domingo - 22/06/2025 - 07:30h

O Efeito Casulo – Dia 4

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com uso de recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com uso de recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Estou há quatro dias sem colocar a cara fora. Não recebi nenhuma visita nesse intervalo e não sinto falta da presença de quem quer que seja. No geral, embora minha doença se coloque à espreita, acho que posso dizer que muitas coisas estão nos trilhos. Exceto por algumas dores abdominais que me dão umas pontadinhas de vez em quando. Há também um pouco de náusea e uma fadiga constante, um cansaço inarredável.

Creio que emagreci uns dez quilos. Minha última saída foi para ir ao mercado comprar alimentos, entre os quais eu trouxe uns pacotes de salsicha, cachaça da boa e Coca-Cola naquelas pequenas garrafas de vidro. Se meu fim está tão próximo, ao menos morrerei comendo e bebendo o que gosto. Que se danem, então, o tumor no meu pâncreas, as restrições médicas e os sermões do doutor Epitácio Coelho.

Engulo cinco comprimidos durante a manhã e cinco no começo da noite. Depois vou me preparando para tentar dormir. Perdi o prazer de ver filmes e séries nos streamings, sobretudo na Netflix e certos conteúdos no YouTube. Vou para a cama e, enquanto o sono não chega, dou uma olhada no telefone. Como se costuma dizer, tenho o mundo na palma da mão. Todo tipo de futricas e futilidades cabe na telinha desse aparelho dos seiscentos diabos, via Internet. Sabe-se de tudo nesta maquininha poliglota e portátil.

Mossoró está escancarada nas redes sociais. A bola da vez em todos os noticiários é a guerra entre Israel e o Irã. Lamento pelos inocentes de ambos os lados, a população civil, porém quero mais é que eles se explodam.

Falo isto no que se refere, obviamente, aos promotores, empresários dessas guerras estúpidas aparelhadas com megaestruturas bélicas que favorecem, sobretudo, os fabricantes de armas cada vez mais sofisticadas e letais. Toda essa máquina de destruição segue há décadas e décadas favorecendo o poderio das indústrias da morte, que faturam trilhões alimentando exércitos nos mais diversos lugares do globo terrestre com os seus armamentos mortíferos e de última geração.

Donald Trump (que, infelizmente, não estava sob a mira de um atirador de elite naquele episódio da bala que lhe raspou apenas uma das orelhas) deve estar tendo múltiplos orgasmos por conta desse conflito deplorável dos israelenses e iranianos. É possível que a besta norte-americana, sedenta de sangue, não demore muito para começar a bombardear o Irã. Vejo essa miríade absurda de notícias pelo celular, como destaquei, e sinto uma porção de furores me dominando o espírito. Revolta-me o fato de que em torno de seis meses estarei morto, e um percevejo social como Trump vai continuar exercitando toda a sua malignidade sobre a face da Terra.

Falta de sorte a nossa o fato daquele rapaz ter errado o seu alvo por míseros dois ou três centímetros. Do contrário, quem quiser que diga que também sou uma criatura maligna, a esta hora este planeta estaria com um crápula a menos. Sim. Há vezes em que perco o sono com esse tipo de fúria sem efeito.

Ninguém me diga que devo buscar me ater a coisas boas, alimentar pensamentos positivos. Vão se danar, porra! Estou quase com um pé na cova e a esta altura da pouca vida que ainda me resta não me sinto nada inclinado a deixar para seu fulano, cicrano ou beltrano memórias boazinhas, mensagens bem-comportadas, testemunhos de um indivíduo superior, corajoso perante a morte. Nem a pau! Como expus em alguma passagem deste meu relato, não vou dar esse gostinho à Moça da Foice. Quem decidirá o momento de deixar este mundo serei eu e ninguém mais.

Quase meia-noite. Bebo agora uma Coca-Cola bem geladinha e soltarei umas duas ou mais flatulências. Que se fodam, repito, o meu pâncreas e as orientações do doutor Epitácio Coelho, aquele oncologista filho de uma puta, rosado e careca. Ao menos poderia ter fingido algum sentimento de consternação ao me comunicar a metástase do meu câncer. Um cacete! Disse tudo com todas as letras e sem empatia alguma.

Torço que ele também morra o mais breve possível. E, para meu regozijo, acometido por um câncer de pâncreas. A Coca está perfeita. Não me importa que talvez prejudique meu sono, contribua para a insônia. Minhas noites têm sido longas.

O meu enfurecimento começa a borbulhar logo que anoitece e só aumenta nas horas seguintes. Por onde andará o michê do Ricardo Gurgel? Não o avisto há um bom tempo. A última vez foi em uma lanchonete e bar no Alto da Conceição. Estava à vontade, sem camisa, jogando sinuca e tragando o seu cigarrinho barato. Tipo realmente malandro, vagabundo, decerto bebendo à custa de alguém. Nunca quis saber de trabalhar. Afastei-me antes que ele desse por minha presença. Imagino agora que isso foi há uns oito ou nove meses. Tinha ido ali perto cortar o cabelo.

Hoje não faço mais esse tipo de coisa: percorrer boa parte da cidade tão só para cortar o cabelo e, às vezes, tirar a barba. Morro de preguiça de me barbear. Eu era cliente de há muitos anos do Juarez Praxedes. Ótimo cabeleireiro e bastante bonito. Mas esse nunca foi para o meu bico; tipo casado e religioso. Salão alugado no Beco das Frutas. Após uns cinco anos, conseguiu comprar o próprio prédio.

Passou-me o endereço e continuei cortando a cabeleira com ele, apesar da distância. Nessa época eu ainda tinha uma moto, que foi roubada no Centro desta cidade corrupta. Isso ocorreu há uns três anos. Nunca a polícia encontrou minha Pop 2014.

Admito que já escrevi desaforos demais. Que o leitor, digo isto respeitosamente, vá se foder se considerar que rabisquei apenas tolices, que não produzi nada de literariamente valioso. Talvez tenha razão, não sou o dono da verdade, entretanto quem manda nesta narrativa revoltada sou eu e acabou-se.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 2

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 3

Marcos Ferreira e escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 15/06/2025 - 09:30h

O Efeito Casulo – Dia 3

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Havia começado a me barbear. A barba crescida, o cabelo desgrenhado e precisando de corte são detalhes que pioram a minha autoestima. A tendência é que me sinta um tanto mais deprimido, além dos motivos que hoje possuo para não me mostrar de bem com a vida, feliz na minha solidão espontânea. Do outro lado do portão, para a minha curiosidade, a voz crescia, chamando alto.

Alguém pronunciava meu nome com vigor: “Fernando?!” “Tem alguém em casa?!” Apurei o ouvido, mas não reconheci a voz feminina. Claro que eu não iria atender. Ainda menos em se tratando de mulher. Não me sinto à vontade para abrir este domicílio sem aviso prévio. No geral, sendo franco, não gosto de visitas de surpresa. Hoje é tudo tão fácil; sem dificuldade. Logo o benquisto cidadão ou cidadã pode telefonar antes de aparecer, ou enviar uma mensagem pelo WhatsApp com antecedência, de forma que possamos avaliar a conveniência ou não da referida visita. Ou, além desse aspecto, até para saber se a gente não está em um outro lugar.

Como é bom, apesar do estado psicológico em que me encontro, receber amigos de nossa estima, carinho e admiração. Isso me faz um bem enorme. Entretanto, sem que me julguem mal, gosto de que esses amigos surjam em hora oportuna, de tal jeito que possam ser recebidos com os merecidos afagos. No mais das vezes nós tomamos um cafezinho, e o bate-papo é algo do melhor nível. Como na canção do Milton Nascimento, “amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves”. Percebo há meses que minha memória está por demais prejudicada. Isso acarreta consequências ruins, interfere de modo negativo no meu astral e bem-estar. Assim mesmo, levando em consideração o tom grave e merencório, preciso tomar cuidado para não descambar para a autopiedade. Não é por esse aspecto que desejo ser lembrado.

Seja como for, sem que tenha nada a ver com preferência por fulano ou sicrano, daqui por diante não estarei disponível como de hábito. Sinto neste instante uma profunda necessidade de ficar aqui sozinho comigo. Esse mal repentino me tirou a graça da confraternização, da confraria cheia de motejos saudáveis, abraços, contentamento mútuo como poucas vezes já experimentei em minha vida.

Continuavam insistindo em chamar pelo meu nome lá fora. Pensei de imediato que talvez fossem aquelas testemunhas de Jeová. Sim. Costumam aparecer nesse horário do fim da tarde para início da noite. Continuei tirando a barba sem me sentir perturbado. Daí a pouco umas leves batidas se sucedem no portão e meu nome outra vez foi pronunciado. Desta feita a voz era masculina. Esse último detalhe me reforçou a suspeita de que fossem realmente testemunhas de Jeová. Sim. Algumas dessas agradáveis “testemunhas” já me conhecem pelo nome. Embora eu não me ligue a nenhum tipo de religião, sempre recebi tais pessoas com respeito, indivíduos que (supõe-se) testemunharam algum milagre ou ação magnânima do Todo-Poderoso. Em diversas ocasiões, portanto, lhes dou a merecida atenção durante um determinado tempo.

Nunca as convidei a entrar. A conversa se desenrola no limiar do portão, na calçada. Estabeleço essa margem de intimidade e segurança. Neste ensejo, como já relatei, não quero atender ninguém. Após uns longos dias sem me barbear, o que não é raro, agora reunira forças, espantara a preguiça, e estava raspando a cara. Com a barba então crescida, uso o recurso da água quente; ponho uma vasilha para ferver, tampo a cuba da pia do banheiro, ponho um pouco de água fria (para quebrar a fervura) e assim o barbeador vai sendo usado e desentupindo mais facilmente.

Anteontem fui a um mercado aqui no bairro, localizado a uns duzentos ou trezentos metros de minha casa, e adquiri boa quantidade de gêneros alimentícios, provisões para que não necessite sair durante um tempo considerável. Comprei também alguns pães. Costumo comer um por vez ainda que adquiridos há quatro dias ou mais. Agora, como é fácil deduzir, estou a fim de usufruir da solidão, do silêncio e quietude deste modesto lar. Gosto de ficar só com os meus pensamentos.

Evito, na medida em que posso, trazer a avassaladora realidade do câncer à memória. Ao menos por algumas horas. Quem sabe até um dia inteirinho. Assim a tensão e a carga sobre os meus ombros diminuem em um grau significativo. Já me dei conta de que não pensar demais na doença amortece um bocado a angústia, o sofrimento; estabelece uma simbólica distância da iniludível presença da morte. Acho que isso tem funcionado um pouco. Sobra uma quantidade a mais de cabeça para me dedicar à feitura deste imprevisível projeto literário. Gozo dessa maneira da agradável sensação de me encontrar com meu rosto barbeado com o devido esmero.

As prováveis e simpáticas testemunhas de Jeová foram embora. Ou quaisquer outras pessoas que vieram me fazer uma visita sem informar previamente que viriam. Gosto, repito, de ser avisado com alguma antecedência. Não é sempre que estamos com a casa em ordem para receber os que prezamos. Sobretudo agora que me deram esse diagnóstico avassalador, esse ultimato com data estimada.

Um gigantesco sentimento de reclusão se apoderou de mim. Não há outro nome a ser dado a isso! Ficar só é a única coisa que ora ambiciono. Neste minuto não me sinto com ânimo e alto-astral para dividir, compartilhar um bom papo, uma conversa leve e descontraída. Não. Afora um alto número de afazeres domésticos, preciso arrumar tempo e equilíbrio para redigir esta espécie de diário. Minha mente, não nego, está apreensiva.

Cogito escrever outras reminiscências e episódios mais recentes, a exemplo das supostas testemunhas de Jeová que vieram há pouco, no entanto este é um relato amargo, sem o prazer que a escrita normalmente me proporcionava. Pela primeira vez, infelizmente, escrevo sem prazer, sem a satisfação de antes.

Estou, volto a dizer, com provisões e não precisarei sair tão cedo. A geladeira e os armários estão abastecidos. Neste momento usufruo da boa sensação da barba feita. Por enquanto, em virtude do desânimo, não me alongarei nestas notas de melancolia e autoanálise. Melhor (ao menos para não resvalar no surrado recurso de escrever sobre o que não se tem para escrever) é ficar por aqui. Amanhã, com os ânimos possivelmente renovados, decerto terei algo mais para contar.

Leia tambémO Efeito Casulo – Dia 1

Leia também: O Efeito Casulo – Dia 2

Marcos Ferreira e escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 01/06/2025 - 08:28h

O Efeito Casulo – Dia 1

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

“Sabemos o que somos, mas ignoramos

o que podemos nos tornar.”

(William Shakespeare)

Hoje pela manhã, antes das nove, eu já estava diante do médico. Entregou-me um tipo de envelope de papel grosso e luminoso com duas folhas contendo o resultado dos últimos exames. Nossa conversa foi direta. Mal tive tempo de assimilar aquela informação devastadora. Sendo franco, a ficha ainda não caiu. Vai demorar um bocado. Apesar de tudo, como veem, começo a escrever.

Pediu que eu me sentasse. Ele se mexia em sua cadeira giratória revestida com um material parecido com couro. Sentei-me. Presumi que a informação que me daria não era boa. Doutor Epitácio Coelho, com a mansuetude de sempre, não fez rodeios. Pareceu-me que não foi (decerto não) a primeira vez que comunicou a um paciente que o fim chegou. Não franziu a testa, não titubeou, não gaguejou. Disse tudo olhando bem dentro dos meus olhos. Perguntei, com voz trêmula, quanto tempo ele achava que ainda me resta. “Uns seis ou sete meses”, respondeu.

O tumor, segundo ele, já se alastrou para outros órgãos, inclusive para os ossos. A sensação que tive nessa hora foi de que a minha alma saiu do meu corpo. O sangue me fugiu. Devo ter ficado tão branco quanto o jaleco do doutor Epitácio. “Não adianta operar. Seria inútil, Fernando. O seu pâncreas está comprometido em quase oitenta por cento”, observou.

Fiz outra pergunta ao oncologista. Indaguei se estava levando em conta a quimioterapia. “Sim. Sem ela, que a essa altura não nos deixa muita opção, talvez você não dure seis meses”, avaliou com absoluta impassibilidade. “Sinto muito”, disse por último, desta vez erguendo as grossas sobrancelhas. Cruzou os dedos alvos e peludos. Estava ali um homem pouco mais velho que eu, alto, magro e com vasta careca. Diante das circunstâncias, falei que não vou me submeter à quimioterapia. Ele balançou a cabeça num gesto de reprovação. Tornou a frisar que assim o meu tempo de vida diminuirá possivelmente em quarenta ou cinquenta dias. Respirei fundo.

— Ok. Mas não vou esperar o fim.

— O que pretende dizer com isso.

— É que vou me antecipar, doutor.

Não falei mais uma palavra. Saí do consultório e me sentei em um banco de jardim na área à direita da clínica, perto de onde eu havia trancado a bicicleta. Fiquei naquele banco de madeira e alvenaria durante uma meia hora. Tempo o bastante para que eu fumasse dois cigarros compulsivamente. Um sentimento de revolta se apoderou de mim. Pensei logo nos nove ou dez livros inéditos que tenho neste computador. Também estão salvos no e-mail. Preciso compartilhar a senha com alguém para que tenha acesso aos arquivos. Aposto na improvável possibilidade de que um mecenas se interesse em publicar minhas obras depois que me for. É o que posso fazer. Deixarei aos amigos mais próximos a incumbência de publicar meus livros.

Não fui para a loja, destranquei a bicicleta, que havia prendido em uma parte de madeira de outro banco, e vim direto para casa. Pensei em telefonar para alguém. A primeira pessoa que veio à minha mente foi Evandro Gurgel. Peguei o telefone, localizei o nome dele, mas apaguei o celular e o larguei em cima da escrivaninha. Nosso relacionamento acabou em novembro de 2023. Semana passada tive notícias de que está com outro homem. Isso mexeu comigo. Ainda me sinto ligado a ele de alguma maneira. Relação tóxica. Evandro Gurgel só queria o meu pouco dinheiro para comprar maconha. Águas passadas.

Agora preciso me fixar na escrita desta autobiografia desesperada. Amanhã irei à loja pedir demissão para obter os valores rescisórios. Terei que falar sobre o câncer. Torço que o patrão seja camarada, que encerre o vínculo empregatício como se a decisão partisse dele. Assim terei direito a alguns benefícios. O próximo passo é procurar a previdência social e requerer um auxílio-doença.

Talvez esta narrativa, que planejo publicar no blogue, tome rumos inesperados e alcance um público muito maior. Quem sabe, por meios que ignoro, isto ultrapasse as fronteiras do estado e até desta nação. Portugal seria ótimo. Não sei por quais destinos o vento conduzirá estas páginas de pessimismo e amargor. Isto está longe de ser um projeto, uma publicação do gênero autoajuda. Não tenho ideia, portanto, do rumo que isto tomará. O mais provável, sendo racional, é que se perca no esquecimento. A exemplo de outros planos que vi sumirem pelo ralo de minha vida.

Vim à luz e vivo em Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, neste Brasil de tanta politicagem, roubalheiras e gente sofrida. Depois de diversas reflexões e considerações, decidi que vou me suicidar no momento oportuno. Por enquanto, não. Antes, além de outros objetivos, pretendo escrever este livro. Se nunca for publicado, sequer de forma póstuma, não interessa. Muita coisa deixou de ter importância para mim. Melhor dizendo, nada mais me importa. A literatura é a única âncora que me prende a este mundo caótico e mesquinho. Estou cansado, de saco cheio. Cansei de rastejar, de me contentar com migalhas. Nasci e cresci na miséria, passei fome como um cachorro abandonado, mas aos poucos, de um jeito medíocre, sobrevivi à poderosa máquina de moer miseráveis que continua em plena atividade.

Sei que contestarão e vão dizer que devo agradecer a Deus por “tudo” que tenho. Por exemplo, por estar vivo e com saúde. Que saúde?! Porra nenhuma! Ninguém está sabendo de nada. Dirão também que devo me sentir privilegiado porque tenho alguns amigos bacanas, pessoas que de fato me têm consideração e me querem bem. Não nego que isso é verdade. Porém, por diversas razões, já estou farto. Farto da vida. Faço uma rápida análise e vejo que nos últimos tempos me expus demais, e sem necessidade alguma. Dei palpite em temas que não devia.

Esqueci de me apresentar. Para quem não sabe, meu nome é João Fernando Soares Barros. Como literato, no entanto, eu me assino Fernando Barros. Nunca publiquei um livro. Quem sabe, por mais improvável que pareça, este seja o primeiro. Torço, sem querer abusar, que façam uma boa edição. Estou com cinquenta e dois anos, completados no último dia 27 de fevereiro.

Sou o unigênito de Pedro Soares dos Reis e de Amélia Soares Barros, ambos cearenses de Itapipoca. Tenho um metro setenta e dois e peso pouco mais de oitenta quilos. Minha pele é branca, os olhos e cabelos são castanhos claros. A maior parte do meu cabelo já é grisalha. Trabalho atualmente de vendedor em uma loja de peças de motocicleta na Avenida Presidente Dutra. Concluí somente o ensino médio. Ainda tentei duas vezes ingressar no curso de agronomia, contudo fui reprovado. Contentei-me a vida toda com subempregos no comércio.

Analfabeto, meu pai morreu há quase sessenta anos. Tinha só vinte e cinco. Carroceiro, foi atropelado por um caminhão juntamente com sua carroça. Ele e o burro morreram na hora. Minha mãe, lavadeira de roupas e empregada doméstica, findou-se com trinta e sete. Vítima de um infarto fulminante na casa dos patrões, um casal de dentistas que ouvi dizer que hoje mora no Alphaville.

É tarde. São duas e catorze. A tosse voltou. Tomarei o xarope que o doutor Epitácio Coelho me prescreveu. Por onde andará Evandro Gurgel? A julgar pelo horário, talvez já tenha dado e comido a bunda do cara com quem vive e fumado sua maconha. Que se fodam o maconheiro Evandro e o macho dele.

Vou me fechar. Não sairei de casa, não irei a eventos culturais como costumava fazer. Anteontem, por sinal, faltei ao lançamento do segundo livro de poemas de Júlio Rosado. Nesse caso, que fique registrado, foi apenas por esquecimento. Minha memória está prejudicada há um bom tempo. De fato, no entanto, eu não iria. Meu plano era enviar um motobói para adquirir um exemplar de “Alternâncias”, obra decerto de boa qualidade. Sairei, destaco, tão só para cuidar do que for estritamente necessário. Depois desse diagnóstico, a minha fobia social disparou. Espero que o poeta Júlio Rosado possa me desculpar pela ausência em sua noite de autógrafos.

Tenho menos de seis meses para concluir esta narrativa. Será escrita assim, à moda de um diário. Tentarei registrar algumas banalidades de minha vida. Penso no que seria e não encontro nada de muito relevante. De qualquer jeito, como o tempo é curto, talvez eu consiga publicar no blogue todo domingo, um capítulo de cada vez. Também é possível, a depender do câncer, que não vá muito longe. Além disso, preciso pensar em um meio indolor de abreviar minha própria existência.

Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
domingo - 12/05/2024 - 19:14h

Esconderijo de silêncios VI

Por François Silvestre

Pesquisa em areia monazítica (Foto ilustrativa)

Pesquisa em areia monazítica (Foto ilustrativa)

Desde a partida do padre Salomão, Januária quase acostuma-se com a calmaria religiosa entre as igrejas. O novo padre, tolerante, a igreja Batista, luterana, com um pastor tradicional, os terreiros de Candomblé sem perseguição, o centro espírita kardecista, com sua politica de caridade, e os ateus, minoritários, a fazer pouco caso de todas elas. Estava assim.

Estava. Januária começou a experimentar o abate de silêncios da contemporaneidade. O padre Thiago foi chamado às pressas por ordem do arcebispo da Diocese. Mal teve tempo de repassar orientações ao sacristão Teófilo. Ao mesmo tempo, chega em Januária um grupo de geólogos munidos de vasta bagagem de equipamentos. Verdadeira parafernália de furadoras, máquinas de escavação, lentes grossas, instrumentos variados e desconhecidos do lugar, além de vasilhas contendo inúmeros insumos químicos.

O que há de relação? Tudo. Na Diocese, o vigário de Januária é alertado para problemas futuros na sua paróquia. Que certamente terminará com a paz religiosa ali reinante. Por conta da religião? Não. Envolvendo as igrejas? Sim. Por que sim e não? Porque o envolvimento é financeiro e político, tendo a religião e, por via de consequência, as igrejas no bolo misturado, cujos ingredientes são a fé dos ingênuos, a pregação do terror, a invenção de milagres, o jejum da verdade, fartura da mentira, tudo em forno brando, lento, consumindo crenças e disseminando medos.

Foi (não se sabe como nem quando, dos silêncios antigos), descoberta uma rica mina de areia monazítica nas proximidades de Januária. E ainda a suspeita de petróleo nos escondidos do seu solo. Daí a equipe de geólogos. O padre recebe orientações e informações sobre tudo.

Era guerra pela frente. Um “pastor” famoso de uma pseudo igreja, Vitória em Cristo, estava afivelando as malas para hospedar-se em Januária. Ambição que põe diariamente Cristo de volta na cruz. Esse “pastor” aspeado de título e desprovido de moral foi quem bancou e remeteu a Januária os profissionais da geologia. Mas haveria um preparo. Os geólogos não poderiam informar sobre as reais intenções da pesquisa. Primeiramente seria fundada a Igreja do Fariseu nacional. Ele iria preparar a população para justificar seus intentos.

Veja capítulos anteriores

Leia também: Esconderijo de silêncios I

Leia tambémEsconderijo de silêncios II

Leia tambémEsconderijo de silêncios III

Leia tambémEsconderijo de silêncios IV

Leia também: Esconderijo de silêncios V

Ocorre que a igreja católica, pelo viés dos seus altares e informantes, descobriu a marmota. E resolveu prevenir-se. Mais um dos silêncios abatido em pleno voo.

François Silvestre é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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domingo - 22/10/2023 - 10:48h

O caso da madame

Por Marcelo Alves

Ilustração de Fernando Vicente/Doméstika)

Ilustração de Fernando Vicente/Doméstika)

Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert (1821-1880), é uma obra-prima. Está entre os melhores romances já escritos. Para alguns, é mesmo o melhor. E eu ainda me lembro das sensações que tive quando o li, lá pelo final da minha adolescência, começo da vida adulta. Foram de um realismo de fazer corar os mais pudicos.

Parcialmente inspirado em um caso real, o enredo conta as aventuras e desventuras de Emma Bovary, nascida Roualt, uma jovem francesa que se casa com o médico provinciano, extremamente trabalhador, Charles Bovary. Apesar da paixão do marido por ela, Emma sente muito pouco por ele.

À própria falta de amor, ela compensa imaginando os amores que lê em livros/estórias românticas. Ela lê Walter Scott (1771-1832) e outros menos votados. Quando um dia Emma frequenta um baile promovido pela nobreza de então, ela ali se mistura, entre nobres e ricos, e imagina que nasceu para viver aqueles sonhos. E esses ideais românticos acabam por destruir seu casamento e sua vida (já paro por aqui, para não fazer mais spoiler).

Madame Bovary” não teve uma vida fácil. Não falo aqui da personagem, mas, sim, da obra/romance de Flaubert. Ela tratava abertamente de adultério, de suicídio, era anticlerical, era feminista. Como era praxe à época, ela foi antecipadamente publicada em folhetins, já em 1856, na Revue de Paris, de Maxime Du Camp (1822-1894). Fez escândalo. “Obscena, imoral”, gritaram. Tentaram proibi-la. Era o reacionarismo, o puritanismo, o machismo e um monte de outros “ismos” que vemos ainda hoje, infelizmente, pipocar em algumas cabecinhas coroadas.

Em fevereiro de 1857, a revista, o seu editor e Gustave Flaubert, este até então desconhecido do grande público, foram processados e julgados na França, por um tal “ultraje à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. Apesar da insistência da procuradoria, embora criticados pelo “realismo vulgar e frequentemente chocante” da personagem principal, eles foram absolvidos. Aliás, anos depois, como informam Nicholas J. Karolides, Margaret Bald e Dawn B. Sova, em “120 Banned Books: Censorship Histories of World Literature” (Checkmark Books, 2011), o editor inglês de Flaubert também veio a ser processado no Reino Unido.

De nada adiantou essa zoada toda. Talvez tenha até surtido um efeito contrário ao pretendido. Publicado integralmente em 1857, alguns meses após o processo francês, o romance fez um sucesso retumbante. A madame ganhou o mundo.

Como obra literária, “Madame Bovary” inaugura o realismo. E talvez isso já bastasse para garantir seu lugar na história. Mas a sua qualidade artística é também inconteste. Como anota Jean-Claude Berton, no pequenino mas interessantíssimo “50 romans clés de la littérature française” (Hatier, 1993), ao polir cada frase, Flaubert desejou – e conseguiu – “fazer da linguagem a matéria do romance”.

Quanto ao conteúdo, é uma obra libertária. Fez um bem enorme ao feminismo. Trouxe para debate o divórcio, que, antes previsto no Código de Napoleão (1804), a Restauração na França havia abolido. Uma nova consciência do drama, em especial para as mulheres, de uniões viciadas, levou em 1884, após lutas parlamentares e de opinião, à reintrodução do instituto no país, independentemente do consentimento mútuo dos cônjuges, embora limitado a causas específicas. Gradualmente, foi-se impondo, em outros aspectos, a proteção da autonomia da mulher e do seu patrimônio. Botem isso também na conta, em boa parte, da Madame Bovary.

Por fim, a estória de Emma é interessantíssima sob o ponto de vista filosófico, notadamente quanto ao denominado livre arbítrio. Ela nos mostra que, quando se busca a felicidade, podemos pegar o caminho que nos leva à tragédia.

Bom, repito: de nada adiantou censurar o caso de Emma. A história ensina que é proibido proibir uma obra-prima. O escândalo fez-se sucesso. E o legado da madame é enorme.

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

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Categoria(s): Crônica
quinta-feira - 30/03/2023 - 07:30h
Pré-venda

“Não espere nada do amanhã” é o quarto livro de Edson Soares

O produtor cultural e escritor Edson Soares colocou em pré-venda a edição limitada do seu quarto e novo romance, chamado “Não Espere Nada do Amanhã”. O título sairá pela Editora Idearte, em capa dura, ilustrações, corte colorido, 796 páginas de suspense e terror.

Soares apresentará seu quarto livro ao público leitor (Foto: divulgação)

Soares apresentará seu quarto livro ao público leitor (Foto: divulgação)

Adquirindo o exemplar nesta modalidade de pré-venda, o leitor ganhará diversos brindes (como marcadores de páginas, porta-copos, ecobag, entre outros) e concorrerá ao sorteio de um aparelho Kindle 11ª Geração da Amazon.

Sinopse 

Um livro ousado. Crime, mistério, suspense, erotismo. Em dezembro de 2012, a cidade de uma ilha caribenha é sacudida pelo brutal assassinato de Pedro Maldonado, o mais famoso ator de teatro local, um artista polêmico, amado e odiado, de língua ferina.

Meses antes de sua morte, ele havia publicado um livro de memórias onde contava os detalhes picantes de sua vida amorosa, que envolvia figuras da alta sociedade do lugar. A partir daí, a trama se desenrola.

O autor

Jornalista, produtor cultural, roteirista, editor, escritor e cineasta, Edson Soares nasceu em Serra Negra do Norte (RN), começando ainda muito jovem a atuar na imprensa do Seridó, Mossoró e Natal. Depois diversificou trabalho e foco para o campo cultural, como a literatura.

Serviço

Data provável do coquetel de lançamento: Maio/2023.

Local: Livraria Nobel – (Praia Shopping, Natal).

Contato: edsonsoares68@hotmail.com

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Categoria(s): Cultura
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domingo - 04/12/2022 - 13:34h

Maranhão – Capítulo XVII

Por Inácio Augusto de Almeida

Quando o Henrique terminou de dar as cartas, Fernando gelou. Tinha recebido um rei, um valete, uma dama e um dez. Todas as cartas do naipe de ouros. A quinta carta não teve coragem de olhar. Preferiu não vê-la de imediato.

Zé Leite foi o primeiro a apostar. Apenas abriu a mesa. Como era o primeiro a falar, pela ordem, disse que jogava. Arrupiado continuava sem coragem de olhar a quinta carta.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Agora era a sua vez de falar. Tinha cinco cartas na mão, fechadas. Mas só tinha visto quatro.

– As suas duas fichas, Zé Leite, as quatro do Luís e mais oito minhas. Agora o Henrique já diz se entra com quatorze.

O ar superior de falar procurava transmitir aos outros jogadores a certeza de que estava senhor da situação. Mas isto não foi suficiente para expulsar o Henrique da parada. Emérito jogador de pôquer, o coronel reformado não disse uma só palavra. Apenas colocou sobre a mesa as quatorze fichas que o Fernando Arrupiado apostara e, lentamente, contando-as uma a uma, colocou mais vinte e oito fichas. E sequer olhou para o Fernando ou para algum outro jogador.

– Zé Leite olhou bem as cartas e resolveu abandoná-las. Preferia perder as duas fichas iniciais a investir mais quarenta. Luís pensou, pensou, finalmente resolveu completar. Não dobraria, mas também não abandonaria.

Arrupiado sentia-se tentado a olhar a quinta carta. Chegou mesmo a abrir lentamente o baralho. Mas ao chegar na quarta carta, parou. Além do mais sabia que se ela não fosse o ás de ouro, o que completaria o Royal, poderia ser um nove de ouros, o que formaria um street. E mesmo que não fosse um ás ou um nove de ouros, poderia ser muito bem uma carta do naipe de ouros, o que lhe daria ainda um bom jogo. E havia ainda a chance de, mesmo sendo uma carta diferente, poder arriscar pedindo uma carta. E eles iriam pensar que estaria de four.

– Vai jogar, senhor Fernando. Estamos esperando.

– Suas vinte e oito fichas e mais cinquenta e seis.

– Suas cinquenta e seis e mais cento e doze.

O coronel falou calmamente. Fernando e Luís trocaram um rápido olhar.

– Eu passo, disse Luís.

Arrupiado acendeu um cigarro. Passou a mão no queixo. Começou a abrir as cartas. Mas, novamente, parou antes de abrir a quinta.

– Aí estão as cento e doze fichas.

“Se esta carta for o ás de ouros, eu como os galões deste corona. Como não redobrei, ele jamais vai imaginar que eu tenho um Royal de ouros.”

– Vai querer cartas, senhor Fernando?

Aquele senhor colocado antes do seu nome pelo Henrique, deu a Fernando a certeza de que o coronel estava até a tampa. No mínimo é um flash. Tá mais para um street, já que dificilmente poderá haver um four. Zé Leite não jogou, o que indica cartas diferentes. No máximo tinha dois pares. Eu tenho quatro cartas sequenciadas do mesmo naipe. Como o Luís acompanhou até 28 fichas, é provável que estivesse com uma trinca ou uma sequência máxima. Não, o coronel não deve ter four. Ele está com um street. No mínimo com um Flash.

– Vai querer cartas, SEU FERNANDO?

Lentamente começou a olhar a quinta carta. Aos poucos um ás negro foi surgindo. E aquele ás de espadas parecia rir dele. Agora a dúvida. Tinha em mãos uma sequência máxima. Se não pedisse carta, poderia pagar para ver o jogo do coronel. Ele poderia também estar de sequência. E poderia muito bem estar blefando.

– Vai querer cartas, SEU FERNANDO!!!

– Uma carta. Apenas uma.

O coronel Henrique colocou a carta em cima da mesa, em frente ao Fernando e, num gesto lento, abandona o resto do baralho bem no centro da mesa. Apenas as cinco cartas que tirara de mão permaneceram com ele.

– É o senhor quem aposta, SEU FERNANDO!

– Veio em Arrupiado o impulso de, sem olhar a carta, apostar duzentas fichas. Daria ao Henrique a impressão que estaria de four. Mas lembrou-se que estava enfrentando o maior jogador de pôquer do Maranhão.

– Lentamente começou a “chorar” a nova carta.

O ás vermelho começou a surgir. Quando o A ficou totalmente visível, parou. Não sabia se era de ouros. Sabia que era um ás vermelho.

– Duzentas e vinte e quatro fichas, SEU HENRIQUE!

O velho coronel olhou novamente as cartas que tinha. Encarou o Fernando bem de frente e numa voz mais do que firme:

– Aqui estão suas duzentas e vinte e quatro e mais quatrocentas e quarenta e oito, seu Fernando.

Sentiu que o Henrique não tinha Royal. Disto agora tinha certeza. Voltara a aposta, mas já não pronunciava as palavras com tanta firmeza. O coronel tinha um street. Tinha certeza que era um street o jogo dele. Agora, bastava aquele ás ser de ouros. Se fosse, era só apostar mais mil e tantas fichas e passar uns seis meses farreando por conta do Royal.

Começou a puxar lentamente o ás vermelho. Era preciso saber o naipe. Ouros era tudo, copas era nada. E quando o coração vermelho começou a aparecer, teve a impressão de que o seu subia pela boca.

– Vai pagar para ver, SEU FERNANDO?!!!

Não, não podia pagar, nem muito menos tentar um blefe desesperado. O tom de voz do Henrique deixava claro que tinha percebido a sua frustração.

– Não, Henrique, desta vez você ganhou. Pode levar as fichas. Mas, por gentileza, quero ver que jogo você tinha!

– Estamos jogando pôquer, Fernando.

– Sim, sei, mas é que foi uma parada tão interessante…

Juntando as fichas e rindo, Henrique completou:

– Melhor não olhar, Fernando, melhor não olhar. O pôquer, Fernando, é como a vida. Nunca queira saber como seria se não tivesse sido como foi.

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

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domingo - 27/11/2022 - 13:04h

Maranhão – Capítulo XVI

Por Inácio Augusto de Almeida

– Senhor, escutai a minha prece. Por que tanto sofrimento, Senhor? Que tanto mal eu fiz?fé, oração, 2Lopez falava baixinho, sua voz era um bisbilho. Respirava sem muito ânimo. Quando um raio de sol, atravessando a palha, veio sobre a sua cabeça e tocou os seus olhos, deixando-o encandeado, ergueu a vista para olhar de frente aquela luz. E uma grande esperança começou a tomar conta de si. Começava a crescer nele a esperança. E continuou a rezar… a rezar… a…

 Acordou com uma linda índia a lhe oferecer, dentro de uma cuia, um líquido de uma cor estranha. Pelo gesto que ela fazia, entendeu que era para ele tomar. Ao provar, percebeu que o gosto era agradável. Bebia e olhava a bela índia a sorrir. Lembrou-se de que os canibais, antes de degustarem suas presas, tinham o costume de engordá-las. Deu um pulo e jogou o resto do líquido fora. A índia trocou o sorriso por uma cara fechada. Nos seus olhos, antes ternos, havia agora uma dureza sem brilho.

– Não quero mais, não quero mais.

Lopez falava e gesticulava. Sabia que a índia não entendia o que dizia, por isso se esforçava nos movimentos, principalmente nos das mãos e da cabeça. Ela apenas abaixou-se e pegando a cuia, tomou o resto que ficara, como querendo mostrar ao Lopez que a bebida era boa, que não iria lhe fazer nenhum mal.

Lopez respirou fundo. Era a primeira vez que conseguia algum tipo de comunicação. E bastou isto para o seu espírito irreverente aflorar.

“Se estes índios deixarem eu conseguir me fazer entender, se eu conseguir entendê-los..”

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domingo - 20/11/2022 - 13:46h

Maranhão – Capítulo XV

Por Inácio Augusto de Almeida 

– Enfim, voltou. Outro vale?

– Não Bórgia, não. Você só pensa em dinheiro. Tá sabendo que Sarney está na chapa do Tancredo?

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

– Você tá brincando! Você, Conversinha, morre e não aprende. Vai, diz logo de quanto é o vale, diz.

– Bórgia, nem o rádio você ouve mais. Que diabo de jornalista é você? Vai, liga o rádio em qualquer estação, liga.

Bórgia começou a se dar conta de que o Vladimir não estava brincando. Além do mais, em matéria de política, sabia que nada era impossível.

– Tá bem, Conversinha. E daí?

-Ufa, ah inteligência brilhante. Você não tem medo de que eu morra primeiro?

– Se Você morrer primeiro, eu lhe enterro e pronto.

– Ainda bem que você me enterra, não vai fazer como a Viúva Louca que mandou dar o corpo do marido aos urubus e que os ossos fossem jogados no lixo.

– Que história é esta, Conversinha?

– O filho do morto tem isto por escrito. Mas não é da Viúva Louca que eu vim tratar com você. O que eu quero lhe dizer, QI superior, é que nós temos que embarcar nesta maré logo. Mande parar de rodar o jornal. Temos de mudar a manchete.

– Parar?! E o que já está pronto?!

– Vende no quilo ou joga onde a Viúva Louca mandou jogar os ossos do marido.

– Para, para de rodar, Jeremias. Vai, Conversinha, qual vai ser a manchete do O INDEPENDENTE?

– Segura esta, Bórgia. TANCREDO E SARNEY FORMAM CHAPA DEMOCRÁTICA.

– Sei não, Vladimir. Está me parecendo uma manchete fria.

– Fria, não. Cautelosa. A porta está apenas entreaberta. O homem que gosta de cheiro de cavalo pode resolver…

– Resolve nada. Se pensar em retrocesso, Conversinha, o povo escancara a porta de vez.

– Vladimir riu. O Bórgia não tinha mesmo jeito.

– Então tá. Vamos entrar com tudo. Não é assim que você quer? Veja se desta você gosta.

TANCREDO E SARNEY UNEM-SE E DITADURA AGONIZA.

-Tá doido, tá doido. Você com seus exageros ainda vai terminar fechando o jornal.

– O INDEPENDENTE?

– De que jornal estamos falando, seu capadócio?

– Seu o quê?

– Para de gracejos, Conversinha. Tá todo mundo esperando o diabo desta manchete. Já são quase duas da madrugada, deste jeito o jornal vai atrasar.

– Atrasa não, vamos tentar outra.

Passando as mãos na cabeça, o Bórgia era o retrato vivo da angústia, da aflição, da ansiedade. O desejo de agradar Sarney se contrapondo ao medo de uma reviravolta no quadro político. Aí, lembrou-se do calcanhar de Aquiles do Conversinha.

– Se você fizer a manchete e a matéria em menos de quinze minutos, nós saímos daqui direto para a Maria Araújo, e vai ser cerveja até amanhã.

– Pegamos o sol com a mão?

– Com a mão, palavra do Bórgia.

– Vem, senta aqui atrás da minha cadeira…

E a máquina de escrever começou a funcionar numa velocidade estonteante.

REDEMOCRATIZAÇÃO: TANCREDO E SARNEY UNIDOS.

Conversinha virou-se na cadeira e perguntou:

– Tá boa, começo a matéria?

Bórgia suspirou aliviado.

-Vai, tá ótima, faz a matéria.

Levantou-se da cadeira e, andando em círculos, enquanto esfregava as mãos, olhava para o Conversinha e se animava até a cantarolar um tango. Quando sentia-se feliz tinha este hábito. Passava a sentir-se o próprio Gardel. Conversinha é que é que não aguentava o desafino. E cheio de moral.

– Ou você para, ou paro eu.

– Claro, claro, vai, continua a escrever.

A cadência da máquina de escrever lembrava o matraquear de uma metralhadora. Conversinha escrevia numa velocidade assustadora.

Em silêncio, Bórgia se afasta e fica encostado na porta de entrada do jornal, de lá, olhando para Conversinha. Tinha por ele uma profunda admiração, sabia o quanto era competente. Pena que seu pouco senso de responsabilidade e o amor à bebida o tornava um profissional de pouca confiabilidade. Era dotado de grande senso jornalístico, mas…

– Na porta, Bórgia.

– É, olhando estrelas.

– Vai ver procurando nelas um homem honesto como você.

– Vai te lascar, Lopes.

Arrupiado riu. Aquele Lopes não perdia uma chance de sacanear o Bórgia.

– E vocês, que diabos estão fazendo por uma hora destas? Perderam o sono?

– Não, Bórgia. Eu passei lá no Grêmio para fazer uma horinha e como o Fernando já ia saindo, resolvemos dar uma volta nas meninas.

O barulho da máquina do Conversinha parou.

– Lopes, Arrupiado! Vamos, entrem.

– Vão entrar não. Eles já estão indo para a Maria Araújo. Vão, vão, digam a Maria que eu e o Conversinha tamos já chegando. E podem ir bebendo que a festa é minha. Vão, vão, antes que eu mude de idéia.

E, virando-se para Conversinha.

– Vai, continua a escrever. Você só vai se levantar daí quando terminar.

Mal o Lopes e o Arrupiado dobraram a esquina, o Conversinha puxou o papel da máquina, anunciando o término, e já puxando o Bórgia pelo braço.

–  Vamos, vamos que hoje vai ser uma noitada inesquecível. Pode deixar que daqui pra frente o Jeremias faz o resto.

– Só se eu estivesse louco, mandar rodar um jornal sem ler a matéria da primeira página. Principalmente quando feita por você, seu irresponsável.

Conversinha ria. Sabia do bem que o Bórgia lhe queria. Mas sabia também o quanto o dono do O INDEPENDENTE era cauteloso… Aproveitou enquanto Bórgia lia para pentear os cabelos, mania que tinha sempre ao terminar uma matéria que achava ter ficado boa.

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

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domingo - 13/11/2022 - 15:12h

Maranhão – Capítulo XIV

Por Inácio Augusto de Almeida

Dentro do ônibus, Izaías não conseguia tirar da cabeça a figura da velha cigana. A bolsa em que trazia as cadernetas de anotações que o Sandoval lhe entregara estava embaixo dos seus pés. Em nenhum momento dela perdia contato. Representavam aquelas cadernetas, para ele, a certeza de uma boa gratificação e a possibilidade de novos serviços.cigana,mesa de cigana,adivinhação, ler o futuro, adivinhação, oráculo, magia

Num banco ao lado, um homem obeso, bastante obeso, que tempos depois Izaías iria saber ser, aquele gordo, o maior orador político do Maranhão. Um paraibano que falava de uma forma fluente e vibrante e que era capaz de convencer um padre das vantagens do pecado. Mário de Almeida, Mário Cavalcanti de Almeida, de quem José Américo de Almeida era tio.

A estrada de terra fazia com que o ônibus sacudisse um pouco, mas isto não era o mais ruim. O pior era o gosto de terra, a poeira que entrava pela janela quando um outro carro cruzava. Olhou para os outros passageiros. Mário de Almeida dormia o sono dos justos. Os outros pareciam assustados com os solavancos provocados pela buraqueira que Dr. Feriado tinha apelidado de estrada. Contando ele mesmo, Izaías viu que havia apenas oito passageiros dentro do ônibus. E havia lugar para mais de vinte. Para ser exato, havia vinte e cinco lugares dentro daquela carroceria de madeira.

A figura da cigana teimava em voltar. Às vezes tinha a impressão de que ela estava ali, dentro daquele ônibus.

“Eu ser um escritor… Sandoval tem razão. Aquela cigana queria mesmo uma moeda. E conseguiu…”

Mário Cavalcanti de Almeida começou a roncar.

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

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domingo - 06/11/2022 - 13:42h

Maranhão – Capítulo XIII

Por Inácio Augusto de Almeida

As índias eram realmente bonitas. Lopez vivia a dúvida da aproximação. Navegava entre o medo de índios canibais e o esplendor daquelas índias. A libido do espanhol foi mais forte do que o medo. Esgueirando-se a vegetação quase rasteira da margem do rio. Lopez ia pouco a pouco aproximando-se do grupo alegre que se banhava.lenda amazônica, índia, mulher, ilustração

O voo das garças e das jaçanãs, não conseguia desviar os olhos de Lopez.

Nem mesmo quando quase esbarra num bando de marrecas, que assustadas, alçam voo, tirou os olhos das índias. Lopez estava fascinado, mas as índias não. E ao verem a revoada de marrecas, perceberam que havia alguém a espiá-las. E quando deram o alarme…

– Senhores, senhores…

Colocado numa pequena casa de palha, bem no fundo da taba, o marujo espanhol sentiu-se pela primeira vez em sua vida sem forças para continuar lutando. Havia o cansaço, a desesperança, a falta de tudo. De joelhos começou a rezar. Sabia que só um milagre poderia salvá-lo.

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domingo - 06/11/2022 - 09:22h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 21

Paranoia

Por Marcos Ferreira

Depois que Luciano foi embora, estando Jaime sozinho no apartamento, ele se posicionou mais uma vez no parapeito da varanda para contemplar a rua e parte do movimento da cidade. Não tinha lembrança de que em algum momento de sua vida estivera em um prédio tão alto. Ao todo o edifício possuía vinte andares. A vista daquele ponto era realmente privilegiada em virtude do formado em arco da varanda, algo que proporcionava a tal visão panorâmica referida por Luciano.

Exausto devido a todo o estresse a que fora submetido na madrugada anterior, oportunidade em que trocou chumbo com os homens de Rato Branco e conseguiu acertar um tiro certeiro na cabeça do motorista da picape de cor cinza, fazendo com que esta descesse a ribanceira e explodisse com os ocupantes, Jaime acabou pegando no sono na cama de Luciano Aires.Paranoia, sombra, mania de perseguição

Ele próprio, ao ter a pontaria elogiada pelo amigo advogado, ressaltou que ter alvejado o dito-cujo em movimento não fora nada mais que um lance de sorte. Nessa manhã, portanto, extenuado física e psicologicamente, o escritor fora da lei terminou caindo num sono profundo, confortavelmente embalado pelo friozinho do aparelho de ar-condicionado. Quando acordou, já um tanto preocupado com o horário, viu que era tarde para realizar a postagem dos originais.

Ainda assim, por via das dúvidas, resolveu descer e verificar se a agência estava fechada. Qual era mesmo o nome da rua? “Major Moisés Resende. Um carioca filho da puta e alcaguete da ditadura homenageado em Vila Negra”, dissera Luciano Aires num tom de revolta. Naquele fim de tarde, portanto, ao cruzar a portaria do Condomínio Anatólia e se ver com os pés na calçada, Jaime sentiu mais uma vez a sensação de que estava sendo observado por algum pistoleiro de Rato Branco.

Em meio ao luxo, ao requinte do Anatólia, Jaime se sentia uma espécie de estranho no ninho. Até o sujeito da portaria, um tipo vermelho e de olhos agateados, o fitara com cara de poucos amigos. Apertado no colete à prova de balas sob a jaqueta jeans, o revólver no cós da calça, seu receio era ainda incômodo. Antes de efetuar qualquer passo, tendo às costas uma mochila com os originais de A Cidade que Nunca leu um Livro, notou que na frente do prédio diversas pessoas praticavam caminhada num ritmo apressado no entorno do logradouro bem-arborizado. Já outros indivíduos (uma pequena parcela) estavam sentados nos banquinhos de alvenaria e madeira, papeando sabe-se lá que assuntos com as suas garrafinhas de água e roupas esportivas. Nesse minuto ele imaginou como seria se fosse obrigado a trocar tiros ali com um pistoleiro.

SERIA UM PANDEMÔNIO, um salve-se quem puder. Certamente inocentes seriam atingidos pelo fogo cruzado. O pesadelo da Rodovia 315 se repetiria. E desta vez ele estaria completamente só, sem o apoio de Luciano Aires para também efetuar disparos contra o atirador. Refletiu, aprumou a mochila nas costas e resolveu que, diante do horário avançado, não mais valeria a pena deslocar-se até a Rua Major Moisés Resende a fim de conferir se a agência postal ainda estava aberta.

Apertou o botão da guarita e outra vez o homem o fitou com ar pouco amistoso. Desta feita, quiçá por mera implicância, indagou quem era ele e quem desejava visitar no Condomínio Anatólia. Respirando fundo, com a fleuma de um monge budista, Jaime explicou que estava hospedado, provisoriamente, no décimo nono andar, apartamento de propriedade do advogado Luciano Aires.

O cara da portaria admitiu que estava ciente do fato, pois Luciano havia comunicado à recepção sobre a presença de Jaime no condomínio, e que ele ficaria ali por tempo indeterminado. Mesmo assim, avaliando o semblante e as roupas desgastadas de Jaime, a exemplo da surrada jaqueta e dos tênis sofríveis, o recepcionista permaneceu de cara amarrada e comunicou ao literato que o acesso à piscina estava suspenso devido a uma obra de manutenção.

No dia seguinte, por volta das oito e meia da manhã, Jaime finalmente postou os originais de A Cidade que Nunca leu um Livro para três editoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os volumes estavam devidamente encadernados e embalados em envelopes com o endereço do apartamento de Luciano Aires como remetente das obras. Jaime pagou a postagem em dinheiro e se deu conta da importância e gentileza de Luciano em lhe ter disponibilizado aquela quantia no total de mil reais.

— Bem, a sorte está lançada — monologou.

Após a postagem, ao passar pela porta sem detector de metais, Jaime viu uma picape de cor cinza no outro lado da rua. O escritor empalideceu de imediato. O veículo era exatamente igual ao que na madrugada passada descera a ribanceira com os atiradores e se transformara em chamas. Por alguns segundos, quiçá um minuto, ele ficou inerte, o coração aos baques, a mente em torvelinho, os olhos arregalados. De forma discreta, então, tocou a cintura para sentir a saliência do revólver. Pensou até que ponto o colete poderia salvá-lo. Temeu que de repente os vidros fossem baixados e dois ou três elementos abrissem fogo contra ele. Começou a suar frio, as mãos ficaram trêmulas. Será que Rato Branco teria enviado um veículo igualzinho com novos comparsas para dar cabo dele? Até as pernas de Jaime começaram a tremer.

Daí a pouco, conduzindo uma menininha de uns cinco anos de idade, uma jovem senhora saiu de um colégio ali vizinho à agência dos Correios, abriu a porta de trás da picape, colocou o cinto de segurança na possível filha, assumiu o volante e seguiu devagarinho pela Rua Major Moisés Resende. Ainda ligeiramente trêmulo, Jaime Peçanha respirou aliviado, seu coração voltou a bater num ritmo normal e ele enfim retornou com passos lentos para o luxuoso Condomínio Anatólia.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

Apertou o botão da campainha e esperou que o portão fosse aberto. O funcionário da guarita não mais o fitou de cara trancada. Começara a se habituar com ele. No apartamento, usufruindo de uma sensação de segurança pela primeira vez ao longo de semanas, Jaime se despiu do colete à prova de balas, trancou a porta na chave, passou os dois ferrolhos de reforço, largou o trinta e oito cheio de balas sobre o criado-mudo e foi tomar um banho quente para relaxar a musculatura absolutamente tensa. A seguir, na cozinha, pegou ovos e presunto na geladeira, preparou umas xícaras de café ao mesmo tempo em que fritava os ovos e o presunto. Bebeu um suco de caju desses que os mercados vendem em garrafinhas de vidro. Daí a pouco a cafeteira entrou nos últimos estertores e Jaime se serviu de uma boa dose da rubiácea pura e escoteira.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

Disse baixinho consigo próprio, sentado à mesa da cozinha, a caneca entre as duas mãos, os cotovelos apoiados sobre o tampo de vidro. Parecia até que na madrugada anterior não havia sofrido um grave atentado contra a sua vida e a de Luciano Aires. O revólver comprado ao amigo João Claudione, indivíduo atualmente em poder da polícia, permanecia lá no quarto. Quanto ao colete, ele o jogara ao pé da cama como se este fosse um tipo de armadura de que ele não fosse mais precisar.

— Não posso deixar que isso vire paranoia.

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 10;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 11;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 12;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 13;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 14;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 15;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 16;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 17;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 18;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 19;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 20.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 30/10/2022 - 09:48h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 20

Exilado em Vila Negra

Por Marcos Ferreira

Buscando o máximo de privacidade, Jaime pediu a Luciano que dispensasse (ao menos por enquanto) os dois serviçais que cuidavam do imóvel: o jardineiro e a faxineira. Luciano, embora jovem, era um advogado bem-sucedido e de posses. Então ordenou aos auxiliares que não viessem trabalhar por um tempo, contudo lhes assegurou que os seus proventos continuariam sendo depositados em suas contas bancárias.

O causídico alegou que Jaime era um amigo e escritor recluso e que necessitava ficar sozinho para finalizar um romance em que vinha trabalhando há cerca de três meses. Os auxiliares se entreolharam e balançaram a cabeça de modo afirmativo.Imagem exilado em Vila Negra

Após o jardineiro e a doméstica irem embora, Luciano meteu a mão no bolso da calça, retirou um maço de notas de cem reais preso em uma dessas borrachinhas elásticas e entregou a soma em dinheiro a Jaime. Este, visivelmente constrangido, relutou em aceitar aquela quantia, porém Luciano o convenceu do contrário dizendo que ele não poderia ficar ali sem uma grana para se manter e postar seus originais nos Correios de Vila Negra. “Deixe de cerimônia, meu caro”, disse o advogado.

Luciano continuou com um pequeno sorriso:

— Ok, Jaime. Vamos entrar. Quero lhe mostrar o apartamento. — Falou Luciano com a mão apoiada no ombro do escritor. — É no décimo nono piso, com vista panorâmica para a cidade. Imagino que vai gostar. Aqui estará seguro. Sobretudo agora que você mandou os comparsas de Rato Branco para os quintos. A menos que ele contrate outros pistoleiros, penso que talvez você não precise usar esse colete desconfortável o tempo todo nem ficar ininterruptamente com sua arma na cintura. Tente relaxar, querido. Isso vai ser bom para a sua paz de espírito. O pior já passou. Ninguém imagina que você está aqui. Os caras morreram, não restaram testemunhas.

— Acontece, Luciano, que eu me preocupo com Laura. Receio que Rato Branco mande alguém ir atrás dela, talvez para obrigá-la a revelar onde estou. Laura não merece que nada disso respingue sobre ela. Nem o Reginaldo Marinho e muito menos você. Veja só: o seu carro está com buracos de bala em diversos locais. A Polícia Rodoviária pode abordá-lo para saber o que aconteceu. Outro detalhe é que você não pode mais voltar para Mondrongo com essa pistola. Se você for parado no posto rodoviário, e fizeram uma inspeção, é muito provável que encontrem a arma.

— Tudo bem, homem. Ao menos por agora a arma ficará com você. Quanto aos tiros que perfuraram meu carro, se porventura me pararem na Polícia Rodoviária Federal, direi que fui vítima de uma tentativa de assalto na noite anterior e que consegui fugir da ação dos bandidos. Fato este que é parcialmente verdadeiro. A seguir apresentarei a minha carteira da OAB e suponho que não terei problemas para prosseguir no meu percurso. Já você, logo que for possível, faça a postagem dos seus originais. Existe uma agência dos Correios a duas quadras daqui, na Major Moisés Resende. Basta você seguir na rua do posto de gasolina e virar à direita. É quase na esquina.

Luciano apontou para o outro lado da rua e disse:

— Veja! Há um restaurantezinho naquele imóvel azul com um toldo e uma placa na calçada. Vendem comida boa por um preço razoável.

Quando entraram, Jaime ficou impressionado com todo aquele requinte. Tudo limpo e harmonioso. Apartamento com três quartos, sala e cozinha amplas, varanda com excelente vista para boa parte da cidade, além de uma mobília de primeira qualidade.

Também avistou, dispostos numa estrutura de alvenaria e vidro, cerca de mil livros muito bem organizados e sem nenhum indício de poeira. Jaime então recordou-se dos míseros quinhentos volumes que vendeu ao sebista Antoniel Silva.

— Fique à vontade, meu caro — confortou-o Luciano. — Infelizmente, por força do trabalho, tenho que voltar imediatamente para Mondrongo. Como defensor público, hoje tenho que comparecer a uma audiência inadiável. Aqui, como percebe, o sossego é tão grande que às vezes até incomoda ou nos entedia. Os dois apartamentos vizinhos estão vazios, disponíveis para aluguel. Portanto, o silêncio é absoluto. Se porventura surgir algum problema, você tem o meu telefone e pode ligar a qualquer hora. Você não está sozinho nesse momento complicado de sua vida. Estamos juntos, Jaime. Quem sabe após essa poeira toda baixar possamos pensar em nós dois.

— Por enquanto, Luciano, ainda estou zonzo.

— E não é para menos… Você está abalado.

— Sou grato demais por tudo que você tem feito por mim. Até mesmo colocar a sua própria vida em risco para me ajudar. Então, quando as coisas estiverem mais tranquilas, prometo que pensarei em nosso relacionamento bruscamente interrompido. Eu só lhe advirto que não posso deixar Laura por conta disso.

— Entendo. E não lhe pediria uma coisa dessas. O que me importa é que a nossa ligação sobreviva e perdure. Laura nem ninguém precisam saber de nada. Isso é uma coisa apenas nossa. Pois eu pressinto que é algo especial.

Jaime deu alguns passos pelo apartamento, foi até a varanda, fixou os cotovelos no parapeito devidamente guarnecido por uma tela de proteção, e depois se deteve por algum tempo diante da estante de livros. Cogitou sacar algum da prateleira, todavia desistiu de fazê-lo, pois imaginou que a verve de outro autor pudesse interferir negativamente em sua concepção sobre A Cidade que Nunca leu um Livro.

Súbito, então, num ímpeto de gratidão ou de desejo, Jaime avançou sobre Luciano e o beijou na boca por uns breves segundos. Depois, com a cabeça baixa e as mãos nos ombros do advogado, murmurou que também sentia algo de especial por Luciano e que ainda não sabia direito como lidar com tal sentimento. Sobretudo porque tinha plena certeza de que era apaixonado por Laura como nunca fora por nenhuma outra mulher.

— Eu lhe compreendo — falou Luciano colando a testa na de Jaime. — E lhe repito que você não tem que deixar Laura para ficar comigo. Eu só não desejo que você coloque um ponto final em nosso relacionamento por se sentir pressionado por alguém ou por sua própria consciência. Sou perdidamente apaixonado por você, Jaime Peçanha. Amo tudo que é seu: seu cheiro, sua voz, tudo, tudo.

— Bom, agora você precisa ir — falou Jaime. — E tome cuidado na estrada. Vou tomar um banho, descansar um pouco e ainda na manhã de hoje irei àquela agência dos Correios que você me indicou para postar os meus originais. Como eu já disse, vou enviá-los para o Rio e São Paulo. Qual é mesmo o nome da rua da agência postal? Lembro-me tão somente de que é após o posto de gasolina, entrando à direita. O resto eu já esqueci. Às vezes consigo me lembrar de coisas bem distantes no tempo e não gravo informações mais recentes. Como esse nome da rua que você falou.

— É a Major Moisés Resende. Um carioca filho da puta e alcaguete da ditadura homenageado em Vila Negra não sei por que diabos.

— Deixe comigo, Luciano. Não vou esquecer.

E os dois se despediram com outro beijinho.

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9;

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Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 19.

Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 23/10/2022 - 13:30h

Maranhão – Capítulo XI

Por Inácio Augusto de Almeida 

Lázaro de Melo, com suas feições disformes, mais lembrava uma destas figuras saídas do folclore. O nariz bastante largo, apesar de não ser negro, os olhos muito juntos, os dentes irregulares, a boca torta e enfeiada por lábios excessivamente grandes, como se estivessem eternamente inchados.homem e mulher, banco de praça, praça, homem, mulher, casal separado, separação

O corpo era empenado, como se vivesse sempre a carregar um peso num dos lados. Tinha um andar descompensado. Mas era o irmão de Luzia.

Beckman não conseguia entender como uma mulher da fibra de Luzia tinha como irmão um tipo como Lázaro. Se ela era a coragem, Lázaro era a covardia. A lealdade e a perfídia estavam postas em corpos diferentes, porém da mesma origem familiar.

Beckman amava Luzia. E por amá-la, tinha que aceitar o tipo desprezível. Afinal, Lázaro era o único membro da família de Luzia que restava. Viúva e sem filhos, ainda jovem, restara-lhe apenas aquele irmão. E por ele sentia-se responsável, já que perderam os pais quando ainda eram crianças.

O maior contraste estava na aparência de ambos. Luzia era de uma beleza quase indescritível. Corpo esbelto, pele macia, olhos negros de um brilho exagerado. Seios firmes, coxas roliças. Enfim, um corpo perfeito. E o rosto era de uma beleza angelical.

Difícil acreditar que fossem irmãos. Na verdade, não tinham nada em comum. Nem o corpo, nem o espírito.

Mas eram irmãos.

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Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

Leia tambémMaranhão – Capítulo II;

Leia tambémMaranhão – Capítulo III;

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Leia tambémMaranhão – Capítulo V;

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Leia tambémMaranhão – Capítulo VII;

Leia também: Maranhão – Capítulo VIII;

Leia tambémMaranhão – Capítulo IX;

Leia também: Maranhão – Capítulo X.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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domingo - 23/10/2022 - 06:30h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 19

Um tiro certeiro

Por Marcos Ferreira

Assustado, com receio de ser morto até dentro da própria casa, Jaime passava o tempo inteiro recluso e sem tirar o tresoitão do cós da bermuda. Vez por outra espiava a rua por uma fresta da janela. Durante um tempo, mesmo refugiado no seu domicílio, acalentou a possibilidade de realizar um revide contra os homens que o balearam há duas noites na Rua Padre Mota, a poucos metros de sua residência.Um tiro certiro - ilustração

No entendimento dele, os atiradores não eram outros senão capangas de Mauro Mosca, vulgo Rato Branco. Para isso, portanto, Jaime considerou que o amigo João Claudione o ajudaria em tal empreitada, tendo em vista que, não muito antes, o próprio Claudione afirmara que os comparsas de Rato Brancos seriam eliminados um após o outro.

O problema é que Jaime não sabia que Claudione enfim caíra nas garras da polícia, que fez um pente-fino na sua propriedade rural e apreendeu todo o arsenal bélico do fora da lei e destruiu suas instalações de armazenamento e refino de cocaína. A prisão de Claudione foi determinada por um juiz federal da 13ª Vara de Mondrongo. A ação contou com a participação das polícias civil, militar e federal.

Antes de ser apanhado, todavia, João Claudione teve tempo de destruir o chip do telefone e jogar o aparelho fora, pois uns cinco minutos antes ele recebera um telefonema de um policial militar que fazia parte de sua folha de pagamento. O informante de Claudione tomou conhecimento da ação de última hora e avisou o contraventor imediatamente, salientando que ele destruísse o chip e se livrasse do celular. Assim foi feito. Tal evento explica porque Jaime ligou diversas vezes para o amigo criminoso e as chamadas sempre caíam na caixa de mensagens. Ele também cogitou acionar Reginaldo Marinho para ir com ele até a propriedade de Claudione, mas achou melhor não botar a cara na rua naquele momento. Esperaria o cheiro da pólvora se dissipar.

Diante da inexplicável falta de contato com Claudione, Jaime desistiu de investir contra o empresário e ex-jornalista Rato Branco e os seus inseparáveis comparsas. Sentindo-se encurralado, ainda usando o colete à prova de balas e com o pau de fogo na cintura, preferiu se contentar com a promessa que Luciano Aires lhe fizera, a de levá-lo até o vizinho município de Vila Negra e abrigá-lo em seu apartamento no elitizado Condomínio Anatólia, em área nobre daquele município.

Cerca de vinte e quatro horas depois, entre as duas e três da madrugada, Luciano parou a Toyota Hilux diante da casa de Jaime e deu uma leve buzinada. O escritor pôs os pés na rua olhando para os lados a todo instante. Na soleira da porta, de braços cruzados, Laura recebeu um beijinho rápido e assistiu ao marido debandar com duas mochilas, uma nas costas e a outra presa por uma das alças num só lado do ombro.

Ele acenou para ela da janela do veículo e, após colocar o cinto de segurança, imediatamente fechou o vidro da caminhonete. Nesse instante, talvez um tanto paranoico, Jaime considerou o quanto seria apropriado se o carro de Luciano Aires, a exemplo de seu milagroso colete, também contasse com uma boa blindagem à prova de balas.

Na calada da noite, então, armado com um trinta e oito de grosso calibre, trajando outra jaqueta jeans que ocultava o resistente colete, o autor de A Cidade que Nunca leu um Livro deixou Mondrongo a fim de acalmar os pensamentos e postar seu romance nos Correios de Vila Negra o mais depressa possível. Em uma das mochilas se encontravam as três cópias da referida obra devidamente encadernadas. Pois naquela mesma noite o seu amigo Raimundo Gilmar lhe entregara o material.

Alguns quilômetros depois, logo que ultrapassaram o viaduto da Rodovia 315, Jaime e Luciano perceberam que estavam sendo seguidos possivelmente por uma picape de cor cinza. Luciano, que também se encontrava armado com uma pistola, mantinha um olho no retrovisor e o outro na estrada. Jaime, contudo, de quando em quando girava o pescoço e olhava para trás. Durante dez ou vinte quilômetros a picape se manteve a uma distância estratégica da Hilux de Luciano. Jaime retirou o revólver da cintura e ficou com ele pronto para qualquer investida dos prováveis capangas de Rato Branco. Isto porque os homens de Mauro Mosca haviam ido ao cemitério na manhã e na tarde seguintes e não toparam com o enterro do indivíduo que eles alvejaram.

— Só pode ser eles, Luciano! — afirmou Jaime.

— É bem possível. Baixe seu vidro e fique pronto.

— Quer que eu troque tiros com esses bandidos?

— Você deve acertar apenas o motorista, Jaime.

— Entendi. Mas isso não é tão simples, amigo.

— É a melhor maneira de nos livrarmos deles.

— Você sabe que os outros vão atirar na gente.

— É como eu falei: acerte o motorista e pronto.

— Ora! Não sou um atirador de elite, Luciano.

— Bom, terá que ser. Acerte o cara na cabeça.

— Você está armado. Consegue atirar também?

— Pode confiar que sim. Eu já fiz aulas de tiro.

— Prepare-se! Eles estão se aproximando rápido.

— Não se esqueça. Atire somente no motorista.

— Você consegue dar conta dos outros sozinho?

— Vou tentar. Não temos outra opção, Jaime.

Antes que eles emparelhassem, os homens da picape começaram a disparar contra o veículo de Luciano. Um dos projéteis estilhaçou o vidro traseiro, fazendo com que os dois ocupantes da Hilux se abaixassem instintivamente. Daí a pouco, em alta velocidade, estavam emparelhados. Jaime apoiou a arma na porta e mirou no motorista. Errou os três primeiros disparos, contudo acertou o alvo na cabeça no quarto balaço. Descontrolada, a picape desceu a ribanceira e explodiu. Luciano freou o carro devagarinho, deu marcha a ré e se certificou do fim dos inimigos, três pistoleiros de Rato Branco. Enquanto isso Jaime tinha as mãos trêmulas, porém suspirou aliviado. Alguns motoristas foram parando para ver o carro em chamas e Luciano deixou o local.

— Você acertou na mosca, rapaz — disse Luciano com uma ponta de riso. — Não fosse por isso talvez agora nós estivéssemos mortos.

— Não tivemos outra opção. Era nós ou eles.

— Seu tiro pareceu o de um atirador de elite.

— Isso foi apenas sorte. Sorte de principiante.

Nesse tiroteio Jaime e Luciano saíram ilesos.

Duas horas depois chegaram em Vila Negra.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 16/10/2022 - 13:22h

Maranhão – Capítulo X

Por Inácio Augusto de Almeida 

Não foi muito difícil enganar os outros marujos. Embrenhou-se na mata e rezava para que logo escurecesse. Sabia que os outros voltariam ao navio antes do sol se pôr. Tinham medo de criaturas fantásticas. Lopez tinha mais ódio do Alonso.

Foto ilustrativa da Web

Foto ilustrativa da Web

Sentia, com a chegada da noite a presença de mosquitos. Não era de acreditar em monstros d’água. Sempre desconfiara destas estórias. Achava que eram lendas contadas aos marujos para que não desertassem. Somente quando a jiboia açu roçou as suas pernas foi que se deu conta de que uma enorme cobra estava ao seu lado. O medo o tornara estático. Nem respirar conseguia. Soprou todo o ar que estava nos pulmões ao ver o grande réptil mergulhar por completo na água.

Já tinha caminhado bastante desde que se afastara dos marinheiros. Olhou para cima e por entre a folhagem, viu estrelas que brilhavam intensamente. O cansaço da caminhada em ritmo forçado, os dias na solitária, o medo, tudo lhe dava uma fadiga que começava a tomar conta de todo o seu corpo. Não sentia sede nem fome. Estava totalmente exausto.

Sentiu no rosto os primeiros raios de sol de uma manhã que se mostrava bastante clara, apesar da vegetação espessa. O céu que deu para vislumbrar era de um azul total. Descobriu que na sua caminhada desvairada tinha chegado a um rio. Um grande rio.

Olhou para cima novamente e, vendo o grande céu azulado, deu ao rio o nome de rio Anil. Não era assim que faziam os grandes descobridores?… E conseguiu rir. Riu por se sentir um grande descobridor e por se lembrar da cara que o Alonso devia estar fazendo.

Na outra margem notou que havia movimento. De imediato, deitou-se, certo de que eram os marujos do Alonso à sua procura. Estava disposto a morrer, mas jamais voltaria àquele navio. Lopez permaneceu totalmente imóvel até notar que eram uns selvagens chegando para o banho e para a pesca. E viu que as índias eram bonitas. E jurou que nestas terras ficaria.

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Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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domingo - 16/10/2022 - 04:20h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 18

Arrepiando carreira

Por Marcos Ferreira

Nenhum projétil transfixou o colete, sequer o disparo à queima-roupa contra as suas costas. Jaime sentia na pele e musculatura o impacto daqueles três balaços, sobretudo o que lhe atingiu o dorso. A duras penas, consciente de que os atiradores haviam se evadido, ele mais uma vez se arrastou até o meio-fio, sem forças para se erguer. Decorrido algum tempo, como é comum nessas situações, os vizinhos começaram a aparecer nas portas e janelas de suas casas, curiosos e hesitantes. Comportamento seguido por outros um pouco mais longe.compressa-quente-1

O primeiro a tomar chegada junto a Jaime foi o grandalhão conhecido por Espirro de Gato, a quem Jaime, a exemplo de outros moradores, só conhecia por esse apelido. Portanto, Espirro de Gato foi ao socorro do homem sentado na calçada, escorado numa árvore, sem poder ficar de pé.

— Está ferido?! — indagou Espirro de Gato com os olhos precipitados para fora das órbitas. — Eu vou chamar uma ambulância.

— Não precisa, meu amigo. Só me ajude a ficar de pé e me leve até a minha casa, aquela do portão marrom em frente à padaria.

— Sei onde você mora, senhor Jaime.

— Ok! Então me conduza até lá, por gentileza. Minha esposa é enfermeira e vai cuidar de mim. Não estou ferido. Por muita sorte nenhuma bala perfurou minha carne. Apenas estou machucado pela força dos impactos.

— Ora, você foi atingido por disparos.

— Sim. Porém eu estou usando colete.

— Colete à prova de balas? Por quê?

— Porque venho recebendo ameaças.

— O que o senhor fez para tudo isso?

— É por causa de um livro que escrevi.

— Só por conta disso?… Que absurdo!

— Alguns são mortos por muito menos.

— É uma gente sem Deus, senhor Jaime.

— Pois é. Certas pessoas não toleram que a gente as acuse dos podres, do fedor e dos seus atos corruptos. Refiro-me a certos políticos que se se julgam acima do bem e do mal. Mas isso é uma longa história. Vamos indo.

A essa altura a pequena Padre Mota estava em polvorosa, cheia de curiosos que de início se trancaram em suas casas, assustadiços com o tiroteio tão próximo dos seus portões. Daí a pouco outro morador se aproximou e também deu o ombro para Jaime se apoiar, sustentando-o pela cintura. As pessoas cochichavam nas calçadas, todas sem entender como o escritor saíra vivo daquele atentado, praticamente ileso, exceto pelos hematomas ocasionados nos pontos do corpo onde as balas se choraram contra o colete. Sim, o colete barra os projéteis, a depender do calibre, mas parte do impacto é transferida para a pele. Por muita sorte os pistoleiros não alvejaram, principalmente, a cabeça de Jaime nem os membros inferiores ou superiores. Se houvessem mirado na cabeça, aí sem dúvida o literato vestiria um paletó de madeira.

Em meio às dores e ao ardor dos hematomas, ainda se recordou de conferir, por meio do tato, se o trinta e oito continuava no cós da sua calça. Suspirou aliviado ao constatar que a arma permanecia com ele. Arma esta que, dada a velocidade com que fora rendido pelos sujeitos da picape, findara lhe sendo inútil naquele momento em que os três encapuzados o coloraram sob a mira de pistolas.

Por volta das sete da manhã, Laura encontrou Jaime sobre a cama, curvado, trajando apenas uma bermuda e se contorcendo em dores. Apresentava duas regiões do peito e das costas muito arroxeadas, marcas dos balaços. O hematoma das costas era o mais destacado. Ela tomou um enorme susto. Embora tivesse conhecimento de que o marido trabalhasse no romance A Cidade que Nunca leu um Livro, atividade que ela não dava muita importância, ignorava que tal obra pudesse estar contrariando demasiadamente pessoas poderosas de Mondrongo, abespinhando os humores e a ira dos desafetos de Jaime Peçanha. Para Laura, enfim, o livro não passava de uma história ficcional sem a maior relevância e fadada ao fracasso no meio literário. Pôs-se a examinar o esposo, fez compressas de gelo nos hematomas e disse com alívio:

— Por sorte não atingiu nenhum osso. Ao menos é o que parece. O ideal é tirar um raio-X, para a gente ter certeza de que não houve fratura. As costelas e a espinha dorsal parecem preservadas, mas não posso garantir.

— Nada de hospital, Laura. Eu ficarei bem.

— Iremos no carro do Reginaldo Marinho.

— Não. Eles podem descobrir que estou vivo.

— Meu Deus! O que pretende fazer, então?

— Terei que desaparecer por um bom tempo. Se souberem que estou no hospital, amor, não duvido de que vão até lá acabar comigo.

— Por enquanto, pois, permaneça aqui, trancado. Farei umas compressas de gelo e você vai tomando anti-inflamatórios para as lesões.

— Tenho que falar com o Luciano Aires, que sempre me socorreu em situações difíceis. Vou contar a ele tudo o que me aconteceu. Também vou ligar para o Raimundo Gilmar, que trabalha na Copiadora Expressa, no Centro. Quero encarregá-lo de imprimir três cópias de A Cidade que Nunca leu um Livro e trazê-las para mim, de maneira que eu possa postar nos Correios de Vila Negra.

Esses originais serão enviados para três editoras do Rio de Janeiro e de São Paulo. Da parte de Luciano, espero que me deixe ficar num apartamento que ele possui em Vila Negra. Ao menos até a poeira baixar. Isto se baixar. Do contrário, Laura, terei que largar Mondrongo em definitivo. Estou envolvido em coisas que você nem imagina. Mas tudo em minha defesa. Reagi às agressões que sofri nos últimos tempos. Tudo unicamente para me defender.

— Como essa coisa chegou a tanto, Jaime?

— Para lhe ser sincero, nem eu mesmo calculei que pudesse acabar nisso. Confesso que subestimei a capacidade de intolerância e truculência desse pessoal. Gente como Rato Branco e seus comparsas, além do prefeito Wallace Batista e de Leonardo Jardim, presidente da Câmara de Vereadores. De quebra, como se não me bastasse, ainda tenho que lidar com o sebista pau-mandado Antoniel Silva.

Ali sobre a cama, quando Laura pousou a bolsa de gelo no hematoma das costas de Jaime, ele se contraiu e soltou outro gemido. Ela pediu que ele aguentasse firme, pois era preciso que o gelo adormecesse a área arroxeada.

— Feche essa janela e acenda a luz, por favor — pediu ele. — Se estiver quente para você, ligue o ventilador. E as outras janelas e as portas da frente e da cozinha estão todas trancadas? Receio que eles venham me matar aqui dentro de casa. Não duvido nem mesmo de que façam algum mal a você apenas por estar na minha companhia. Essa gente é ruim, não vale nada, é perigosa. Por isso tenho que ir embora daqui o quanto antes. Você não está segura perto de mim. Já ligou para o Reginaldo Marinho? Espero que o se primo me leve até Vila Negra. São cerca de oitenta quilômetros.

— E o seu revólver? Não deu tempo de puxar?

— Nada. Quando pisquei eu já estava rendido.

— Você só não morreu por muita sorte, Jaime.

— Sim. Poderiam ter atirado na minha cabeça.

— Você deve sua vida também a esse colete.

— Exato. É o colete que o Claudione me deu.

Quase oito e meia. Laura circulava a bolsa de gelo sobre a região arroxeada da pele, especialmente nas costas de Jaime. De quando em quando ele se contraía e solicitava que ela fizesse isso com a mão um pouco mais leve.

— Atenda seu telefone. É Raimundo Gilmar.

— Ótimo! Contarei o que houve e passarei as instruções sobre a impressão dos originais. Ao todo serão apenas três cópias. Assim, Laura, após Gilmar imprimir e encadernar tudo, irei embora de Mondrongo amanhã mesmo. Isto, claro, se o seu primo Reginaldo Marinho for me deixar em Vila Negra.

— Quando você pretende retornar, Jaime?

— Não sei. Talvez apenas após o meu livro ser publicado por alguma editora do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Se Reginaldo não puder me levar até Vila Negra, então pedirei a Luciano que faça isso. Até porque o apartamento é dele e não conheço Vila Negra direito. Trata-se de uma cidade um pouco maior que Mondrongo. Certamente eu teria alguma dificuldade de localizar o apartamento.

— Então, meu querido Jaime, vá com Deus.

— Ultimamente o Altíssimo não tem andado muito comigo. Sei que fiz por merecer. O Todo-Poderoso parece ter me virado as costas.

— Não pense assim. Você acabou de levar três tiros e continua vivo. Acredito que foi o Pai que lhe protegeu. Quem mais o salvaria?

— Eu penso que foi tão somente o colete.

— Que homem de pouca fé é você, Jaime.

A seguir ele fechou os olhos, abaixou a cabeça, cruzou os dedos e pôs as mãos na fronte. Era como se fizesse uma prece silenciosa.

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Prólogo;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Capítulo 2;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo  3;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 4;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 5

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 6;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 7;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 8;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 9;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 10;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 11;

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Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 15;

Leia tambémA cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 16;

Leia também: A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 17.

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domingo - 09/10/2022 - 13:14h

Maranhão – Capítulo IX

Por Inácio Augusto de Almeida

– Comadre, o mingau de arroz está melhor do que nunca!

Foto ilustrativa (reprodução da Web)

Foto ilustrativa (reprodução da Web)

Socorro riu, mostrando a bonita dentadura. Seus olhos brilhavam mais do que as estrelas nas noites de verão do Maranhão. Nada lhe deixava mais feliz do que ouvir elogios. Mas sabia dos exageros do Lopes.

– Compadre, não vai dizer nada hoje?

Lopes pensou, pensou. O menino de cabelos cortados à escovinha se aproximou mais da banca da Socorro e ficou com a cabeça inclinada.

– O caminho do inferno passa por uma mulher louca.

Socorro deu uma gargalhada. E, enquanto ria a não mais poder e servia um outro freguês, derramando mais mingau do que conseguindo colocar no copo, ainda conseguiu dizer:

– O compadre conhece o caminho do inferno?

Lopes olhou para aquela negra inteligente, a quem tanto queria bem, e devolveu a pergunta:

– E quem não conhece?

O menino afastou-se lentamente. Não ria. A Socorro também não ria.

Uma chuvinha miúda teimava em continuar caindo…

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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domingo - 09/10/2022 - 09:08h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 17

Prova de fogo

Por Marcos Ferreira

Dizem (sujeito indeterminado) que até as pedras se encontram. Não duvido. Mas não afirmo que sim. Logo que pegou a calçadinha da Ponte Jerônimo Rosado, num horário em que o trânsito subindo a Presidente Dutra era o mais intenso e caótico possível, Jaime topou com o sebista Antoniel Silva, dono do Sebo Verdugo, o segundo maior do município, cidade esta que possui apenas dois sebos. O maior e melhorzinho é o Bate-Bucha, pertencente ao xilógrafo Gotardo Lins.

Foto ilustrativa

Foto ilustrativa

Tanto Antoniel quanto Gotardo fazem as vezes de editor e ambos lançaram certas obras com o selo dos seus respectivos comércios. Conforme já foi dito, ao menos creio que sim, o Bate-Bucha situa-se na Rua Jerônimo Rosado. Nessa mesma rua, consintam que eu me repita, também encontramos a loja de carros do senhor Mauro Mosca, vulgo Rato Branco.

Muito bem. Lá caminhava, a passos largos, o escritor Jaime Peçanha, ora alçado à condição de assassino, além do delito de posse ilegal de arma de fogo. Subia a calçadinha da Ponte Jerônimo Rosado com a sua mochila nas costas, a tal mochila contendo a cópia impressa da obra A Cidade que Nunca leu um Livro. Súbito, então, aparece-lhe à direita, sempre a direita!, o sebista falacioso Antoniel Silva. Este vinha assim como quem viesse da pequena e íngreme rua do ponto de ônibus.

Não foi possível ao escritor fazer de conta que não avistou o sebista magricelo por trás daqueles óculos de fundos de garrafa. Nem o sebista, apesar da acuidade visual não ser das melhores, se permitiria simular que não fora visto. Um a par da presença do outro, portanto, o diálogo entre os dois cordiais desafetos foi inevitável. E já nas primeiras palavras, com sua peculiar gagueira, como era de se esperar, o atrevido Antoniel Silva não perdeu tempo e pôs o dedo na ferida política de Jaime Peçanha: o seu imbróglio com os mandachuvas locais, notadamente os senhores Wallace Batista (prefeito) e Leonardo Jardim (presidente da Câmara). Sem rodeios, mas com meias palavras, Antoniel asseverou que estava por dentro das novidades e que ele, se estivesse no lugar de Jaime Peçanha, já teria desaparecido de Mondrongo há muito tempo.

— Sua batata com os políticos agora vai assar.

— Acho melhor batata assada que batata crua.

— Tem uma história por aí cheirando à pólvora.

— Você está botando verde para colher maduro.

— Mas, sendo franco, não creio em tal história.

— Está sendo bonzinho, ou me subestimando?

— Só acho que você não tem pulso para tanto.

— Então está me subestimando. Isso é um erro.

— Quer dizer que confessa o que estão dizendo?

— Não. Até porque ninguém me acusou ainda.

— Já existe um corpo e um crime a ser esclarecido.

— É bom que tome mais cuidado com sua língua.

— Isso por acaso é uma ameaça, Jaime Peçanha?

— Não. Porém você não sabe do que sou capaz.

— Eu não sei de certeza. Apenas já ouvi falar.

— Mesmo assim ainda duvida? Me subestima?

— Eu não tenho medo de você, escritorzinho.

— Deveria ter. Sobretudo com esses rumores.

— Como já disse, talvez isso seja apenas fofoca.

— Suponho que você perdeu a noção do perigo.

— Eu não, e sim você, que mexeu com políticos.

— Eles que tomem cuidado comigo, Antoniel.

— Olhe só para você, Jaime! É um zé-ninguém.

— Melhor que ser um capacho público e notório.

— O que você tem é inveja das minhas amizades.

Jaime gargalhou e bateu no ombro de Antoniel:

— Que amizades?! Você é um puxa-saco oficial!

— Hum! Pelo menos não sou um alvo ambulante.

— Claro que não. Porque você é um mosca-morta.

— Nossa conversa acabou, Jaime. Minha casa é nessa rua. Espero ainda vê-lo (vivo!) para batermos outro papo desses qualquer dia.

— Não posso dizer que foi um prazer reencontrá-lo, mas eu também espero que esta não seja a nossa última conversa. Apesar dos pesares.

Antoniel Silva pegou a rua da casa dele, que ficava ali pertinho, enquanto que Jaime prosseguiu subindo a Avenida Presidente Dutra.

O tempo continuava agradável, contudo sem indícios de chuva. Tal condição, a temperatura daquele jeito, favorecia o uso do colete à prova de balas e também suavizava o contato da mochila nas costas. A mochila continha o original de A Cidade que Nunca leu um Livro, cópia esta que Jaime havia imprimido no escritório de Luciano Aires e nem teve tempo de imprimir o restante na Copiadora Expressa.

A tarefa foi delegada ao seu amigo impressor, funcionário da Copiadora, Raimundo Gilmar. Dessa forma, com o colete bem ajustado por baixo da jaqueta jeans e com o trinta e oito também oculto no cós da calça, subiu a Presidente Dutra e seus passos pareciam mais largos do que quando vinha conversando com o sebista Antoniel Silva. Em certo momento, ao passar por um tipo mal-encarado, lembrou-se da frase de Antoniel:

“Pelo menos não sou um alvo ambulante.”

Um frio lhe correu pela espinha. Discretamente olhou para trás. Da mesma forma, agora espiando um pouco por cima do ombro, virou a cabeça para o outro lado e passou a mão no cós. Conferiu, pelo tato, o volume do revólver de oito culatras. Talvez temesse, por alguma razão inexplicável, que a arma houvesse sumido, desaparecido da sua cintura. Também começou a prestar atenção nos veículos, sobretudo em picapes cinza, como o modelo usado por Rato Branco e os seus comparsas.

De onde se encontrava até a sua casa, no Conjunto Walfredo Gurgel, calculou que restassem uns dois quilômetros. Seu coração batia acelerado. De quando em vez olhava para trás. Cogitou se não seria prudente àquela hora recorrer aos serviços de um mototaxista. Sempre havia um ou dois na esquina da bodega do poeta Francisco Nolasco. Entretanto, recordando-se do que teria que gastar no dia seguinte com a impressão, encadernação e embarque dos originais nos Correios, achou melhor economizar aqueles possíveis dez reais da corrida com o mototaxista. Trajava calça também jeans, tênis marrons de cadarços e um boné preto do New York Yankees.

A frase do sebista Antoniel Silva, aquela sobre “alvo ambulante”, ainda o perturbava. Contrariava-o assim como uma espécie de insulto, um motejo ou brincadeira de mau gosto. Tal coisa, portanto, não tinha graça. Nesse instante, opondo-se às condições climáticas, seu sangue quase entrou em processo de ebulição. Isto é, esteve perto de ferver. Sua preocupação com o que pudesse atingi-lo pelas costas era frequente. Podia ser qualquer um armado até com uma faca, um elemento a mando de Rato Branco.

Depois de uns trinta minutos, sem perder o ritmo, já se encontrava próximo de casa, quase na esquina da drogaria. Nesse instante, quem sabe para aliviar a tensão, resolveu entrar na drogaria para se pesar: oitenta e seis quilos na balança digital. Enfim, agora com os passos mais relaxados, ele deixara a altibaixa e atordoante Presidente Dutra. Entrou no Conjunto Walfredo Gurgel pela primeira esquina. Uma sensação de segurança e bem-estar o dominava. Pegou a rua de paralelepípedos da praça.

Local ruidoso. A fumaça dos espetinhos de carne assada subia feito uma névoa naquele trecho do conjunto. Agora Jaime se sentia em casa, são e salvo, como prometera o advogado Luciano Aires ainda no escritório.

Quase oito horas. Dois flanelinhas maltrapilhos disputavam a atenção e as gorjetas dos motoristas que circulavam o setor a fim de estacionar os seus veículos. Havia barulho promíscuo de música no entorno. Um jogo de futebol era transmitido por um projetor para um telão afixado no que restou da grade de ferro que devia proteger a quadra de esportes. Quase a praça inteira, como é comum ocorrer da segunda até o domingo, tomada pelas mesas e cadeiras de plástico dos comerciantes. Ali se vende toda sorte de comidas, refrigerantes e bebidas alcoólicas.

Aquele, de maneira informal, é o ponto de recreação do bairro. Não raro há um jogo de bingo cujos apostadores costumam marcar as suas cartelas com caroços de milho ou grãos de feijão. Área esta também disputada por duas igrejas evangélicas e um terreiro de umbanda.

Jaime retirou o boné. Enfiou os dedos no cabelo e sentiu que, apesar da temperatura amena, havia um pouco de suor na cabeleira já um tanto crescida. Pôs o boné de volta e aprumou os óculos. Olhou novamente para trás, pela derradeira vez, e logo em seguida contemplou toda aquela gente aglutinada na praça. De repente, “não mais do que de repente”, imaginou que numa daquelas mesas poderia haver um pistoleiro ou dois à sua espera. Por conta disso tornou a acelerar os passos.

Desceu por uma das laterais da praça e virou à esquerda. Entrou na obscura e desértica Padre Mota, onde reside com a enfermeira Laura Gondim. Nessa noite Laura se encontrava de plantão no hospital e só retornaria por volta das sete horas do dia seguinte. Percorreu cerca de cinquenta metros na própria rua e daí a pouco uma picape cinza (como se houvesse surgido do nada) freou praticamente em cima dele.

Três homens encapuzados logo o puseram sob a mira de pistolas. Num átimo, então, concluiu que estava rendido, em menor número e sem qualquer possibilidade de reação. Portanto, deu-se conta de que tentar puxar o seu trinta e oito seria uma grande tolice. Ordenaram que tirasse a mochila e a jogasse para perto deles, e assim Jaime o fez.

Supôs que quisessem apenas o livro, porém recebeu dois tiros seguidos no peito. Ao rastejar, tomou um balaço nas costas, à queima-roupa. Fingiu-se de morto e ouviu a picape arrancar, cantando pneus. O colete o salvou.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 02/10/2022 - 11:00h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 16

Da literatura à pistolagem

Por Marcos Ferreira

Embora hoje tenha enveredado para o mundo da violência e do assassínio, pois agora as suas mãos estão sujas de sangue, e talvez tenha reagido de forma desproporcional às agressões que sofreu, Jaime tornou-se um criminoso, um fora da lei. Entretanto, apesar dos pesares, de algum modo ele ainda alimenta a sua veia de homem de letras. Não desistiu de ser (nem ele pode estimar como) um talento reconhecido. Não vislumbra, de forma animadora, sobretudo com os capangas de Rato Branco no seu encalço, um meio de concretizar, de cravar uma obra na posteridade mondronguense.

Pintura digital de Anderson Santos

Pintura digital de Anderson Santos

Estamos falando, obviamente, do seu caótico e nebuloso romance A Cidade que Nunca Leu um Livro, título este supostamente originário de uma simples frase que teria sido proferida ou mesmo publicada em jornal há mais de um século por um livreiro falido de Mondrongo, o senhor Leopoldo Ferreira de Andrade, isto tudo num enredo entrelaçado com episódios remotos quanto atuais: ou seja, de 1912 a 2000.

A história já começa nada menos que fantasmática. Pois, segundo o aclamado folclorista Cândido Besouro, em seu “clássico” O Propósito de Lampião em Mondrongo, conto este da carochinha do qual o leitor talvez se recorde, tem a ver com a narrativa de que o avô paterno do Rei do Cangaço supostamente abrira a primeira livraria de Mondrongo e teria falido menos de um ano depois por falta de clientes. Então, senhoras e senhores, magoado e ressentido, o avô de Virgulino teria publicado um artigo na Tribuna Mondronguense afirmando que os habitantes de Mondrongo jamais leram um livro, ele que era ex-ferroviário, descendente de espanhóis e natural do nordeste baiano.

O tal “clássico” de Cândido Besouro também dá conta de que, como citamos numa conversa com o sebista Antoniel da Silva, Lampião era um poeta e, nas horas vagas, escrevia versos para Maria Bonita. Besouro informa, portanto, que o empresário e poeta bissexto, amante desmedido da literatura, teria empenhado todas as suas economias nesse projeto fracassado e findou perdendo tudo quanto possuía, caiu na ruína, terminando como mendigo pelas ruas sujas e sem luz elétrica de Mondrongo.

— Uma esmola pelo amor de Deus!

O problema, convenhamos, é que agora o romance promíscuo de Jaime está numa encruzilhada ficcional ou mesmo confessional. Isto no tocante à morte de Paulo César dos Anjos e do rasto que tal homicídio imprimiu no caminho de Rato Branco e dos demais capangas que restam ao ex-jornalista e atual empresário do ramo de automóveis. Por outro lado, de maneira ainda menos plausível, A Cidade que Nunca Leu um Livro duvidosamente promete jogar no ventilador a lama da política local, como, sobretudo, as pseudodenúncias de corrupção envolvendo o senhor prefeito Wallace Batista e o vereador Leonardo Jardim, atual presidente da Câmara.

Jaime ficou sem poder lançar o seu bombástico livro, cheio de inúmeras acusações contrárias ao prefeito e contra o presidente da Câmara, simplesmente porque um araponga traiçoeiro, lacaio do próprio João Claudione, soube das ações da dupla e jogou toda a história no bico de Wallace Batista e de Leonardo Jardim. De repente, então, o escritor se viu em papos de aranha.

Raciocinando ingenuamente, levou em consideração a hipótese de tentar lançar A Cidade que Nunca leu um Livro fora de Mondrongo, preferencialmente em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Contudo, Jaime tem consciência de que tais editoras só costumam publicar celebridades, medalhões, best-sellers, e não autores e obras obscuros, rigorosamente anônimos. Mesmo assim, contrariando a regra, prepararia três cópias impressas de seu original e as enviaria para editores do Sudeste. Imprimiria tais cópias no escritório do advogado Luciano Aires.

Já com a grana bastante curta, pois João Claudione o havia depenado, e temendo a pancada que sofreria no guichê dos Correios, inicialmente ele fez quatro cópias em disquetes do seu original. Uma ele entregou a Reginaldo Marinho na calçada da Tribuna Mondronguense, com quem partilhava a esposa, Laura; entregou uma outra a Luciano Aires, que se espantou com a atitude de estar recebendo aquela espécie de bilhete de despedida; e a esposa ficou com a terceira.

O quarto disquete Jaime levou no final da tarde para imprimir na Copiadora Expressa, onde trabalhava o seu também amigo Raimundo Gilmar da Silva Ferreira, este já acostumado a imprimir e confeccionar as cópias encadernadas dos livros de Jaime, trabalhos inéditos remetidos a diversos concursos de que ele participava. Escritor polígrafo, comumente se aventurava nos gêneros poesia, contos, romances, crônicas e até ensaios literários.

Por um lado, segundo o raciocínio de Jaime, nem o prefeitinho Wallace Batista nem o pavonesco vereador Leonardo Jardim moveriam uma palha sequer contra ele. Não neste momento. Pois ambos têm o rabo preso, culpa no cartório, e o romance de Jaime poderia produzir grande estrago em uma época de reeleição como esta. Não o atingiriam ao menos do ponto de vista jurídico. Jaime não descarta, entrementes, que os políticos requebrantes se unissem com o tísico Rato Branco para dar cabo dele. Especialmente agora que estão a par das ações praticadas por Jaime em parceria com o frustrado humorista João Claudione, este que nas sérias instâncias policiais não passa de um percevejo, assassino, traficante, fichado como João Cláudio Santana, marginal perigoso e, por enquanto, sob a proteção de agentes corruptos da própria polícia. Mas seus dias estão contados; e sua casa deve cair a qualquer momento.

Na cozinha, antes de sair, Jaime bebeu um pouco de café. Daí a pouco, sentado na cadeira da área frontal, fumou um cigarro com vagar. Depois foi ao quarto, paramentou-se com o colete à prova de balas, vestiu a jaqueta abotoada por cima, pôs uma mochila vazia nas costas, a fim de colocar os três originais impressos e encadernados que receberia na Copiadora Expressa.

Semblante grave, enfiou o trinta e oito na cintura. Havia, repito, preparado quatro cópias de disquetes, isto além do arquivo que deixara no computador. Por último, colocou as cópias nos bolsos internos da jaqueta jeans. Na cintura, entre um leve roçar e outro, ele se incomodava com o peso do revólver de grande porte com as oito cápsulas no tambor. Por baixo da jaqueta, conforme ressaltamos, estava aquela espécie de anjo da guarda: o firme e quase imperceptível colete.

Por volta das três da tarde, então, debaixo de um céu incomumente nublado e em meio a uma temperatura também poucas vezes experimentada pelos mondronguenses, Jaime pegou um mototáxi perto de sua casa e desceu direto para o Centro. O seu destino era o escritório de Luciano Aires, que estava com um cliente em tal ocasião, e Jaime ainda precisou aguardar uns trinta minutos. Daí a pouco o cliente saiu e Jaime e Luciano se viram a sós. Naquele dia, portanto, como já vinha ocorrendo há dois meses, Jaime estava no escritório de Luciano não meramente como amigo. Aqui e acolá experimentavam umas intimidades homoafetivas. Ambos trocavam uns rápidos beijinhos e se agarravam um pouco antes que o próximo cliente desse o ar da graça. Nem Laura nem Reginaldo Marinho, com os quais Jaime participava de um trissal, tinham conhecimento dessa relação paralela. Jaime passou a utilizar a impressora de Luciano para imprimir as cópias de que precisava para encadernar e colocar nos Correios.

— Hoje a minha tarde foi bastante cheia, Jaime. Todavia, se você puder esperar mais uma horinha, talvez até menos, eu vou lhe acompanhar no trabalho da copiadora. E cumprida esta missão das cópias, e também após um pouquinho de prazer, logo que sairmos daquele motelzinho bacana, eu prometo que vou deixar você em casa, são e salvo. O que me diz, senhor das letras? — propôs Luciano.

— Não vai dar. Estou com pressa. Eu quero ver se consigo fazer a encadernação dessas coisas hoje ainda. Tenho a sensação de que ando por aí o tempo todo com um alvo no peito ou nas costas A postagem nos Correios vai ficar mesmo para amanhã. Quero que guarde isto com você. É uma cópia do meu romance. Estou sofrendo ameaças, Luciano, justamente por conta desse livro e não sei o que me pode acontecer se essa minha obra for publicada aqui em Mondrongo. Então, meu caro, uma cópia ficará com você. Outra vou entregar ao Reginaldo, uma ficará com Laura e a quarta eu vou confiar a Raimundo Gilmar da Silva Ferreira, aquele meu amigo impressor da Copiadora Expressa. Ele me conhece há bastante tempo e imprime os livros que lhe envio para os concursos de que participo. Se algo de pior me acontecer, se eu for morto por conta dessas páginas, meu último desejo é vê-las publicadas, aqui ou fora de Mondrongo. E a todos aos quais entreguei os disquetes ficarão com responsabilidade dessa obra. Principalmente você, Luciano, justamente com o Raimundo Gilmar.

— Não fale assim, homem! Até fico arrepiado só de imaginar uma coisa dessas. Esta cidade de bosta não vai fazer nada de tão grave contra você! Fique tranquilo. Você não vai morrer por conta desse livro e de nenhum outro. Aquele incidente na noite do lançamento do meu Caixa-pregos foi apenas para lhe intimidar. Até porque, convenhamos, você pega pesado com esse pessoal poderoso.

— Não se trata de nada que eles não mereçam.

— Precisa de algum dinheiro para a impressão das cópias e a postagem? Pode falar, não tenha cerimônia entre nós. Recebi honorários e estou cheio da grana — brincou Luciano. — Sei que isso custa caro, principalmente os Correios.

— Sim, eu aceito. Mas lhe prometo que vou devolver.

O tempo passou rápido. Voara. Daí a pouco chegou o cliente que Luciano estava esperando, um senhor rosado e de meia-idade, e logo Jaime precisou ir embora com apenas uma das três cópias que conseguira imprimir do original.

“O resto eu faço na copiadora”, pensou. Mas as horas haviam passado céleres. As luzes dos postes já estavam acesas, e quando Jaime chegou à copiadora, esta se achava com uma placa de “fechado” pendurada na porta de vidro. Ainda assim, por uma portinhola superior, Jaime acenou a Raimundo Gilmar da Silva Ferreira e eles conversaram rapidamente. Jaime Peçanha explicou a urgência da situação, entregou-lhe o disquete pela portinhola e Raimundo Gilmar o guardou no bolso da camisa. “Pode ficar tranquilo, meu amigo”, disse Raimundo prometendo que a primeira impressão do dia seguinte seriam as duas cópias de A Cidade que Nunca Leu um Livro, juntamente com as encadernações, já que uma das impressões, justamente a que fora feita no escritório de Luciano, seguiu sem encadernação na mochila de Jaime. Convém agora recordarmos que nessa época as editoras em geral ainda recebiam dezenas (talvez centenas) de originais impressos e encadernados. Atualmente, passados mais de vinte anos, é tudo recebido somente por e-mail, por correio postal, com arquivos sobretudo nos formatos Word e PDF.

Não se sabe por que razão, portanto, Jaime decidiu levar consigo, na mochila, a cópia que conseguira imprimir no escritório de Luciano Aires. Perfeccionista, não duvidemos de que objetivasse uma última revisão.

— Amanhã cedo, Gilmar, eu estarei aqui com a terceira cópia para você fazer a encarnação. Esses originais seguirão para o Rio e São Paulo.

— Peço uma esmola pelo amor de Deus! — implorava o livreiro falido, o mesmo que supostamente afirmara que esta cidade nunca leu um livro.

Jaime Peçanha deu meia-volta levando na mochila apenas a cópia que fizera no escritório de Luciano, pouco antes do próximo cliente chegar. Além de um punhado de balas nos bolsos internos da jaqueta que encobria o colete tecnicamente impenetrável, ele ultimamente havia adquirido um carregador automático, de maneira que trocaria de carga em tempo mínimo. Na cintura, um tanto desconfortável, portava o poderoso berro, o quase inseparável revólver. Àquela altura já havia comprado de João Claudione uma caixa de projéteis novinha: cem unidades.

O tempo estava bem ameno para uma caminhada. Então Jaime decidiu subir a Presidente Dutra a pé. Talvez tenha sido esse o seu grande erro.

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Marcos Ferreira é escritor

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domingo - 25/09/2022 - 12:34h

Maranhão – Capítulo VII

Por Inácio Augusto de Almeida 

Na taverna do Caolho, o vinho tinha corrido frouxo a noite toda. J. Hidalgo, a quem carinhosamente chamavam de Caolho, tinha distribuído a bebida de graça. São Luís era uma festa só. Apenas a tentativa de saque do armazém do Estanco, empresa que controlava e explorava todo o comércio de alimentos de São Luís, tinha desgostado um pouco Bequimão. Mas ele entendia perfeitamente o quanto o povo era revoltado com os exploradores.caneca medieval para vinho

O Estanco tinha sido a causa principal da revolta que tinha determinado a revolução. Os padres jesuítas estavam reclusos em seu colégio. O Capitão-Mor tinha sido deposto e se achava preso. Uma Junta Governativa tinha sido proclamada. Bequimão, por unanimidade, foi escolhido o chefe e com a ajuda do Frei Elias de Santa Tereza e do seu irmão Tomás Beckman, escolheu os demais membros.

Os sinos de todas as igrejas a tocar eram ouvidos em toda a cidade. Nas ruas os jovens festejavam dançando e cantando. Desciam em bandos no rumo do Largo do Carmo, já repleto de pessoas de todas as idades e níveis sociais.

Naquele dia não havia ricos ou pobres, letrados ou analfabetos, apenas vitoriosos. E todos se sentiam vitoriosos e sonhavam com um porvir livre de toda e qualquer exploração. J. Hidalgo Lopez, o Caolho, pensava em como recuperar o vinho que tinha distribuído de graça na noite anterior. Assim, alegando que o vinho que agora estava servindo era de uma outra qualidade, aumentara o preço da botija.

– Eita espanhol ladrãozinho. Acabamos com o Estanco e você ficou no lugar daquela quadrilha!

– Poeta, é que o vinho é de uma qualidade melhor.

– Coisa nenhuma Lopez, continuou a reclamar Bernardo Almeida.

– Prove do vinho, prove, Poeta!

O poeta Bernardo Almeida, o maior conhecedor de vinhos de toda São Luís, riu. Gostava daquele Lopez, mesmo sabendo ser aquele maranhense metido a espanhol, um perito em aumentar as contas dos embriagados. Gostava do orgulho que ele sentia da sua origem hispânica.

Lopez havia lhe contado que o seu tataravô tinha chegado a São Luís antes dos portugueses, desertor que fora de uma caravela comandada por um tal de Ojeda. Alonso de Ojeda. Daí o poeta, quando queria admoestar o Lopez, dizia:

– Para com esta alonsada.

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Leia tambémMaranhão – Capítulo I;

Leia tambémMaranhão – Capítulo II;

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Leia tambémMaranhão – Capítulo V;

Leia também: Maranhão – Capitulo VI.

Inácio Augusto de Almeida – Boêmio/Sonhador

(Continua no próximo domingo)

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domingo - 25/09/2022 - 07:40h

A cidade que nunca leu um livro – Romance – Capítulo 15

arma e baralho, jogatinia, submundo, jogos de azarEmboscada na jogatina

Por Marcos Ferreira

Ficaram de campana por mais de duas horas, entre a meia-noite e as três da madrugada. Daí a pouco, enfim, meio trôpego, o indivíduo deixou o galpão da jogatina. Dentro do carro, um sedã preto com vidros fumê, Jaime portava seu tresoitão com capacidade para efetuar oito disparos. Por sua vez, no banco do motorista, o traficante João Claudione retinha na cintura uma pistola calibre 45. O alvo dos dois àquela noite de persistente garoa não era outro senão o capanga do Rato Branco, o pau-mandado e lambe-botas conhecido nos meios policiais por Paulo César dos Anjos. Este fora o valentão que enfiara o cano da pistola na boca de Jaime.

— É ele! Se prepare! — proferiu Claudione.

— Deixe ele vir mais. Eu já estou pronto.

Sendo um dos últimos a deixar o estabelecimento clandestino de jogos de azar, razoavelmente embriagado e com algum dinheiro das apostas na carteira, Paulo foi rápida e facilmente dominado por Jaime Peçanha e por João Claudione, que lhe puseram as armas nas fuças. É um fato importante a ser relatado que Paulo César tinha apenas dezessete anos quando, num ímpeto, esfaqueou o próprio pai para defender a mãe habitualmente agredida pelo marido alcoolizado e drogado. Paulo ficou conhecido nos fichários da polícia como Paulo César dos Anjos. Jaime e João Claudione colocaram a vítima no porta-malas, taparam a boca dele com uma fita adesiva e se evadiram do local sem a testemunha sequer de um vira-lata. Naquele momento o que era uma simples garoa se transformou em chuva.

— Não me matem, pelo amor de Deus! Eu tenho família. Sou pai de duas meninas ainda pequeninas! — naquela hora, todavia, o Altíssimo preferiu não se intrometer naquele acerto de contas e, assim como Pilatos, também lavou as mãos. Então, apesar das rogativas e das promessas de que nunca mais se envolveria com Rato Branco, Paulo César dos Anjos findou alvejado com mais de quinze tiros à queima-roupa.

A execução aconteceu à beira de uma estrada carroçável, a cerca de quinze quilômetros da área urbana de Mondrongo. Durante aquela madrugada, sob forte chuva, o porta-malas estava forrado com um plástico grosso, de cor preta, para a finalidade de evitar que o carro ficasse sujo de sangue. O último tiro foi deflagrado por Jaime Peçanha contra a testa de Paulo César. Em seguida, embora ensanguentado, puseram o defunto no porta-malas e o levaram até o rio Mondrongo. Em lá chegando, o lançaram numa das laterais da barragem, fazendo com que o corpo boiasse nas águas. O falecido não afundou por estar preso com cordas no saco plástico. O propósito dos executores era dar logo notícias a Rato Branco sobre o triste fim do seu testa de ferro, e as imediações da Ponte Jerônimo Rosado, de intenso tráfego, eram mais que apropriadas para desovar o cadáver do ex-valentão.

Vale ressaltar que, apesar de certa choradeira, João Claudione fatura alto com os seus negócios de venda e compra de armas e drogas. Conta com amigos influentes na Polícia Civil, Rodoviária e até no Judiciário. Não se tornou o humorista de sucesso que almejava, entretanto não lhe falta o vil metal. Ele possui pelo menos dez propriedades em nomes de laranjas, todas mascaradas como pequenos negócios agrícolas.

A participação de João Claudione na execução do inimigo de Jaime ficou por um preço irrisório, apenas um trocado para o contraventor frequentar o bordel Suzano: mil reais. Isto, claro, levando-se em conta a longa amizade dos dois ex-colegas de primário. Por exemplo, Jaime Peçanha é padrinho do filho mais velho de Claudione, morto pela Polícia Militar durante um suposto tiroteio numa boca de fumo. Quanto à execução do cupincha de Mauro Mosca, seja dito que a maior parte dos tiros foi feita por Jaime, que parecia estar tomado de grande fúria e descarregou as oito cápsulas e mais algumas. João Claudione tem a mesma idade que Jaime e seu principal hobby é matar policiais militares traiçoeiramente.

— A partir de agora não vou lhe cobrar mais nada. Seus inimigos se tornaram meus inimigos. Vamos acabar com todos eles, um por um.

— Eu agradeço demais por contar com a sua ajuda.

— Pois é. Rato Branco está com os dias contados.

Ao longo de mais de seis anos, sempre de maneira impune, é possível que Claudione já tenha matado, a sangue frio, algo em torno de oito militares. Até mesmo um tenente à paisana. O homem é um estrategista, típico exemplo de perito. Serviu no Exército com louvor, juntamente com Jaime, e possui grande expertise em armamentos de diversas modalidades, calibres e munições. Notável atirador de elite, é capaz de atingir facilmente um alvo a meio quilômetro de distância. Em seu arsenal, oculto em um municiado bunker debaixo da garagem de uma de suas fazendolas, ele dispõe de armas de grosso calibre de uso do Exército, como refles, bazucas, metralhadoras, fuzis com miras telescópicas de longo alcance, coletes à prova de balas e até granadas de mão.

— De hoje em diante, Jaime, você vai andar com colete à prova de balas. Arrume uma jaqueta jeans bem folgada e use o colete por baixo. Esse pessoal vai lhe caçar a pau e pedra, e eu não posso lhe proteger em tempo integral. O seu revolver, dependendo da investida deles, não vai lhe ser de muita serventia, a depender, repito, do fogo contrário. Portanto, meu chapa, eu lhe digo que se cuide. Como reza o ditado, “seguro morreu de velho”.

— Eu estou pronto para o que der e vier, Claudione.

— Não está não, Jaime. Às vezes a gente pensa que está, mas não está pronto para porra nenhuma. Ninguém, ao menos que eu saiba, se acha pronto para morrer. Exceto, talvez, de causas naturais. O melhor a fazer é você tomar todas as precauções que puder.

— Claro! Eu vou me cuidar o máximo possível.

— Suponho, Jaime, que a esta hora Rato Branco, o Mauro Mosca, esteja botando fogo pelas ventas. Mas ele sequer vai prestar queixa contra você na polícia, pois tenho plena certeza de que o plano dele é fazer com que você pague na mesma moeda.

— Certamente. Vou aceitar a sugestão do colete.

— Tenho coletes de primeira qualidade, artigos usados até pelas Forças Especiais. É claro, como nós sabemos, que esses produtos não protegem ninguém cem por cento, mas dá tempo de o sujeito esboçar uma reação, lhe dá um tempinho para reagir e, quem sabe, sacar a sua arma. O problema é somente se o disparo atingir a sua cabeça. Aí, compadre, não tem choro nem vela. É tiro e queda, caixão e vela preta. Apesar de você possuir um bom revólver, acho que eu deveria ter facilitado para você adquirir uma parabélum, pistola automática de grande calibre e fabricada na Alemanha. Tenho três joias dessas no meu arsenal. São belíssimas e possuem grande impacto.

— Essa tal parabélum é muito grande, Claudione?

— Um pouco. Mas de grosso calibre e automática.

— Nossa! Isso deve custar uma grana alta, hein?

— Olha, só para você eu fecharia pelos oito mil.

— Sei. Mas está fora das minhas possibilidades.

— Seu trinta e oito também é bom. Não vai falhar.

— Pois é, eu vou ficar com ele. Gostei demais.

— Se ligue, então. Rato Branco vai para cima de você.

— Não ele propriamente, mas os seus capangas.

— Vou pegar o seu colete. É artigo dos melhores.

— Obrigado, Claudione! Nem sei como lhe agradecer.

— Besteira! É um presente meu para você. Fique tranquilo. Cuide logo de providenciar uma jaqueta. Também lhe previno que vai esquentar um pouco. Falo do contato do colete juntamente com o da jaqueta.

— Tudo bem. Estou acostumado com esse calor de Mondrongo. Depois de tudo que fizemos hoje, meu amigo, e debaixo dessa chuva abençoada, acho que eu vou dormir muito bem e com uma grande paz de espírito.

— Então, amigo, boa noite. Durma com os anjos.

— Você também. Que Deus sempre lhe proteja.

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Marcos Ferreira é escritor

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Categoria(s): Conto/Romance
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