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domingo - 08/04/2018 - 06:44h

O “Mecanismo” da Netflix


Por François Silvestre

Pego carona na assinatura que Raíssa fez da Netflix. Prefiro os filmes, mas vejo algumas séries. Algumas, muito poucas, consigo vê-las até o último capítulo.

Séries turcas, indianas, americanas, inglesas, sobre gangues, piratas e até sobre a nobiliarquia de milionários. Algumas me prendem inicialmente, depois me despeço com enfado.

A última que vi foi O Mecanismo, sobre essa coisa da “Lava Jato”. Muita discussão sobre o alcance real dessa ficção mesclada. Não li ainda uma avaliação convincente, seja dos “contras” ou dos “a favor”, sobre o enlace político ali estabelecido.

Vou tratar do que me interessa, nesse tipo de evento. Arte. Não sou crítico de arte ou de cinema, apenas observador e curioso, mas vou meter a colher nessa moqueca mal temperada. Muito dendê e pouco peixe.

Quando uma obra de ficção inspira-se ou se sustenta em fatos ou pessoas reais não deve vassalagem aos fatos ou às pessoas. Mas precisa de verossimilhança. O que não significa apenas copiar a realidade.

A verossimilhança não é pintura do real. É convencimento da ficção. Ela pode estar presente até na ficção de fatos ou pessoais impossíveis na realidade. Desde que convença pelo viés da arte. O realismo mágico ou fantástico é uma prova da verossimilhança ficcional sem necessidade do amparo real. Porque convence.

Pois bem. O Mecanismo da Netflix não convence. É caricato sem a plástica e o convencimento da caricatura. Na caricatura, a deformação acentua pela via da arte os contornos do real. Por isso, a caricatura é verossimilhante. Mas o caricato é a deformação não convincente.

O personagem principal da série não convence nem na realidade nem na ficção. É tão escrachadamente caricato que contamina o ator. Selton Mello é um dos nossos melhores atores, mas nessa obra ele cravou seu primeiro canastrão. Distância cósmica do ator de “O Palhaço” ou do “Auto da Compadecida”.

Aliás, a canastrice nasce no personagem e atinge o ator. O delegado da Polícia Federal, Ruffo, completamente inverossímil é uma piada que faz inveja até ao “Atrapalhando a Suate” de Zacarias, Didi, Mussum e Dedé.

Quando eu vi nas folhas a informação de que o juiz Sérgio Moro gostou do seu personagem, eu pensei:

- “Tomara que ele seja melhor operador do Direito do que observador de arte”.

A representação que a série faz dele é deprimente, coisa de inimigos do juiz. O personagem é patético. Até na burlesca cena sexual, o juiz fica mal; de cama. Quanto à inspiração real, só conheço pelos respingos dos holofotes. E pelas opiniões jurídicas do americanismo, realidade distante da nossa, e adesão política ao liberalismo pré-Adam Smith.

Com Lula, a série foi bondosa. Lulista que reclama, confessa fanatismo bocó. Pinçou uma frase emprestada não incriminadora, se comparada com muitas falas reais gravadas e comprometedoras. Se não do universo jurídico, pelo menos na seara moral.

Com Márcio Thomaz Bastos foram desonestos. Obviamente desonestos. Até a tosse é caricata. Vivo fosse, iria ganhar dinheiro com indenização.

A briga de vaidades entre a Polícia Federal e o Ministério Público foi mal explorada. Essa disputa de “quem é mais importante” retrata nossa incúria institucional. Um bando de bocós disputando notoriedade. Não se salva nem quando o delegado Ruffo chama de Cuzão o procurador do Ministério Público.

Mesmo ruim, vi até o fim. Na ficção ela terminou, mas parece que viverá “ad perpetuam rei memoriam” na realidade.

Té mais.

François Silvestre é escritor

Categoria(s): Artigo

Comentários

  1. Amorim diz:

    O Cara da lava Jato foi num mono motor.

    • João Claudio diz:

      É o ‘Camburão Teco Teco Aéreo’ que a Policia Federal dispõe para transportar os presos PPPs.

      Os presos ricos e obedientes (que não xingam juízes), vão de jatinho.

      Maaaaas, para quem prometeu ir a pé de São ‘Beirnaido’ até Curitiba, Teco Teco é um LUXO.

      Né não?

  2. João Claudio diz:

    O diretor de ‘O Mecanismo’ é um tal de José Padilha.

    Eu não vi e, depois dessa ‘metida de colher’, eu não pretendo ver.

    Vou continuar a assistir o Chaves.

  3. Naide Maria Rosado de Souza diz:

    Raíssa e Fernanda, nossas filhas, são entendidas no assunto.
    Fizeram curso juntas, opinariam bem. Conhecem a cinematografia e execução de seriados. Vou atrás. Fico devendo, François.

    • Raíssa Tâmisa diz:

      Com muito esforço consegui assistir dois episódios! Ele viu toda, pode falar melhor que eu. Mas, do que vi achei ruim de tudo. Um beijo!

      • Naide Maria Rosado de Souza diz:

        Querida Raíssa Tâmisa. Que bom falar com você!
        Fernanda não assistiu. Acho que a crítica não incentivou-a.
        Nós duas mandamos beijos. Sou fã de carteirinha de seu pai.
        A primeira da fila.

  4. FRANSUELDO VIEIRA DE ARAÚJO diz:

    Os midiotas que tentam denegrir o cara, terão necessariamente que continuar levando sua vida medíocre, ignorante e fascista, e tal e qual papagaios/ventríloquos jamais terão alguma importância pleo cometimento e disseminação da raiva, do ódio e da intolerância…!!!

    Igualmente à todo e qual quer Juiz que ao longo da história perpetrou/prolator alguma condenação sem provas, sendo esta, com viés eminentemente político, terão igual destino, qual seja… A LATA DO LIXO DA HISTÓRIA….!!!

    Um baraço

    FRANSUÊLDO VIEIRA DE ARAÚJO.
    OAB/RN. 7318.

  5. João Claudio diz:

    DESAPROVADO.

  6. Amorim diz:

    Ei! Vcs informados, andaram prendendo um assassino que causou biblicas hecatombes?
    Tem caboco defendendo ele?
    Vou “ariar” as vasilhas da “janta”.
    Tenho mais o que fazer.

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