da vida, seu nascimento. seu despertar, sua aurora com todas as virtudes e vicissitudes nesse ciclo de bem aventurança e renovação. Assim, vê-se claramente, que o mundo humano depende, para sua existência contínua, da presença de outros que tenham vindo, visto e ouvido e que lembrarão do que viram e ouviram. Sem a lembrança e sem a reificação de que a lembrança necessita para sua própria realização as atividades vivas da ação, do discurso e do pensamento político perderiam sua realidade no fim de cada processo e desapareceriam como se nunca houvessem existido.

    Nesse estranhos e sombrios tempos em que um esquema sobre um suposto combate à corrupção, praticamente virou uma nova Lei de Segurança Nacional, bem como, factoides de delatores de repente, não mais que de repente, se tornam verdades absolutas. Tempos em que, sob o signo da intolerância e do ódio dissimulados e ao mesmo tempo, disseminados aos quatros cantos da Terra de Pindorama, por uma imprensa absolutamente ignorante, cruel e venal, reconhecidamente, sem nenhum real compromisso com o conjunto da sociedade brasileira, concorrendo diretamente para que os direitos humanos sejam vilipendiados sob todas as formas, respeitosamente peço vênia à todos os brasileiros, para transcrever artigo da Jornalista ELIANE BRUM, vejamos:

    AOS QUE DEFENDEM A VOLTA DA DITADURA
    Eles eram 400 nas ruas de São Paulo, no primeiro sábado de dezembro, pedindo intervenção militar. Quatrocentos não é pouco. Um é muito

    ELIANE BRUM
    8 DEZ 2014 – 15:08

    Quando escuto brasileiros fazendo manifestação pela volta da ditadura, penso que eles não podem saber o que estão dizendo. Quem sabe, não diz. Mas esse primeiro pensamento é uma mistura de arrogância e de ingenuidade. O mais provável é que uma parte significativa desses homens e mulheres que têm se manifestado nas ruas desde o final das eleições, orgulhosos de sua falta de pudor, peçam a volta dos militares ao poder exatamente porque sabem o que dizem. Mas talvez seja preciso manter não a arrogância, mas a ingenuidade de acreditar que não sabem, porque quem sabe não diria, não poderia dizer. Não seria capaz, não ousaria. É para estes, os que desconhecem o seu dizer, estes, que talvez nem existam, que amplio aqui a voz das crianças torturadas, de várias maneiras, pela ditadura.

    Crianças. Torturadas. De várias maneiras.
    Botavam meu pai no pau de arara e, para o fazerem falar, simulavam me torturar com uma corda. Eu tinha dois anos.

    Como Ernesto Carlos Dias do Nascimento. Ele tinha dois anos e três meses. Foi considerado terrorista, “Elemento Menor Subversivo”, banido do país por decreto presidencial. Foi preso em 18 de maio de 1970, em São Paulo, com sua mãe, Jovelina Tonello do Nascimento. O pai, Manoel Dias do Nascimento, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada por Carlos Lamarca, havia sido preso horas antes. Ernesto é quem conta:
    “Me levaram diversas vezes às sessões de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar, com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo”.
    O menino de dois anos dizia: “Não pode bater no papai. Não pode”.
    E batiam.
    Libertado quase um mês depois, passou os primeiros anos com pavor de policiais de farda e grupos com mais de quatro pessoas. Entrava em pânico, escondia-se debaixo da cama ou dentro do armário, mordia quem se aproximava e urinava nas calças. Ernesto foi uma criança com pesadelos recorrentes. O mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. “O asno usava um boné militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarcástica e corria atrás de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfarçada de linha se estendia até mim, mas quando eu a segurava ela machucava minhas mãos e me deixava cair em um abismo.”
    Perto do parto, o líquido amniótico descia pelas minhas pernas e as baratas me atacavam em bandos. Eu gritava na cela”
    Ernesto é um dos 44 adultos torturados na infância – física e psicologicamente, mas também de outras maneiras – que contam sua história em um livro lançado em novembro pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Infância roubada – crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasilé a memória do inominável que precisa ser nomeado para que cada um deles possa viver, para que o crime de Estado não se repita. A maioria dos depoimentos foi registrada em audiências na Comissão da Verdade de São Paulo. Algumas pessoas, que não puderam comparecer ou não conseguiam falar sobre o assunto, foram entrevistadas depois.
    O que dizer sobre crianças torturadas pelo Estado? E torturadas ontem, em parâmetros históricos, bem aqui? Os relatos desse livro são alheios aos adjetivos. São silêncios que falam. E soluçam. Como João Carlos Schmidt de Almeida Grabois, o Joca, antes mesmo de nascer. Ele estava na barriga da mãe, Crimeia, quando ela levou choques elétricos, foi espancada em diversas partes do corpo e agredida a socos no rosto. Enquanto ela era assim brutalizada, os agentes da repressão ameaçavam sequestrar seu bebê tão logo nascesse. Quando os carcereiros pegavam as chaves para abrir a porta da cela e levar Crimeia à sala de tortura, o bebê começou a soluçar dentro da barriga. Joca nasceu na prisão e, anos depois, já crescido, quando ouvia o barulho de chaves, voltava a soluçar. A marca da ditadura nele é um soluço.
    Torturado por agentes da repressão ainda bebê, ele nunca se libertou do pavor. Suicidou-se aos 40 anos
    Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”. O pai de Joca foi assassinado pelo regime militar meses depois de o menino nascer. A primeira vez que ele viu o rosto do pai foi aos 18 anos, numa foto nos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo.
    Carlos Alexandre Azevedo, o Cacá, não suportou a lembrança. Talvez porque ele nunca pôde transformá-la em memória. Era nele algo vivo e sem palavras, um silêncio que não conseguia se dizer. E um silêncio que não consegue se dizer é um pavor. Ele tinha um ano e oito meses quando sua casa foi invadida por policiais do DOPS/SP, em janeiro de 1974. Como começou a chorar, os policiais deram-lhe um soco na boca que de imediato sangrou. Passou mais de 15 horas em poder da repressão, nas mãos de funcionários do Estado, enquanto lá fora gente demais vivia suas vidas fingindo que nada acontecia. Seus pais ouviram relatos de que nesse período o menino, pouco mais que um bebê, teria levado choques elétricos. Cacá se matou aos 40 anos, em 2013. Seu pai diria: “Ele ficou apavorado. E esse pavor tomou conta dele. Entendo que a morte dele foi o limite da angústia”.
    Testemunhei o assassinato do meu pai. Não posso nem quero esquecer, porque a única lembrança que tenho dele é a da sua morte
    Ângela Telma de Oliveira Lucena escolheu lembrar. Tinha três anos e meio quando executaram o pai diante dela. Ângela diz:
    “Eu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha mãe, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido. Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que, se fizesse isso, estaria riscando a história da minha família. (…) As pessoas sempre colocam em dúvida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. (…) Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu não consigo. Porque a única memória que tenho do meu pai é exatamente o momento da sua morte”.
    Houve Paulo Fonteles Filho, cujo parto da mãe foi uma tortura iniciada por policiais, completada pelo médico. Aos cinco meses de gestação, Hecilda era espancada com socos e pontapés, aos gritos de: “Filho dessa raça não deve nascer”. Era mantida acordada a noite inteira com uma luz forte no rosto, no que se chamava de “tortura dos refletores”. Depois, sentada numa cadeira, os fios subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios, causando calor, frio, asfixia. Mais tarde, foi colocada numa cela cheia de baratas. Ela já não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitou-se no chão. As baratas começaram a roê-la. Ela só conseguiu tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Levaram-na então para o Hospital da Guarnição do Exército, em Brasília. Ela lembra da irritação extrema do médico, que induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Hecilda não chorou. Ela conta no livro Luta, Substantivo Feminino: Mulheres Torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos: “Depois disso ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a ‘fera’ que estava ali”. Assim é contado o nascimento de Paulo, assim é como ele começa a se contar. Nascido entre feras – nenhuma delas a sua mãe. Nascido entre humanos, os mais brutais entre as feras.
    E houve as crianças que não nasceram, porque suas mães abortaram durante a tortura
    E há aqueles que não nasceram. Como o filho de Isabel Fávero que, aos dois meses de gravidez foi colocada numa sala e torturada com choques, pau de arara, ameaça de estupro e insultos verbais. No quinto dia, abortou. Isabel foi trancada num quarto fechado, onde ficou incomunicável. Ou Nádia Lucia do Nascimento, grávida de seis meses, colocada na temida “cadeira do dragão”. Depois de ter a roupa arrancada, levou choques elétricos por todo o corpo. Abortou. Teve hemorragias e dores, nenhum atendimento médico.
    Essa é a memória das crianças da ditadura. É a lembrança de parto de suas mães. Nós, que não fomos torturados, não temos como alcançar como é viver com essa marca – ou tentar fazer marca do que ainda é horror – num momento histórico em que – depois de tudo – alguns brasileiros perderam a vergonha de pedir a volta da ditadura. Podemos tentar nos colocar no lugar desses homens e mulheres, hoje adultos com seus próprios filhos, alguns já avós, nascidos ou presos nos porões em que seus pais foram torturados e alguns deles assassinados. É fundamental tentar vestir o outro, mas não alcançamos. Não há como alcançar. Como é passar pela Avenida Paulista, como aconteceu algumas vezes nas últimas semanas, ouvindo os gritos de gente – gente, certamente gente – gritando por intervenção militar e volta da ditadura militar no Brasil. Como é?
    De Grenaldo Mesut a ditadura subtraiu sua própria história
    Entre as dezenas de relatos desse livro, há um que destoa. Este eu conheci de perto. Testemunhei. Ao contrário da maioria, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut não tinha lembrança da repressão. Sequer sabia o que era ditadura para além de um nome vago, uma história que não lhe dizia respeito. Alguns poderiam supor que talvez fosse melhor assim, mas isso é desconhecer o quanto a ausência da memória é brutal, um buraco que se pressente, mas não se sabe como apalpar.
    Sobre ele, a jornalista Tatiana Merlino, que o escutou e assina a edição e a organização primorosa desse livro, diz: “A ditadura deixou inúmeras marcas nos filhos das vítimas; dos desaparecidos, assassinados, presos: desde nascimento na prisão, serem levados aos órgãos de repressão, clandestinidade, exílio, banimento, etc. Há histórias de horror, de crianças que viram os pais torturados, que foram sequestradas… Mas a história do Grenaldo me toca por uma brutalidade especial a qual ele foi submetido, que é o desaparecimento, o apagamento, promovido pela ditadura, da sua própria história. A ele foi negado até o direito de vivenciar a dor da verdade de ser filho de um assassinado pelo regime. Para além da subtração da vida, do corpo, a mentira, a subtração da verdade. Quais são os impactos desse crime na construção da identidade do Grenaldo? É essa lacuna, que são se pode mensurar, que me toca profundamente”.
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    Meu caminho se cruzou com o de Grenaldo de uma forma que só acontece na vida real. Se fosse ficção, a história seria considerada tão fantasiosa que soaria de má qualidade. Na campanha eleitoral de 2002, eu trabalhava na revista Época e minha atribuição era contar o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva pela sua trajetória pessoal e familiar. Fiz várias reportagens e, no início do seu mandato como presidente, escrevi sobre a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, num parto em que ela e o bebê perderam a vida. Era mais uma das dores de Lula, dono de uma biografia que continha o DNA do Brasil, país que naquele momento ele começava a governar com a promessa de mudar o destino dos mais pobres e estatísticas como as da mortalidade materna.
    Durante a investigação jornalística, descobri uma curiosa coincidência. O médico que assinou o atestado de óbito de Maria de Lourdes era um dos legistas acusados de ter forjado laudos para a ditadura. Sérgio Belmiro Acquesta, absolvido pelo Conselho Regional de Medicina um ano antes de morrer, era então gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica em que Lula trabalhava como operário, e também funcionário do Instituto Médico Legal de São Paulo. Numa das páginas da reportagem havia a foto de dois casos em que ele teria atuado para apagar a responsabilidade do regime militar. Um dos retratos, em tamanho 3X4, era de um marinheiro, Grenaldo de Jesus Silva, que em 1972 sequestrou sozinho um avião da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e a maior parte da tripulação, ele foi detido, imobilizado e morto no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, aos 31 anos. No dia seguinte, jornais estamparam a versão do regime: “Encurralado, terrorista suicidou-se”.
    Três décadas depois, minha reportagem de capa foi publicada e essa pequena foto, mais do que toda a história de Lula e Lourdes, moveu lembranças insepultas. Dias depois, um homem que se apresentou como ex-sargento especialista da Aeronáutica, José Barazal Alvarez, então com 63 anos, procurou a revista. Quando o sequestro acabou, ele tinha sido o encarregado de fazer o relatório e recolher os pertences do morto. Ao examinar o corpo de Grenaldo, contou ter encontrado no peito uma carta ensanguentada e um segundo tiro. Nessa espécie de carta testamento, Grenaldo contava as razões do sequestro para o filho e prometia buscar a família tão logo chegasse ao Uruguai. José manteve segredo do que viu por 30 anos, não mencionou nada nem mesmo à própria mulher. Mas era assombrado pela carta, porque sabia que em algum lugar havia um filho que nunca recebera a palavra do pai, um gesto que, por não ter se completado, teria de ter causado estrago. Era desse pesadelo que José queria se libertar quando conversamos pela primeira vez. Ao ver a foto do marinheiro “suicidado” na reportagem, ele decidiu buscar o filho sem pai – e a libertação.
    Em um reportagem sobre a primeira mulher de Lula, o ex-militar reencontrou o rosto que o assombrava havia 30 anos, o filho a face desconhecida do próprio pai
    Eu procurei o filho. Mas mesmo entre as organizações de mortos e desaparecidos políticos da ditadura, a trajetória, as circunstâncias e a intenção do marinheiro que sequestrou um avião tinha muitas lacunas. Grenaldo foi um dos 1.509 marinheiros expulsos em 1964 por se alinhar com o presidente João Goulart. Destes, 414 foram condenados à prisão. Grenaldo recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses. Fugiu e iniciou uma vida na clandestinidade. Dele era tudo o que se sabia até ressurgir num avião da Varig.
    Tentei vários caminhos para encontrar seu filho, não consegui. Quando o telefone da minha mesa na redação tocou, eu ainda o procurava, mas já tinha escassas esperanças. No outro lado, uma mulher me disse que o filho do marinheiro queria conversar comigo. As linhas finalmente se cruzavam e, por um breve instante, esqueci de respirar. O que tinha se passado era algo tão prosaico, um clichê. Uma mulher folheava distraída uma revista velha no consultório do dentista, quando se deparou com o nome bastante raro. De imediato ligou para a irmã: “Leila, tem um homem aqui com o mesmo nome do seu marido. Será que não é o pai dele?”.
    O marido de Leila não falava do pai. Ele era sobrevivente de uma infância arruinada, na qual o legado do pai era um “sangue ruim”. Sua mãe nunca soube das ações políticas do marido e, quando ele sumiu e reapareceu na capa dos jornais como “terrorista”, ela não pôde entender. Mônica Mesut já conhecera o marido na clandestinidade, na cidade paulista de Guarulhos, sem jamais ter sido informada de que ele tivera outra vida. Enquanto esteve com ela, Grenaldo foi vigia da construtora Camargo Corrêa e teve pelo menos dois negócios fracassados. Em 1971, começou a receber cartas que o deixavam muito nervoso. Um dia saiu de casa prometendo voltar para dar a família uma vida melhor e só voltou a aparecer num avião da Varig. O filho tinha quatro anos.
    Até a vida adulta, do pai ele só sabia que era “ladrão” e “terrorista”. A família era muito pobre, sem nenhuma formação política e precária educação. Grenaldo, o filho, cresceu num cenário em que tudo faltava, entre uma mãe alcoólatra, um tio violento e uma avó devastada. Christina, a avó, e Mônica, a mãe, já eram elas mesmas sobreviventes de uma outra guerra. Ao fugir da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, Christina encontrou um bebê nos braços de uma mulher morta. Sem leite ou comida, rasgou o pulso e alimentou-o com sangue. Era Mônica, a mãe de Grenaldo, que em 1972 não suportou ver o marido e pai do seu filho como terrorista e suicida nas capas dos jornais. Acreditou na ditadura e na imprensa. Em uma família na qual o passado já era trevas, mais um apagamento fazia todo o sentido.
    Quando Grenaldo ainda era criança, Mônica literalizou a destruição da memória ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a reduziu a quase nada. Morreria só anos depois. Enquanto viveu, Grenaldo e a mãe eram espancados primeiro pelo padrasto, depois pelo tio. O nome do pai só emergia pelo ódio, na boca de todos, por qualquer motivo e antes de cada surra: “Seu filho de ladrão!”. E então, quando ele tinha 35 anos, já professor de educação física e pai de família, apareceu aquele nome numa reportagem, com uma história diferente. Na mesma página de revista, José reencontrou o rosto que o assombrava, Grenaldo deparou-se com a face desconhecida do próprio pai.
    O filho do marinheiro marcou um encontro comigo numa pizzaria de São Paulo. Eu carregava vários livros sobre a ditadura para dar a ele e um enorme temor. Como contar a um filho quem era seu pai? Como dar a um filho notícias do pai? Como se faz algo assim tão enorme, com que palavras? Me senti tão insuficiente. Cheguei mais cedo, como sempre faço, e esperei. Vi aquele homem enorme chegar, com o rosto transtornado por algo que era medo e era expectativa e era, me parecia, um pedido de compaixão. Era como se ele suplicasse com aqueles olhos arregalados, quase infantis, que eu tivesse cuidado, que eu possuía ali o poder de acabar com o delicado equilíbrio que ele havia alcançado com um esforço impossível de mensurar. Percebi que ele não tinha a menor ideia do que ia ouvir. Naquele momento, Grenaldo começou uma travessia em busca de um pai e de um país. Os dois, ao mesmo tempo. E eu era a ponte imperfeita e aquém diante dele. Quando voltei desse encontro, lembro de ter deitado na cama de roupa e ficado ali de olhos estalados até o dia amanhecer, porque era tão grande aquilo, grande demais.
    Grenaldo iniciou, aos 35 anos, uma travessia em busca do pai – e do país
    Dias depois, marquei um encontro entre Grenaldo, o filho, e José, o ex-militar. A cena era impressionante. Grenaldo caiu de joelhos diante de José. E José libertou-se de um pesadelo de 30 anos. Todos naquela sala choravam. Naquele momento, a vida não cabia em nós.
    José encerrava ali três décadas de um pesadelo recorrente, o de um homem assassinado, amontoado como um saco de lixo, num Opala preto da repressão. E Grenaldo iniciava uma série de noites agitadas, em que sonhava ser um detetive em busca de pistas.
    Com a ajuda de um advogado, Grenaldo e eu passamos semanas, meses, buscando a carta que era sua. Numa noite, lembro de outra cena: as fotos do inquérito militar espalhadas pelo chão da sala da casa de Grenaldo. As imagens do pai morto, sangue, e nós dois tentando desvendar aquele quebra-cabeça macabro. Eu pensava: como ele vai suportar esse destino transtornado de um dia para o outro?
    Grenaldo tinha – tem – algo que poderia ser definido como uma pureza resistente, algo que ele manteve intacto mesmo no inferno que foi sua infância, algo que eu já vi em outros sobreviventes, e algo que naquele momento o salvava de novo. Consegui localizar a última pessoa a encontrar seu pai com vida no avião e provar que ele foi assassinado. Testemunhas lembravam do estranho caso do homem “suicidado com um tiro na nuca”. A granada que supostamente o marinheiro portava durante o sequestro era, segundo José, um carretel de pescaria enrolado com fita crepe.
    Grenaldo, o pai, foi reconhecido como um dos executados pela ditadura, e o filho pôde receber uma indenização do Estado. Meses depois, ele reencontrou a avó paterna no Maranhão e resgatou os laços perdidos com uma família que não sabia que tinha. Ele soube então que, depois de deixar a casa de Guarulhos e antes de sequestrar o avião, o marinheiro perseguido pela repressão tinha visitado a mãe, para dar a notícia de que ela tinha um neto e lhe deixar uma foto do menino. Atrás do retrato estava escrito: “São três anos que completo, sou um meninão. Um dia vou crescer, visitar o Maranhão. Naldinho. 9/6/71”. Passaram-se mais de três décadas até ele desembarcar no aeroporto de São Luís, onde a avó o esperava. Viveram uma relação de afeto pungente até a morte dela.
    Nunca conseguimos encontrar a carta, e o gesto do pai jamais será completado. É enorme a tragédia de uma carta que não encontra seu destinatário. Essa letra perdida será sempre um buraco que Grenaldo terá de sustentar, mas um buraco que ele vai preenchendo com a construção da memória. Hoje ele tem um pai – e tem um país. E é com os pedaços faltantes de ambos que precisa lidar. Grenaldo se prepara agora para contar para sua filha mais velha a história do avô. E às vezes, quando um dos dois filhos diz que não consegue fazer alguma coisa, ele diz: “Não fale que você não consegue, essa palavra não pode existir. Você é neto do Grenaldo!”.
    Não sei quem são os brasileiros que gritam nas ruas pedindo a volta da ditadura. Desconheço as pessoas que clamam por intervenção militar como se isso não fosse uma vergonha, uma indignidade, e sim a prerrogativa de “cidadãos de bem”. Acho que nunca tive tanto medo desse deformado discurso “do bem” quanto hoje, essa época em que todo o pudor foi perdido e a ignorância da História é ostentada como um troféu. Sei que são pessoas, porque só humanos são capazes de algo tão brutal.
    Dizem que eram “apenas” 400 no primeiro sábado de dezembro, em São Paulo. Alegam que 400 pedindo intervenção militar é pouco. Eu digo que um é muito. Respeito o direito que têm de se expressar, porque ao fazê-lo reforçam a expressão máxima da democracia, na grandeza de acolher a voz até mesmo de quem exige o seu fim. Mas me reservo o direito de, por um momento, escolher a ingenuidade. Prefiro acreditar que vocês não sabem do que falam nem o que pedem. Não podem saber. Se soubessem, não ousariam.

    Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

    Se possível, claro, leiam e reflitam sobre o atual momento que estamos a vivenciar…!!!

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  2. Rodolfo diz:

    Já passou da hora de tirarmos as homenagens feitas a essas pessoas em nossas avenidas, prédios públicos etc.

  3. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Dr. Fransueldo. Nem consigo escrever. Choro. Eliane Brum mostra a verdade na forma que merece ser mostrada. “Um é muito.” Sim, Dr.Fransueldo, um é demais!

  4. paulo martins diz:

    “Em 50 anos, o regime dos irmãos Castro fuzilou ao menos 3.820 pessoas. (…) Os fuzilamentos na ilha desde a instauração do regime de Fidel, porém, podem ter chegado à casa dos 17 mil”.
    O mesmo fez Hugo Chávez, e também faz Nicolás Maduro na Venezuela de hoje – tida e havida por Lula e Dilma como “exemplo de democracia”.
    Platão já avisara, três séculos a.C.: “Muitos odeiam a tirania apenas para que possam estabelecer a sua”.
    https://www.diariodobrasil.org/numero-de-fuzilados-durante-o-regime-de-fidel-castro-pode-ter-chegado-a-casa-dos-17-mil/

  5. FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Meu Caro Paulo Martins, nesse contemporâneo mundo de ” ideologias” a refletir, tão somente o olhar dos interesses sob o próprio umbigo, não mergulhemos no abissal pântano da escorregadia e sofismatica relativização comparativa à qualquer custo.

    Como sabemos e como nos ensina a história, em tempo algum a briga pelo espaço econômico, político/ideológico ocorreu sem que regimes ditatoriais tenham deixado seus tentáculos em todos os recantos da terra.

    O fato é que, uns, como é o caso do nosso Brasil, se propuseram, tão somente, sob o batido e manjado álibi e eufemismo do combate à corrupção e ao comunismo, no que ao fim e ao cabo resultou em uma das maiores concentrações de renda e de poder e, por via de consequência em miséria e exclusão social só comparável aos países da áfrica meridional, onde se destaca o Sudão como a mais pungente e latente demonstração da miséria humana.

    No caso de CUBA tão demonizada e perseguida pela extrema direita de todo o mundo, face sua corajosa, altiva e independente forma de organização social, econômica e política, sobretudo pelos ignorantes de plantão, bem como de má fé a espalhar odientos Fak news aos quatros cantos do mundo.

    Todavia, não podemos esquecer do inexplicável e monstruoso bloqueio econômico imposto ainda em pleno século XXI, e, assim mesmo, apesar da perseguição do império americano juntamente com seus satélites, do qual, infelizmente o Brasil faz parte. De fato lá em CUBA, temos uma realidade indiscutível, onde ao contrário da nossa realidade, nenhuma criança ou adulto cubano padece da falta de acesso à escola e educação em qualquer grau, muito menos de assistência médico hospitalar.

    Aqui, sob os eflúvios de uma imprensa absolutamente omissa, escroque e venal, ingenuamente gritamos que estamos em plena democracia, porém, diferente da realidade cubana que aqui prefalam ser uma ditadura sanguinária, em fim um inferno do qual todos querem fugir. Assim mesmo lá na “ditadura” cubana, além do seu povo ter definitivamente resolvido problemas relacionados a universalização da saúde e da educação, oportuno não esquecermos, lá em CUBA, não ocorre 1% (UM) por cento da violência que dia-a-dia se aprofunda e se alastras nas grandes, médias e pequenas cidades brasileiras.

    Nesse contexto, calha observar a geografia cubana, apenas uma tira de terra praticamente sem recurso minerais e com pequena agricultura (ILHA) à noventa milhas do império Militar industrial Americano, maior inimigo de quem ousa – em qualquer parte do planeta terra -, ter independência de ações numa sociedade independente e autônoma como a cubana. Já o BRASIL, país potencialmente o mais rico do mundo, infelizmente, ainda em pleno século XXI se obriga sob o vergonhoso controle de uma Elite absolutamente ignorante, cruel e servil, se obriga continuar colônia dos USA, lambendo sistematicamente a bota dos americanos, enregando suas riquezas e sua soberania de mão beijada, ao mesmo tempo que deixa o conjunto da sociedade brasileira ao completo abandono material e intelectual.

    Por derradeiro meu Caro Paulo Martins, apenas e tão somente uma indagação….!!!
    Afinal, somos ou não somos à favor da universalização da saúde e da educação gratuitos, fundamentais a erradicação da miséria e das desigualdades que tanto semeiam a violência de toda natureza em qualquer recanto do planeta terra….!!!???

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

    • paulo martins diz:

      O próprio Fidel e o “Tche”, após a tomada de Havana fuzilaram famílias inteiras que eram contra o comunismo, só para “dar o exemplo”…

  6. François Silvestre diz:

    Justificar a violência dos “do peito” pela comparação com a violência dos detestados é ingenuidade ou maucaratismo? Hoje, uma criança de seis meses foi morta por bala perdida no Rio de Janeiro. É pouco, pois, também hoje, seis crianças da mesma idade foram mortas na Faixa de Gaza. Não sei qual tirania querem instalar os comentaristas deste Blog que condenam a barbárie da Ditadura brasileira, do pós 64. Eu não pretendo nem posso ser tirano. Quanto a Platão, cuja obra conheço relativamente bem, ele referia-se a um tipo de tirania cujo sentido nada tem a ver com a acepção atual. O tirano, naquele contexto, era um líder por consentimento da urbe. Depois Aristóteles aprofundou a conceituação platônica. A Escolástica de Tomaz de Aquino trouxe Aristóteles para o canônico, o que informa ter o macaco a intuição de saber que o conjunto das bananas maduras é menor do que o conjunto das bananas. Papel semelhante cumpriu Santo Agostinho, na Patrística, sobre Platão. Citar autores famosos sem conhecimento aprofundado do pensamento deles é desonestidade intelectual. Mas, sobre a comparação feita para justificar crimes de ditadores cruéis, valho-me do próprio Platão sobre a brutalidade da caverna, com as mugangas dos farsantes. O jumento, nosso ingênuo jegue, não consegue perceber quando seu rincho abafa o trinado do sabiá. Nem se dispõe à comparação. Violência se nega, não se compara. Quando compara, confirma. Um pequeno silogismo aristotélico.

  7. François Silvestre diz:

    Kkkkkkkkkkkkkkkk…Muito bom! Esses debates são sempre importantes. Abraço.

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